Um milagre para a galinha

178-sonhar-com-galinha-300Quando o sol renasceu naquele 25 de dezembro, Cida se levantou meio desanimada e foi ao galinheiro recolher os ovos. Ela e sua família moravam numa roça um pouco afastada da cidade. Ainda com o cesto vazio percebeu que Zezé, a galinha mais gorda e mais rebelde, não estava lá. Havia fugido.

– Eu bem desconfiava que aquele bicho num era normal não. – Reclamou com o marido. A hipótese de Cida era a de que Zezé planejava essa fuga fazia tempo. Ela era ranzinza e sempre resistia a ceder seus ovos. Olhava para a dona com um olhar humano de insubmissão, o que muitas vezes havia deixado a mulher assombrada. Mariinha, sua filha, dizia que a ave era antipática. Já o marido achava tudo um exagero.

– Como a criatura poderia planejar um trem desse com aquele cérebro de galinha? Pra mim ela foi é roubada. Alguém precisava dela pra ceia de Natal.

Cida não se convenceu, mas decidiu seguir com as tarefas do dia. Em poucas horas chegariam visitas famintas para o almoço natalino, e havia muita comida para cozinhar. O marido, por sua vez, preparou a churrasqueira no quintal amplo e empoeirado, colocou o carvão e acendeu a pira.

Os visitantes (família e alguns vizinhos) chegaram e elogiaram a fartura e o quão saboroso estava tudo. Quando os anfitriões se deram conta de que todos já estavam para lá de satisfeitos, não assaram mais carne. Os ossos que sobraram Cida jogou sobre o carvão que frustrado se apagava. A música aos poucos foi diminuindo até cessar por completo. A maioria se preparava para ir embora. De repente, Mariinha soltou um grito tão espantado que assustou os visitantes, e anunciou:

– Olha a Zezé!

Todos se voltaram para onde a menina apontava e viram o animal que ressurgia correndo descontrolado, sem nenhum senso de direção, e um homem carregando um facão e gritando:

– Ocê tem que morrer, desgraçada! Veio se oferecer, agora aguenta!

Zezé estava toda ensanguentada. À medida que se aproximava, os espectadores admirados puderam notar que sua cabeça estava pendurada, ainda ligada ao corpo apenas por uma tripa. Seria impossível enxertá-la. A galinha era caso perdido. Apesar disso, miraculosamente ela corria, tentando escapar de seu agressor.

– Essa fujona pirou de vez! – Exclamou Cida.

Agora Zezé corria que nem cabra-cega por entre os convidados. Ao se aproximar do grupo, o homem com o facão deixou de correr. Não pegava bem perder a corrida para uma galinha praticamente sem cabeça. Cida o interceptou, querendo explicações, e o marido a acompanhou:

– Foi ocê que roubou nossa galinha, danado?

– Num fui eu! Ela apareceu na porta da minha casa. Eu juro!

– É capaz mesmo, essa indisciplinada! – Respondeu Cida irritada.

– Eu convidei ela pra entrar, ela é tão gordinha e suculenta. Comigo ela foi muito boazinha e obediente. Num resistiu nem mesmo quando coloquei ela em cima da tauba de abate. Nem mesmo quando eu levantei o facão. Acho que só percebeu mesmo que eu era perigoso dispois que dei a primeira facada no pescoço dela. Mas aí era tarde demais. Só que o mais inacreditável veio quando o bicho pulou da tauba pro chão e saiu correno, me deixano na vontade. Era o meu almoço, dona. Uai!

A criatura de cabeça pendurada e olhos esbugalhados deixava os presentes boquiabertos e imóveis. Aos poucos, Zezé foi perdendo força e diminuindo o passo. Ouvia-se que ela emitia um ruído parecido ao do cacarejo, só que bem mais melodioso e triste. Parecia uma canção fúnebre. Estavam todos pasmos demais para fazerem qualquer menção de captura. O prodígio que sucedeu deixou o espetáculo ainda mais extraordinário: Zezé ensaiou e empreendeu um voo sobrenatural para uma galinha com aquele peso e naquele estado. Pousou na churrasqueira, justamente sobre os restos de carvão com ossos, e ali ficou, emitindo o som da morte.

