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Era uma vez dois bois, um banco e um preto, que moravam num sítio próximo à cidade de São Paulo.

Um dia, um boi falou para o outro:

- Ô boi branco, num guento mais vivê preso entre quatro cerca! Quero sê livre!

 - Ieu também to é cansado, sô. Todo dia é a mesma coisa. Desde que eu nasci só vejo os mesmo hômi, as mesma árvri, os mesmo trem.

Desde esse dia, passaram a se queixar. Não suportavam mais comer capim, olhavam para os peões e para os donos com um ódio daqueles. Uma semana depois, começaram a planejar a fuga. Deveria ocorrer de madrugada, enquanto todos estivessem dormindo. Foi o que fizeram. Às três e meia da manhã abriram a tranca da porteira com o focinho, empurraram-na com a pata e saíram de fininho.

Após andarem alguns quilômetros, estavam muito cansados. O boi branco falou:

- Vamo achá um lugá pra drumi, boi preto?

O boi balançou a cabeça, concordando. Entraram no meio do mato e dormiram até às duas horas da tarde. Quem acordou primeiro foi o boi preto, que se desesperou:

- Ô boi branco! Acorda! Já é duas hora, óia a posição do sor. Eles vai achá nóis se a gente num saí daqui.

Apesar do horário avançado, os dois não correram. Andaram, andaram, andaram e comeram capim. Andaram, andaram, andaram, e beberam água. Até que chegaram na cidade. Logo ao pisarem no asfalto da estrada, um caminhão os assustou. Acharam melhor tomarem mais cuidado: andaram no meio da pista, na contramão. Quanto mais carros passavam, mais assustados os coitados dos bois ficavam. Mas o boi branco falava:

- As máquina dos hômi num vai tirá nossa liberdade! - E andavam cada vez mais rápido.

 Quando chegaram à Avenida Washington Luís, próximo à marginal do rio Pinheiros, Zona Sul de São Paulo, não houve outro jeito. Eram muitos carros, ônibus, caminhões. Tiveram que correr. Corriam feito loucos, gritando:

- Liberdade pros boi! Liberdade pros animar!

Um motorista respondeu:

- Reivindiquem como homens! É preciso muito mais bois para protestar.

 Mas os pobres nem sabiam o que significava reivindicar e protestar. Queriam era sair da escravidão da fazenda. A motorista, temerosa, estacionou seu carro ao meio-fio e esperou os revolucionários ficarem longe do seu caminho. Alguns motoristas buzinavam, outros motoqueiros riam às gargalhadas, tiravam fotos. Alguns pensavam que se tratava da gravação de uma novela ou um filme. As emissoras de TV passaram a transmitir ao vivo a fuga dos bois. Helicópteros sobrevoavam a região. O trânsito tornava-se caótico.

Às 18:30h alguns policiais passaram a seguir, de motocicleta, os desordeiros. Mas os dois não se rendiam.

- Liberdade pros boi! Liberdade pros animar!

Um policial conseguiu enlaçar o boi branco. Desceu de sua moto e, quando se considerava herói, percebeu que o laço era frouxo e o espertinho fugiu outra vez. Os cidadãos que passavam nos locais mobilizavam-se para ajudar na captura dos bois. Porém, quando menos se esperava, um cavalo surgiu do nada, exclamando:

- Os cavalo também qué sê livre!

E passou a correr pela avenida afora. Já haviam chegado na Guido Caloi, uma das mais movimentadas da capital. O boi preto dizia:

- Martin Luther King falô: “Se ocê num tá pronto pra morrê por algo, cê num tá pronto pra vivê”.

- Ieu morro, mais eles num me pega vivo.

O cavalo, um pouco covarde, disse:

- Acho que vô mintregá!

E parou de correr. O problema é que ele parou bem na frente dos bois, e esses segundos custaram caro para os pobres animais. Os policiais os enlaçaram, agora com laço firme. Tentaram resistir, mas eram muitos homens. Alguns se sentaram em cima dos coitados, para evitar nova fuga. No final, já com as patas atadas, o boi branco disse para o boi preto:

- Si ocê num tá pronto pra se livre, ocê num tá pronto pra vivê nem pra morrê.

(TOLEDO, Mariana F. de. História sobre liberdade. In: ROSSATTO, Edson (org.). Retalhos (Antologia de contos e microcontos). São Paulo: Andross, 2007.)

Havia um menino. Teria entre 10 e 12 anos, não mais do que isso. Tímido, triste, melancólico. Nascera com uma perna bem menor que a outra, de forma que era impossível disfarçar seu andar manquejado.

Quais não foram os tombos que esse menino já tomou! Ocorreram quedas feias! Ele sabia de sua limitação e procurava evitar praticar esportes. Quase não participava das aulas de Educação Física na escola. Ah!… mas às vezes ele não resistia! Afinal era uma criança. Que criança consegue resistir por muito tempo a uma pelada? Então, esse menino entrava na brincadeira dos colegas, e realmente conseguia correr, mas a cena devia ser engraçada, já que os outros meninos acabavam por rir de nosso querido garotinho. Uma ponta de tristeza tornava-se visível em seu rosto, mas seus olhos revelavam muito mais: eles expressavam toda sua dor. A dor da limitação, da rejeição. Não existe dor pior do que a de ser ridicularizado.

Ele era o diferente, o manco, o feio…

Um dia eu o vi feliz. O que teria acontecido? Após a aula, eu o via dançar sozinho! Ele não se importava com os olhares assustados e admirados que o observavam sem sequer piscar. Ele não parecia se preocupar com nada ao seu redor, e dançava! Corria de uma ponta à outra do corredor da escola, fazia rodopios inesperados para sua condição física, abria os braços, girava, ria gostoso. Erguia os olhos aos céus como que agradecido.

Um amigo o observava com um semblante muito feliz e satisfeito.

- O que aconteceu com ele? – perguntei.

O garoto voltou-se para mim com um sorriso nos olhos.

- Alguém ama ele, professora! Alguém ama ele!

Como assim, alguém o ama? Quem é essa pessoa cujo amor o deixou desse jeito?

- É uma menina da terceira série, o nome dela é Heloísa.

Chamei o bailarino apaixonado e lhe perguntei:

- É verdade que a Heloísa está gostando de você?

Ele abriu um sorriso indescritível, deixando à mostra seus dentes amarelados demais para a idade, mas esse detalhe não impediu que o rosto exultante diante de mim fosse uma das imagens mais belas que já vi na vida.

- É verdade. – respondeu ele – A amiga dela contou para o Igor, e ele me contou!

