Contemplando a soberania de Deus

soli deo gloriaOlá, pessoal!

Depois de um tempo longe do blog, estou de volta!

Começo contando que em 2017 iniciei o plano de leitura bíblica em um ano, de Gênesis a Apocalipse. Comecei em fevereiro e terminei no início de janeiro de 2018. Eu já havia feito esse tipo de plano antes, mas lembro-me que a leitura era muito superficial, muitas vezes consistia literalmente em passar os olhos pelas linhas para falar que cumpri com a parte do dia (isso especialmente em livros como Levítico e naquelas genealogias intermináveis de 1Crônicas). Então, pensei em focar minha leitura em um tema específico, achei que isso forçaria minha atenção.

O que eu fiz: Todas as vezes que o assunto escolhido aparecia, eu marcava o texto e a página, sem anotar nenhum tipo de comentário. Isso me ajudou muito a seguir com o plano até o final, porque eu ia procurando informações. O assunto escolhido foi a soberania de Deus. É claro que, se eu tivesse que marcar tudo a respeito disso, eu marcaria praticamente todos os versículos da Bíblia! Mas o que eu fazia era apenas marcar os textos onde esse ensinamento aparecia de modo mais evidente.

Terminada a leitura eu pensei: E agora, o que fazer com todas essas marcações? Resolvi então, para 2018, seguir com o mesmo estudo, mas agora eu voltaria em cada texto marcado, procurando meditar a respeito dele, em lugar de apenas ler e marcar. Acabo de concluir Gênesis e posso dizer que tenho aprendido muito, mas muito mesmo!

Quero só esclarecer que sou grata a Deus por me permitir fazer isso. Agradeço a Deus porque é ele, por meio de seu Espírito Santo, que abre os nossos olhos e ilumina a nossa mente para a compreensão de Sua Palavra. E, se tenho aprendido um pouco, é porque o Senhor assim o permite. Então, nada vem de mim mesma. Nem mesmo o desejo de ler e aprender vem de mim, mas dEle. Por isso, toda a glória seja dada a Deus (Soli Deo Gloria!).

Também quero deixar claro que os resultados são aprendizados que devem servir para nossa edificação, e não para o conhecimento meramente intelectual. Há uma diferença entre o conhecimento intelectual e o espiritual. Minha oração é para que o Senhor me ensine a crescer espiritualmente a partir dessas revelações de sua Palavra, em lugar de apenas ir acumulando conhecimentos que, por si sós, não podem me levar a lugar algum exceto ao inferno, por causa da vanglória. Que o Senhor me livre desse perigo!

É por isso que precisamos tomar muito cuidado. Esse é um caminho perigoso para mim, porque eu geralmente gosto de me gabar de certos conhecimentos e, muitas vezes, me flagrei tecendo comentários a respeito da Bíblia e de Cristo, mas sem o devido temor, me orgulhando por dentro por saber dessas coisas. Isso está totalmente errado. O que eu tenho aprendido é somente uma gota d’água no oceano de verdades que constam na Palavra de Deus, e o Espírito Santo nos revela pequenas porções exatamente porque sabe de nossas limitações.

Chamei o projeto de “Contemplando a soberania de Deus”, se bem que pensei também em chamá-lo de “Temendo e tremendo diante da soberania de Deus”. Porque tenho chegado a descobertas maravilhosas e terríveis ao mesmo tempo. Eu sempre assentia quando escutava alguém dizendo que Deus é soberano, que Deus está no controle, eu cantava bastante: “Tu és soberano sobre a terra, sobre os céus tu és Senhor absoluto…”. No entanto (não que eu tenha entendido realmente o que significa a soberania divina, creio que isso só descobriremos lá na glória), hoje eu tenho uma noção muito maior da dimensão à qual pode chegar a soberania de Deus do que já tive em todos os anos anteriores da minha vida. Estou abismada em ver como ele tem a sua vontade acima de qualquer outra coisa, que vontade nem escolhas de homem algum podem passar por cima da de Deus, que ele jamais é pego de surpresa e que nunca pode ter sua vontade frustrada para que a do homem prevaleça.

