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José Martí e as eleições norte-americanas de 1888

04/01/2012

O objetivo deste trabalho é analisar a crônica Elecciones, publicada no volume 12 das Obras Completas de José Martí, sendo parte do livro Escenas Norteamericanas e publicada inicialmente no jornal argentino La Nación, em 11 de dezembro de 1888. A análise consistirá em verificar a preocupação de Martí com a política e sua posição de espectador estrangeiro e crítico.

Na crônica Elecciones, José Martí relata como ocorreu a disputa entre o republicano Benjamin Harrison e o democrata Grover Cleveland, candidato à reeleição. Ele descreve com insatisfação o fracasso do democrata, que chegou a vencer no que diz respeito aos votos populares. Também denunciou o sistema eleitoral fraudulento estadunidense e criticou o fato de estrangeiros participarem das eleições sem interesse real no resultado, mas porque foram comprados pelos republicanos.
Através de sua observação, José Martí faz uma leitura detalhadamente crítica da política americana. O narrador está numa posição de “espectador à janela”, ou se parece também com uma espécie de torcedor de futebol, que está na arquibancada assistindo ao jogo e se atendo a todos os detalhes da partida, vestindo a camisa do seu clube do coração, mas não pode fazer nada para alterar o resultado, que é contrário à sua equipe. Apesar de ser declaradamente democrata, seu relato é de estrangeiro em terra alheia. Os norte-americanos são os “ellos”, ou seja, Martí não se inclui no grupo. Ao mesmo tempo, sua liberdade de criação artística lhe permite enxergar além do que se é possível: Ele consegue “ver” o que se passa dentro da Casa Branca, e qual é a reação de Cleveland e sua esposa ao saberem da derrota.
Sua crônica pode ser dividida em seis partes. Na primeira, ele apresenta o resultado das eleições, descrevendo as reações dos vencedores e dos vencidos. Na segunda parte, ele fala da campanha presidencial, denunciando estratégias ilegais para conseguir votos. Na terceira parte, ele tenta explicar o porquê da derrota de Cleveland. Na quarta, Martí recorda de como se deu o mandato do democrata e de como este se preocupava com os verdadeiros problemas políticos do país. Na quinta parte, ele apresenta uma visão geral do processo eleitoral (por fora) mas também vê os detalhes do processo (por dentro). E na sexta parte ele descreve o dia das eleições, bem como as atitudes dos eleitores, criticando também o fato de os estrangeiros votarem, já que eles não tinham nada a ver com a decisão do país.
Martí fala de um horizonte do qual não pode participar. Ele opina e critica, mas sua contribuição se limita a isso. Não se pode esquecer de que Martí é estrangeiro e fala das coisas do estrangeiro (ellos) para o seu povo (nosotros). Na verdade, o que Martí envia ao La Nación é uma carta, dirigida ao diretor do jornal. Contudo, esta carta é já a crônica que ele escreve para publicação. Por isso, Martí fala para o público-leitor de La Nación.
Sua observação é do presente, tanto é que os verbos utilizados estão no presente. (“El demócrata Cleveland es vencido en el Estado de Nueva York, donde triunfan los candidatos demócratas locales. Vence Harrison, el abogado del proteccionismo.”) No entanto, Martí remete muitas vezes ao passado, ao se recordar do processo eleitoral, sobre o qual ele também escrevera. Também está no passado sua narração de como era o governo de Cleveland e também sobre o dia do voto. No presente, então, aparece apenas aquilo que ocorreu a partir do resultado das eleições.
José Martí inicia sua crônica estabelecendo um contraste entre a alegria dos vencedores republicanos e a tristeza dos democratas derrotados: “Unos pasean la ciudad con el sombrero a la nuca, la mano triunfante en la hombrera del chaleco, y colgado de la solapa, en plumas o en cartón, el gallo de la victoria. Otros van como si no quisieran que los viesen, con la insignia abatida en el ojal, cabizbajos y torvos, pagando a los vencedores el dinero de las apuestas.” Em seguida, faz um levantamento das principais regiões eleitorais, criticando, por exemplo, West Virginia, por votarem “contra su opinión y su historia”, contribuindo para a eleição do republicano. Também percebe que Delaware apóia os republicanos pela primeira vez. E em Nova York, que era a mais importante zona eleitoral, também vence Harrison. Martí ainda não deixa de citar a satisfação que Blaine tem com a vitória republicana. Blaine foi o candidato derrotado por Cleveland nas últimas eleições, em 1884. Agora ele fazia campanha com Harrison. Logo neste começo, Martí já se coloca a favor dos democratas e deixa bem clara sua insatisfação com o resultado: “¡Al poder los amigos de los ricos, y la política que los sigue enriqueciendo! ¡Fuera del poder el que inauguró uma política que calma al pobre airado, sin amenazar la riqueza justa, ni hostigar na injusta fuera de medida!” Após essa descrição que se aproxima muito do relato jornalístico, Martí entra com a arte literária em sua crônica. Ele descreve como real uma cena que não pôde presenciar, mas que imaginou ser muito provável ter acontecido: a reação de Cleveland e sua esposa ao saberem da derrota, durante o café da manhã, por fim abandonado. Aqui, sua narrativa também é de contrastes. De um lado, a tristeza de um homem bravo (forte), sentindo-se traído, e de sua jovem esposa que, também triste, procurava confortá-lo: “… le negava a Cleveland, al bravo Cleveland, la reelección, se calló el hombre bruscamente, y la esposa joven lo besó en las dos mejillas, sujetando mal las lágrimas.” Do outro lado, o triunfo de um general já velho, chamado de “abuelo Benjamín” e de sua esposa, também já velha: “… el general electo, el ‘abuelo Benjamín’, y una viejecita, de pañuelo a los hombros y cabeza blanca.” Não é possível pensar que aqui Martí esteja se colocando a favor de que os bons governantes devem ser jovens. Mas pode ser que ele esteja querendo mostrar uma espécie de absurdo com a vitória de idéias ultrapassadas e conservadoras, geralmente representadas pelos mais velhos, e a derrota de idéias inovadoras, geralmente representadas pela juventude.
O olhar do estrangeiro aparece aqui. Martí parece referir-se a si mesmo ao dizer que o estrangeiro, ao observar toda a movimentação do dia eleitoral, não sabe como narrar aquilo: “… no sabe en su casa alquilada el extrangero, cuando todo lo convida a enmudecer, cómo conseguirá narrar.”
Antes de iniciar sua descrição das causas (fraudulentas) da derrota de Cleveland, o cronista diz que a vontade da nação não foi exercitada e não foi o povo que se saiu vencedor nesta história. Ele diz isso através do recurso da ironia: “… ¡lo que importa, por sobre todas las batallas de los héroes, es este ejercicio pacífico de la voluntad de la nación: el triunfo del espíritu público es lo que importa!” Inconformado, Martí denuncia veemente as fraudes e subornos típicos do sistema eleitoral estadunidense. Ele mostra como esse crime é vil e como os homens se vendem por muito pouco: “Hubo hombre que se vendió por cinco pesos, y por dos, y por un vaso de whisky.”
José Martí considera Grover Cleveland um homem que possui todas as características de um governante virtuoso. Segundo Ramon Infiesta, em seu livro El pensamiento político de Martí, o cronista considerava que ser um bom governante envolvia vocação e humanidade. Um governante assim deveria possuir as seguintes características: Integridade, honradez, paciência, desinteresse e abnegação. Martí enxerga todas essas características no democrata. Ele era íntegro (“si trajo consigo brío y bondad bastantes para sentar en el gobierno, con ira del Norte ambicioso y vengativo, al Sur que pudiera cansarse de verse, por pasión y avaricia, privado de administrar el tesoro que contribuye y las leyes que padece.”), honrado (“si triunfó una vez por sí, contra el consejo y oposición de esos santones de partido que no quieren portaestandarte persona viril con idea nueva y fuerza superior, sino hombre segundón, tímido y blando, que comporta el poder real con los que, en espera de provechos comunes lo proponen y encubran el poder nominal”), paciente (“porque cuando Blaine, en discursos untados de curare, ondeaba a puño alto la carta infeliz como prueba del interés británico em la elección de Cleveland, este aguardó en calma decorosa”), desinteressado (“¿qué esfuerzo no habían de hacer los republicanos ricos y atónitos, por derribar al que con su valor y desinterés, demostrado al encabezar por sobre amigos y enemigos el debate sobre la rebaja de la tarifa, mostraba los tamaños necesarios para realizarla?) e abnegado (“Pues si sirvió a su patria antes que a sí; si puso en riesgo su elección segura por poner a tiempo ante el país la verdad que puede evitar la enemistad y choque de sus elementos.”).
E assim Martí segue exaltando as virtudes políticas e de caráter do candidato derrotado, mostrando a incoerência que havia entre sua derrota e seus atos políticos e a vitória republicana com seus atos antipopulares, em que só buscavam seus próprios interesses. Além de insatisfeito, Martí estava surpreso com o resultado, já que tudo indicava como certa a reeleição de Cleveland (“¡No era de derrota, por cierto, el rostro enérgico y austero del Presidente, que de pie y con la cabeza descubierta los veía pasar!” “¡Estaba seguro de su reelección, él, que sabe de las ‘cuchiladas’ de los amigos!”).
O cronista tenta também detalhar as fraudes. Ele considerava Nova York como a principal esperança republicana, pois “en Nueva York están los ricos que pagan, y el voto que se vende.” Em Nova York havia muitos empresários que queriam se vingar de Cleveland porque este não trabalhou em prol dos benefícios dos ricos. Havia inclusive muitos democratas a favor de Harrison simplesmente porque, segundo Martí, não eram beneficiados pela honradez do candidato de seu partido. Os ricos, que não desejavam ter no governo um presidente que era contra os defraudadores, eram um número grande de eleitores, mas não o suficiente para derrotar Cleveland. Os votos que faltavam, no entanto, não eram difíceis de serem comprados.
Por tudo isso, Martí descreve que a cidade parecia morada de dois exércitos em trégua. A certeza que os democratas tinham da vitória fez com que eles fossem mais comedidos. Já os republicanos não descansaram, com seu ímpeto agressivo. Nesse momento, a narrativa de Martí torna-se magnífica porque ele consegue descrever pormenorizadamente as cenas, como se a crônica fosse uma ficção com narrador inconsciente. A situação das ruas, sob o olhar do cronista, toma uma dimensão cinematográfica: “río de fuego fue de noche, y como fiesta persa por las luces, la última iban los navieros con un vapor de madera tirado por ocho caballos de gran caparazón: por otro iban los del tabaco, con un abanico hecho de la hoja: topaban con los del algodón, que llevaban en la solapa motas de él: se detenían para abrir paso a los loceros, que cargaban en el ojal tazas de porcelana tricolores: por la otra bocacalle caían en la avenida los estudiantes de leyes con macanas por bastón y una escoba al hombro en signo de victoria(…)”.
Enfim, Martí começa a narrar o dia das eleições, e continua usando como recurso literário a descrição dos detalhes, fazendo o leitor enxergar até o papel dobrado caindo dentro da urna. Também auxilia o leitor a ter uma idéia de como funcionavam as eleições estadunidense naquela época: as zonas eleitorais, os lugares onde se votavam, podiam ser variados: barbearia, floricultura, papelaria, etc. Havia dois secretários, um de cada partido, que anotavam o nome do votante e sua residência. Havia também policiais em todas as casillas. Havia também uma fila. Nesta fila, pelo menos, não havia distinção de pessoas: ”Un comerciante, de porte gigantesco, les lleva a todos la cabeza, de sombrero de copa y rostro grave: un miserable sin camisa, con el levitín a la barba y los ojos sanguinolentos, está detrás de él, el fajo de votos temblándole en la mano.”
É a partir desse momento que o cronista critica os estrangeiros que estão ali votando. Ele parece se esquecer que faz parte do grupo dos estrangeiros e dessa vez ele parece se referir a esse grupo de “ellos”. Entretanto, se os estrangeiros são os ellos, os norte-americanos tampouco são os nosotros, porque em nenhum momento ele dá a entender que foi um dos eleitores. Não há como o leitor afirmar categoricamente que Martí votou nem que não votou. Ele considera que esses estrangeiros não tinham interesse algum no resultado, e estão ali apenas para entregar o voto vendido por pouco: “En otras casillas venían en manchas, con su padrón a la cabeza, napolitanos de pipas y calañes, de chaqueta y aretes, a votar en los asuntos de un país cuya lengua no hablan, o peso por oreja.”
A denúncia às fraudes segue, e ele percebe isso mesmo no dia da eleição, em que há explícita compra e venda de votos, em troca de satisfação dos seus interesses. Essa troca ocorre inclusive entre partidários de Cleveland, que não desejam sua reeleição. Sua crônica termina com a contagem de votos, em que Cleveland sai na frente. Porém, no final, é o republicano quem vence e Martí já não tem nada a dizer. Nem o velho descrito ao final (não se sabe se é real ou imaginário): “El octogenario, colérico, dijo a su amiga de los crespos blancos: ‘¡Vamos!’”

