h1

A ética, o cristão e a guerra

28/09/2009

O objetivo deste trabalho é falar sobre a relação entre a guerra e a ética, analisando também a posição que o cristão assume perante este conflito.

Antes de começarmos, porém, é necessário definir guerra. Segundo o dicionário Aurélio, guerra é “luta armada entre nações ou partidos; conflito.” Granz e Smith (2005), em seu Dicionário de Ética, dizem que guerra “é o conflito armado entre nações ou grupos de pessoas”. Podemos concluir então que, para haver guerra, é necessário armas. Isso significa conseqüentemente, que não há guerra sem violência, sem feridos e sem mortos.

A guerra pode ser originada por vários motivos: religioso, ideológico, político, geográfico, discriminatório, etc. No entanto, nem todo motivo é considerado justo pela sociedade e, em alguns casos, a guerra poderia ser evitada devido à existência de outros meios possíveis para a resolução do conflito. Com base nisso, surgiram algumas visões e posições a respeito da guerra, que serão enumeradas a seguir:

Ativismo: Segundo esta visão, a guerra sempre é uma forma válida para se resolverem os conflitos entre nações ou grupos. Os ativistas têm como argumento o fato de que todo o cidadão deve respeitar o governante e obedecer-lhe. Além disso, o indivíduo não deve estar passivo numa luta em defesa dos interesses de seu povo ou grupo.

Teoria da guerra justa: essa teoria defende a guerra originada por uma causa ou intenção justa. Esta visão acredita que, em alguns casos, o combate é eticamente justificável. Por exemplo, uma nação possui todo o direito de se defender diante de um ataque ou de um opressor. Não foi esta nação que começou, e há vidas inocentes em jogo, por isso o correto seria participar da guerra e defender o povo.

Pacifismo: os pacifistas partem da premissa de que é errado se utilizar da violência para acabar com a violência. São contra o uso de armas, tanto numa guerra quanto numa intervenção policial, ou mesmo no caso de posse de armas. Os pacifistas acreditam que é possível as pessoas resolverem suas diferenças por meio da diplomacia.

Não-violência: é uma visão que defende a luta pelos ideais e princípios da nação ou grupo, porém não pode ser considerada uma maneira de guerrear porque eles se recusam a usar a violência para atingir seus objetivos. Os que seguem a visão da não-violência lutam, combatem, chamam a atenção do mundo para a sua causa, mas não se valem da força física, nem de armas. Gandhi e Martin Luther King são exemplos de líderes defensores da não-violência.

Não-resistência: trata-se de uma visão contra a violência, porém ao ponto de agir passivamente ou não agir diante da violência oponente. A idéia é que não resistir ao inimigo também é uma maneira de protestar.

Terrorismo: é uma forma antiga de guerrear (a metodologia dos zelotes, do Novo Testamento, era considerada terrorista). Trata-se da violência armada, militar ou não, que procuram intencionalmente atacar civis para que, pelo medo gerado, possam atingir seus objetivos, que podem ser religiosos, políticos, econômicos, etc.

Os indivíduos possuem visões muito diferentes uns dos outros em relação a este assunto. Uns acreditam que a opressão é um instinto do ser humano. Porém, se considerarmos que instinto é algo biológico, inerente a uma determinada espécie e que não se pode fugir dele, então poderemos concluir que a opressão não é um instinto, já que é possível evitá-la e controlá-la; além disso, existe um número grande de pessoas (e não podem ser consideradas exceções) que são oprimidas e não oprimem nem sentem impulsos para oprimir. Acreditar que a opressão é inerente ao ser humano pode ser uma maneira de o indivíduo demonstrar sua visão ativista de guerra.

Há indivíduos que procuram defender o pacifismo com o argumento de que matar pessoas é uma crueldade. Mas aqui a questão está no conceito de que temos de crueldade. A crueldade sempre esteve relacionada à dor ou sofrimento sem propósito que um indivíduo impõe sobre outro. Contudo, quando há um propósito justo aquele sofrimento pode estar relacionado à crueldade? Segundo o exemplo de Barrington (1974), um cirurgião não pode ser considerado cruel por infligir dor a um paciente, pois sabemos que aquela dor é temporária e o paciente, após algum tempo, se sentirá melhor do que se sentia antes da cirurgia. Por isso, os defensores da guerra justa consideram que é mais cruel permitir que oponentes destruam o povo inocente do que não resistir à violência em prol de melhorias, mesmo que por um tempo pessoas inocentes tenham que sofrer.

Em favor da guerra, tanto os defensores da guerra justa quanto os ativistas possuem o seguinte argumento:

Pelo fato de que os métodos amorais e imorais prometem maiores vantagens nas lutas políticas, todas as políticas ficam manchadas pela imoralidade. A tentativa de evitar essa nódoa, entretanto, a busca de pureza, pode tornar-se a maior imoralidade de todas no sentido de causar o maior sofrimento, porque deixa a arena política à mercê dos que têm menos escrúpulos. (p.57)

Isso significa que, mesmo que pensemos na guerra como algo imoral ou amoral, não devemos deixar de praticá-la porque, se não a fizermos, aqueles que não estão interessados em ética e moral a farão, e o resultado será pior do que seria se tivéssemos aceitado guerrear. Na não-resistência as conseqüências são piores no sentido de que mais pessoas inocentes são atingidas, pois não há quem as defenda. Essa permissividade ao ataque a inocentes sem defesa pode, como já foi dito, ser considerada mais imoral do que a resistência.