Alguns mais corajosos e curiosos se aproximaram para ver a ave que se debatia por entre as cinzas que, inexplicavelmente, reacendiam. O dono da casa foi empurrando as pessoas para abrir espaço.

– Deixa eu acabar de uma vez com esse teatro.

Com uma mão pressionou o corpo da galinha sobre a brasa. Com a outra puxou decididamente sua cabeça, esguichando um pouco de sangue no rosto daqueles que estavam mais próximos. Mariinha deu um berro:

– Ai, pai, que nojeira!

– Por que nojeira? Isso é uma cabeça de galinha. Ó procê ver! – E, pondo-se de cócoras, saiu pulando atrás da filha, cantando um “có, có, có” até conseguir tocar o ombro da criança com o biquinho da Zezé. Mariinha saiu correndo chorando, enquanto batia com a mão no lugar onde o bico do cadáver havia encostado. Os convivas se divertiam com a cena, embora ainda se mantivessem bastante temerosos. Cida arrancou a cabeça de Zezé das mãos do marido e a lançou sobre a churrasqueira. Nesse momento o fenômeno mais fantástico do dia aconteceu.

Começou uma ventania, vinda dos quatro cantos, de cima para baixo. As pessoas se desesperaram, buscando um lugar para se esconder, mas não havia. Só os que estavam mais próximos da porta da casa entraram. Os demais se deitaram de barriga no chão, alguns se agacharam, cobrindo a cabeça com os braços, e outros simplesmente se abraçaram com o mais próximo. Observaram desde seus lugares que os ventos estavam se encontrando e se concentrando num só lugar, que era a churrasqueira, e formavam um redemoinho, levantando uma nuvem escuro acinzentada dos restos do carvão. O fogo, que havia pouco reavivara, transformou-se em uma labareda que se erguia bem no olho do furacão. Em seguida, os ventos foram se espalhando cada um para o lugar de onde veio e, junto com eles, o milagre, que os presentes ali testemunharam estupefatos: Uma ave alçando voo vertical em direção aos céus. Era de um branco regenerado, porém revestida de um tom alaranjado cor de fogo. Era gordinha, como uma galinha pronta para ir à panela, contudo suas asas eram largas, e a cabeça um pouco maior, mais fina e com o bico adunco. Subiu, subiu e subiu até desaparecer no azul celestial. Cida se aproximou da pira. Zezé já não estava lá, tampouco sua cabeça. Na verdade, tudo o que havia restado eram uns pedaços de carvão, ainda quentes.

O sol se debandava, preparando-se para o próximo renascimento. Não havia mais sinal algum nos céus. O povo aplaudiu, se despediu e foi cada um de volta para casa.

História sobre liberdade II

f_276785Era uma vaca solitária. Teimosa. Desde filhote já sustentava ideias revolucionárias. Não estava de acordo com isso de viver sob o controle de um vaqueiro. E a cerca era tão baixa, por que ninguém pulava? Sempre tentara inutilmente provocar um motim para a fuga coletiva, mas ninguém comprava a ideia. Seus pais a observavam e abanavam a cabeça, em reprovação. O que fizeram de errado para que sua filha saísse daquele jeito?

No entanto, o primeiro ato real de rebeldia foi quando decidiu se recusar a dar seu leite aos humanos. Ela não era obrigada, o leite era seu e não tinha por quê cedê-lo assim gratuitamente. Quando o vaqueiro apertava suas tetas, ela fazia toda a força e segurava o leite. Quando o homem insistia, a rebelde resolvia o problema com um coice bem dado. Também já tentou impedir a ordenha de suas companheiras. Esperava o recipiente ser enchido, aproximava-se como quem não queria nada, e chutava o balde. As vacas se queixavam: “Se você não quer dar seu leite, o problema é seu. Agora não venha nos prejudicar, respeite nosso trabalho! Veja só que desperdício!” E a rebelde respondia, zangada: “Agora não adianta mais chorar sobre o leite derramado!”

Por isso essa vaca era solitária. Ela queria sair daquela situação da fazenda, ela queria liberdade (ou aquilo que ela imaginava ser a liberdade). Mas ninguém a compreendia. Estavam todos muito satisfeitos com a vida que levavam. Então, certa vez, decidiu que seria livre de qualquer maneira, mesmo que fosse sozinha. Aproveitando o horário da sesta, enquanto todos dormiam, ela se equilibrou sobre a cerca baixa e a pulou. Satisfeita por descobrir essa sua capacidade, saiu rebolando sem direção.

Em poucos minutos já havia se afastado muito do sítio onde vivia. Começou a caminhar à beira da rodovia, sonhando poder viver em qualquer lugar, sem dar satisfação a ninguém. Em pouco tempo de caminhada já era possível avistar casas e prédios. Estava na cidade! Aquele era o seu lugar. Ela havia escutado que a cidade é o lugar das oportunidades. Por que perdeu tanto tempo dentro daquelas quatro cercas? Desviou seu caminho da rodovia e entrou em uma rua. Para ela aquilo era como um labirinto. Uma rua levava a outra, que levava a outra, e pareciam todas iguais. Mas não havia problemas. Não importava em que rua estivesse, o importante era fazer o que lhe desse na telha. A alegria era tanta que começou a correr. Para cá e para lá.

Foi nesse corre-corre que aconteceu a tragédia. A vaquinha rebelde tropeçou em uma pedra e foi rolando barranco abaixo até cair no quintal de uma casa, que estava abaixo do nível da rua. Levantou-se atordoada, ainda sem entender direito o que estava acontecendo. Procurou a saída mas se viu em um pátio estreito e não sabia mais como sair dali. “E agora?” pensou. “Como vou me livrar dessa? Por onde eu saio?” Olhou ao seu redor, tentando encontrar uma ideia. Olhou para cima. Sorriu. Claro! Se ela veio de cima para baixo, agora deveria fazer o sentido inverso. Ali estava o telhado, era só subir e caminhar até a rua outra vez!

Escalando uma coluna, chegou no alto. Porém, logo nos primeiros passos, o telhado não suportou seus quase 600 quilos e rompeu. A vaca caiu e foi parar dentro de uma sala de estar. Bateu com a cabeça na parede e quebrou um dos seus chifres. Assustou-se ao ver sangue na parede, seria mesmo dela? Começou a se contorcer, mas era muito pesada para se levantar sozinha. Esbarrou na estante e derrubou a televisão, esbarrou também na mesinha do computador. Quando se deu conta, tudo que havia no chão estava estilhaçado. “Como vim parar num lugar tão apertado? Nunca imaginei que os humanos vivessem mais presos que a gente!” Depois de derrubar praticamente tudo que havia na sala, ela se levantou e seguiu procurando a saída. Foi quando entrou no banheiro, mas sem sucesso. E que lugar pequeno, como dar meia volta e sair? Suas patinhas começaram a se voltar na direção da porta, quando ela se deparou com uma mulher, que gritava desesperada: “Meu Deus o que é isso?!” “Quem trouxe esse bicho para o meu banheiro???” A vaquinha se ofendeu: “Bicho não, minha senhora. Cuidado com sua língua ou vai se ver com a minha que é muito maior!” Na tentativa de se apressar para atacar, escorregou e caiu de novo. Só que desta vez seu peso arrancou o vaso sanitário do lugar e danificou a pia. A mulher não sabia o que fazer, e a vaca, estendida pelo chão do banheiro, era orgulhosa demais para pedir ajuda.

Em pouco tempo apareceram homens com cordas para amarrá-la. Levaram-na outra vez ao quintal, e ali se esticou, pensando: “Saí do sítio atrás da liberdade. Agora estou amarrada por um bando que, por própria vontade, vivem em casas mais apertadas do que o curral.” Os homens ainda tentavam fazer com que se levantasse, mas ela era ferrenha: “Se querem me tirar, então que me carreguem. Não é por minhas patas que vou sair daqui.”

Chegaram o Corpo de Bombeiros, a equipe de zoonoses e a Defesa Civil, além de um monte de curiosos fazendo festa com o evento tão inesperado. Ela foi levada em caminhonete para o centro de zoonoses. Ainda no mesmo dia apareceu o dono: Um vaqueiro usando botas, calça jeans, camisa xadrez e um chapéu de abas largas. “Agora pode deixar essa vaca rebelde comigo, porque ela é minha!” O olhar da vaca para o dono era um misto de frustração pelo fracasso do plano, vergonha e reconhecimento de que ela não tinha opção melhor do que voltar com ele. O dono, voltando-se para o animal, disse-lhe: “Quem foi que te disse que a vida aqui fora é mió? Agora ocê vai entender que a verdadeira liberdade é debaixo dos meu cuidado.” Para o espanto de todos, o vaqueiro a levantou sozinho e a colocou sobre os ombros, como se fosse uma ovelhinha e saiu contente, levando-a de volta para o sítio.

Quebrar o porquinho

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Papai não concordou em comprar o boneco do Bart Simpson para mim. Mamãe, sim, queria, mas papai não atendeu meu pedido, disse que sou mimado. “Por que compraríamos, hãn?” Disse para mamãe. “Por que compraríamos para ele? É só ele fazer psiu e você já bate continência.” Papai disse que eu não sei dar valor ao dinheiro, e que se eu não aprender isso enquanto sou pequeno, então quando é que aprenderei? As crianças que compram com facilidade os bonecos do Bart Simpson crescem depois para se tornarem malandros que roubam nos quiosques, porque eles se acostumam com isso de que tudo o que eles querem, obtêm com facilidade. Então, no lugar do boneco do Bart, ele comprou para mim um porco feio de porcelana com um buraco achatado nas costas, e agora eu vou crescer para ser certinho, agora eu já não serei um malandro.

Agora, todas as manhãs, embora eu odeie, preciso beber um copo de leite com chocolate. Chocolate com nata vale um shekel*, sem nata vale meio shekel, e se eu vomito logo em seguida, então não recebo coisa nenhuma. As moedas eu coloco nas costas do porco, e então quando o sacudimos, ele faz barulho. Quando o porco estiver com tantas moedas que, ao ser sacudido, ele não fizer barulho, então eu ganharei o boneco do Bart em cima do skate. Papai diz que assim é educativo.

O porquinho até que é simpático, seu nariz é frio quando tocamos nele, e ele sorri quando colocamos o shekel em suas costas, e também quando colocamos nele somente meio shekel, mas o mais bonito disso é que ele também sorri quando não colocamos nada. Também inventei um nome para ele, eu o chamo de Pessachzon, por causa do nome de um homem que uma vez morou em nossa caixa de correio e que meu pai não conseguiu retirar a etiqueta. Pessachzon não é como os meus outros brinquedos, ele é muito mais calmo, sem luzes, nem molas, nem baterias que vazam no seu rosto. Somente é preciso cuidar dele, para ele não pular da mesa. “Pessachzon, cuidado! Você é de porcelana”, eu digo a ele enquanto o seguro abaixando-o devagar até deixá-lo no chão. E ele sorri para mim e espera pacientemente até que eu o faça descer com as mãos. Eu morro por ele quando ele sorri, somente por ele eu bebo o chocolate com a nata toda manhã, para que eu possa colocar o shekel em suas costas e ver como o seu sorriso não muda nem um pouco. “Eu amo você, Pessachzon!”, digo a ele depois disso, “juro, eu amo você mais do que amo papai e mamãe. E eu também te amarei para sempre, não importa o que aconteça, mesmo que você arrombe os quiosques. Mas tome cuidado para não pular da mesa!”

Ontem papai veio, ergueu Pessachzon da mesa e começou a sacudi-lo, virando-o com selvageria. “Cuidado, pai!”, disse a ele, “Você faz o Pessachzon sentir dor de barriga!” Mas papai continuou. “Ele já não faz barulho, você sabe o que isso quer dizer, Yohavi? Que amanhã você receberá Bart Simpson em cima do skate.” “Legal, pai…”, eu disse, “Bart Simpson em cima do skate, legal. Somente pare de sacudir o Pessachzon, isso faz ele se sentir mal.” Papai voltou com Pessachzon ao lugar e foi chamar mamãe. Ele voltou depois de um minuto puxando mamãe com uma das mãos e, na outra mão, ele carregava um martelo. “Você vê que eu tinha razão?”, ele disse à mamãe, “Assim ele aprendeu a valorizar as coisas, certo, Yohavi?” “Com certeza que eu sei”, eu disse, “Com certeza, mas para quê o martelo?” “Isso é para você.” disse papai e colocou o martelo na minha mão. “Somente tome cuidado!” “Claro que eu terei cuidado!”, eu disse, e realmente tomei cuidado, mas depois de alguns minutos, papai se aborreceu e disse: “Então, quebre já o porco!”. “O quê?”, perguntei, “Pessachzon?”. “Sim, sim, o Pessachzon.”, disse papai. “Então, quebre-o! Você merece o Bart Simpson, trabalhou muito duro por ele.”