Para compreender um pouco melhor as crônicas de José Martí, é necessário procurar entender melhor este gênero. A crônica se refere a um gênero periodístico que tem seu olhar sobre o social, falando sempre de fatos presentes. Apesar disso, a crônica não tem a pretensão de temporalidade. Há um desejo de dizer a verdade, mas não da maneira como o meio jornalístico o faz. Há uma certa arte ao escrever. Por isso, muitos consideram a crônica como intermediária entre o discurso literário e o jornalístico, apesar de muitos outros a encaixarem em apenas um ou em outro gênero. A crônica também permitia que a escritura estivesse mais democratizada, de forma que o público tivesse mais acesso. Conseqüentemente, também, os periódicos foram um extraordinário meio de comunicação e difusão da nova literatura.
Falando agora mais particularmente das crônicas de Martí, vê-se que elas estão fortemente vinculadas à presença do “yo” e ao direito à subjetividade. Pare ele, as crônicas não eram apenas periodismo, mas também podiam ser vistas como prosa poética. E ele levou essa idéia a cabo de tal modo que, ao publicar no jornal La Nación a crônica analisada há pouco, os editores do jornal intitularam sua crônica de “Narraciones Fantásticas”, dizendo que Martí era dono de uma privilegiada imaginação, e que o texto enviado era uma fantasia.
De fato, José Martí descreveu as eleições norte-americanas de uma forma tão brilhante que é realmente possível duvidar de que se tratam de fatos reais. É surpreendente sua penetração nos detalhes da política estadunidense, fruto de sua brilhante capacidade de análise. É fácil ter a impressão de estar lendo algo atual, principalmente porque até hoje são famosas as práticas eleitorais fraudulentas que fazem parte do sistema político dos Estados Unidos.
José Martí chegou em Nova York em 1880, e permaneceu por quase 15 anos nos Estados Unidos. Nesse tempo, ele se dedicou a um estudo profundo da história, sociedade e do sistema político norte-americano. Seu propósito era, especialmente, compreender o funcionamento interno e externo da política do país, cuja evolução mostrava claramente sua tendência em se constituir uma metrópole imperialista, o que colocava em perigo a chance de independência de países próximos, como Cuba, país de origem do cronista. Chegando lá, Martí compreendeu que em um país onde, inescrupulosamente, a corrupção se havia tornado natural dentro e fora do governo, seria praticamente impossível manter relações internacionais de respeito e que valorizassem a igualdade entre os estados. Da maneira como ocorriam os fatos, a tendência era que, ao atingir a soberania, os países mais débeis sairiam perdendo.
Por isso, Martí parece ter passado esse tempo na terra estrangeira como um observador para analisar seu sistema político; a interação entre os partidos políticos e a população; e as eleições, sempre antidemocráticas. Essa era a sua contribuição para com Cuba e para com os outros países latino-americanos: uma tentativa de entender a evolução imperialista estadunidense para, a partir dessa compreensão, criar e adquirir armas contra uma possível impossibilidade por parte dos Estados Unidos de tornar esses países independentes.
Referências Bibliográficas


