Gênesis 3.21

“O SENHOR Deus fez roupas de pele e com elas vestiu Adão e sua mulher”.

 

Para a roupa de pele existir, subentende-se que animais tiveram que ser mortos. Assim, começava-se a sentir o efeito do pecado sobre o mundo.

Fez. As roupas foram feitas por Deus (ver comentário sobre a diferença entre os verbos fazer e criar em Gn 2.7). Portanto, foi ele mesmo quem matou os animais. Foi ele quem escolheu quantos e quais, de qual classe e espécie morreriam. Deus tem esse poder, ele pôde realizar todo esse processo sem pedir permissão a nenhum órgão de proteção aos animais. Por mais que Deus ame todos os animais e cuide deles, o homem é para Ele o mais importante da criação, por isso Deus não hesitou em matar animais com o único objetivo de fazer para o homem roupas com a pele.

Deus poderia simplesmente ter chamado à existência essas roupas, sem a necessidade de usar a pele animal. Mas foi dessa maneira que escolheu fazer. Eu não saberia dizer o porquê, mas creio que, entre seus motivos, ele estava querendo mostrar a gravidade do pecado que cometeram, que as consequências são de morte. Talvez também estivesse prefigurando o sistema de sacrifícios da lei mosaica, em que um animal puro e inocente levava o castigo pelos pecados do povo e que, por sua vez, prefigurava a morte de Jesus em lugar de pecadores.

Obs.: Eu entendo que esse texto não dá abertura alguma a discussões a respeito do vegetarianismo e do veganismo, nem a favor, nem contra. Muito menos é um incentivo ao maltrato animal. Como pudemos ver, não foram homens que arrancaram o couro dos animais, foi o próprio Deus com um propósito específico. Se quiser respaldo bíblico para maltratar um animal, lamento informar que não encontrará versículo algum. Agora, se quiser entrar em uma discussão quanto ao que a Bíblia te permite ou não permite comer, comece com Gn 9.3, passe por Dn 1.8-16, Mc 7.18-19 e termine em Rm 14.2-6.

28/01/18

[Este texto é fruto de meu plano de estudo bíblico pessoal a respeito da soberania de Deus. Leia sobre isso aqui.]

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Gênesis 3.17,19

“E ao homem declarou: ‘Visto que você deu ouvidos à sua mulher e comeu do fruto da árvore da qual eu lhe ordenara que não comece, maldita é a terra por sua causa; com sofrimento você se alimentará dela todos os dias da sua vida. (…) Com o suor do seu rosto você comerá o seu pão, até que volte à terra, visto que dela foi tirado; porque você é pó, e ao pó voltará’”.

 

Deus declarou ao homem que a terra seria amaldiçoada por causa dele. A maldição foi sobre a terra e não sobre o homem. Por isso a terra é um lugar de desastres e tristezas e terá que ser destruída. Deus terá que restaurá-la. É também por isso que há esperança para a humanidade. Se o Senhor tivesse amaldiçoado o homem, nenhuma carne se salvaria, pois Deus teria que levar a cabo sua decisão, Ele não volta atrás jamais. A humanidade, uma vez amaldiçoada, teria sido para sempre amaldiçoada. Graças a Deus, ele nos deixou uma possibilidade e esperança de salvação, por meio de Cristo, cujo ministério é mencionado pela primeira vez por aqui mesmo no capítulo 3, versículo 15.

porque você é pó, e ao pó voltará. Deus não perdeu o domínio sobre sua criação. Foi ele quem formou o homem do pó e, uma vez que este desobedeceu, como castigo pelo pecado, Deus decide justamente que sua criação deveria voltar ao pó de onde veio. A morte entrou no mundo como um castigo merecido por nossa desobediência.

27/01/18

 

[Este texto é fruto de meu plano de estudo bíblico pessoal a respeito da soberania de Deus. Leia sobre isso aqui.]