Nem esperou comentário meu, saiu novamente em seus rodopios delirantes, enquanto sua plateia lhe abria espaço…

Todos temos necessidade de amor. Alguns não reagem como o garoto do caso que contei, mas a alma se alegra igualmente, exulta e dança dentro de nós quando nos sentimos amados.

É maravilhoso sentir-se amado! E mais ainda: é maravilhoso saber-se amado mesmo quando temos consciência de nossas imperfeições, limitações, deficiências etc.

E é justamente assim que Deus nos ama. Ele nos ama incondicionalmente! seu amor é gratuito (Rm 6:23). Nós não merecemos. Deus é perfeito, nós não somos. Possuímos deficiências (Rm 5:8). Deus nos vê manquejar. Ele vê todas as vezes que caímos. Ele vê nossas tentativas de felicidade. Ele não nos ridiculariza nem zomba de nós. Deus nos amou e decidiu aperfeiçoar-nos.

Deus nos amou tanto que deu seu único filho para morrer em nosso lugar, para que assim pudéssemos viver eternamente (Jo 3:16). Essa é a maior prova do amor do Senhor.

Qual é sua reação ao saber disso? Afinal, alguém o ama! O Criador do Universo ama você! Não se pode agir com frieza quando se recebe uma notícia dessas! Não estou lhe convidando para sair e dançar por aí, mas  sinta-se à vontade se quiser fazê-lo.

Quando se soube amado, Zeca Baleiro teve uma atitude parecida com a do menino da história:

“(…) Mas ontem eu recebi um Telegrama
Era você de Aracaju ou do Alabama
Dizendo: Nêgo sinta-se feliz
Porque no mundo tem alguém que diz:
Que muito te ama! Que tanto te ama!
Que muito muito te ama, que tanto te ama!…
Por isso hoje eu acordei com uma vontade danada
De mandar flores ao delegado
De bater na porta do vizinho e desejar bom dia
De beijar o português da padaria…”

Ser amado por Deus é motivo de grande prazer e alegria! Que nossas almas não se cansem de correr, de saltar, rodopiar, desejar bons dias, mandar flores…

O objetivo deste trabalho é falar sobre a relação entre a guerra e a ética, analisando também a posição que o cristão assume perante este conflito.

Antes de começarmos, porém, é necessário definir guerra. Segundo o dicionário Aurélio, guerra é “luta armada entre nações ou partidos; conflito.” Granz e Smith (2005), em seu Dicionário de Ética, dizem que guerra “é o conflito armado entre nações ou grupos de pessoas”. Podemos concluir então que, para haver guerra, é necessário armas. Isso significa conseqüentemente, que não há guerra sem violência, sem feridos e sem mortos.

A guerra pode ser originada por vários motivos: religioso, ideológico, político, geográfico, discriminatório, etc. No entanto, nem todo motivo é considerado justo pela sociedade e, em alguns casos, a guerra poderia ser evitada devido à existência de outros meios possíveis para a resolução do conflito. Com base nisso, surgiram algumas visões e posições a respeito da guerra, que serão enumeradas a seguir:

Ativismo: Segundo esta visão, a guerra sempre é uma forma válida para se resolverem os conflitos entre nações ou grupos. Os ativistas têm como argumento o fato de que todo o cidadão deve respeitar o governante e obedecer-lhe. Além disso, o indivíduo não deve estar passivo numa luta em defesa dos interesses de seu povo ou grupo.

Teoria da guerra justa: essa teoria defende a guerra originada por uma causa ou intenção justa. Esta visão acredita que, em alguns casos, o combate é eticamente justificável. Por exemplo, uma nação possui todo o direito de se defender diante de um ataque ou de um opressor. Não foi esta nação que começou, e há vidas inocentes em jogo, por isso o correto seria participar da guerra e defender o povo.

Pacifismo: os pacifistas partem da premissa de que é errado se utilizar da violência para acabar com a violência. São contra o uso de armas, tanto numa guerra quanto numa intervenção policial, ou mesmo no caso de posse de armas. Os pacifistas acreditam que é possível as pessoas resolverem suas diferenças por meio da diplomacia.

Não-violência: é uma visão que defende a luta pelos ideais e princípios da nação ou grupo, porém não pode ser considerada uma maneira de guerrear porque eles se recusam a usar a violência para atingir seus objetivos. Os que seguem a visão da não-violência lutam, combatem, chamam a atenção do mundo para a sua causa, mas não se valem da força física, nem de armas. Gandhi e Martin Luther King são exemplos de líderes defensores da não-violência.

Não-resistência: trata-se de uma visão contra a violência, porém ao ponto de agir passivamente ou não agir diante da violência oponente. A idéia é que não resistir ao inimigo também é uma maneira de protestar.

Terrorismo: é uma forma antiga de guerrear (a metodologia dos zelotes, do Novo Testamento, era considerada terrorista). Trata-se da violência armada, militar ou não, que procuram intencionalmente atacar civis para que, pelo medo gerado, possam atingir seus objetivos, que podem ser religiosos, políticos, econômicos, etc.

Os indivíduos possuem visões muito diferentes uns dos outros em relação a este assunto. Uns acreditam que a opressão é um instinto do ser humano. Porém, se considerarmos que instinto é algo biológico, inerente a uma determinada espécie e que não se pode fugir dele, então poderemos concluir que a opressão não é um instinto, já que é possível evitá-la e controlá-la; além disso, existe um número grande de pessoas (e não podem ser consideradas exceções) que são oprimidas e não oprimem nem sentem impulsos para oprimir. Acreditar que a opressão é inerente ao ser humano pode ser uma maneira de o indivíduo demonstrar sua visão ativista de guerra.

Há indivíduos que procuram defender o pacifismo com o argumento de que matar pessoas é uma crueldade. Mas aqui a questão está no conceito de que temos de crueldade. A crueldade sempre esteve relacionada à dor ou sofrimento sem propósito que um indivíduo impõe sobre outro. Contudo, quando há um propósito justo aquele sofrimento pode estar relacionado à crueldade? Segundo o exemplo de Barrington (1974), um cirurgião não pode ser considerado cruel por infligir dor a um paciente, pois sabemos que aquela dor é temporária e o paciente, após algum tempo, se sentirá melhor do que se sentia antes da cirurgia. Por isso, os defensores da guerra justa consideram que é mais cruel permitir que oponentes destruam o povo inocente do que não resistir à violência em prol de melhorias, mesmo que por um tempo pessoas inocentes tenham que sofrer.