INFIESTA, Ramon. El pensamiento político de Martí. Habana: Imprenta de La Universidad de La Habana, 1953.
MARTÍ, José. Obras Completas v.12 – En los Estados Unidos. Habana: Editora Nacional de Cuba, 1964.
ROTKER, Susana. El lugar de la crónica. In: _____. Fundación de uma escritura. Ciudad de La Habana: Editora desconhecida, 1992.
ZANETTI, Susana (org.). Legados de José Martí en La crítica latinoamericana. La Plata, Argentina: Facultad de Humanidades y Ciencias de La Educación, Universidad Nacional de La Plata, 1999.

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Os números de 2011

31/12/2011

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2011 deste blog.

Aqui está um resumo:

Um comboio do metrô de Nova Iorque transporta 1.200 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 4.200 vezes em 2011. Se fosse um comboio, eram precisas 4 viagens para que toda gente o visitasse.

Clique aqui para ver o relatório completo

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Dever cumprido?

31/12/2011

Dia 31 de dezembro. 1h da madrugada. Ouvi ruídos ao portão. Eram crianças conversando entusiasmadas com as novidades que encontraram no lixo. Com efeito, naquele dia meus pais fizeram uma limpeza na casa, eliminaram toda a bugiganga que havia aqui. Logo percebi a voz do meu pai ralhando com eles. Justificaram-se, dizendo que só iriam escolher o que lhes interessassem do lixo, prometendo juntar tudo depois. Fiquei curiosa e fui até à sacada ao lado do meu pai. Quando olhei para baixo vi quatro meninos felizes, carregando brinquedos velhos e inutilidades. De repente, voltei o meu olhar para um deles.

- Engraçado, aquele menino parece com um aluno que eu tive. – comentei.

A criança olhou para cima e sorriu envergonhado.

- Kleber?

- Ué, você mora aqui? – ele perguntou.

- Sim, eu moro aqui. O que você faz acordado a essas horas?

Kleber não respondeu. Abaixou a cabeça, virou-se de costas e aos poucos foi se afastando do grupo, querendo fugir de mim. Ele sempre faz isso. Quando nos encontramos na rua, Kleber tenta se esconder atrás de um carro ou de um poste. Às vezes ele me vê no supermercado, grita meu nome, dá um tchau e sai correndo. Acho que ele não gosta de que eu o veja fora do ambiente escolar. Sim, porque aqui fora ele não pode se passar por autossuficiente, como costumava fazer na sala de aula. Aqui fora eu tenho a chance de conhecê-lo verdadeiramente, posso saber de suas fraquezas e necessidades (socialmente falando). Deve mesmo ser constrangedor ser flagrado remexendo no lixo ao portão da ex-professora.

Seus irmãos continuam selecionando o que querem levar, enquanto Kleber fica parado de costas a certa distância.

- Se tivesse alguma coisa aqui para dar para eles, coitados… – comentei com meu pai.

Foi aí que me lembrei de uma bola que minha mãe havia guardado (quase a jogou no lixo, na hora da limpeza, mas preferiu preservá-la para alguma eventualidade). Fui buscar, meu pai pediu que os meninos esperassem. A bola estava no quarto do meu irmão e a porta estava trancada. Então meu pai falou para eles voltarem depois porque não havia como pegar a bola naquele momento.

Nisso meu irmão abriu a porta, mas já era tarde demais. Kleber não voltaria, ele estava com vergonha de mim.

- Tenho dó desse menino, – falei para o meu pai – a mãe dele vive indo para a cadeia. Não há quem cuide dele.

Voltei triste para meu quarto. Pensei: este é o último dia do ano, há tantas pessoas soltando fogos, reclamando do quanto engordaram durante esses dias de festa, agradecendo a Deus pela quantidade de bênçãos que receberam… Mas o Kleber e seus irmãos procuravam seus presentes de Natal no lixo. É nessas horas que eu percebo por que não gosto do Natal. Perdeu-se seu sentido e hoje essa data representa principalmente os momentos de confraternização com a família ou com pessoas que amamos. Kleber e seus irmãos provavelmente não puderam participar de nada parecido. Esses momentos são aproveitados geralmente com muita comida. Sei que Kleber e seus irmãos não tiveram isso no Natal e tampouco terão na festa da virada (eu já o vi várias vezes pedindo comida à entrada do supermercado). Nessa época, ganha-se muitos presentes. Ah! Que absurdo! Na televisão a retrospectiva festejou o bom momento econômico pelo qual passa o Brasil! Mas Kleber e seus irmãos estavam procurando seus presentes nos sacos de lixo! Mesmo que fossem apenas quatro crianças no Brasil inteiro passando por essa situação, o brasileiro não teria o direito de se conformar. Porém todos sabemos que não são somente os quatro.

Enquanto orava, percebi também o quanto eu me encaixava no grupo dos conformados. Esses geralmente se consideram imensamente generosos apenas pelo sentimento de dó. São esses os que têm a sensação de dever cumprido quando oferecem uma esmolinha, quando doam um brinquedo velho e quebrado, uma roupa desbotada e furada…

Não, não é disso que eles precisam!!! Todas essas coisas acabam, elas não duram muito tempo. Kleber e seus irmãos precisam de amor. Ninguém os ama! Não sei sobre a mãe, ela quase nunca apareceu na escola. Além disso vive tendo problemas com a polícia. Fiquei sabendo que esses meninos muitas vezes passam a noite sozinhos em casa. Por isso não me surpreende que eles estejam na rua a esta hora da madrugada.

Eles têm carência de amor. E não é na lixeira nem nas pequenas esmolas que eles o encontrarão. Crianças assim, tão indefesas (o mais velho deles tem, se muito, 12 anos) necessitam de alguém que os ame, que cuide deles, que lhes dê atenção, carinho, abraços. Quem se dispõe?

- Oh, de casa!

Ouvimos uns gritinhos agudos, repetidos, tímidos ao nosso portão. Eles voltaram menos de dez minutos depois perguntando pela bola. Lá da sacada eu a joguei e ainda joguei uma outra que era bola de futebol americano. Agradeceram, eu me despedi, virei as costas, fechei a porta da sacada. Dever cumprido, como cidadã deste mundo.

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Espere um momento: Eu estou no mundo, mas não sou do mundo. Dever cumprido?

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Por que Noé amaldiçoa a descendência de seu filho Cam?

07/11/2011

Gênesis 9: 18-28 narra um episódio curioso: Passado o período do dilúvio, Noé planta uma vinha. Certo dia ele bebe do vinho produzido ali, entra nu e embriagado em sua tenda e pega no sono. Seu filho Cam entra, “vê a nudez” de seu pai e, em seguida, conta aos seus irmãos que, de costas, de maneira a não verem o pai naquela situação vergonhosa, o cobrem com uma capa. Quando Noé acorda e fica sabendo do acontecido, amaldiçoa Canaã, descendência de seu filho Cam, dizendo que ele seria servo dos servos de seus irmãos.

A questão é: Por que Noé proferiu maldição tão terrível contra Canaã? Simplesmente porque Cam o viu sem roupas? Alguns argumentam que isso aconteceu porque ver a nudez do outro era algo muito vergonhoso (como de fato o é até hoje); outros dizem que o erro de Cam estava em não haver coberto o pai da vergonha da nudez, deixando essa tarefa para seus irmãos. Talvez… Mas será que essas justificativas seriam motivos suficientes para que Noé proferisse tal maldição?

O que descobri foi que o problema vai além de Cam ter visto a nudez do pai. Em hebraico, o versículo 22 aparece da seguinte maneira:

 *וירא חם אבי כנען את ערות אביו ויגד לשני-אחיו בחוץ

wayareh ḥam avy kna’an et erwat avyw wayaged lishney-eḥayw baḥutz ** (Cam, pai de Canaã, vendo a nudez do pai, fê-lo saber, fora, a seus dois irmãos.)***

A palavra para nudez é ערוה (erwah). Na Bíblia, essa palavra possui forte conotação sexual, ou seja, a tradução mais adequada de wayareh et erwat avyw poderia ser: e viu (teve acesso à) sexualidade de seu pai.

A palavra erwah aparece em outros momentos possuindo esse mesmo significado. Em Levítico 18:7, por exemplo, está escrito: “Não descobrirás a nudez de teu pai e de tua mãe; ela é tua mãe; não lhe descobrirás a nudez.”**** A palavra para nudez é a mesma:

  ערות אביך וערות אמך לא תגלה

erwat avyḥa we‘erwat ymḥa lo tgaleh

O sentido deste versículo e de todos os que se referem aos casamentos ilícitos (Levítico 18: 1-23) diz respeito às relações sexuais. A Bíblia Viva traduz de maneira mais clara. No versículo oito, por exemplo, ela escreve: “Não tenha relações sexuais com a mulher do seu pai”. Para todas as expressões de Levítico 18 traduzidas como “descobrir a nudez de”, tem-se como equivalente em hebraico para nudez a palavra erwah.

Sendo assim, entende-se que a expressão ver a nudez de ou descobrir a nudez de são eufemismos que significam ter acesso à sexualidade de

É possível que Cam tenha violentado seu pai e, como se não bastasse, saiu e contou aos irmãos (só não dá para saber se ele contou a história inteira, apesar de que Noé a descobriu). Essa pode ter sido a causa para haver recebido tamanha palavra de maldição. Como já foi dito, a maldição não foi proferida contra ele, e sim contra sua descendência Canaã. O redator parece fazer questão de deixar essa informação em evidência. V. 18: “Os filhos de Noé, que saíram da arca, foram Sem, Cam e Jafé; Cam é o pai de Canaã.” O redator não citou a descendência dos outros dois irmãos, deixando para fazê-lo apenas no capítulo 10 (Jafé designa os gregos, cretenses e cipriotas; Cam designa Canaã e Egito; Sem dá origem aos semitas, dentre os quais está o povo de Israel, a quem Deus promete a terra de Canaã e eles a conquistam).

O redator, nos versículos que seguem, continua enfatizando a relação de Cam com Canaã. V. 22: “Cam, pai de Canaã, vendo a nudez do pai, fê-lo saber, fora, a seus dois irmãos.” V. 25: “Maldito seja Canaã; seja servo dos servos a seus irmãos.” V. 26: “Bendito seja o SENHOR, Deus de Sem; e Canaã lhe seja servo.” V. 27: “Engrandeça Deus a Jafé, e habite ele nas tendas de Sem; e Canaã lhe seja servo.”

Por isso, a maldição parece fazer muito mais sentido a partir dessa noção de que o que ocorreu naquele episódio foi uma violência sexual incestuosa.

* Retirado da Bíblia Hebraica Stuttgartensia. Coloquei apenas as consoantes porque não consegui acrescentar os diacríticos.

** Transliteração livre, não segui as regras tradicionais.

*** Almeida Edição Revista e Atualizada

**** Idem

Obs.: Ao escrever o texto, baseei-me em anotações feitas por mim nas aulas de Cultura do Israel Bíblico, da professora Suzana Chwarts.

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A morte do gato preto

04/11/2011

Sim. O defunto descansava defronte ao meu portão. Aproximei-me na ilusão de encontrá-lo dormindo. Nossos olhos arregalados encontraram-se, porém só nos meus havia terror e remorso. Sua boquinha funebremente aberta não miava nem pedia.

Voltei a casa em vivos prantos. Disseram-me que eu era uma besta. Que exagero, chorar por causa de um bicho que nem conhecia! O gato amarelo também chorou pelo amigo. De madrugada ouvia-se o lamento soturno às patas do companheiro. Talvez estivesse arrependido por haver impedido que o bichinho me pedisse o socorro de um carinho em certa manhã fria.