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Gênesis 2.7,21

v. 7 Então o SENHOR Deus formou o homem do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o homem se tornou ser vivente.

 

Deus criou todas as coisas por meio da palavra. “E disse Deus: haja (…) e houve”, este é o refrão do primeiro capítulo de Gênesis. Na Bíblia Hebraica há, pelo menos, dois verbos usados para indicar a forma como as coisas vieram à existência: O verbo bara (raiz ברא) significa criar, enquanto o verbo ‘asah (raiz עשה) significa fazer.

No entanto, ao trazer à existência o homem, Deus não simplesmente ordenou “haja!”, mas o fez com suas próprias mãos. O espírito de vida foi recebido por meio do sopro de Deus. Em algum lugar eu escutei (ou li, não me lembro) que é interessante perceber que o homem foi “feito” do pó, mas foi “criado” a partir do sopro divino.

pó da terra. Enquanto todas as outras coisas vieram à existência por meio da palavra de ordem divina, o homem foi feito a partir de um elemento já existente (o barro). A palavra hebraica para homem é adam, mesma raiz da palavra terra (אדם), daí também deriva o nome Adão.

Quem chamou a minha atenção para a diferença dos verbos fazer e criar no relato da criação foi o professor doutor Adauto Lourenço, em seu livro Gênesis 1&2, editora Fiel.

 

v. 21 Então o SENHOR Deus fez o homem cair em profundo sono e, enquanto dormia, tirou-lhe uma das costelas, fechando o lugar com carne.

 

A soberania de Deus sobre o ser humano está bem nítida nesta passagem, que mostra seu poder para fazer o homem dormir, e fez isso com Adão no momento que desejou. O Senhor também não perguntou a Adão se ele dava permissão para retirar-lhe uma costela. Deus simplesmente quis fazer isso e o fez! Deus tinha poder sobre o corpo de Adão, assim como hoje tem poder sobre o nosso para fazer o que lhe aprouver e sem nos pedir licença nem permissão.

tirou-lhe uma das costelas. A mulher possui a mesma essência do homem, ela também foi feita a partir de um elemento preexistente.

26/01/18

 

[Este texto é fruto de meu plano de estudo bíblico pessoal a respeito da soberania de Deus. Leia sobre isso aqui.]

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Gênesis 1.26

Então disse Deus: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança”.

 

Deus, o Pai, não estava sozinho. Já havíamos sido apresentados à pessoa do Espírito Santo no versículo dois deste primeiro capítulo de Gênesis.

Agora vemos que o Senhor se dirige a alguém (“façamos”). O verbo no imperativo sugere que a(s) outra(s) pessoa(s) presente(s) o auxilia(m) na formação do homem. Todos põem a mão na massa, não são meros espectadores.

nossa imagem (…) nossa semelhança. O homem seria formado à imagem não só de Deus Pai, mas também daqueles que estavam ali participando do processo de criação. Isso significa que o Pai, ao se dirigir àqueles que o acompanhavam, não se dirigia a alguém inferior a si, e sim, a alguém que tem a mesma essência, os mesmos atributos, a mesma natureza divina. São pessoas diferentes, mas os três formam uma unidade, um só Deus: O Pai, o Filho e o Espírito Santo.

É muito difícil compreender essa doutrina fundamental à fé cristã, pelo menos no meu caso sempre me dá um nó na cabeça! No entanto, trata-se de uma doutrina que aparece logo no primeiro capítulo da Bíblia e, assim prossegue ao longo de toda a Escritura.

25/01/2018

[Este texto é fruto de meu plano de estudo bíblico pessoal a respeito da soberania de Deus. Leia sobre isso aqui.]

Gênesis 1.1-2

No princípio Deus criou os céus e a terra. Era a terra sem forma e vazia.

A Bíblia já começa revelando a soberania de Deus. Ele é o criador dos céus e de tudo o que existe. Ele é o autor de cada planeta, de cada galáxia. Deus é superior ao próprio universo. Como consequência, Deus também criou a terra e TUDO o que há dentro dela, seja de origem mineral, vegetal ou animal. Se, por sua própria vontade, por meio da Palavra, Deus criou todas as coisas, a única conclusão à qual consigo chegar é a de que ele está acima de qualquer homem, independentemente de sua etnia, posição social, dinheiro e fama. É criatura e está debaixo de seu Criador.

Deus não depende da opinião do homem para existir. Não será menos Deus porque determinados homens disseram que ele não existe. A opinião dos ateus não afeta nem um pingo da verdade de que Deus existe e é superior a tudo. A opinião da criatura jamais afetará a natureza divina, pois Deus não depende de sua criação.

Era a terra. O primeiro versículo apresenta Deus como o autor do universo. O segundo versículo volta a nossa atenção para a terra. Ou seja, não nos cabe fazer especulações quanto ao que está fora do nosso planeta, se existe vida ou não existe… Ainda que haja algumas passagens que revelam poucas coisas a respeito do universo, o que Deus deseja é que nos concentremos naquilo que ele revelou para nós. Conforme disse C. S. Lewis, “só nos foi revelada aquela parte do plano que nos diz respeito diretamente” (LEWIS, C. S. Cristianismo puro e simples, 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2009, p. 264).

 

24/01/2018

[Este texto é fruto de meu plano de estudo bíblico pessoal a respeito da soberania de Deus. Leia sobre isso aqui.]

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A ética, o cristão e a guerra

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Ética e guerra

O objetivo deste trabalho é falar sobre a relação entre a guerra e a ética, analisando também a posição que o cristão assume perante este conflito.

Antes de começarmos, porém, é necessário definir guerra. Segundo o dicionário Aurélio, guerra é “luta armada entre nações ou partidos; conflito.” Granz e Smith (2005), em seu Dicionário de Ética, dizem que guerra “é o conflito armado entre nações ou grupos de pessoas”. Podemos concluir então que, para haver guerra, é necessário armas. Isso significa consequentemente, que não há guerra sem violência, sem feridos e sem mortos.
A guerra pode ser originada por vários motivos: religioso, ideológico, político, geográfico, discriminatório, etc. No entanto, nem todo motivo é considerado justo pela sociedade e, em alguns casos, a guerra poderia ser evitada devido à existência de outros meios possíveis para a resolução do conflito. Com base nisso, surgiram algumas visões e posições a respeito da guerra, que serão enumeradas a seguir:
Ativismo: Segundo esta visão, a guerra sempre é uma forma válida para se resolverem os conflitos entre nações ou grupos. Os ativistas têm como argumento o fato de que todo o cidadão deve respeitar o governante e obedecer-lhe. Além disso, o indivíduo não deve estar passivo numa luta em defesa dos interesses de seu povo ou grupo.

Teoria da guerra justa: essa teoria defende a guerra originada por uma causa ou intenção justa. Esta visão acredita que, em alguns casos, o combate é eticamente justificável. Por exemplo, uma nação possui todo o direito de se defender diante de um ataque ou de um opressor. Não foi esta nação que começou, e há vidas inocentes em jogo, por isso o correto seria participar da guerra e defender o povo.

Pacifismo: os pacifistas partem da premissa de que é errado se utilizar da violência para acabar com a violência. São contra o uso de armas, tanto numa guerra quanto numa intervenção policial, ou mesmo no caso de posse de armas. Os pacifistas acreditam que é possível as pessoas resolverem suas diferenças por meio da diplomacia.

Não-violência: é uma visão que defende a luta pelos ideais e princípios da nação ou grupo, porém não pode ser considerada uma maneira de guerrear porque eles se recusam a usar a violência para atingir seus objetivos. Os que seguem a visão da não-violência lutam, combatem, chamam a atenção do mundo para a sua causa, mas não se valem da força física, nem de armas. Gandhi e Martin Luther King são exemplos de líderes defensores da não-violência.

Não-resistência: trata-se de uma visão contra a violência, porém ao ponto de agir passivamente ou não agir diante da violência oponente. A ideia é que não resistir ao inimigo também é uma maneira de protestar.

Terrorismo: é uma forma antiga de guerrear (a metodologia dos zelotes, do Novo Testamento, era considerada terrorista). Trata-se da violência armada, militar ou não, que procuram intencionalmente atacar civis para que, pelo medo gerado, possam atingir seus objetivos, que podem ser religiosos, políticos, econômicos, etc.

Os indivíduos possuem visões muito diferentes uns dos outros em relação a este assunto. Uns acreditam que a opressão é um instinto do ser humano. Porém, se considerarmos que instinto é algo biológico, inerente a uma determinada espécie e que não se pode fugir dele, então poderemos concluir que a opressão não é um instinto, já que é possível evitá-la e controlá-la; além disso, existe um número grande de pessoas (e não podem ser consideradas exceções) que são oprimidas e não oprimem nem sentem impulsos para oprimir. Acreditar que a opressão é inerente ao ser humano pode ser uma maneira de o indivíduo demonstrar sua visão ativista de guerra.
Há indivíduos que procuram defender o pacifismo com o argumento de que matar pessoas é uma crueldade. Mas aqui a questão está no conceito de que temos de crueldade. A crueldade sempre esteve relacionada à dor ou sofrimento sem propósito que um indivíduo impõe sobre outro. Contudo, quando há um propósito justo aquele sofrimento pode estar relacionado à crueldade? Segundo o exemplo de Barrington (1974), um cirurgião não pode ser considerado cruel por infligir dor a um paciente, pois sabemos que aquela dor é temporária e o paciente, após algum tempo, se sentirá melhor do que se sentia antes da cirurgia. Por isso, os defensores da guerra justa consideram que é mais cruel permitir que oponentes destruam o povo inocente do que não resistir à violência em prol de melhorias, mesmo que por um tempo pessoas inocentes tenham que sofrer.

Em favor da guerra, tanto os defensores da guerra justa quanto os ativistas possuem o seguinte argumento:
Pelo fato de que os métodos amorais e imorais prometem maiores vantagens nas lutas políticas, todas as políticas ficam manchadas pela imoralidade. A tentativa de evitar essa nódoa, entretanto, a busca de pureza, pode tornar-se a maior imoralidade de todas no sentido de causar o maior sofrimento, porque deixa a arena política à mercê dos que têm menos escrúpulos. (p.57)
Isso significa que, mesmo que pensemos na guerra como algo imoral ou amoral, não devemos deixar de praticá-la porque, se não a fizermos, aqueles que não estão interessados em ética e moral a farão, e o resultado será pior do que seria se tivéssemos aceitado guerrear. Na não-resistência as conseqüências são piores no sentido de que mais pessoas inocentes são atingidas, pois não há quem as defenda. Essa permissividade ao ataque a inocentes sem defesa pode, como já foi dito, ser considerada mais imoral do que a resistência.

Assim como a sociedade possui diferentes formas de pensar a guerra (este não será o foco do trabalho), o meio cristão também diverge em suas opiniões quanto ao assunto. É possível encontrar cristãos que defendem o ativismo, o pacifismo ou a teoria da guerra justa; e todos eles têm argumentos bíblicos para defenderem sua visão.
Os cristãos ativistas utilizam como principal argumento o fato de que o governo é instituído por Deus (Rm 13.1-7), e nosso dever é obedecer às autoridades e, consequentemente, participar da guerra quando esta for declarada.
É no Antigo Testamento que há mais menções da autoridade que o Senhor dá ao governante: Deus escolhe Davi para reinar sobre Israel (1Sm 10.24), e depois deste vêm outros reis. Em Daniel 4.25 diz que “o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem quer.” No Novo Testamento também há referências à autoridade humana. Em Romanos 13.4, que já foi citado anteriormente, diz, com relação ao governo: “Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal.” Há também a famosa declaração de Cristo, sempre usada para defender a submissão aos governantes: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.” (Mt 22.21). Pedro diz: “sujeitai-vos a toda instituição humana por causa do Senhor, quer seja ao rei, como soberano, quer às autoridades, como enviadas por ele, tanto para castigo dos malfeitores como para louvor dos que praticam o bem.” (1Pe 2.13,14). Portanto, se o governo decide pela guerra, sendo esta justa ou injusta, o cristão deve concordar e participar, pois a obediência à autoridade é obediência a Deus; e a desobediência à autoridade consiste na desobediência a Deus. Esta é a visão do cristão ativista.

Pensemos agora no cristão pacifista. Para ele, é terminantemente errado participar da guerra. O pacifista utiliza três grandes argumentos contra a participação numa guerra: 1) um dos mandamentos do decálogo é “não matarás” (Ex 20.13); 2) Jesus ordenou que não resistíssemos ao mal (Mt 5.39); 3) devemos amar todos (inclusive nossos inimigos), e a guerra expressa ódio, não amor.

Quanto ao mandamento do decálogo, os pacifistas afirmam que a Bíblia deixa muito clara a proibição. Não se pode assassinar, e a principal conseqüência de se fazer guerra é o assassinato em massa. Contra o argumento dos ativistas quanto às guerras do Antigo Testamento, os pacifistas dizem que essas guerras não eram ordenadas por Deus, mas permitidas por Ele, e era o homem quem decidia por guerrear. Outros já argumentam que as guerras naquela época eram diferentes. Tratavam-se de guerras divinas e não humanas, e a prova disso eram as intervenções milagrosas de Deus nos conflitos.

Há um trecho bíblico em que Jesus declara: “Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada.” (Mt 10.34) Os pacifistas dizem que esta declaração não tinha a intenção de mostrar o objetivo da vinda de Cristo à Terra, mas seus resultados. Por causa dele, por amor a ele, haveria discórdias e divisões nas famílias e na sociedade. É realmente o que vemos hoje. Muitos são perseguidos por causa do amor de Jesus. Em alguns lugares as pessoas morrem se declararem fé em Cristo.

Outra passagem bíblica em que os pacifistas se baseiam para não desejarem a guerra é a do Sermão do Monte, quando Jesus diz: “não resistais ao perverso; mas, a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra” (Mt 5.39). Em Romanos 12.19-21 está escrito:

Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas daí lugar à ira; porque está escrito: A mim pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor. Pelo contrário, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem.

Um importante argumento em favor do pacifismo é o de que a Bíblia inteira fala de amor, e o maior de todos os mandamentos é o amor. Ainda no Sermão do Monte, Jesus disse que devemos amar os nossos inimigos e orar pelos que nos perseguem (Mt 5.44). A guerra expressa ódio e, na maioria das vezes, sua origem está no ódio. Portanto, participar da guerra é o mesmo que descumprir o maior dos mandamentos.
Existe também o cristão que assume uma postura equilibrada. Ele defende a teoria da guerra justa, à qual Geisler (1984) chama de seletivismo. O seletivista defende que é correto participar de algumas guerras, aquelas que possuem um motivo justo ou uma causa que futuramente beneficie a nação ou o grupo interessado. Se pensarmos nas guerras injustas, concluiremos que o ativismo está equivocado. Se pensarmos nas guerras justas, veremos o pacifismo como equivocado.
A Bíblia ordena que sejamos submissos aos governantes. Contudo, a própria Bíblia é clara em mostrar que às vezes não é certo obedecer ao governo quando este não está de acordo com os mandamentos divinos. Em Daniel 6, vemos a ordenação do rei em ser adorado e a recusa de três jovens tementes a Deus em obedecer-lhe (havia uma ordem divina superior: adorar somente a Deus). Como esta, há outras situações na Bíblia que mostram que a obediência a Deus vem antes da obediência ao governo humano.
Além disso, com relação às guerras do Antigo Testamento, os seletivistas afirmam que algumas foram concessivas, mas outras estavam dentro da vontade de Deus que ocorressem, como foi o caso, por exemplo, da guerra com os cananeus e outros povos:
“Porém, das cidades destas nações que o Senhor, teu Deus, te dá em herança, não deixarás com vida o que tem fôlego. Antes, como te ordenou o Senhor, teu Deus, destruí-las-ás totalmente: os heteus, os amorreus, os cananeus, os ferezeus, os heveus e os jebuseus” (Dt 20.16,17).

