
Dever cumprido?
31/12/2011Dia 31 de dezembro. 1h da madrugada. Ouvi ruídos ao portão. Eram crianças conversando entusiasmadas com as novidades que encontraram no lixo. Com efeito, naquele dia meus pais fizeram uma limpeza na casa, eliminaram toda a bugiganga que havia aqui. Logo percebi a voz do meu pai ralhando com eles. Justificaram-se, dizendo que só iriam escolher o que lhes interessassem do lixo, prometendo juntar tudo depois. Fiquei curiosa e fui até à sacada ao lado do meu pai. Quando olhei para baixo vi quatro meninos felizes, carregando brinquedos velhos e inutilidades. De repente, voltei o meu olhar para um deles.
- Engraçado, aquele menino parece com um aluno que eu tive. – comentei.
A criança olhou para cima e sorriu envergonhado.
- Kleber?
- Ué, você mora aqui? – ele perguntou.
- Sim, eu moro aqui. O que você faz acordado a essas horas?
Kleber não respondeu. Abaixou a cabeça, virou-se de costas e aos poucos foi se afastando do grupo, querendo fugir de mim. Ele sempre faz isso. Quando nos encontramos na rua, Kleber tenta se esconder atrás de um carro ou de um poste. Às vezes ele me vê no supermercado, grita meu nome, dá um tchau e sai correndo. Acho que ele não gosta de que eu o veja fora do ambiente escolar. Sim, porque aqui fora ele não pode se passar por autossuficiente, como costumava fazer na sala de aula. Aqui fora eu tenho a chance de conhecê-lo verdadeiramente, posso saber de suas fraquezas e necessidades (socialmente falando). Deve mesmo ser constrangedor ser flagrado remexendo no lixo ao portão da ex-professora.
Seus irmãos continuam selecionando o que querem levar, enquanto Kleber fica parado de costas a certa distância.
- Se tivesse alguma coisa aqui para dar para eles, coitados… – comentei com meu pai.
Foi aí que me lembrei de uma bola que minha mãe havia guardado (quase a jogou no lixo, na hora da limpeza, mas preferiu preservá-la para alguma eventualidade). Fui buscar, meu pai pediu que os meninos esperassem. A bola estava no quarto do meu irmão e a porta estava trancada. Então meu pai falou para eles voltarem depois porque não havia como pegar a bola naquele momento.
Nisso meu irmão abriu a porta, mas já era tarde demais. Kleber não voltaria, ele estava com vergonha de mim.
- Tenho dó desse menino, – falei para o meu pai – a mãe dele vive indo para a cadeia. Não há quem cuide dele.
Voltei triste para meu quarto. Pensei: este é o último dia do ano, há tantas pessoas soltando fogos, reclamando do quanto engordaram durante esses dias de festa, agradecendo a Deus pela quantidade de bênçãos que receberam… Mas o Kleber e seus irmãos procuravam seus presentes de Natal no lixo. É nessas horas que eu percebo por que não gosto do Natal. Perdeu-se seu sentido e hoje essa data representa principalmente os momentos de confraternização com a família ou com pessoas que amamos. Kleber e seus irmãos provavelmente não puderam participar de nada parecido. Esses momentos são aproveitados geralmente com muita comida. Sei que Kleber e seus irmãos não tiveram isso no Natal e tampouco terão na festa da virada (eu já o vi várias vezes pedindo comida à entrada do supermercado). Nessa época, ganha-se muitos presentes. Ah! Que absurdo! Na televisão a retrospectiva festejou o bom momento econômico pelo qual passa o Brasil! Mas Kleber e seus irmãos estavam procurando seus presentes nos sacos de lixo! Mesmo que fossem apenas quatro crianças no Brasil inteiro passando por essa situação, o brasileiro não teria o direito de se conformar. Porém todos sabemos que não são somente os quatro.
Enquanto orava, percebi também o quanto eu me encaixava no grupo dos conformados. Esses geralmente se consideram imensamente generosos apenas pelo sentimento de dó. São esses os que têm a sensação de dever cumprido quando oferecem uma esmolinha, quando doam um brinquedo velho e quebrado, uma roupa desbotada e furada…
Não, não é disso que eles precisam!!! Todas essas coisas acabam, elas não duram muito tempo. Kleber e seus irmãos precisam de amor. Ninguém os ama! Não sei sobre a mãe, ela quase nunca apareceu na escola. Além disso vive tendo problemas com a polícia. Fiquei sabendo que esses meninos muitas vezes passam a noite sozinhos em casa. Por isso não me surpreende que eles estejam na rua a esta hora da madrugada.
Eles têm carência de amor. E não é na lixeira nem nas pequenas esmolas que eles o encontrarão. Crianças assim, tão indefesas (o mais velho deles tem, se muito, 12 anos) necessitam de alguém que os ame, que cuide deles, que lhes dê atenção, carinho, abraços. Quem se dispõe?
- Oh, de casa!
Ouvimos uns gritinhos agudos, repetidos, tímidos ao nosso portão. Eles voltaram menos de dez minutos depois perguntando pela bola. Lá da sacada eu a joguei e ainda joguei uma outra que era bola de futebol americano. Agradeceram, eu me despedi, virei as costas, fechei a porta da sacada. Dever cumprido, como cidadã deste mundo.
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Espere um momento: Eu estou no mundo, mas não sou do mundo. Dever cumprido?