Sempre gostei de gatos, mas eles são muito ariscos comigo. Fogem de mim como se eu fosse a mulher do saco dos gatinhos indefesos. No entanto, em uma manhã, ao sair de casa, deparei-me com o descarnado gato preto. Caminhou em minha direção, seguindo-me. Estava sujo e machucado, por isso preferi não lhe dar muita confiança. Alguns passos mais tarde, o clima gélido obrigou-me a voltar para buscar uma blusa. Ao portão, o bichinho hesitou. Entrava ou não entrava? Seu amigo, o gato amarelo, bem mais robusto, o incentivou a fugir. Aquela poderia ser uma fria. É certo confiar em alguém que não lhe deu confiança? Quando saí, devidamente agasalhada, já não os encontrei.

Ontem à tarde, minha mãe começou a ouvir uns miados que eu, inicialmente, não escutava. Ela reclamou que alguns gatos estavam invadindo nosso terraço às madrugadas. Lembrei-me imediatamente do gato preto da manhã gelada. Abri a porta e o encontrei acompanhado de seu amigo em minha garagem. O camarada amarelo fugiu aos saltos. O pretinho demorou-se um pouco mais, imaginando talvez que eu o convidaria para entrar e tomar uma xícara de leite. Foi saindo de mansinho, sem tirar de mim os olhos semivivos suplicantes por adoção, cuidado e amor.

Corri para buscar o leite, mas perdi tempo tentando convencer minha mãe, que dizia: “Não faça isso! Se você der leite para ele agora, ficará mal-acostumado e voltará aqui todos os dias pedindo comida.” Optei por desobedecê-la. Porém, quando olhei novamente para o portão, meu gatinho não estava mais ali. Aquelas eram suas últimas horas de vida e eu não sabia.

Primeiramente pensei que o pobre coitado tivesse morrido de fome. “Claro que não”, disseram-me, “o gato já parecia doente. Teria morrido de qualquer maneira.” Que seja! Não me importa a causa da morte. Se eu o tivesse deixado na garagem, oferecido-lhe um pouco de comida e lhe dado  carinho, ele teria agonizado feliz, sentindo-se acolhido. Jamais me perdoarei por ter sido tão desalmada.

Todos têm razão… Sou uma besta, ou melhor, um bode. Bodes devem ser separados das ovelhas no dia do Juízo Final: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno preparado para o diabo e para os seus anjos. Porque eu tive fome e não me destes de comer. Tive sede e não me destes de beber. Fui forasteiro e não me recolhestes. Estive nu e não me vestistes, doente e preso, e não me visitastes. Em verdade vos digo: todas as vezes que o deixastes de fazer a um desses mais pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer.” Mateus 25: 41b (Bíblia de Jerusalém)

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O mal entendido e a questão da linguagem em Crainquebille

