O objetivo deste trabalho é analisar a crônica Elecciones, publicada no volume 12 das Obras Completas de José Martí, sendo parte do livro Escenas Norteamericanas e publicada inicialmente no jornal argentino La Nación, em 11 de dezembro de 1888. A análise consistirá em verificar a preocupação de Martí com a política e sua posição de espectador estrangeiro e crítico.
Na crônica Elecciones, José Martí relata como ocorreu a disputa entre o republicano Benjamin Harrison e o democrata Grover Cleveland, candidato à reeleição. Ele descreve com insatisfação o fracasso do democrata, que chegou a vencer no que diz respeito aos votos populares. Também denunciou o sistema eleitoral fraudulento estadunidense e criticou o fato de estrangeiros participarem das eleições sem interesse real no resultado, mas porque foram comprados pelos republicanos.
Através de sua observação, José Martí faz uma leitura detalhadamente crítica da política americana. O narrador está numa posição de “espectador à janela”, ou se parece também com uma espécie de torcedor de futebol, que está na arquibancada assistindo ao jogo e se atendo a todos os detalhes da partida, vestindo a camisa do seu clube do coração, mas não pode fazer nada para alterar o resultado, que é contrário à sua equipe. Apesar de ser declaradamente democrata, seu relato é de estrangeiro em terra alheia. Os norte-americanos são os “ellos”, ou seja, Martí não se inclui no grupo. Ao mesmo tempo, sua liberdade de criação artística lhe permite enxergar além do que se é possível: Ele consegue “ver” o que se passa dentro da Casa Branca, e qual é a reação de Cleveland e sua esposa ao saberem da derrota.
Sua crônica pode ser dividida em seis partes. Na primeira, ele apresenta o resultado das eleições, descrevendo as reações dos vencedores e dos vencidos. Na segunda parte, ele fala da campanha presidencial, denunciando estratégias ilegais para conseguir votos. Na terceira parte, ele tenta explicar o porquê da derrota de Cleveland. Na quarta, Martí recorda de como se deu o mandato do democrata e de como este se preocupava com os verdadeiros problemas políticos do país. Na quinta parte, ele apresenta uma visão geral do processo eleitoral (por fora) mas também vê os detalhes do processo (por dentro). E na sexta parte ele descreve o dia das eleições, bem como as atitudes dos eleitores, criticando também o fato de os estrangeiros votarem, já que eles não tinham nada a ver com a decisão do país.
Martí fala de um horizonte do qual não pode participar. Ele opina e critica, mas sua contribuição se limita a isso. Não se pode esquecer de que Martí é estrangeiro e fala das coisas do estrangeiro (ellos) para o seu povo (nosotros). Na verdade, o que Martí envia ao La Nación é uma carta, dirigida ao diretor do jornal. Contudo, esta carta é já a crônica que ele escreve para publicação. Por isso, Martí fala para o público-leitor de La Nación.
Sua observação é do presente, tanto é que os verbos utilizados estão no presente. (“El demócrata Cleveland es vencido en el Estado de Nueva York, donde triunfan los candidatos demócratas locales. Vence Harrison, el abogado del proteccionismo.”) No entanto, Martí remete muitas vezes ao passado, ao se recordar do processo eleitoral, sobre o qual ele também escrevera. Também está no passado sua narração de como era o governo de Cleveland e também sobre o dia do voto. No presente, então, aparece apenas aquilo que ocorreu a partir do resultado das eleições.