Em favor da guerra, tanto os defensores da guerra justa quanto os ativistas possuem o seguinte argumento:

Pelo fato de que os métodos amorais e imorais prometem maiores vantagens nas lutas políticas, todas as políticas ficam manchadas pela imoralidade. A tentativa de evitar essa nódoa, entretanto, a busca de pureza, pode tornar-se a maior imoralidade de todas no sentido de causar o maior sofrimento, porque deixa a arena política à mercê dos que têm menos escrúpulos. (p.57)

Isso significa que, mesmo que pensemos na guerra como algo imoral ou amoral, não devemos deixar de praticá-la porque, se não a fizermos, aqueles que não estão interessados em ética e moral a farão, e o resultado será pior do que seria se tivéssemos aceitado guerrear. Na não-resistência as conseqüências são piores no sentido de que mais pessoas inocentes são atingidas, pois não há quem as defenda. Essa permissividade ao ataque a inocentes sem defesa pode, como já foi dito, ser considerada mais imoral do que a resistência.

Assim como a sociedade possui diferentes formas de pensar a guerra (este não será o foco do trabalho), o meio cristão também diverge em suas opiniões quanto ao assunto. É possível encontrar cristãos que defendem o ativismo, o pacifismo ou a teoria da guerra justa; e todos eles têm argumentos bíblicos para defenderem sua visão.

Os cristãos ativistas utilizam como principal argumento o fato de que o governo é instituído por Deus (Rm 13:1-7), e nosso dever é obedecer às autoridades e, conseqüentemente, participar da guerra quando esta for declarada.

É no Antigo Testamento que há mais menções da autoridade que o Senhor dá ao governante: Deus escolhe Davi para reinar sobre Israel (1 Sm 10:24), e depois deste vêm outros reis. Em Daniel 4:25 diz que “o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem quer.” No Novo Testamento também há referências à autoridade humana. Em Romanos 13:4, que já foi citado anteriormente, diz, com relação ao governo: “Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal.” Há também a famosa declaração de Cristo, sempre usada para defender a submissão aos governantes: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.” (Mt 22:21). Pedro diz: “sujeitai-vos a toda instituição humana por causa do Senhor, quer seja ao rei, como soberano, quer às autoridades, como enviadas por ele, tanto para castigo dos malfeitores como para louvor dos que praticam o bem.” (1 Pe 2:13, 14). Portanto, se o governo decide pela guerra, sendo esta justa ou injusta, o cristão deve concordar e participar, pois a obediência à autoridade é obediência a Deus; e a desobediência à autoridade consiste na desobediência a Deus. Esta é a visão do cristão ativista.

Pensemos agora no cristão pacifista. Para ele, é terminantemente errado participar da guerra. O pacifista utiliza três grandes argumentos contra a participação numa guerra: 1) um dos mandamentos do decálogo é “não matarás” (Ex 20:13); 2) Jesus ordenou que não resistíssemos ao mal (Mt 5:39); 3) devemos amar todos (inclusive nossos inimigos), e a guerra expressa ódio, não amor.

Quanto ao mandamento do decálogo, os pacifistas afirmam que a Bíblia deixa muito clara a proibição. Não se pode assassinar, e a principal conseqüência de se fazer guerra é o assassinato em massa. Contra o argumento dos ativistas quanto às guerras do Antigo Testamento, os pacifistas dizem que essas guerras não eram ordenadas por Deus, mas permitidas por Ele, e era o homem quem decidia por guerrear. Outros já argumentam que as guerras naquela época eram diferentes. Tratavam-se de guerras divinas e não humanas, e a prova disso eram as intervenções milagrosas de Deus nos conflitos.

Há um trecho bíblico em que Jesus declara: “Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada.” (Mt 10:34) Os pacifistas dizem que esta declaração não tinha a intenção de mostrar o objetivo da vinda de Cristo à Terra, mas seus resultados. Por causa dEle, por amor a Ele, haveria discórdias e divisões nas famílias e na sociedade. É realmente o que vemos hoje. Muitos são perseguidos por causa do amor de Jesus. Em alguns lugares as pessoas morrem se declararem fé em Cristo.

Outra passagem bíblica em que os pacifistas se baseiam para não desejarem a guerra é a do Sermão do Monte, quando Jesus diz: “não resistais ao perverso; mas, a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra” (Mt 5:39). Em Romanos 12:19-21 está escrito:

Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas daí lugar à ira; porque está escrito: A mim pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor. Pelo contrário, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem.

Um importante argumento em favor do pacifismo é o de que a Bíblia inteira fala de amor, e o maior de todos os mandamentos é o amor. Ainda no Sermão do Monte, Jesus disse que devemos amar os nossos inimigos e orar pelos que nos perseguem (Mt 5:44). A guerra expressa ódio e, na maioria das vezes, sua origem está no ódio. Portanto, participar da guerra é o mesmo que descumprir o maior dos mandamentos.

Existe também o cristão que assume uma postura equilibrada. Ele defende a teoria da guerra justa, à qual Geisler (1984) chama de seletivismo. O seletivista defende que é correto participar de algumas guerras, aquelas que possuem um motivo justo ou uma causa que futuramente beneficie a nação ou o grupo interessado. Se pensarmos nas guerras injustas, concluiremos que o ativismo está equivocado. Se pensarmos nas guerras justas, veremos o pacifismo como equivocado.

A Bíblia ordena que sejamos submissos aos governantes. Contudo, a própria Bíblia é clara em mostrar que às vezes não é certo obedecer ao governo quando este não está de acordo com os mandamentos divinos. Em Daniel 6, vemos a ordenação do rei em ser adorado e a recusa de três jovens tementes a Deus em obedecer-lhe (havia uma ordem divina superior: adorar somente a Deus). Como esta, há outras situações na Bíblia que mostram que a obediência a Deus vem antes da obediência ao governo humano.

Além disso, com relação às guerras do Antigo Testamento, os seletivistas afirmam que algumas foram concessivas, mas outras estavam dentro da vontade de Deus que ocorressem, como foi o caso, por exemplo, da guerra com os cananeus e outros povos:

“Porém, das cidades destas nações que o Senhor, teu Deus, te dá em herança, não deixarás com vida o que tem fôlego. Antes, como te ordenou o Senhor, teu Deus, destruí-las-ás totalmente: os heteus, os amorreus, os cananeus, os ferezeus, os heveus e os jebuseus” (Dt 20:16,17).

O mandamento que diz “não matarás” também tem sua justificação sob o ponto de vista da teoria da guerra justa:  em hebraico há muitas palavras que definem a palavra morte, cada uma expressando um sentido diferente. No caso da frase do mandamento bíblico, o verbo é teresach, e possui o sentido de assassinar. Portanto a melhor tradução seria “não assassinarás”. Um mandamento que proíbe o assassinato não está necessariamente proibindo a guerra. Os pacifistas acreditam que as mortes na guerra são assassinato. Contudo, uma das partes pode estar apenas se defendendo. Segundo Manuel Pedro Cardoso, a Nova Enciclopédia Larousse define assassinato como sendo um “homicídio feito com premeditação ou à traição.” Numa guerra, aqueles que se defendem ou lutam por um ideal justo não podem ser considerados assassinos. A morte não é desejada pelos combatentes, apesar de todos saberem que ela ocorrerá como conseqüência direta.

Além das guerras justificadas e justificáveis, devemos pensar também nas defensivas, isto é, aquela que um país se vê forçado a fazer quando é atacado. Não resistir, neste caso, acarretaria na morte de muitos civis inocentes, além de ceder à ocupação geográfica e política do inimigo.

Mais um argumento dos seletivistas está na reverência pela vida. Assim como não devemos tirar a vida de outros, devemos preservar a nossa e defendê-la. Os pacifistas utilizam o texto de Romanos 12:19-21 como argumento para a defesa da não-resistência. Entretanto, o versículo anterior (Rm 12:18) deixa claro que devemos ter a paz com todos, mas apenas até o ponto em que isto é possível. Isto significa que Paulo sabia que haveria situações em que sustentar a paz não depende da nossa vontade.

Após toda essa análise, podemos concluir apenas que não há uma visão definida por parte dos cristãos a respeito da guerra. Nem mesmo a sociedade em geral pode ter uma única opinião sobre o assunto, pois tanto a defesa quanto a repulsa da guerra possui argumentos eticamente favoráveis e desfavoráveis. Não podemos pensar na melhor solução para a questão da guerra, mas apenas levar em consideração o contexto em que ela está sendo criada e optar por aquilo que for “menos pior”, ou seja, sempre haverá inocentes prejudicados, mas devemos pensar numa alternativa em que esse prejuízo seja o menor possível.

 

Referências Bibliográficas

 

A Bíblia sagrada. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. Barueri, SP: SBB, 1988.

 

BARRINGTON MOORE, Jr. Da guerra, crueldade, opressão e sordidez humana geral. In: Reflexões sobre as causas da miséria humana e sobre certos propósitos para eliminá-las. Rio de Janeiro: Zahar, 1974.

 

BAUER, Johannes B. Dicionário de Teologia Bíblica v.1. São Paulo: Loyola, 1975.

 

CARDOSO, Manuel Pedro. Pacifismo. In: http://www.estudos-biblicos.com/pacifis.html. Acesso em 16 de junho de 2009.

 

GEISLER, Norman L. O cristão e a guerra. In: Ética cristã: alternativas e questões contemporâneas. São Paulo: Vida Nova, 1984.

 

GRENZ, Stanley J. e SMITH, Jay T. Dicionário de ética. São Paulo: Vida, 2005.

 

Não Violência. In: pt.wikipedia.org/wiki/Não-violência. Acesso em: 17 de junho de 2009.

“E andai em amor, como também Cristo vos amou, e se entregou a si mesmo por nós, em oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave.” Efésios 5:2

Dispomos de diferentes maneiras de comunicação. Somos capazes de expressar nossas emoções, sentimentos e ideias da maneira mais criativa possível. Por exemplo, a maior parte dos livros infantis e das histórias em quadrinhos pode ser compreendida pela maioria das crianças (e nem estou me referindo a versões em braile ou algo parecido). Ainda que a criança não seja alfabetizada, ela é capaz de compreender a história contida ali. Duvida?

Faça um teste: escolha um livro infantil com boas ilustrações, entregue a uma criança que ainda não lê, e peça que ela lhe conte a história. O resultado é que a espertinha lhe contará quase que exatamente aquilo que o narrador está dizendo por meio daquelas palavras que, para a criança, não passam de desenhos, códigos desconhecidos. O segredo dos adultos! Pelo menos o tema básico será compreendido por ela, por meio das ilustrações. A partir desse experimento, podemos concluir que é possível fazer-se compreender mesmo sem o uso das palavras.

Gostaria aqui de associar essa nossa capacidade com o amor. Sempre ouvi dizer que, se amamos alguém, precisamos dizer isso à pessoa, do contrário ela jamais saberá de nossos sentimentos. Meu pai só sabe que o amo se ou quando eu declaro meu amor a ele? Se eu não disser à minha mãe: “amo você”, ela nunca desconfiará de que sinto amor por ela? Será que as coisas realmente funcionam assim?

Creio que o amor está muito além das palavras. Ele se manifesta realmente nas ilustrações. Especialmente porque muitos não são alfabetizados no amor, e só conseguem compreendê-lo por meio de figuras, digo por mim!

O que significa não ser alfabetizado no amor? O analfabeto no amor seria aquele que, por inúmeros motivos, não conseguem utilizar a linguagem para expressar seus sentimentos amorosos. Todo aquele que possui dificuldade em dizer: “Eu te amo”, não está alfabetizado no amor. Isso é ruim? Pense nos analfatetos linguísticos. Eles são os grandes vilões da humanidade só porque não sabem ler nem escrever? De maneira nenhuma! Já trabalhei com educação de jovens e adultos e posso afirmar que a maioria esmagadora não é analfabeta porque quer. Acontece que a vida não permitiu que eles estudassem, porque havia outras prioridades (trabalhar para ter o que comer, por exemplo). Mas existe a vontade de aprender, e a prova disso são os supletivos, as classes de EJA. Lá encontramos muitos senhorinhos e senhorinhas, com seus mais de sessenta anos, descobrindo o universo das letras, decifrando os códigos, segredo dos adultos, que a eles (adultos!) não lhes fora permitido conhecer.

Mas a alegria de nós, analfabetos no amor, é a de que este sentimento é superilustrado, multicolorido, seus traços são firmes e perfeitos! Nosso amor pelo outro pode ser compreendido por meio das figuras! Podemos demonstrar amor através do olhar, do desejo em estar próximo à pessoa, de um presente ou um favor, de sacrifícios em prol do outro… Neste caso, vemos que, no que diz respeito ao amor, ao contrário dos livros infantis, as ilustrações é que são a verdadeira história. A linguagem oral é acessoria. O amor se expressa nas ilustrações. Ele se faz presente e vivo no coração dos amantes e dos amados a partir das atitudes de cada um. As palavras ajudam a compreendê-lo melhor. Elas também dão maior sensação de segurança de que somos verdadeiramente amados.

Não nego o quão importante são as palavras no momento da demonstração ou da prova de nosso amor pelo outro. Inegavelmente a criança alfabetizada tem uma melhor percepção do livro porque possui duas ferramentas de compreensão. Estou procurando me alfabetizar. Porém, as figuras… Ah, as figuras!!!… Como alguém pode duvidar de nosso amor quando o ilustramos?

 

obs.: Saiba sobre o lado difícil e doloroso do amor neste texto: http://maisquelinguagem.wordpress.com/2009/08/08/o-seu-santo-nome-amor/

“Porque, quem sabe o que é bom nesta vida para o homem, durante os poucos dias da sua vida vã, os quais gasta como sombra? pois quem declarará ao homem o que será depois dele debaixo do sol?” Eclesiastes 6:12

Certa vez minha amiga e eu, juntamente com dois amigos dela, estávamos discutindo a Bíblia. Lembro-me que me senti muito mal porque eu tinha opiniões a dar na discussão, mas algo impediu-me de falar…

Bom, mas agora, por escrito, posso dizer o que penso a respeito da discussão que tivemos.

Minha amiga se lembrou que a nossa professora de Conceitos da Bíblia Hebraica havia dito que a Bíblia podia ser tudo, menos um livro de autoajuda. Concordo com ela, e explico o porquê, tentando comparar as duas literaturas. Veja a tabela:

 

Livro de Autoajuda Bíblia Sagrada
O homem existe para ser feliz. O homem existe para adorar a Deus (Ap 4:11, I Co 10:31). E Ele pode ser feliz na terra, mas a verdadeira felicidade, eterna, não será aqui (Ap 21:4, 5).
O homem tem domínio sobre a terra e sobre tudo. Deus é o único dono de todas as coisas, pois foi Ele quem as criou (Jo 1:1-3, Gn 1:1, Sl 24:1). Nada pertence ao homem, nem a própria vida.
O objeto de desejo, o ânimo ou a felicidade são alcançados quando o homem confia em si mesmo. O homem deve confiar apenas em Deus, e tudo o que ele possui vem do Altíssimo, de acordo com Sua vontade(Sl 146, Sl 13:5, Is 40:31, Mt 6:25-34, Sl 125).
O homem só depende dele mesmo para viver. O homem é totalmente dependente de Deus (Sl 139:7-18, Sl 146, Jo 15:5).
O homem é um super-herói. O homem é um anti-herói (Basta conhecermos as “sujeiras” de Abraão, Jacó, José, Moisés, Davi, Salomão etc., em Gênesis, êxodo, I e II Samuel, I e II Reis…).
Todos os homens são bons, o problema é que muitos não sabem usar sua bondade. Não há homens bons. Não há justo, nem um sequer (Sl 14: 1-3, Rm 3:10-12).
A alegria depende inteiramente daquilo que se alcança neste mundo (dinheiro, fama, sucesso profissional, bons relacionamentos etc.) A alegria do homem está apenas em pertencer a Deus e na certeza de que viverá eternamente com Ele (Mc 8:36; I Jo 2:17; Jo 14:1-6; Ec 2:11, 22-23).
O homem vive para satisfazer o EU. O homem vive para satisfazer a Deus. E não se frustra (Ef 2:8-10, 2 Co 4:7, 1 Ts 4:1).
O homem pode qualquer coisa. Cada homem é um deus em si mesmo. O homem não é nada! Ele não passa de pó. Como diz uma canção: “Eu sou como um vento passageiro, que aparece e vai embora.” (Jo 38 e 39, Sl 139, Sl 90:2:12, Is 40:6-8).

Certamente, enquanto lia, você pensou em outras diferenças nas quais não pensei. Bom, na verdade, estou escrevendo sobre o assunto só para dizer que a Bíblia não pode ser comparada a nenhum outro tipo de literatura, ela é única. A Bíblia mostra a verdadeira face do homem (pobre, condenado, finito, horrível) e indica um caminho para a Salvação (através de Jesus Cristo que, por amor a nós, sem que merecêssemos, pagou o preço por nossos pecados e nos deu o direito à vida eterna).

Não podemos procurar a Palavra de Deus para buscar solução imediata para os nossos problemas. Não encontraremos as “10 maneiras práticas para não cometer pecado”, nem “Como não sofrer mais? O fim do sofrimento em sete passos.” A Palavra de Deus nos orienta, nos mostra o caminho a seguir, mas não nos dá respostas objetivas, nem nos promete alegria contínua aqui na terra.

Este é um tema delicado, procure pensar nisso. Eu também tenho pensado e aprendido sobre o assunto.

NO RESTAURANTE

As paisagens paulistanas não são novidades para quem já está acostumado a elas. Para os novatos, cada detalhe é interessante e surpreendente. Um dia, eu admirava pela janela do ônibus as belezas de São Paulo. Sentia-me muito feliz, mal sabendo o que presenciaria. Estava indo-me encontrar com meu pai. E foi à hora do almoço que tudo aconteceu. Para minha sorte, naquele dia meu caderno estava na bolsa e pude anotar tudo no instante em que presenciava: Meu pai e eu entramos num restaurante comum. Aliás, não era tão comum assim. Acabei de ver uma pessoa pra lá de cômica: um dos chefes de cozinha. É um excêntrico. Usa roupas amarrotadas e fala como se estivese engasgado, sem falar que ele corre em vez de andar. De onde estou sentada posso ver um homem. Apesar de simples, está bem vestido. Tem uma aliança na mão esquerda. Não sei o que é, mas seu olhar parece triste. Está comendo pouco. O que aconteceu? Acabou de comer. Mas ele não foi embora. Colocou os cotovelos sobre a mesa e apoiou o rosto com as mãos, pensativo. Agora está mais nítido. O homem realmente está triste. Mais do que triste, está preocupado. Por quê? Será que ele está precisando de alguma coisa? Eu acho que ele está precisando de dinheiro, está cheio de dívidas. O homem se remexeu na cadeira, parece que quer chorar. Ele deve estar passando por algo muito triste. Um dos filhos dele deve estar doente. Pior: o filho dele deve estar muito doente e ele não tem dinheiro para comprar remédios, que são muito caros. O pai está desesperado porque passou a manhã inteira atrás de empréstimo e não conseguiu. Olha, ele está esfregando o rosto com as mãos. Está contendo suas lágrimas. Se eu tivesse dinheiro, iria até lá e lhe daria tudo para poder comprar os remédios. Ele percebeu que o estou encarando. Preciso disfarçar melhor. Ao lado do senhor triste há um homem que o contrasta: está com mais três companheiros e veste a camisa da seleção. Está feliz e ansioso porque o Brasil jogará daqui a algumas horas. Enquanto um se preocupa com uma partida de futebol, ao lado dele outro se preocupa com a saúde ameaçada do filho. Os dois, mesa a mesa, lado a lado; e com sentimentos e preocupações tão diferentes! Quando cheguei em casa, pude assistir ao final do jogo do Brasil. Terminou empatado e a seleção se classificou. Mas será que aquele senhor de olhos tão tristonhos conseguiu resolver seus problemas e se alegrar?

     No cárcere não se falava em outra coisa: a páscoa estava chegando, e com ela o dia em que os judeus escolhiam um prisioneiro para perdoar.

     Os dois ladrões mal puderam dormir, aguardando com grandes expectativas. Logo ao  amanhecer, um oficial apareceu e disse aos presos:

     -    Apenas um preso se apresentará a Pilatos e ao povo.

     Houve murmúrios, reclamações e gritos que impediam que o oficial continuasse. Após algum tempo, ele conseguiu dizer:

     -    Apareceu um homem acusado de se declarar filho de Deus. Pilatos não vê por que prendê-lo, mas os judeus querem a sua morte. Então, nosso governante decidiu que esse homem (seu nome é Jesus) irá disputar a liberdade com apenas um dos presos.

     Os dois ladrões não sabiam em que pensar: Se na falta de sorte de ir apenas um disputar a liberdade, ou na notícia de que Jesus estava preso e quase condenado à morte. Não tinham mais esperanças de se verem livres, por isso escutaram, sem muita atenção, o guarda terminar seu discurso:

     -    Ficou decidido que Barrabás irá disputar a vaga com Jesus.

     Todos os prisioneiros lamentaram a escolha, muitos consideraram-na injusta e choravam, batiam o pé, alguns já iam voltando para suas celas… Enquanto isso Barrabás sorria, satisfeito. Vencera! Sua boca, já quase sem dentes, não se fechava do sorriso.

     -    Quanto a vocês – disse o oficial, virando-se para os dois ladrões – vocês foram condenados à morte de cruz. Preparem-se, pois a crucificação será daqui a pouco.

     Essas palavras tiveram o efeito de um golpe nos dois ladrões. A língua secou, um frio na barriga lhes causou tremores, seus corações batiam descompassados. Eles sabiam que receberiam a pena por aqueles dias, mas imaginavam que fosse depois da páscoa.

     Pouco tempo se passou, e os presidiários ouviram a manifestação do povo, do lado de fora: “Solta Barrabás! Crucifique Jesus!” Barrabás não voltou para o cárcere e todos já sabiam o porquê.

 

     Gólgota. Lá estavam o bom e o mau ladrão. Os soldados terminavam o trabalho de colocá-los na cruz. Deveriam deixar tudo acabado antes que chegasse Jesus.

     Os dois ladrões sofriam muito e sentiam dores terríveis, mesmo assim, puderam olhar para baixo e ver a crucificação de Cristo.  Seu corpo estava totalmente desfigurado, de tanto que apanhara. O sangue jorrava no rosto, por causa dos espinhos que perfuravam seu crânio.

     Depois que a cruz foi erguida entre os dois ladrões, as zombarias contra Jesus aumentaram. Os soldados e a população riam, dizendo:

     -    Não era você quem dizia que destruiria o templo e o reconstruiria em três dias? Desça da cruz e salve-se, se realmente és o filho de Deus.

     O bom ladrão sentia pena do homem, mas não podia fazer nada, pois estava na mesma situação. Ah! Se ainda houvesse esperança! Se esse homem fosse mesmo o filho de Deus e o salvasse dali… Mas não.  Se corpo já estava praticamente putrefato, por causa das torturas. O coitado não podia fazer nada. Só soube gritar:

     -   Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem!

     Então, uma revolta encheu o coração do bom ladrão. Não era possível! O homem estava morrendo e ainda insistia que Deus era seu Pai. O bom ladrão não resistiu e disse a Jesus:

     -   Se você é o Cristo, salve-se a si mesmo e a nós.

     Jesus não disse palavra. O mau ladrão, que também sofria na cruz, lembrava-se de todas as crueldades que cometera e arrependeu-se. Sentiu-se revolto por tudo o que faziam àquele inocente e pensou: “Quantas vezes eu agi como este povo, sendo injusto com pessoas inocentes!”. Olhou para o lado e, ao invés de enxergar um pedaço de carne ensangüentado, só enxergou bondade e amor, tudo o que não possuía. Ao ouvir a frase do “bom” ladrão a Jesus, ele o repreendeu e disse:

     -   Nem neste momento você consegue temer a Deus? Fomos condenados à cruz, como este homem. Nós ainda fomos condenados justamente, porque estamos pagando pelo mal que fizemos, mas este, nenhum mal fez.

     E disse a Jesus:

     -   Senhor, lembra-te de mim quando entrares no teu Reino.

     Jesus, com dificuldades, virou o rosto para o lado do mau ladrão, olhou em seus olhos e disse-lhe:

     -   Eu te asseguro que ainda hoje estarás comigo no Paraíso.

     Um alívio imenso tomou conta do mau ladrão e ele se sentiu leve e feliz. Ao mesmo tempo, percebeu que as dores de Cristo pioraram, como se as suas dores de cruz tivessem sido transferidas para a cruz ao lado.

     Passado um tempo, todos se assustaram, ao ouvir Jesus gritar:

     -   Deus meu, Deus meu! Por que me desamparaste?

     Jesus estava ali como homem, e dessa forma sentiu-se desamparado por Deus, mesmo quando, na verdade, Deus estava ali. Cristo logo percebeu isso e, vendo o Pai, exclamou:

     -   Pai, nas tuas mãos entrego o meu Espírito. – após dizer isto, expirou.

     O ladrão não-salvo sentiu uma sensação horrível depois da morte de Jesus. Um terremoto atemorizou a todos, a escuridão já durava algum tempo. Mas o que realmente o perturbou, foi ouvir um dos soldados dizer:

     -   Este homem realmente era o filho de Deus!

 

 

     Engraçado, não? De que adiantou a “bondade” do bom ladrão? De que serviu a ele dar lições de moral ao companheiro, sentir remorsos e ter pena de suas vítimas? Nada disso teve valor nenhum, o que realmente importava para sua salvação, ele não o fez: reconhecer que Jesus era o Filho de Deus, que veio ao mundo para salvá-lo.

     O mau ladrão, apesar de toda crueldade demonstrada ao longo de sua vida, em seus últimos momentos creu em Cristo como seu salvador e, como recompensa, recebeu a vida eterna. Jesus não olhou seus feitos reprováveis. Cristo simplesmente o amou e o perdoou. Sem dúvida,

logo após sua morte, o mau ladrão se viu no Paraíso, ao lado de Jesus. Ele não sentia mais dores nem tristezas. Não havia mais ódio nem rancor em seu coração. Seria feliz completa e eternamente. Já Cristo, ele não estava mais machucado, seu corpo fora renovado e Ele brilhava como o Sol. Mas ainda não estava satisfeito. Jesus preparava-se para descer ao inferno e tomar as chaves das mãos do diabo. Em seguida, venceria a morte, ressuscitando dos mortos e viveria eternamente, de braços abertos esperando para abraçar, não os bons ladrões, mas aqueles que reconhecem ser pecadores perversos, mas que desejam o perdão e crêem que somente através de Jesus, que entregou sua vida por todos, pode-se obter salvação.

(Esta é uma obra de ficção e não é citada na Bíblia!!!)

As crianças choravam desesperadas. As mulheres imploravam que não levassem seus maridos. Os dois ladrões foram, enfim, pegos. Os soldados que o buscaram sorriam satisfeitos, com certeza receberiam honras por serem os capturantes dos bandidos mais espertos da região. Enquanto isso, os filhos, desolados, viam seus pais se distanciarem até sumirem para sempre.

O cárcere era pior do que imaginavam. Como se não bastasse estarem ali, ainda sofriam maus tratos, quase não comiam e padeciam de sede. Os dois ladrões também sabiam que só sairiam dali para morrerem. Seriam condenados. Estavam derrotados. Após tanto tempo roubando, matando e cometendo crimes absurdos, pagariam agora por seus erros. Pagariam com morte. Todos os seus crimes não valeram de nada.

O bom ladrão não parava de se lamentar. Seus remorsos não o deixavam dormir. Dizia em todo o tempo: “Se eu pudesse voltar no tempo, não teria feito nada do que fiz. Agora vamos morrer e NINGUÉM poderá nos salvar.”

O mau ladrão, apesar de também sentir remorsos, preferia ficar em silêncio. Quando, porém, ouviu falar de um Salvador, levantou-se de súbito e perguntou: “Você se lembra daquele homem que dizia ser o filho de Deus? Qual era seu nome?” O companheiro pensou, lembrando-se daquele olhar tão manso e benigno, e respondeu: “Acho que se chamava Jesus. Que tem ele?” O mau ladrão também se surpreendeu por se lembrar desse homem, e não soube o que responder: Não sei, acho que ele poderia fazer alguma coisa. Esse Jesus curou tantos doentes, até ressuscitou mortos…”

“Ora”, disse o bom ladrão bruscamente, “você nunca acreditou nessas coisas, ao contrário, até zombava. Você sempre foi o insensível e agora diz essas coisas como se acreditasse que aquele homem realmente é filho de Deus!” O mau ladrão tentou se justificar, orgulhoso: “Eu não acredito no que ele diz. Mas acredito no que ele fez. Eu vi. Nós vimos aquele mendigo cego enxergar. Nós vimos aquele rapaz se livrar de uma legião de demônios!”

O bom ladrão quis acabar com aquela conversa e concluiu: “Não importa o que esse Jesus fez ou o que não fez, o que importa é que ele não poderá nos salvar nunca!”

Quem nunca se sentiu derrotado? Todos nós nos sentimos assim após termos dado o máximo de nós para conquistar alguma coisa e tivemos nossos planos frustrados. O pior acontece quando não cremos que Jesus Cristo pode nos tirar desse sentimento de fracasso. Dessa forma, nunca nos livramos da prisão, mas só saímos dela para a morte, como aconteceu aos dois ladrões. Mesmo quando estamos presos por culpa de nossos próprios erros, Ele está disposto a nos perdoar e nos salvar. Para isso, é necessário apenas crer que Ele é o Filho de Deus, que morreu pelos nossos pecados e ressuscitou. Jesus está de braço abertos para nos receber como filhos.

“Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel  e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda a injustiça.” I João 1:9

Andando com Cristo, as barreira não desaparecem, mas passamos a ter coragem de enfrentá-las. Só saímos da prisão chamada derrota SE CRERMOS que Jesus Cristo, nosso Salvador, está sempre pronto a perdoar nossos erros.

Não perca o último episódio de Os dois ladrões, em breve!

(Esta é uma histria de ficção e não é citada na Bíblia.)

Quando o pecado enche o nosso coração, parece mais fácil continuar pecando do que nos arrependermos. Assim eram os dois ladrões. Já haviam roubado muitas pessoas, matado tantas outras, mas não se arrependiam. O bom ladrão ainda sentia certo remorso, porém, por covardia, acabava sempre obedecendo ao seu companheiro.

Certo dia, quase no fim da tarde, os dois ladrões estavam voltando para a casa sem suas bolsas, onde guardavam os arrendamentos do dia. Uns soldados os descobriram e os dois tiveram que fugir apavorados, deixando tudo para trás. Mas nunca eram pegos.

Enquanto seguiam o caminho de volta, viram uma grande multidão que seguia um homem. O mau ladrão achou aquele rosto conhecido, mas não se lembrava onde o vira. Já o bom ladrão reconheceu o homem imediatamente: era o mesmo que encontrara, há cinco anos, na estrada onde ele e o amigo haviam cometido um terrível assassinato. O olhar amoroso era o mesmo, ele não podia esquecer. Por curiosidade e por não ter mais nada para fazer naquele dia, os dois seguiram a multidão.

Descobriram que aquele homem chamava-se Jesus, de Nazaré. Descobriram também que esse Jesus realizava milagres, curava enfermos, expulsava demônios. Os dois ladrões não quiseram acreditar no que ouviam. Começaram, então, a zombar de tudo o que Jesus falava. As pessoas olhavam com ar de reprovação, mas eles nem se importavam. O bom ladrão, apesar de tudo, ainda parecia possuir coração. Contudo, era mais cético do que o mau ladrão, no que dizia respeito a milagres e coisas parecidas. Lá no íntimo, sentia-se mal por pronunciar tais palavras de zombaria, mas era fraco e não conseguia parar.

Foi quando ouviram uma voz, que gritava:

- Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim!

A multidão repreendia o homem, ordenando que se calasse e não importunasse o Mestre. Mas o homem gritava mais alto:

- Filho de Davi! Tem compaixão de mim!!!

Os dois ladrões não conseguiam enxergar onde estava o homem e seguiram a voz até encontrá-lo. Viram que se tratava de um cego. O mau ladrão achou engraçada a cara suja de desespero do pobre homem, chutou o cego duas vezes e disse:

- Você não vale nada, não passa de um pedaço de carne desfigurada. Você acha que aquele homem pode mudar a sua vida? Nem Deus é capaz de te curar, mendigo estúpido.

O cego fingia não ouvir nada e gritou ainda mais alto:

- Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim!!!

Foi quando apareceram uns homens, dizendo:

- Não ligue para o que este homem diz. Não se preocupe com a multidão que te repreende. O Mestre mandou te buscar.

Os homens levantaram o cego e levaram-no até onde estava Jesus. Os dois ladrões foram atrás, curiosos.