17/09/2011
Sempre que se fala em mal entendido, lembro-me do conto Crainquebille, do escritor francês Anatole France.
Quando li, senti um imenso dó do velho herói, que teve sua vida (que já era medíocre) praticamente destruída por causa dos “ouvidos sistemáticos” do agente 64. Resolvi, então, escrever alguma coisa (uma espécie de ensaio) sobre o interessantíssimo, engraçado e trágico conto.
Bem, o conto é a história de Crainquebille, um velho que andava pelas ruas de Paris vendendo legumes e verduras num carrinho. No momento em que ele precisou esperar que uma freguesa lhe pagasse o que comprara, acabou por obstruir a passagem e foi advertido por um policial (o agente 64) para que saíse do caminho. Crainquebille não obedeceu porque queria receber seu dinheiro e, ao ver que o agente 64 iria lhe aplicar uma multa, começou a praguejar. O policial entendeu os resmungos como uma ofensa (“morte aos bigorrilhas”) e o levou preso. Apesar de um homem respeitado (Doutor Mattieu) testemunhar a seu favor no julgamento, Crainquebille foi condenado a quinze dias de reclusão. Quando retornou à sua rotina diária, percebeu que as pessoas o evitavam e o hostilizavam. Revoltado com isso, mas sem saber se comportar perante uma situação até então desconhecida para ele, o protagonista tornou-se um velho ranzinza, gastando em bebida o pouco dinheiro que recebia.
O mal entendido não foi originado no praguejo. A confusão na comunicação surgiu quando houve desentendimento na vontade de ambos. Crainquebille não entendeu que aquela era uma ordem a ser cumprida imediatamente. O agente 64, por sua vez, não compreendeu que Crainquebille precisava receber o seu dinheiro e teria prejuízo se saísse dali. Fazia parte do trabalho do policial ser obedecido. Se isso não acontecesse, ele sairia desautorizado da situação. Já o protagonista queria receber o dinheiro, que era seu de direito, já que a freguesa havia retirado e levado a mercadoria. Esse conflito entre os dois fez com que o agente 64 ficasse à espera de uma ofensa que, em seus ouvidos, vinha sempre representada em sua mente pela frase “morte aos bigorrilhas”. Com isso, bastou que Crainquebille começasse a praguejar para que o agente 64 ouvisse e organizasse as informações da forma como costumava interpretar os insultos.
Esse mal entendido causado tem muito a ver com a questão da inteligência de senso comum e a do modo sistemático, expostas por Bernard Lonergan. Segundo ele, a inteligência sistemática é aquela em que o conhecimento fica emoldurado em definições, e está completo, acabado. Já a inteligência de senso comum tem como característica a espontaneidade. Ela não aceita definições gerais e age por analogia que, nesse caso, consiste na assimilação (que absorve resultados de operações bem sucedidas ou não) e no ajuste (faz as modificações necessárias para não cometer o mesmo erro da operação mal sucedida). Assim, na inteligência de senso comum, não há uma definição concreta e objetiva e, sim, um aprendizado que, conforme é usado, pode sofrer modificações de sentido, de acordo com o seu sucesso ou o seu fracasso.
Em vista disso, pode-se entender que o agente 64 estava utilizando um modo sistemático de pensamento, quando deveria utilizar a inteligência de senso comum. Sua definição de insulto estava limitada à frase “morte aos bigorrilhas” e tudo que lhe parecesse ofensa era recebido dessa forma. A prova disso é que, durante o julgamento, ao ser interrogado pelo presidente quanto ao que disse o Dr. Mattieu (defendeu Crainquebille ao dizer que este não ofendera o policial), o agente 64 diz que o médico também o ofendera. Segundo ele, esta ofensa também foi um grito: “morte aos bigorrilhas”.
Com Crainquebille o problema foi outro. Apesar de o protagonista utilizar o pensamento sistemático em situações em que se deveria usar o de senso comum, como será visto adiante, nesse caso o que o prejudicou foi sua dificuldade com relação à linguagem. O texto diz que ele não era bom com as palavras e isso o impediu de esclarecer o mal entendido com o policial. O problema não era apenas de vocabulário, muito pobre e vago, mas também de construções sintáticas. Ao perceber essa dificuldade, é possível vir à mente Fabiano, herói de Vidas Secas, de Graciliano Ramos. De fato, a relação entre ambos é bem possível no que diz respeito à linguagem. No conto lemos: “Crainquebille tentou expor-lhe o acontecido, o que não lhe era fácil, pois não tinha o hábito da palavra”. “Esse interrogatório teria produzido mais luz se o acusado tivesse respondido às perguntas que lhe eram feitas. Mas Crainquebille não era afeito às discussões, e, num tal ambiente, o respeito e o espanto trancavam-lhe a garganta”.
Já em Vidas Secas, lemos: “às vezes utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos – exclamações, onomatopéias. Na verdade falava pouco. Admirava as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas, em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas”.
A posição social de Crainquebille e Fabiano pode ser a causa da dificuldade que ambos têm com as palavras. Com isso, pode-se comparar a diferença social de diversas personagens do conto e como ela influencia a linguagem de cada um. Os advogados e o presidente do tribunal sabiam utilizar a linguagem, tanto que o advogado de defesa quase convenceu o presidente de que seu cliente era inocente. Se não conseguiu, não foi por problema de retórica, mas novamente o social: o texto diz que, naquela época, os policiais eram muito bem vistos e respeitados. O presidente não poderia desacreditar um protetor da lei e da ordem. Por isso, mesmo com o testemunho do doutor Mattieu a favor de Crainquebille, o agente 64 acabou vencendo o processo.
A mesma falta de familiaridade com a linguagem é a causa de Crainquebille não conseguir se defender das injustas acusações. O herói aceitava o que acontecia sem se revoltar. Ele não tinha idéia da injustiça que sofria, chegando a achar correto que o condenassem, apesar de se saber inocente. Isso é incoerente, mas Crainquebille não conseguia perceber isso. Chegou a pensar inclusive na possibilidade de realmente haver gritado “morte aos bigorrilhas!”, de alguma maneira misteriosa, mas de que não conseguia se recordar. Contudo, apesar de ter pensado até no sobrenatural, não pensou que o presidente pudesse estar errado Ele tinha consciência de sua inferioridade em relação ao agente 64 e ao presidente do tribunal. Por isso, não podia passar em sua cabeça que aquelas pessoas tão importantes estivessem erradas. Era normal que tudo o que elas dissessem fosse considerado, ele não era ninguém para se queixar. Com o policial, ocorria quase o contrário: como autoridade, a razão deve ser dele e, se não é obedecido, sente-se ofendido (como já vimos, uma definição sistemática de ofensa) e toma as providências necessárias para que a “justiça” seja feita.
Assim, é possível interpretar como sistemática a maneira com que Crainquebille enxerga o mundo e o espírito jurídico que o rege. A sociedade é dividida em camadas, sendo natural que algumas tenham mais privilégios que outras. Não há possibilidade de ascensão e não há nada de errado nisso. Sua definição de justiça estava completa, não aceitava modificações nem adaptações.
Ao que parece, Crainquebille utilizava o modo de inteligência sistemático para muitas outras definições da vida. Quando ele elogia a limpeza e higiene da cela onde esteve, não podemos saber se o ambiente era realmente limpo ou se o protagonista o considerou assim porque sua idéia de limpeza era diferente da que geralmente se tem. O que se pode saber era que o ambiente em que costumava descansar ou dormir não era de muito conforto e provavelmente não havia muita higiene. Comparando seu ambiente de descanso e a cela para onde o levaram, Crainquebille elogiou o espaço, chegando a dizer que era possível comer no chão.
Ao sair da cadeia, o protagonista vê-se evitado pelos que antes eram seus fregueses. A partir disso, ele enxerga como realmente era injusta a sociedade em que vivia. Por não saber se comportar perante esta situação, o velho Crainquebille tornou-se injusto (exatamente a característica que notara com tristeza no meio parisiense), tratando mal as pessoas, mesmo aquelas que não mudaram de atitude em relação a ele. O conto diz:
Não há como negar: ele tornou-se inconveniente, ranzinza, rixento, deslinguado. É que, achando a sociedade imperfeita, não tinha ele a aptidão de um professor da Escola de Ciências Morais e Políticas para exprimir o que pensava sobre os vícios do sistema e as reformas necessárias, e as idéias não se lhe desenrolavam na cabeça com ordem e medida.
Crainquebille não possuía experiências de vida para lidar com a imperfeição que recém descobrira na sociedade. Esse problema parece ser de senso comum. Ele percebeu que sua definição sistemática para justiça estava equivocada no meio onde se encontrava. Lonergan afirma que “o homem de senso comum está preparado para falar e agir apropriadamente em todas as ocasiões normais em seu meio ambiente”. Um homem de senso comum sabe exprimir sua forma de pensar de acordo com a situação a ser encarada. Ele deve adaptar o seu próprio senso comum, para não parecer um estranho ou um louco, como aconteceu com Crainquebille.
Ao final do conto, pode-se pensar numa distante evolução no senso comum de Crainquebille. Ao se ver na rua, passando frio e fome, lembrou-se da cadeia, onde tinha teto, comida e cobertor. Percebeu então que estar lá era melhor do que permanecer na situação terrível em que se encontrava. Daí Crainquebille lembrou-se do motivo por que foi preso: procurou um guarda e lhe gritou: “morte aos bigorrilhas!”, pensando que este se sentiria ofendido e o prenderia, da mesma forma como fez o agente 64. Porém, o policial não se importou, considerando-o um velho louco. Com esse fracasso, o protagonista percebe que sua tentativa de modificação falhou. Essa evolução de seu senso comum é vista como bem distante, já que essa modificação ainda era equivocada e nã se encaixava às situações normais.
Também é possível ver esta tentativa como sistemática, se for levado em consideração que Crainquebille estava utilizando uma espécie de fórmula lógica: se “morte aos bigorrilhas” ofendia o agente 64, a mesma expressão deveria ofender quaisquer outros agentes. Essa idéia também se fechou numa definição paradigmática. Se o seu aprendizado tivesse sido de senso comum, Crainquebille teria pensado em outras formas de desacato ao policial e muito provavelmente teria atingido seu objetivo, que era o de voltar à cadeia.
Por tudo o que consegui pensar sobre o conto, podemos concluir que Crainquebille possui uma crítica à sociedade parisiense da época, em que pessoas como o protagonista eram molestadas por causa da linguagem e indignas de serem consideradas cidadãs. Também é possível concluir que o problema de linguagem dessas pessoas era devido, entre outras causas, à confusão ao utilizar a inteligência sistemática e a de senso comum.
Se você se interessou pelo conto e deseja lê-lo, não é difícil encontrá-lo: o livro de contos intitulado Crainquebille (nome do nosso conto, parece ser o principal) pode ser encontrado na maioria das bibliotecas públicas, tanto em português como em francês. Também está presente em português na antologia Os 100 melhores contos de crime e mistério da literatura universal, organizada por Flávio Moreira da Costa. Isso sem contar que ele está presente em inúmeros sites de downloads…
Se você se interessou pelo texto de Bernard Lonergan, pode encontrá-lo em espanhol na páginahttp://www.lasalle.org.ar/sap/lonergan/Horizontesqueseunen.htm
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O velório

21/05/2011

Uma luminosidade fúnebre revelava as faces úmidas naquela igrejinha. O caixão à frente no púlpito tentava em vão tomar para si um pouco daquela luz. Todos perceberam isso e, de vez em quando, alguém se levantava com a desculpa de que queria se aquentar com o café forte e gelado, e parava uns instantes em frente ao caixão que carregava 84 anos de dor, sofrimento e humilhações.

- Dona Mara enfrentou cada uma!

- A irmã Marinha era fiel a Deus. Sofreu tanto, mas nunca deixou de orar, nem de seguir a Jesus.

Assim passou-se toda a madrugada. Pela manhã, a esperança da claridade do dia foi frustrada. O tempo estava fechado, frio. Frio. Frio. Irmã Graça levou cafezinho quente para todos. Aquele calorzinho reanimou os corações doloridos que batiam juntos ali dentro. Seguiu-se uma sequência de cochichos, comentários, lamentos. Vez por outra ouvia-se um suspiro angustiante do filho de D. Mara. Outras vezes, ouvia-se os soluços de seus netos. Foi assim durante toda a manhã. Logo após o almoço, o pastor tomou a palavra.

- Meus amados irmãos, estamos aqui hoje para chorarmos juntos a perda de nossa querida irmã Mara. Nós lamentamos aqui, mas o céu se regozija com a chegada de mais uma vitoriosa! D. Mara encontrou-se com o Senhor, ganhou um novo nome e viverá eternamente com o nosso Deus.

Ouviu-se alguns murmúrios conformados. “Amém!” “Aleluia!” Alguns ali não se convenciam dessa história de céu e soluçavam amargosamente como forma de protesto.

- Hoje, meus irmãos, não vou orar pela alma de nossa irmã, pois D. Mara não precisa mais de orações. Quero interceder por seus familiares, para que o Senhor venha confortá-los neste momento tão difícil…

Enquanto ele ainda falava, entraram na igrejinha três policiais fazendo alarde. Um deles disse:

- Ninguém saia daqui nem se mexa do lugar! Nós iremos trazer a presidiária, que deseja se despedir da mãe. Aguardem em seus lugares, pois ela está chegando com a viatura.

A igrejinha inquietou-se, assustada, mas ninguém ousava se mover. Uma das netas de D. Mara começou a chorar mais alto, exclamando: “Mamãe está vindo!” O pastor sugeriu que esperassem a chegada de Dalila para continuarem o culto e fazerem a oração antes que o corpo fosse levado ao cemitério.

Passavam-se os minutos e Dalila não chegava. Todos já se impacientavam e queriam se levantar, andar… mas tinham medo. Duas horas depois os mesmos policiais entraram escandalosos, ordenando aos gritos que todos saíssem do local. Em poucos minutos a igrejinha perdeu todo o seu calor, só ficou ali aquele corpo frio cujo caixão implorava por claridade. Mas não havia luz para ele.

Dois policiais pararam à porta da igreja, cada qual segurando uma metralhadora, posicionados para qualquer imprevisto. Duas policiais retiraram do camburão uma mulher algemada. Alta, forte, em seus trinta e poucos anos. Do lado de fora, todos gritavam por seu nome.

- Dalila, estamos com você!

Ela passou pelo corredor de gente sem olhar para os lados, deixando-se levar pelas policiais. Seu semblante era duro, sério e submisso. Lá fora todos aguardavam. Alguns curiosos pararam para ver o que acontecia.

- Coitada, até no velório D. Mara passa vergonha por causa da filha.

- Os policiais precisam mesmo ficar de olho, vai que tem algum companheiro dela por aqui planejando fuga…

A despedida durou, se muito, uns cinco minutos. Contudo, a mulher que saiu da igreja parecia diferente daquela que entrou. O rosto revelava certa fragilidade naquela fortaleza, talvez devido aos olhos vermelhos e inchados e a cabeça sempre baixa, forma de tentar esconder os maiores delatores de sua alma. Seus irmãos, primos, filhos e sobrinhos a aclamavam, esquecendo-se das policiais que a seguravam pelos braços e a conduziam de volta ao camburão. Sua filha, pequena adolescente, gritou:

- Mamãe, eu te amo!

Sem erguer a cabeça, Dalila fez uma tentativa de acenar com as mãos algemadas, porém foi logo reprimida pelas policiais. Dalila entrou no carro sem olhar para o povo, mas ela estava aquecida agora.

O enterro foi triste, como geralmente se é. Cada um voltou para sua casa e procuraram conforto debaixo de um cobertor limpo. D. Mara foi viver no céu, onde não falta calor nem claridade.

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Sozinha, Singular e Sublime

08/05/2011

Chego em casa tarde. Já é quase meia noite. Quando abro a porta, ouço-a gritar lá do quarto:

- Mariana, foi você que chegou?

Respondo com certa impaciência que sim (quem mais poderia ser?).

- Ah, então agora posso dormir tranquila. Todos os pintinhos estão debaixo de minhas asas!

Acho graça de seu comentário, exagerado que só!

Minutos depois, passo pelo quarto dela. A luz está apagada, mas a claridade do corredor me permite observar o anjo que dorme. Que rosto mais lindo, mesmo com aquele semblante sofrido. Não, ela não é velha. Porém, nos últimos meses os sofrimentos a envelheceram um pouco. Ela está sozinha na cama. Seu marido ainda não chegou.

Permaneço em pé à porta do quarto contemplando aquela inocente figura. Lembro-me envergonhada de minha infância. O que eu fiz para agradecer por tudo o que eu fiz para agradecer por tudo o que esse anjo já fez por mim e por meus irmãos?

Lembro-me da cidade de Ipatinga. Quanta dificuldade!… Ela cuidava sozinha de quatro crianças. O marido, que vivia longe, nem sempre enviava o dinheiro. Ela orava para que Deus multiplicasse o arroz, o feijão, o óleo, o gás…

“Multiplica, multiplica. Multiplica, Senhor, o meu gás!”

Era essa a pequenina canção de multiplicação. O incrível era que realmente o gás rendia mais tempo do que o normal.

Ela também passou por inúmeras humilhações quando o moço aparecia para cortar nossa luz ou nossa água, ou quando o dono do imóvel aparecia para cobrar o aluguel atrasado. Muitas vezes eram suas irmãs quem nos ajudavam. Ela não podia trabalhar, quem cuidaria de quatro crianças? Ela não aceitava a ideia de nos deixar sozinhos. Quem nos ajudaria na lição de casa? Quem nos daria lição de comportamento, a partir da observação de nossas atitudes? Nosso pai não estava ali, só nos visitava por três dias a cada mês. Hoje eu sei que a ausência dele era devido ao trabalho. Mas como isso era algo complicado para mim naquela época! Eu simplesmente não entendia aquilo! Por que as mães de meus amigos viviam acompanhadas e a minha mãe vivia sozinha? Sempre sozinha, desdobrando-se para que nós não sofrêssemos com a falta de dinheiro. Eu sempre a vi dormir cansada pelas tarefas do dia. Guerreira!

E eu ficava tão alegre quando meu pai aparecia! Não só por mim, mas porque minha mãe se renovava. Como seu rosto ficava diferente, iluminado! Mas esse tempo durava tão pouquinho!…

Ela sempre foi professora na igreja. Desde que me entendo por gente, eu a vejo caprichar nas lições para as crianças. Era com prazer que ela pregava o amor de Cristo àqueles pequenos. E também sozinha é que eu a via. Não consigo me lembrar de meu pai nos acompanhando à igreja. Mas uma imagem é completamente nítida em minha memória: minha mãe carregando uma sacola pesada, cheia de material da EBD, andando a passos largos, para não chegar atrasada. Os quatro filhotinhos brigando por um espaço debaixo de suas asas… Era uma luta para ver quem conseguia um lugar ao lado dela. E os quatro, de perninhas curtas, tentando, sem sucesso, andar na mesma velocidade que ela.

Um gosto amargo me vem à garganta quando eu me lembro dos muitos momentos em que a entristeci: eu desobedeci, menti, peguei o que não me pertencia, respondi mal, fui rebelde… Ela não me amou menos por isso. Ela não deixou de orar por mim.

Foi sozinha também que ela passou muitas noites em claro, quando adoecíamos. Sozinha também que ela ficava doente, mas se esforçava para manter-se de pé, por nossa causa.

Mulher forte!!! Só vim a descobrir sua fragilidade depois que cresci. Percebo quantas sequelas ela tem da solidão.

Ainda esta semana eu a vi carregar uma bolsa pesada cheia de material para a EBD. Vai sozinha. Ela insiste em investir na salvação das crianças.

Hoje ela sofre porque uma filha está longe, porque outra filha só pode voltar para casa nos finais de semana e porque os outros dois filhos saem para trabalhar e estudar, e só voltam à noite. Passa o dia inteiro em casa. Sozinha. Ela sofre porque alguns problemas fizeram com que nossa família não fosse mais a mesma. Ela sofre porque não tem um braço onde recostar a cabeça… Ela diz que seu sonho era casar e viver um amor crescente. Seu sonho era viver esse amor até a morte. Seu sonho era viver de mãos dadas com esse amor.

Por isso é que vejo dor em seu rosto agora. Hoje, como sou adulta, ela desabafa, deixa transparecer o sofrimento. É por isso que a vejo como mulher frágil e carente.

O que posso fazer por ela? O dia das mães está chegando, eu queria vê-la feliz e satisfeita. Gostaria de descobrir algo que alegrasse seu coração inigualável. Será que dizer “obrigada” é suficiente? Resolveria o problema se eu dissesse “te amo”?

Creio que não, mas posso começar por aí. Imagino que ela também irá gostar se eu disser que minha companhia está garantida enquanto eu viver. Jamais a deixarei sozinha.

Seu sono é tão leve, coitada! É melhor que eu saia na ponta dos pés e apague a luz do corredor, para não despertá-la.

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A mulher de Jó amaldiçoa Deus?

21/01/2011

“Jó, sentado em cinza, tomou um caco para com ele raspar-se. Então, sua mulher lhe disse: Ainda conservas a tua integridade? Amaldiçoa a Deus e morre.” Jó 2:8-9

Todos já ouviram sobre a famosa história do sofrimento de Jó. A Bíblia conta sobre como, repentinamente, ele passou de homem rico e próspero para uma criatura miserável. Quem conhece um pouco mais de Bíblia irá se recordar da mulher de Jó. Ao ver que o marido permanecia fiel ao Senhor mesmo naquela situação, ela não resistiu e disse: “Amaldiçoa a Deus e morre!”

A grande pergunta é: a esposa de Jó realmente amaldiçoou Deus? Em português vemos claramente que sim. Contudo, para termos certeza, examinemos o que diz no original, em hebraico:

barech Elochim vamut

A tradução literal disto é: abençoa Deus e morre. Ela utiliza o imperativo , que está relacionado a abençoar. A raiz é a mesma que para joelho. A bênção, na tradição antiga, era dada sobre o joelho. Acreditava-se que o sêmen ficava nessa parte do corpo (a palavra genealogia vem de geni = joelho). Não há na Bíblia a expressão amaldiçoe Deus.

Bom, se é assim, por que a palavra foi traduzida como amaldiçoe? Possivelmente, o que ocorreu foi que o redator do livro de Jó, por respeito ao nome de Elochim, não teve coragem de escrever a expressão “amaldiçoe Deus”, e usou “abençoe” como eufemismo.

Esse eufemismo (a troca da palavra alamdiçoar por abençoar) é encontrado novamente em I Reis 21:10-13. Dois homens acusam Nabote de blasfemar contra Deus. A expressão ali é:

 

berach Navot Elochim

O texto é traduzido como: “Nabote blasfemou contra Deus”. Na verdade, o que se lê em hebraico é que Nabote proferiu bênçãos a Deus. Neste caso, é claro o eufemismo, pois seria uma contradição ele ser morto por abençoar Deus.

É possível que, no caso de Jó e sua mulher, tenha ocorrido o mesmo fenômeno, isto é, ele ordenou que o marido amaldiçoasse o Senhor, apesar de o texto dizer o contrário.

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Os números de 2010

02/01/2011

Os duendes das estatísticas do WordPress.com analisaram o desempenho deste blog em 2010 e apresentam-lhe aqui um resumo de alto nível da saúde do seu blog:

Healthy blog!

O Blog-Health-o-Meter™ indica: Este blog é fantástico!.

Números apetitosos

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Um duende das estatísticas pintou esta imagem abstracta, com base nos seus dados.

Um Boeing 747-400 transporta 416 passageiros. Este blog foi visitado cerca de 2,000 vezes em 2010. Ou seja, cerca de 5 747s cheios.

Em 2010, escreveu 8 novo artigo, aumentando o arquivo total do seu blog para 22 artigos. Fez upload de 10 imagens, ocupando um total de 6mb. Isso equivale a cerca de uma imagem por mês.

O seu dia mais activo do ano foi 18 de setembro com 33 visitas. O artigo mais popular desse dia foi Falsus Inutilis.

De onde vieram?

Os sites que mais tráfego lhe enviaram em 2010 foram orkut.com.br, search.conduit.com, google.com.br, lucasdesouzadmd.wordpress.com e busca.globo.com

Alguns visitantes vieram dos motores de busca, sobretudo por o cristão e a guerra, poema negritude, caracteristicas da negritude, negritude e seus representantes e poemas moçambicanos

Atracções em 2010

Estes são os artigos e páginas mais visitados em 2010.

1

Falsus Inutilis setembro, 2010
1 comentário

2

Poesia moçambicana e Negritude julho, 2010
1 comentário

3

A ética, o cristão e a guerra setembro, 2009
2 comentários

4

Oralidade em Luuanda dezembro, 2009
2 comentários

5

Bíblia: Um livro de autoajuda? agosto, 2009
4 comentários

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