José Martí inicia sua crônica estabelecendo um contraste entre a alegria dos vencedores republicanos e a tristeza dos democratas derrotados: “Unos pasean la ciudad con el sombrero a la nuca, la mano triunfante en la hombrera del chaleco, y colgado de la solapa, en plumas o en cartón, el gallo de la victoria. Otros van como si no quisieran que los viesen, con la insignia abatida en el ojal, cabizbajos y torvos, pagando a los vencedores el dinero de las apuestas.” Em seguida, faz um levantamento das principais regiões eleitorais, criticando, por exemplo, West Virginia, por votarem “contra su opinión y su historia”, contribuindo para a eleição do republicano. Também percebe que Delaware apóia os republicanos pela primeira vez. E em Nova York, que era a mais importante zona eleitoral, também vence Harrison. Martí ainda não deixa de citar a satisfação que Blaine tem com a vitória republicana. Blaine foi o candidato derrotado por Cleveland nas últimas eleições, em 1884. Agora ele fazia campanha com Harrison. Logo neste começo, Martí já se coloca a favor dos democratas e deixa bem clara sua insatisfação com o resultado: “¡Al poder los amigos de los ricos, y la política que los sigue enriqueciendo! ¡Fuera del poder el que inauguró uma política que calma al pobre airado, sin amenazar la riqueza justa, ni hostigar na injusta fuera de medida!” Após essa descrição que se aproxima muito do relato jornalístico, Martí entra com a arte literária em sua crônica. Ele descreve como real uma cena que não pôde presenciar, mas que imaginou ser muito provável ter acontecido: a reação de Cleveland e sua esposa ao saberem da derrota, durante o café da manhã, por fim abandonado. Aqui, sua narrativa também é de contrastes. De um lado, a tristeza de um homem bravo (forte), sentindo-se traído, e de sua jovem esposa que, também triste, procurava confortá-lo: “… le negava a Cleveland, al bravo Cleveland, la reelección, se calló el hombre bruscamente, y la esposa joven lo besó en las dos mejillas, sujetando mal las lágrimas.” Do outro lado, o triunfo de um general já velho, chamado de “abuelo Benjamín” e de sua esposa, também já velha: “… el general electo, el ‘abuelo Benjamín’, y una viejecita, de pañuelo a los hombros y cabeza blanca.” Não é possível pensar que aqui Martí esteja se colocando a favor de que os bons governantes devem ser jovens. Mas pode ser que ele esteja querendo mostrar uma espécie de absurdo com a vitória de idéias ultrapassadas e conservadoras, geralmente representadas pelos mais velhos, e a derrota de idéias inovadoras, geralmente representadas pela juventude.
O olhar do estrangeiro aparece aqui. Martí parece referir-se a si mesmo ao dizer que o estrangeiro, ao observar toda a movimentação do dia eleitoral, não sabe como narrar aquilo: “… no sabe en su casa alquilada el extrangero, cuando todo lo convida a enmudecer, cómo conseguirá narrar.”
Antes de iniciar sua descrição das causas (fraudulentas) da derrota de Cleveland, o cronista diz que a vontade da nação não foi exercitada e não foi o povo que se saiu vencedor nesta história. Ele diz isso através do recurso da ironia: “… ¡lo que importa, por sobre todas las batallas de los héroes, es este ejercicio pacífico de la voluntad de la nación: el triunfo del espíritu público es lo que importa!” Inconformado, Martí denuncia veemente as fraudes e subornos típicos do sistema eleitoral estadunidense. Ele mostra como esse crime é vil e como os homens se vendem por muito pouco: “Hubo hombre que se vendió por cinco pesos, y por dos, y por un vaso de whisky.”
José Martí considera Grover Cleveland um homem que possui todas as características de um governante virtuoso. Segundo Ramon Infiesta, em seu livro El pensamiento político de Martí, o cronista considerava que ser um bom governante envolvia vocação e humanidade. Um governante assim deveria possuir as seguintes características: Integridade, honradez, paciência, desinteresse e abnegação. Martí enxerga todas essas características no democrata. Ele era íntegro (“si trajo consigo brío y bondad bastantes para sentar en el gobierno, con ira del Norte ambicioso y vengativo, al Sur que pudiera cansarse de verse, por pasión y avaricia, privado de administrar el tesoro que contribuye y las leyes que padece.”), honrado (“si triunfó una vez por sí, contra el consejo y oposición de esos santones de partido que no quieren portaestandarte persona viril con idea nueva y fuerza superior, sino hombre segundón, tímido y blando, que comporta el poder real con los que, en espera de provechos comunes lo proponen y encubran el poder nominal”), paciente (“porque cuando Blaine, en discursos untados de curare, ondeaba a puño alto la carta infeliz como prueba del interés británico em la elección de Cleveland, este aguardó en calma decorosa”), desinteressado (“¿qué esfuerzo no habían de hacer los republicanos ricos y atónitos, por derribar al que con su valor y desinterés, demostrado al encabezar por sobre amigos y enemigos el debate sobre la rebaja de la tarifa, mostraba los tamaños necesarios para realizarla?) e abnegado (“Pues si sirvió a su patria antes que a sí; si puso en riesgo su elección segura por poner a tiempo ante el país la verdad que puede evitar la enemistad y choque de sus elementos.”).