Enfim, meu plano é aqui fazer duas coisas: 1) Compartilhar em uma lista todas as passagens que eu marquei, de Gênesis a Apocalipse. É só uma lista de referências, para que você mesmo possa buscar em sua Bíblia e ter seu próprio tempo de meditação. 2) Compartilhar resultados de minhas reflexões, sobre o que o Senhor tem me ensinado. Nessa parte, não falarei de todas as passagens marcadas, e sim daquelas que eu julgar relevantes e úteis para outras pessoas. Esses resultados serão postagens à parte, mas terão o seus links marcados nas referências, é só clicar em cima. Ou seja: se a referência for um link em laranja, é porque tenho comentários a compartilhar. Se não for link, é porque decidi não colocar nada, mas você é livre para fazê-lo para si mesmo, ou nos comentários desta página.

Lembre-se que Deus tem uma maneira especial para falar com cada um e, desde que não fira Sua verdade e natureza, todos os comentários, acréscimos e até discordâncias (feitas respeitosamente) são muito, mas muito bem-vindos. Não se esqueça também de que Deus chamou os fracos e doentes, e não os sãos. Por isso estou aqui. Sou uma pecadora sujeita a muitos erros, o que eu merecia era o pior de Deus, mas misteriosamente ele tem agido com misericórdia e compaixão. Leia sim meus comentários, mas olhando para o Senhor que está me ensinando e não para a criatura que só está conseguindo aprender um pouquinho porque o Senhor em sua graça assim o permitiu.

Livro Referências
Gênesis 1.1-2; 1.26; 2.7,21; 3.17,19,21; 4.1,11; 5.24; 6.8,17; 8.1; 9.3; 11.5-7; 19.16,24; 22.13-14; 29.32-33,35; 30.2,18,20,23-24,27; 38.7,10;39.9,21, 23; 41.25; 42.28; 44.16; 45.5-8; 50.19-20.
Êxodo 1.20-21; 3.6,10,13-15,19-22; 4.11,21,24-26; 6.1-8; 7.3-5,13,22,25; 8.8,13,15,19,24,31; 9.4-6,12,15-16,23,30,35; 10.2,13-15,19-20,27; 11.1,3,7,10; 12.23,29,36; 13.17; 14.4,14,16-18,20,24,31; 15.1-19; 16.8; 18.11; 19.5-6; 20.1-20; 23.7; 24.9-11; 28.3; 31.1-6; 32.7; 33.19; 36.1.
Levítico  10.1-3; 18.5; 20.26; 24.11-16,23; 25.23,38,42-43,55; 26.11,41-42; 27.29.
Números  5.6; 11.1-3,10,23,25-26; 12.14-16; 14.8,18,21,26-35,41-45; 16.3,5,7,19-22,30-35,38; 17.5,8-10,12-13; 18.20; 20.8-12; 21.6-9; 22.1-41; 23.3,8,10,19-24,26,27;
Deuteronômio
Josué
Juízes
Rute
1Samuel
2Samuel
1Reis
2Reis
1Crônicas
2Crônicas
Esdras1
Neemias
Ester
Salmos
Provérbios
Eclesiastes
Cântico dos Cânticos
Isaías
Jeremias
Lamentações de Jeremias
Ezequiel
Daniel
Oseias
Joel
Amós
Obadias
Jonas
Miqueias
Naum
Habacuque
Sofonias
Ageu
Zacarias
Malaquias
Mateus
Marcos
Lucas
João
Atos
Romanos
1Coríntios
2Coríntios
Gálatas
Efésios
Filipenses
Colossenses
1Tessalonicenses
2Tessalonicenses
1Timóteo
2Timóteo
Tito
Filemon
Hebreus
Tiago
1Pedro
2Pedro
1João
2João
3João
Judas
Apocalipse
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Gênesis 3.21

“O SENHOR Deus fez roupas de pele e com elas vestiu Adão e sua mulher”.

 

Para a roupa de pele existir, subentende-se que animais tiveram que ser mortos. Assim, começava-se a sentir o efeito do pecado sobre o mundo.

Fez. As roupas foram feitas por Deus (ver comentário sobre a diferença entre os verbos fazer e criar em Gn 2.7). Portanto, foi ele mesmo quem matou os animais. Foi ele quem escolheu quantos e quais, de qual classe e espécie morreriam. Deus tem esse poder, ele pôde realizar todo esse processo sem pedir permissão a nenhum órgão de proteção aos animais. Por mais que Deus ame todos os animais e cuide deles, o homem é para Ele o mais importante da criação, por isso Deus não hesitou em matar animais com o único objetivo de fazer para o homem roupas com a pele.

Deus poderia simplesmente ter chamado à existência essas roupas, sem a necessidade de usar a pele animal. Mas foi dessa maneira que escolheu fazer. Eu não saberia dizer o porquê, mas creio que, entre seus motivos, ele estava querendo mostrar a gravidade do pecado que cometeram, que as consequências são de morte. Talvez também estivesse prefigurando o sistema de sacrifícios da lei mosaica, em que um animal puro e inocente levava o castigo pelos pecados do povo e que, por sua vez, prefigurava a morte de Jesus em lugar de pecadores.

Obs.: Eu entendo que esse texto não dá abertura alguma a discussões a respeito do vegetarianismo e do veganismo, nem a favor, nem contra. Muito menos é um incentivo ao maltrato animal. Como pudemos ver, não foram homens que arrancaram o couro dos animais, foi o próprio Deus com um propósito específico. Se quiser respaldo bíblico para maltratar um animal, lamento informar que não encontrará versículo algum. Agora, se quiser entrar em uma discussão quanto ao que a Bíblia te permite ou não permite comer, comece com Gn 9.3, passe por Dn 1.8-16, Mc 7.18-19 e termine em Rm 14.2-6.

28/01/18

[Este texto é fruto de meu plano de estudo bíblico pessoal a respeito da soberania de Deus. Leia sobre isso aqui.]

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Gênesis 3.17,19

“E ao homem declarou: ‘Visto que você deu ouvidos à sua mulher e comeu do fruto da árvore da qual eu lhe ordenara que não comece, maldita é a terra por sua causa; com sofrimento você se alimentará dela todos os dias da sua vida. (…) Com o suor do seu rosto você comerá o seu pão, até que volte à terra, visto que dela foi tirado; porque você é pó, e ao pó voltará’”.

 

Deus declarou ao homem que a terra seria amaldiçoada por causa dele. A maldição foi sobre a terra e não sobre o homem. Por isso a terra é um lugar de desastres e tristezas e terá que ser destruída. Deus terá que restaurá-la. É também por isso que há esperança para a humanidade. Se o Senhor tivesse amaldiçoado o homem, nenhuma carne se salvaria, pois Deus teria que levar a cabo sua decisão, Ele não volta atrás jamais. A humanidade, uma vez amaldiçoada, teria sido para sempre amaldiçoada. Graças a Deus, ele nos deixou uma possibilidade e esperança de salvação, por meio de Cristo, cujo ministério é mencionado pela primeira vez por aqui mesmo no capítulo 3, versículo 15.

porque você é pó, e ao pó voltará. Deus não perdeu o domínio sobre sua criação. Foi ele quem formou o homem do pó e, uma vez que este desobedeceu, como castigo pelo pecado, Deus decide justamente que sua criação deveria voltar ao pó de onde veio. A morte entrou no mundo como um castigo merecido por nossa desobediência.

27/01/18

 

[Este texto é fruto de meu plano de estudo bíblico pessoal a respeito da soberania de Deus. Leia sobre isso aqui.]

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Gênesis 2.7,21

v. 7 Então o SENHOR Deus formou o homem do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o homem se tornou ser vivente.

 

Deus criou todas as coisas por meio da palavra. “E disse Deus: haja (…) e houve”, este é o refrão do primeiro capítulo de Gênesis. Na Bíblia Hebraica há, pelo menos, dois verbos usados para indicar a forma como as coisas vieram à existência: O verbo bara (raiz ברא) significa criar, enquanto o verbo ‘asah (raiz עשה) significa fazer.

No entanto, ao trazer à existência o homem, Deus não simplesmente ordenou “haja!”, mas o fez com suas próprias mãos. O espírito de vida foi recebido por meio do sopro de Deus. Em algum lugar eu escutei (ou li, não me lembro) que é interessante perceber que o homem foi “feito” do pó, mas foi “criado” a partir do sopro divino.

pó da terra. Enquanto todas as outras coisas vieram à existência por meio da palavra de ordem divina, o homem foi feito a partir de um elemento já existente (o barro). A palavra hebraica para homem é adam, mesma raiz da palavra terra (אדם), daí também deriva o nome Adão.

Quem chamou a minha atenção para a diferença dos verbos fazer e criar no relato da criação foi o professor doutor Adauto Lourenço, em seu livro Gênesis 1&2, editora Fiel.

 

v. 21 Então o SENHOR Deus fez o homem cair em profundo sono e, enquanto dormia, tirou-lhe uma das costelas, fechando o lugar com carne.

 

A soberania de Deus sobre o ser humano está bem nítida nesta passagem, que mostra seu poder para fazer o homem dormir, e fez isso com Adão no momento que desejou. O Senhor também não perguntou a Adão se ele dava permissão para retirar-lhe uma costela. Deus simplesmente quis fazer isso e o fez! Deus tinha poder sobre o corpo de Adão, assim como hoje tem poder sobre o nosso para fazer o que lhe aprouver e sem nos pedir licença nem permissão.

tirou-lhe uma das costelas. A mulher possui a mesma essência do homem, ela também foi feita a partir de um elemento preexistente.

26/01/18

 

[Este texto é fruto de meu plano de estudo bíblico pessoal a respeito da soberania de Deus. Leia sobre isso aqui.]

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Gênesis 1.26

Então disse Deus: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança”.

 

Deus, o Pai, não estava sozinho. Já havíamos sido apresentados à pessoa do Espírito Santo no versículo dois deste primeiro capítulo de Gênesis.

Agora vemos que o Senhor se dirige a alguém (“façamos”). O verbo no imperativo sugere que a(s) outra(s) pessoa(s) presente(s) o auxilia(m) na formação do homem. Todos põem a mão na massa, não são meros espectadores.

nossa imagem (…) nossa semelhança. O homem seria formado à imagem não só de Deus Pai, mas também daqueles que estavam ali participando do processo de criação. Isso significa que o Pai, ao se dirigir àqueles que o acompanhavam, não se dirigia a alguém inferior a si, e sim, a alguém que tem a mesma essência, os mesmos atributos, a mesma natureza divina. São pessoas diferentes, mas os três formam uma unidade, um só Deus: O Pai, o Filho e o Espírito Santo.

É muito difícil compreender essa doutrina fundamental à fé cristã, pelo menos no meu caso sempre me dá um nó na cabeça! No entanto, trata-se de uma doutrina que aparece logo no primeiro capítulo da Bíblia e, assim prossegue ao longo de toda a Escritura.

25/01/2018

[Este texto é fruto de meu plano de estudo bíblico pessoal a respeito da soberania de Deus. Leia sobre isso aqui.]

Gênesis 1.1-2

No princípio Deus criou os céus e a terra. Era a terra sem forma e vazia.

A Bíblia já começa revelando a soberania de Deus. Ele é o criador dos céus e de tudo o que existe. Ele é o autor de cada planeta, de cada galáxia. Deus é superior ao próprio universo. Como consequência, Deus também criou a terra e TUDO o que há dentro dela, seja de origem mineral, vegetal ou animal. Se, por sua própria vontade, por meio da Palavra, Deus criou todas as coisas, a única conclusão à qual consigo chegar é a de que ele está acima de qualquer homem, independentemente de sua etnia, posição social, dinheiro e fama. É criatura e está debaixo de seu Criador.

Deus não depende da opinião do homem para existir. Não será menos Deus porque determinados homens disseram que ele não existe. A opinião dos ateus não afeta nem um pingo da verdade de que Deus existe e é superior a tudo. A opinião da criatura jamais afetará a natureza divina, pois Deus não depende de sua criação.

Era a terra. O primeiro versículo apresenta Deus como o autor do universo. O segundo versículo volta a nossa atenção para a terra. Ou seja, não nos cabe fazer especulações quanto ao que está fora do nosso planeta, se existe vida ou não existe… Ainda que haja algumas passagens que revelam poucas coisas a respeito do universo, o que Deus deseja é que nos concentremos naquilo que ele revelou para nós. Conforme disse C. S. Lewis, “só nos foi revelada aquela parte do plano que nos diz respeito diretamente” (LEWIS, C. S. Cristianismo puro e simples, 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2009, p. 264).

 

24/01/2018

[Este texto é fruto de meu plano de estudo bíblico pessoal a respeito da soberania de Deus. Leia sobre isso aqui.]

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Sobre a morte e a vida eterna

cruz

Eu não estava perto na hora, mas meu tio contou que as últimas palavras do meu pai foram: “Chegou minha hora. Deus está me chamando”. Esse testemunho foi usado e repetido muitas vezes por muitos amigos e familiares, que entendiam que essas palavras indicavam sua entrada no céu.

Na verdade, o que meu pai disse é o que todos, indiscriminadamente, deveriam dizer na hora da morte, mesmo que não pronunciem ou não saibam o que acontecerá no segundo que sucede seu expirar. Nossos dias estão contados. Deus determinou nosso tempo de vida na terra, cada minuto, do nascimento à morte (Jó 14.5). “Chegou a minha hora” significa simplesmente que o tempo na terra definido para ele terminou, e isso acontecerá com todas as pessoas, sem exceção. Quanto ao que ele disse, “Deus está me chamando”, também é algo do qual ninguém poderá escapar. Todo joelho se dobrará diante de Deus (Is 45.23; Fp 2.10). Hebreus 9.27 diz que “o homem está destinado a morrer uma só vez e depois disso enfrentar o juízo”. Após a morte física, o homem se depara com o Senhor, e só há dois destinos para ele: o céu ou o inferno. Hoje, as pessoas se recusam a falar de inferno, é feio, é fora de moda, é uma maneira cruel que a religião inventou para amedrontar as pessoas. Elas só querem falar do céu, de que Deus é amor, de que a bondade salva…

No velório do meu pai, ouvi seu pastor e muitos de seus amigos exaltando sua pessoa. Eu fico feliz em saber que ele deixou boas lembranças, não só para nós, mas também para os de fora. Entendo também que aquelas pessoas queriam homenageá-lo e honrá-lo. Mas a verdade é que toda a aparente bondade do meu pai não lhe garantia um lugar no céu. Digo “aparente” porque ele não era bom. Eu tampouco sou boa, minha mãe nem meus irmãos são bons. Há um só bom, que é Deus (Lc 18.19). Jesus é o único que viveu na terra sem pecado (Hb 4.15). A Bíblia afirma que não há um justo sequer, não há quem faça o bem (Rm 3.10-12). Então, por mais atitudes louváveis que meu pai tenha cometido, nada disso o torna justo diante de Deus, nada disso é suficiente para pagar o preço de seu pecado nem de sua maldade. Ele merecia a morte eterna, o sofrimento infernal, assim como eu também mereço e que a pessoa mais bondosa que você conhece merece.

A salvação é pela graça, por meio da fé dada por Deus para os seus (Ef 2.8-9). Não é por obras, não é por atitudes aparentemente bondosas ou altruístas. Recebe a salvação aquele que reconhece seus pecados, sua podridão, que reconhece que Deus seria justo se o punisse com o inferno (Rm 7.24). Muita gente acha isso pesado, querem encontrar um pouco de bondade em si. Pensam “Não, eu não posso ser tão mau assim! Eu faço isso, luto por aquilo, penso de tal forma…” É muito difícil assumir que é um miserável que precisa de um salvador. Após reconhecer sua miserabilidade, o pecador salvo crê que somente Cristo, totalmente Deus, totalmente homem, totalmente sem pecado, é capaz de salvá-lo da ira divina porque pagou com sua morte e seu sangue o castigo que estava reservado para o pecador (Fp 2.5-8). Em seguida, esse pecador salvo vive para a prática de boas obras, não para conquistar sua salvação, mas por consequência dela (Ef 2.10; Gl 5.22-23). Ao morrer a morte física, o pecador salvo tem a certeza de sua ressurreição, pois Jesus venceu a morte e ressuscitou, prometendo que o mesmo aconteceria com os que creem (Jo 11.25). Ao se ajoelhar diante do Senhor, o pecador salvo terá sua lista enorme de pecados (a minha, por exemplo, deve ser um rolo interminável!), mas aquela conta terá o carimbo de “paga” ao final, pois a dívida não lhe pertencerá mais, Jesus pagou com seu sangue inocente (Cl 2.14), e por isso o pecador salvo será convidado a entrar no gozo do Senhor e viver eternamente ao lado de Cristo.

Meu pai cometeu muitos erros em sua vida. Tenho lembranças maravilhosas dele, mas tenho recordações ruins também. Isso é normal, não o amo menos por isso. Estou sofrendo muito com sua ausência, especialmente porque tudo aconteceu de forma muito rápida e inesperada. Eu não estava nada preparada para isso. Mas meu sofrimento é pela saudade, é pelas palavras que tive tantos anos para dizer e não disse, pela impossibilidade da despedida, pelos verbos no presente que se transformaram em pretérito imperfeito, é pelo remorso de não ter sido mais carinhosa (eu tenho um temperamento mais frio e fechado, por isso não demonstro muito minha afeição em toques, abraços etc.). Por isso eu sofro. Mas eu não sofro quanto ao destino dele. Eu sei que ele foi salvo. Esse é o meu maior conforto neste momento e a fonte da paz inexplicável que sinto em meio a este temporal pelo qual minha família está passando. Eu sei que ele se reconheceu miserável, pediu perdão a Deus por seus pecados, recebeu a graça por meio da fé que Deus plantou em seu coração. É somente por isso (não por seu altruísmo nem generosidade) que sei que ele está com o Senhor agora. Glorifico a Deus que não faz acepção de pessoas. Deus não usa como critério para salvação a cor da pele, o dinheiro, a popularidade, se a pessoa tem todos os membros do corpo ou não, se tem todos os dentes na boca ou não… Ele não leva isso em conta, ele escolheu os seus desde antes da fundação do mundo (Ef 1.4), e que bom que foi antes! Meu pai foi um homem simples, que nunca chamou a atenção, sua morte não foi noticiada como foi a do Chaves, do Michael Jackson… Ele não tinha dinheiro, não deixou bens (embora tenha se dedicado nos últimos anos para terminar de construir nossa casa, e chegou quase lá, só faltam detalhes), era negro, sofreu em sua vida várias situações de preconceito. Mas ele está com Cristo agora. Ele não merecia, mas está. Eu espero um dia estar lá também. Sei que não mereço, mas também recebi de Deus a fé que redundou em graça. Quero estar lá, com Cristo. Às vezes, com o dia a dia, a gente acaba se deixando levar pelas coisas deste mundo e perde de vista esse alvo, esquece que a vida aqui é só uma pequena porção da eternidade. Mas é bom, por mais triste que seja este momento, lembrar para onde estou indo.

Há um trecho na música “Ciudad de Dios”, de Jonathan Jerez, que descreve muito bem a morte dos santos: Quando estivermos na glória, a morte será só uma memória, uma forma de lembrarmos de nossa redenção.