O mandamento que diz “não matarás” também tem sua justificação sob o ponto de vista da teoria da guerra justa:  em hebraico há muitas palavras que definem a palavra morte, cada uma expressando um sentido diferente. No caso da frase do mandamento bíblico, o verbo é teresach, e possui o sentido de assassinar. Portanto a melhor tradução seria “não assassinarás”. Um mandamento que proíbe o assassinato não está necessariamente proibindo a guerra. Os pacifistas acreditam que as mortes na guerra são assassinato. Contudo, uma das partes pode estar apenas se defendendo. Segundo Manuel Pedro Cardoso, a Nova Enciclopédia Larousse define assassinato como sendo um “homicídio feito com premeditação ou à traição.” Numa guerra, aqueles que se defendem ou lutam por um ideal justo não podem ser considerados assassinos. A morte não é desejada pelos combatentes, apesar de todos saberem que ela ocorrerá como conseqüência direta.

Além das guerras justificadas e justificáveis, devemos pensar também nas defensivas, isto é, aquela que um país se vê forçado a fazer quando é atacado. Não resistir, neste caso, acarretaria na morte de muitos civis inocentes, além de ceder à ocupação geográfica e política do inimigo.

Mais um argumento dos seletivistas está na reverência pela vida. Assim como não devemos tirar a vida de outros, devemos preservar a nossa e defendê-la. Os pacifistas utilizam o texto de Romanos 12.19-21 como argumento para a defesa da não-resistência. Entretanto, o versículo anterior (Rm 12.18) deixa claro que devemos ter a paz com todos, mas apenas até o ponto em que isto é possível. Isto significa que Paulo sabia que haveria situações em que sustentar a paz não depende da nossa vontade.

Após toda essa análise, podemos concluir apenas que não há uma visão definida por parte dos cristãos a respeito da guerra. Nem mesmo a sociedade em geral pode ter uma única opinião sobre o assunto, pois tanto a defesa quanto a repulsa da guerra possui argumentos eticamente favoráveis e desfavoráveis. Não podemos pensar na melhor solução para a questão da guerra, mas apenas levar em consideração o contexto em que ela está sendo criada e optar por aquilo que for “menos pior”, ou seja, sempre haverá inocentes prejudicados, mas devemos pensar numa alternativa em que esse prejuízo seja o menor possível.

Por Mariana Ferreira de Toledo

Referências Bibliográficas

A Bíblia sagrada. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. Barueri, SP: SBB, 1988.

BARRINGTON MOORE, Jr. Da guerra, crueldade, opressão e sordidez humana geral. In: Reflexões sobre as causas da miséria humana e sobre certos propósitos para eliminá-las. Rio de Janeiro: Zahar, 1974.

BAUER, Johannes B. Dicionário de Teologia Bíblica v.1. São Paulo: Loyola, 1975.

CARDOSO, Manuel Pedro. Pacifismo. In: http://www.estudos-biblicos.com/pacifis.html. Acesso em 16 de junho de 2009.

GEISLER, Norman L. O cristão e a guerra. In: Ética cristã: alternativas e questões contemporâneas. São Paulo: Vida Nova, 1984.

GRENZ, Stanley J. e SMITH, Jay T. Dicionário de ética. São Paulo: Vida, 2005.

Não Violência. In: pt.wikipedia.org/wiki/Não-violência. Acesso em: 17 de junho de 2009.