E assim Martí segue exaltando as virtudes políticas e de caráter do candidato derrotado, mostrando a incoerência que havia entre sua derrota e seus atos políticos e a vitória republicana com seus atos antipopulares, em que só buscavam seus próprios interesses. Além de insatisfeito, Martí estava surpreso com o resultado, já que tudo indicava como certa a reeleição de Cleveland (“¡No era de derrota, por cierto, el rostro enérgico y austero del Presidente, que de pie y con la cabeza descubierta los veía pasar!” “¡Estaba seguro de su reelección, él, que sabe de las ‘cuchiladas’ de los amigos!”).
O cronista tenta também detalhar as fraudes. Ele considerava Nova York como a principal esperança republicana, pois “en Nueva York están los ricos que pagan, y el voto que se vende.” Em Nova York havia muitos empresários que queriam se vingar de Cleveland porque este não trabalhou em prol dos benefícios dos ricos. Havia inclusive muitos democratas a favor de Harrison simplesmente porque, segundo Martí, não eram beneficiados pela honradez do candidato de seu partido. Os ricos, que não desejavam ter no governo um presidente que era contra os defraudadores, eram um número grande de eleitores, mas não o suficiente para derrotar Cleveland. Os votos que faltavam, no entanto, não eram difíceis de serem comprados.
Por tudo isso, Martí descreve que a cidade parecia morada de dois exércitos em trégua. A certeza que os democratas tinham da vitória fez com que eles fossem mais comedidos. Já os republicanos não descansaram, com seu ímpeto agressivo. Nesse momento, a narrativa de Martí torna-se magnífica porque ele consegue descrever pormenorizadamente as cenas, como se a crônica fosse uma ficção com narrador inconsciente. A situação das ruas, sob o olhar do cronista, toma uma dimensão cinematográfica: “río de fuego fue de noche, y como fiesta persa por las luces, la última iban los navieros con un vapor de madera tirado por ocho caballos de gran caparazón: por otro iban los del tabaco, con un abanico hecho de la hoja: topaban con los del algodón, que llevaban en la solapa motas de él: se detenían para abrir paso a los loceros, que cargaban en el ojal tazas de porcelana tricolores: por la otra bocacalle caían en la avenida los estudiantes de leyes con macanas por bastón y una escoba al hombro en signo de victoria(…)”.
Enfim, Martí começa a narrar o dia das eleições, e continua usando como recurso literário a descrição dos detalhes, fazendo o leitor enxergar até o papel dobrado caindo dentro da urna. Também auxilia o leitor a ter uma idéia de como funcionavam as eleições estadunidense naquela época: as zonas eleitorais, os lugares onde se votavam, podiam ser variados: barbearia, floricultura, papelaria, etc. Havia dois secretários, um de cada partido, que anotavam o nome do votante e sua residência. Havia também policiais em todas as casillas. Havia também uma fila. Nesta fila, pelo menos, não havia distinção de pessoas: ”Un comerciante, de porte gigantesco, les lleva a todos la cabeza, de sombrero de copa y rostro grave: un miserable sin camisa, con el levitín a la barba y los ojos sanguinolentos, está detrás de él, el fajo de votos temblándole en la mano.”
É a partir desse momento que o cronista critica os estrangeiros que estão ali votando. Ele parece se esquecer que faz parte do grupo dos estrangeiros e dessa vez ele parece se referir a esse grupo de “ellos”. Entretanto, se os estrangeiros são os ellos, os norte-americanos tampouco são os nosotros, porque em nenhum momento ele dá a entender que foi um dos eleitores. Não há como o leitor afirmar categoricamente que Martí votou nem que não votou. Ele considera que esses estrangeiros não tinham interesse algum no resultado, e estão ali apenas para entregar o voto vendido por pouco: “En otras casillas venían en manchas, con su padrón a la cabeza, napolitanos de pipas y calañes, de chaqueta y aretes, a votar en los asuntos de un país cuya lengua no hablan, o peso por oreja.”
A denúncia às fraudes segue, e ele percebe isso mesmo no dia da eleição, em que há explícita compra e venda de votos, em troca de satisfação dos seus interesses. Essa troca ocorre inclusive entre partidários de Cleveland, que não desejam sua reeleição. Sua crônica termina com a contagem de votos, em que Cleveland sai na frente. Porém, no final, é o republicano quem vence e Martí já não tem nada a dizer. Nem o velho descrito ao final (não se sabe se é real ou imaginário): “El octogenario, colérico, dijo a su amiga de los crespos blancos: ‘¡Vamos!’”
Para compreender um pouco melhor as crônicas de José Martí, é necessário procurar entender melhor este gênero. A crônica se refere a um gênero periodístico que tem seu olhar sobre o social, falando sempre de fatos presentes. Apesar disso, a crônica não tem a pretensão de temporalidade. Há um desejo de dizer a verdade, mas não da maneira como o meio jornalístico o faz. Há uma certa arte ao escrever. Por isso, muitos consideram a crônica como intermediária entre o discurso literário e o jornalístico, apesar de muitos outros a encaixarem em apenas um ou em outro gênero. A crônica também permitia que a escritura estivesse mais democratizada, de forma que o público tivesse mais acesso. Conseqüentemente, também, os periódicos foram um extraordinário meio de comunicação e difusão da nova literatura.
Falando agora mais particularmente das crônicas de Martí, vê-se que elas estão fortemente vinculadas à presença do “yo” e ao direito à subjetividade. Pare ele, as crônicas não eram apenas periodismo, mas também podiam ser vistas como prosa poética. E ele levou essa idéia a cabo de tal modo que, ao publicar no jornal La Nación a crônica analisada há pouco, os editores do jornal intitularam sua crônica de “Narraciones Fantásticas”, dizendo que Martí era dono de uma privilegiada imaginação, e que o texto enviado era uma fantasia.
De fato, José Martí descreveu as eleições norte-americanas de uma forma tão brilhante que é realmente possível duvidar de que se tratam de fatos reais. É surpreendente sua penetração nos detalhes da política estadunidense, fruto de sua brilhante capacidade de análise. É fácil ter a impressão de estar lendo algo atual, principalmente porque até hoje são famosas as práticas eleitorais fraudulentas que fazem parte do sistema político dos Estados Unidos.
José Martí chegou em Nova York em 1880, e permaneceu por quase 15 anos nos Estados Unidos. Nesse tempo, ele se dedicou a um estudo profundo da história, sociedade e do sistema político norte-americano. Seu propósito era, especialmente, compreender o funcionamento interno e externo da política do país, cuja evolução mostrava claramente sua tendência em se constituir uma metrópole imperialista, o que colocava em perigo a chance de independência de países próximos, como Cuba, país de origem do cronista. Chegando lá, Martí compreendeu que em um país onde, inescrupulosamente, a corrupção se havia tornado natural dentro e fora do governo, seria praticamente impossível manter relações internacionais de respeito e que valorizassem a igualdade entre os estados. Da maneira como ocorriam os fatos, a tendência era que, ao atingir a soberania, os países mais débeis sairiam perdendo.
Por isso, Martí parece ter passado esse tempo na terra estrangeira como um observador para analisar seu sistema político; a interação entre os partidos políticos e a população; e as eleições, sempre antidemocráticas. Essa era a sua contribuição para com Cuba e para com os outros países latino-americanos: uma tentativa de entender a evolução imperialista estadunidense para, a partir dessa compreensão, criar e adquirir armas contra uma possível impossibilidade por parte dos Estados Unidos de tornar esses países independentes.
Referências Bibliográficas
INFIESTA, Ramon. El pensamiento político de Martí. Habana: Imprenta de La Universidad de La Habana, 1953.
MARTÍ, José. Obras Completas v.12 – En los Estados Unidos. Habana: Editora Nacional de Cuba, 1964.
ROTKER, Susana. El lugar de la crónica. In: _____. Fundación de uma escritura. Ciudad de La Habana: Editora desconhecida, 1992.
ZANETTI, Susana (org.). Legados de José Martí en La crítica latinoamericana. La Plata, Argentina: Facultad de Humanidades y Ciencias de La Educación, Universidad Nacional de La Plata, 1999.