Pessachzon sorriu um sorriso triste de um porquinho de porcelana que entende ser esse o seu fim. Que morra Bart Simpson! Eu vou dar com o martelo na cabeça de um amigo? “Eu não quero o Simpson.” Devolvi o martelo a papai: “Pessachzon me basta.”. “Você não entendeu”, disse papai, “Isso realmente é certo, é educativo. Venha, eu o quebrarei para você.” Papai já foi erguendo o martelo, e eu olhei para os olhos quebrantados da mamãe e para o sorriso cansado de Pessachzon, e entendi que tudo dependia de mim, se eu não fizer nada, ele morre. “Pai!”, agarrei suas pernas. “O que foi, Yohavi?”, disse papai, quando a mão que segurava o martelo ainda estava no ar. “Eu quero outro shekel, por favor!”, supliquei. “Me dê outro shekel para colocar nele amanhã, depois do chocolate. E então quebramos. Amanhã, eu prometo!” “Outro shekel?” Papai sorriu e colocou o martelo sobre a mesa. “Você vê? Desenvolvi a consciência no menino.” “Sim, consciência.”, eu disse, “Amanhã.”. Eu já tinha lágrimas na garganta.

Depois que eles saíram do quarto, abracei Pessachzon bem forte e dei lugar às lágrimas. Pessachzon não disse nada, apenas tremeu em silêncio em minhas mãos. “Não se preocupe”, sussurrei-lhe no ouvido, “eu vou te salvar.”

À noite esperei que papai terminasse de ver televisão na sala e fosse dormir. Então me levantei silenciosamente e saí às escondidas pela sacada, junto com Pessachzon. Caminhamos juntos por muito tempo na escuridão, até que chegamos em um campo com espinhos. “Porcos morrem no campo”, eu disse a Pessachzon enquanto o colocava no chão, sobre o campo. “Especialmente sobre campos com espinhos. Aqui será bom para você.” Esperei por uma resposta, mas Pessachzon não disse nada. E quando toquei em seu nariz, em um gesto de despedida, ele somente cravou em mim um olhar triste. Ele sabia que não me veria nunca mais.

  • Moeda oficial de Israel

(Título original lishbor et ha chazir, de Etgar Keret. Traduzido por Mariana Ferreira de Toledo.)

downloadEtgar Keret nasceu em Tel Aviv em 1967. É considerado um dos maiores autores de sua geração, fazendo muito sucesso especialmente entre jovens. Além de escritor, é também professor universitário e roteirista. Já foi traduzido para diversos idiomas. Em português, os únicos materiais que temos traduzidos e publicados (pela Editora Rocco) são seu livro de contos “De repente, uma batida na porta“, traduzido pela professora doutora Nancy Rozenchan, e o romance autobiográfico “Sete anos bons“, com tradução de Maira Parula.

Prisão de ventre

A primeira vez que Mariana percebeu que alguma coisa não estava bem com Daniel foi num sábado pela manhã. Nesse dia ele acordou cedo e se sentou na beirada da cama, olhando para fora. As cortinas do quarto não estavam totalmente fechadas, e lá fora parecia que ia chover. Fazia frio. Daniel passou a mão no cabelo. Durante alguns minutos ele ficou sentado imóvel. As pontas de seus pés encostavam no chão gelado. Havia silêncio na casa.

Uma hora depois, quando Mariana acordou, ela encontrou sobre a mesinha da sala pilhas organizadas de livros. No sofá havia uma mala aberta e ao seu lado roupas dobradas. Não havia nada dentro da mala. A porta para o jardim estava aberta e um vento fraco entrou na casa. Ela se aproximou para olhar lá fora e viu Daniel de pé na grama com o cachorro. Ele abraçava o animal, apertando-o contra o peito. As patas dianteiras e a cabeça do animal alcançavam seu ombro. Estava vestido com calças de veludo cotelê e um suéter. “O que aconteceu?”, ela perguntou. “Aconteceu alguma coisa?”