Os olhos de Jesus encontraram-se com os do mau ladrão e este se perturbou. Nunca ninguém o olhara assim, de um jeito tão bondoso, cheio de misericórdia. Então sentiu uma tristeza ao perceber que precisava de mais compaixão do que o velho cego. Ele é quem deveria estar clamando por misericórdia. Mas o orgulho o fez desviar os olhos e tentava acreditar que estava mais feliz do jeito que vivia e não precisava do Homem de Nazaré. Já o bom ladrão não tirava os olhos daquele homem tão diferente e tão interessante, que perguntou ao cego:

- Que queres que te faça?

O cego respondeu, chorando:

- Senhor, eu quero enxergar!

Jesus, sorrindo de amor, disse ao cego:

- Vá, a tua fé te salvou!

Após Cristo dizer essas palavras, o homem imediatamente voltou a enxergar e toda a multidão se surpreendeu, não pelo milagre, pois já havia visto muitos através de Jesus, mas por ver que Cristo não fez distinção entre pessoas e parou tudo para atender a um pobre pedinte.

Os dois ladrões, que ainda não tinham presenciado nada parecido, não sabiam o que dizer e voltaram para casa em silêncio. Não trocaram nenhuma palavra até o dia seguinte, mesmo assim, nem citaram o acontecido. Porém, os pensamentos não podiam ser controlados. Os dois ladrões pensaram em Cristo no restante daquele dia e daquela noite. Mesmo assim, não queriam acreditar que aquele Jesus tivesse tamanho poder. Então, numa silenciosa cumplicidade, decidiram não pensar mais no ocorrido.

Agora, imagine-se num lotado estádio de futebol, assistindo à final de um campeonato, torcendo pelo seu clube do coração, que está perdendo. Você não gosta da atuação de um dos jogadores e começa a gritar ao técnico para que ele faça a substituição. O treinador, então, manda parar o jogo, faz calar a multidão, olha para você e pergunta:

- O que você quer que eu faça?

Já bastante surpreso com o que está acontecendo, você responde:

- Quero que o senhor troque o jogador tal por tal jogador.

O técnico ouve seu pedido, faz a substituição, e o jogo continua.

Está claro que algo assim seria impossível de acontecer. Mas, naquele dia, Jesus fez isso. O grito do cego era uma voz entre milhares. Mesmo assim, o Mestre ouviu, fez calar a multidão e atendeu ao pedido do cego.

Ref.: Lucas 18:35-43


(Continua…)

Eles só andavam juntos. Eram daqueles tipos de criminosos que soldado nenhum era capaz de capturar, apesar de inúmeros esforços.

Os dois eram parecidos em tudo: tinham praticamente a mesma altura, eram casados com duas irmãs, roubavam juntos, mentiam juntos… Um era cúmplice do outro. A única diferença estava na consciência. Um sentia remorsos, outro não. Podemos ver isso de maneira muito clara na ocasião do primeiro assassinato que cometeram.

Preparavam-se para o próximo assalto. Já haviam arrecadado uma boa quantia dos viajantes que passavam por ali. A estrada estava deserta, passava um ou outro, nunca ao mesmo tempo. Os dois ladrões (vou chamá-los assim de agora em diante) ficavam escondidos, esperando a próxima vítima.

Foi quando apareceu um estrangeiro, montado em seu burrinho. Os dois ladrões saíram de seu esconderijo e o cercaram. Ordenaram que o viajante desse todas as suas moedas e sua túnica, que valia muito. Pela primeira vez, eles encontraram resistência por parte da vítima. O homem era corajoso. Um dos ladrões (o mau) surrava o estrangeiro. O outro pedia que seu companheiro parasse. Não era caso para tanto. Mas o estrangeiro não queria ceder a túnica! Fora herança de seu pai, morto há um mês. Cada chute que o pobre levava doía também ao bom ladrão, mas seu amigo dizia: “Vais ficar só olhando? Não vais ajudar-me?” Então, covarde, ele obedecia como um vassalo. Tirou à força a túnica do rapaz, ou melhor, não teve tanta dificuldade, já que o viajante agonizava. O mau ladrão não teve piedade. Bateu para matar, e conseguiu. Em menos de uma hora não havia mais sopro de vida naquele corpo, que ficou inerte no chão empoeirado.

O bom ladrão não chorou perto do companheiro de crimes, mas sua alma doía ardentemente. Ao se ver sozinho, não resistiu. Chorou como um homem não podia chorar naquela época.

Chorou como um homem orgulhoso de hoje recusa fazer. Porém, ele usou cada centavo arrecadado aquele dia. Com sua parte na venda da túnica, comprou um belo presente para seu filho.

Era um covarde.

Muitas vezes agimos como o bom ladrão. Às vezes nossos pecados não são tão graves como os dele (às vezes, sim), mas partem do mesmo sentimento de covardia. Não paramos para pensar nas consequências que aquele ato trará. Preocupamo-nos somente com o que os “nossos amigos” vão pensar, ou no lucro que teremos com aquele gesto. Nós simplesmente nos esquecemos de que Jesus cumpre a sua promessa de estar sempre conosco e que seu Espírito Santo habita em nós. É por isso que nossa consciência pesa. É o Espírito que está chorando pela nossa atitude.

Procuremos cumprir esse propósito (a começar por mim): o de esquecermos o que os amigos vão pensar e lembrarmos sempre que o nosso corpo é templo do Espírito Santo e Ele não habita com a covardia.

“Não servindo à vista como para agradar a homens, mas como servos de Cristo, fazendo de coração a vontade de Deus. Servindo de boa vontade como ao Senhor e não como aos homens” Efésios 6:6,7.

“Porque persuado eu agora a homens ou a Deus? Ou procuro agradar a homens? Se estivesse ainda agradando aos homens, não seria servo de Cristo. Mas faço-vos saber, irmãos, que o evangelho que por mim foi anunciado não é segundo os homens” Gálatas 1:10,11.

 

Ah! Ia-me esquecendo de contar. Após matarem o estrangeiro, os dois ladrões fugiram. Procuraram não correr, para não levantar suspeitas. No caminho, deram-se com um rapaz, devia ter uns 26 anos. Seu olhar para os dois era de quem sabia o que haviam feito. Só que nenhum dos dois ladrões teve coragem de tentar nada contra ele. Esse rapaz olhou para o bom ladrão como se dissesse: “Se parares de sentir remorso e te arrependeres verdadeiramente, eu estarei disposto a perdoar-te”.

O bom ladrão não entendeu a sensação que teve ao olhar para aquele homem que caminhava sozinho pela estrada. Quem era ele para perdoá-lo?

Esta é a pergunta que faço a você, leitor: Quem é o Único que possui amor e misericórdia infinitos ao ponto de perdoar nosso mais vil pecado?

Continua…

(Essa história é uma ficção e em nenhum momento é citada na Bíblia!)

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