Assim como a sociedade possui diferentes formas de pensar a guerra (este não será o foco do trabalho), o meio cristão também diverge em suas opiniões quanto ao assunto. É possível encontrar cristãos que defendem o ativismo, o pacifismo ou a teoria da guerra justa; e todos eles têm argumentos bíblicos para defenderem sua visão.

Os cristãos ativistas utilizam como principal argumento o fato de que o governo é instituído por Deus (Rm 13:1-7), e nosso dever é obedecer às autoridades e, conseqüentemente, participar da guerra quando esta for declarada.

É no Antigo Testamento que há mais menções da autoridade que o Senhor dá ao governante: Deus escolhe Davi para reinar sobre Israel (1 Sm 10:24), e depois deste vêm outros reis. Em Daniel 4:25 diz que “o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem quer.” No Novo Testamento também há referências à autoridade humana. Em Romanos 13:4, que já foi citado anteriormente, diz, com relação ao governo: “Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal.” Há também a famosa declaração de Cristo, sempre usada para defender a submissão aos governantes: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.” (Mt 22:21). Pedro diz: “sujeitai-vos a toda instituição humana por causa do Senhor, quer seja ao rei, como soberano, quer às autoridades, como enviadas por ele, tanto para castigo dos malfeitores como para louvor dos que praticam o bem.” (1 Pe 2:13, 14). Portanto, se o governo decide pela guerra, sendo esta justa ou injusta, o cristão deve concordar e participar, pois a obediência à autoridade é obediência a Deus; e a desobediência à autoridade consiste na desobediência a Deus. Esta é a visão do cristão ativista.

Pensemos agora no cristão pacifista. Para ele, é terminantemente errado participar da guerra. O pacifista utiliza três grandes argumentos contra a participação numa guerra: 1) um dos mandamentos do decálogo é “não matarás” (Ex 20:13); 2) Jesus ordenou que não resistíssemos ao mal (Mt 5:39); 3) devemos amar todos (inclusive nossos inimigos), e a guerra expressa ódio, não amor.

Quanto ao mandamento do decálogo, os pacifistas afirmam que a Bíblia deixa muito clara a proibição. Não se pode assassinar, e a principal conseqüência de se fazer guerra é o assassinato em massa. Contra o argumento dos ativistas quanto às guerras do Antigo Testamento, os pacifistas dizem que essas guerras não eram ordenadas por Deus, mas permitidas por Ele, e era o homem quem decidia por guerrear. Outros já argumentam que as guerras naquela época eram diferentes. Tratavam-se de guerras divinas e não humanas, e a prova disso eram as intervenções milagrosas de Deus nos conflitos.

Há um trecho bíblico em que Jesus declara: “Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada.” (Mt 10:34) Os pacifistas dizem que esta declaração não tinha a intenção de mostrar o objetivo da vinda de Cristo à Terra, mas seus resultados. Por causa dEle, por amor a Ele, haveria discórdias e divisões nas famílias e na sociedade. É realmente o que vemos hoje. Muitos são perseguidos por causa do amor de Jesus. Em alguns lugares as pessoas morrem se declararem fé em Cristo.

Outra passagem bíblica em que os pacifistas se baseiam para não desejarem a guerra é a do Sermão do Monte, quando Jesus diz: “não resistais ao perverso; mas, a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra” (Mt 5:39). Em Romanos 12:19-21 está escrito:

Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas daí lugar à ira; porque está escrito: A mim pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor. Pelo contrário, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem.

Um importante argumento em favor do pacifismo é o de que a Bíblia inteira fala de amor, e o maior de todos os mandamentos é o amor. Ainda no Sermão do Monte, Jesus disse que devemos amar os nossos inimigos e orar pelos que nos perseguem (Mt 5:44). A guerra expressa ódio e, na maioria das vezes, sua origem está no ódio. Portanto, participar da guerra é o mesmo que descumprir o maior dos mandamentos.

Existe também o cristão que assume uma postura equilibrada. Ele defende a teoria da guerra justa, à qual Geisler (1984) chama de seletivismo. O seletivista defende que é correto participar de algumas guerras, aquelas que possuem um motivo justo ou uma causa que futuramente beneficie a nação ou o grupo interessado. Se pensarmos nas guerras injustas, concluiremos que o ativismo está equivocado. Se pensarmos nas guerras justas, veremos o pacifismo como equivocado.

A Bíblia ordena que sejamos submissos aos governantes. Contudo, a própria Bíblia é clara em mostrar que às vezes não é certo obedecer ao governo quando este não está de acordo com os mandamentos divinos. Em Daniel 6, vemos a ordenação do rei em ser adorado e a recusa de três jovens tementes a Deus em obedecer-lhe (havia uma ordem divina superior: adorar somente a Deus). Como esta, há outras situações na Bíblia que mostram que a obediência a Deus vem antes da obediência ao governo humano.