“Não”, Daniel respondeu. Ele afundou o queixo e virou a cabeça para trás para olhar por cima do cão. “O cachorro está com prisão de ventre”, disse.

“O quê?”, Mariana perguntou. Ela ainda não havia acordado completamente.

Daniel deu de ombros. Ela segurou as cortinas, observou-os por um momento e depois entrou. Enquanto ia para o banheiro, perguntou-lhe sobre as coisas que estavam na sala. Ergueu a voz para que ele pudesse escutá-la do jardim. “E o que são todas aquelas coisas em cima da mesa?”,  perguntou.

Ele não respondeu, mas Mariana tampouco esperou pela resposta. Já estava a caminho do chuveiro.

Quando saiu, seu filho estava de pé ao lado da porta, de pijama. Ele se encostou no armário de casacos. Mariana vestiu um suéter de golfe. Seu cabelo estava preso por uma presilha e as pontas molhadas pingavam sobre seus ombros e sobre a nuca, dentro do colarinho.

“Você já acordou?”, ela perguntou. “Ainda não são nove horas.”

O menino ficou encostado e olhou para cima, para o teto. Ele mexia a cabeça e esfregava o cabelo na porta do armário. Quando ele falou, falou baixinho. “Papai me acordou”, disse. Depois acrescentou: “Ele disse que eu precisava me levantar.”

“Por quê?”, perguntou. “Ele disse para quê?”

O menino apertou os lábios. “Não”, respondeu.

“O que está acontecendo com você?”, ela perguntou.

O menino tombou sua cabeça para o lado até que a orelha se encontrasse com o ombro.

Mariana se agachou e o agarrou pelos ombros. “O que aconteceu?” Perguntou. Ela o sacudia.

Ele não respondeu e não olhou para ela. Olhava para o lado. “Papai está na cozinha”, disse. Havia silêncio na casa. O cabelo de Mariana pingava sobre a nuca e ela se deparou com o frescor do vento vindo do jardim.

Enquanto ia para a cozinha ela começou a balbuciar alguma coisa, mas quando viu Daniel, deteve-se.

Ele estava de pé ao lado da pia e, à sua frente, o cachorro. Suas patas traseiras estavam em uma pia e as da frente em outra. Quando viu Mariana, o cão tentou escapar, mas suas garras se deslizaram sobre a cerâmica e ele caiu. Quando se levantou, Daniel desferiu em seu nariz um golpe com a palma da mão aberta. O cachorro fez-se ouvir um grande ganido e caiu novamente com o peito sobre a divisória entre as pias. Fez uns movimentos com as patas, tentou se levantar, mas escorregou. Daniel o agarrou e o levantou. Ele ficou em silêncio. O sangue pingava de seu nariz até o fundo da pia.

Mariana se assustou. “O que você está fazendo com ele?”, gritou. “Por que está batendo nele?”

Ela se aproximou, mas Daniel a repeliu com a mão, as pontas de seus dedos tocaram o peito dela.

“Se você não pode ajudar, então não atrapalha”, disse. Ela tirou a mão dele e tentou dar outro passo à frente, mas foi impedida. “Eu te falei. Ele está com prisão de ventre”, disse. “Você não pode ajudar, certo? Então não atrapalha.”

“Do que você está falando?”, ela perguntou. Tentou chegar até a pia. Daniel ergueu uma das mãos como se fosse golpeá-la. Ela se afastou e ergueu o cotovelo sobre a cabeça, para proteger o rosto. Mas o tapa não veio.

“O que você quer dele?”, ela perguntou. Seu rosto se crispou. Começou a chorar. “O que está fazendo com ele?”

Daniel não respondeu. Abriu a torneira de água fria. Mariana olhou para o cachorro. Suas patas se agitavam e se molhavam. Ele tremia. “O que aconteceu?”, perguntou. Ela chorava tanto que era difícil entender o que dizia. “O que você está fazendo com ele?”, insistiu. “Solte-o. Deixe-o ir. Daniel, solte-o.”

Daniel olhou para ela. “Escute-me”, disse. Porém interrompeu a frase no meio. Ele parou para pensar por um momento e então continuou: “Escute-me, volte a dormir, está bem? Você não pode me ajudar, então talvez seja mais simples você ir para a cama e dormir.”

“O que aconteceu com você?”, ela perguntou. “O que você quer do cachorro?”. O menino saiu do canto e se aproximou dela. Ele segurou sua mão e encostou a cabeça em seu quadril.

Daniel fechou os olhos e se concentrou na água que enchia a pia. Houve um momento de silêncio. Depois ele abriu os olhos e virou-se. Disse devagar, mas em voz alta: “Há algo que você pensa que possa fazer?”. Com a mão aberta, ele apontou para o cão. “Olhe”, ele gritou, “você acha que pode ajudar?”

Mariana não respondeu. Daniel pôs as duas mãos na beirada da pia e inclinou-se para frente. Olhou para baixo e esperou mais um instante. Quando se garantiu de que ela já não responderia, ele se virou e fechou a torneira. Ouviu-se um silêncio. Era possível ouvir o silêncio além da porta para o jardim. A pia estava cheia até a metade. “Excelente”, ele disse, “excelente.” Começou a procurar alguma coisa nas gavetas.

“Daniel”, Mariana disse, “o que aconteceu?”

O menino ergueu a cabeça e olhou para sua mãe. Ele pensou que ela havia parado de chorar. Mas ela não parou. As lágrimas escorriam de seus cílios no suéter. “Daniel?”.

Daniel não encontrou o que procurava. Começou a revirar as gavetas e a tirar tudo de dentro delas. Utensílios de metal batiam ruidosamente sobre o mármore. Facas, abridores de lata e colheres. “Meu Deus!”, ele disse. “Que casa é esta?” Ele revirava o amontoado.

Depois parou no meio da cozinha e passou a mão nos cabelos. Ele pensou por um momento. O cachorro não se mexeu. Seu corpo ainda tremia.

Mariana tentou dizer alguma coisa, porém Daniel a calou num gesto com a mão. Ele se aproximou da pia e tirou a tampa do ralo. Depois esperou um pouco, mas antes que a água terminasse de escoar, ele ergueu o cachorro e o segurou debaixo do braço. Com o outro braço procurou nos bolsos dos casacos que estavam pendurados ao lado da porta até encontrar as chaves do carro. Já estava saindo, mas depois que abriu a porta deteve-se, como se tentasse se lembrar de alguma coisa que poderia haver esquecido.

“Daniel”, Mariana disse. Ela chorava. “Daniel, o que aconteceu com você?”

“Mariana,”, ele replicou, “fecha essa sua boca, está bem? Feche-a ou senão lhe quebrarei os ossos.” Ele enfiou as chaves no bolso e colocou o cão sobre a mesa de jantar. Entrava um vento pela porta aberta. A água pingava da pele do cachorro sobre a mesa. Daniel ficou parado na entrada da cozinha e mexia nas chaves do bolso através do tecido da calça.

Mariana falou baixinho. “Daniel,”, ela disse, “Daniel, o que você quer dele?”

Daniel se aproximou do lugar onde ela estava parada.

Ele articulou cada palavra pausadamente. “Cale a boca.”, gritou. “Ouviu?”

Seu rosto ficou bem perto do dela. Foi difícil para Mariana olhar para ele dessa distância, mas ela não se afastou. O hálito dele cheirava a creme dental. Ela tentou pegar em suas mãos, mas foi impedida.

“Ouviu?”, ele gritou.

Mariana chorava. Ele a segurou pelos pulsos e a apertou contra a parede. “Ouviu?”

Ela balançou a cabeça. Sua boca estava aberta e um fio de saliva lhe escorria dos lábios. “Ótimo”, Daniel disse.

Ele a soltou e se aproximou da mesa. Em seguida, pegou o cachorro e saiu de casa batendo a porta.

Mariana se sentou.

O menino ficou ao seu lado. Seus joelhos tremiam. Eles ouviram a porta do carro se fechar e o som do motor. Depois, ouviram o barulho que se afastava.

TAUB, Gadi. Tradução feita por Mariana Ferreira de Toledo a partir do texto original עצירות (‘atsirut).

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Gadi Taub

 Gadi Taub nasceu em 1965, em Jerusalém. É jornalista, escritor e professor da Universidade Hebraica de Jerusalém. Além de textos acadêmicos e políticos, Taub já escreveu contos, romances e livros infantis. É um dos principais autores do pós-modernismo israelense.