Além disso, com relação às guerras do Antigo Testamento, os seletivistas afirmam que algumas foram concessivas, mas outras estavam dentro da vontade de Deus que ocorressem, como foi o caso, por exemplo, da guerra com os cananeus e outros povos:

“Porém, das cidades destas nações que o Senhor, teu Deus, te dá em herança, não deixarás com vida o que tem fôlego. Antes, como te ordenou o Senhor, teu Deus, destruí-las-ás totalmente: os heteus, os amorreus, os cananeus, os ferezeus, os heveus e os jebuseus” (Dt 20:16,17).

O mandamento que diz “não matarás” também tem sua justificação sob o ponto de vista da teoria da guerra justa:  em hebraico há muitas palavras que definem a palavra morte, cada uma expressando um sentido diferente. No caso da frase do mandamento bíblico, o verbo é teresach, e possui o sentido de assassinar. Portanto a melhor tradução seria “não assassinarás”. Um mandamento que proíbe o assassinato não está necessariamente proibindo a guerra. Os pacifistas acreditam que as mortes na guerra são assassinato. Contudo, uma das partes pode estar apenas se defendendo. Segundo Manuel Pedro Cardoso, a Nova Enciclopédia Larousse define assassinato como sendo um “homicídio feito com premeditação ou à traição.” Numa guerra, aqueles que se defendem ou lutam por um ideal justo não podem ser considerados assassinos. A morte não é desejada pelos combatentes, apesar de todos saberem que ela ocorrerá como conseqüência direta.

Além das guerras justificadas e justificáveis, devemos pensar também nas defensivas, isto é, aquela que um país se vê forçado a fazer quando é atacado. Não resistir, neste caso, acarretaria na morte de muitos civis inocentes, além de ceder à ocupação geográfica e política do inimigo.

Mais um argumento dos seletivistas está na reverência pela vida. Assim como não devemos tirar a vida de outros, devemos preservar a nossa e defendê-la. Os pacifistas utilizam o texto de Romanos 12:19-21 como argumento para a defesa da não-resistência. Entretanto, o versículo anterior (Rm 12:18) deixa claro que devemos ter a paz com todos, mas apenas até o ponto em que isto é possível. Isto significa que Paulo sabia que haveria situações em que sustentar a paz não depende da nossa vontade.

Após toda essa análise, podemos concluir apenas que não há uma visão definida por parte dos cristãos a respeito da guerra. Nem mesmo a sociedade em geral pode ter uma única opinião sobre o assunto, pois tanto a defesa quanto a repulsa da guerra possui argumentos eticamente favoráveis e desfavoráveis. Não podemos pensar na melhor solução para a questão da guerra, mas apenas levar em consideração o contexto em que ela está sendo criada e optar por aquilo que for “menos pior”, ou seja, sempre haverá inocentes prejudicados, mas devemos pensar numa alternativa em que esse prejuízo seja o menor possível.

 

Referências Bibliográficas

 

A Bíblia sagrada. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. Barueri, SP: SBB, 1988.

 

BARRINGTON MOORE, Jr. Da guerra, crueldade, opressão e sordidez humana geral. In: Reflexões sobre as causas da miséria humana e sobre certos propósitos para eliminá-las. Rio de Janeiro: Zahar, 1974.

 

BAUER, Johannes B. Dicionário de Teologia Bíblica v.1. São Paulo: Loyola, 1975.

 

CARDOSO, Manuel Pedro. Pacifismo. In: http://www.estudos-biblicos.com/pacifis.html. Acesso em 16 de junho de 2009.

 

GEISLER, Norman L. O cristão e a guerra. In: Ética cristã: alternativas e questões contemporâneas. São Paulo: Vida Nova, 1984.

 

GRENZ, Stanley J. e SMITH, Jay T. Dicionário de ética. São Paulo: Vida, 2005.

 

Não Violência. In: pt.wikipedia.org/wiki/Não-violência. Acesso em: 17 de junho de 2009.

About these ads

3 comentários

  1. Eu li o texto e o interessante foi justamente a contraposição dos argumentos, alem de estarem muito bem escritos.
    Gostei dessas informações sobre o pensamento da guerra e a ética cristã.
    E fica a minha opinião, a gerra é necessária; pois mesmo que eu queria se a favor da paz entre os povos, haverá aqueles desejando e provocando guerras. Portando lutar contra injustiça mesmo produzindo dor, se necessário.


  2. “Nós que em outro tempo nos matávamos agora recusamos fazer guerra contra nossos inimigos. “ Justino Mártir (160 d.C.) Os primeiros cristãos não participavam na guerra pelo fato de que a igreja primitiva seguia fielmente os mandamentos de Cristo. http://www.aigrejaprimitiva.com/dicionario/GUERRA.html


  3. […] A ética, o cristão e a guerra setembro, 2009 2 comentários 4 […]



Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

%d blogueiros gostam disto: