O fracasso social e político como consequência da depravação humana na trilogia Divergente, de Veronica Roth

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(Atenção! Contém Spoilers!)

Ultimamente tenho dado oportunidades a certos autores que, em outras épocas, eu teria rejeitado. Descobri recentemente uma escritora chamada Veronica Roth, autora da trilogia Divergente. Li o primeiro (de mesmo nome) e o segundo (Insurgente). Esta semana vou comprar o último (Convergente), mas a curiosidade já me levou aos spoilers, por isso poderei comentar aqui também sobre o desfecho dessa história. Decidi escrever a respeito dela porque pude perceber uma cosmovisão bastante bíblica, apesar de o romance em si não ser considerado propriamente cristão ou teológico. Ele considera como pressuposto a doutrina da depravação total do homem e o fracasso do ser humano ao tentar consertar o problema da humanidade com base em seu próprio conhecimento.

Eu fiquei realmente impressionada com a originalidade da autora. Trata-se de um romance distópico, que se passa em um futuro não muito distante, na cidade de Chicago. A sociedade foi dividida em cinco facções: Abnegação, Audácia, Erudição, Franqueza e Amizade. Todos os cidadãos, convivem com sua família e são educados na facção de origem até completarem 16 anos. Nessa idade, todos devem passar por um processo de escolha. Primeiramente, realizam um teste de aptidão para descobrirem com qual facção cada um mais se identifica. Porém, independentemente do resultado do teste, o indivíduo tem o poder de escolher para qual facção ele deseja se unir. Após a escolha, não há possibilidade de voltar atrás e ele deve passar o resto de sua vida na facção escolhida. Aqueles que não são capazes de escolher ou que não conseguem se adaptar ao lugar da escolha, são expulsos da sociedade e passam a viver miseravelmente em uma categoria social onde são chamados de “os sem-facção”.

A protagonista da história se chama Beatrice Prior e ela vem da facção Abnegação. É ela também a narradora, ou seja, o romance está em primeira pessoa, com narrador não onisciente, tudo o que acontece é sob o ponto de vista de Beatrice. A história começa quando ela, aos 16 anos, precisa passar pelo processo da escolha. Ao realizar o teste de aptidão, Beatrice descobre que não é uma garota normal. Ela é “divergente”. Uma pessoa divergente é aquela que possui fortes aptidões para mais de uma facção. Beatrice tem capacitações necessárias para escolher entre a Abnegação, a Erudição e a Audácia. Ser divergente naquela sociedade é algo muito perigoso, pois eles não podem ser controlados nem manipulados como aqueles cuja visão e capacitação estão voltadas para apenas uma qualidade. A instrutora do teste, Tori, da Audácia, aconselha Beatrice a se manter na Abnegação, assim correria menos riscos de ser descoberta pelos líderes da Erudição, que buscam exterminar os divergentes e controlar toda a sociedade, fazendo com que a Abnegação, que é a responsável pela governabilidade da cidade, fique desprestigiada e seja aniquilada.

No entanto, Beatrice sempre teve muitas dúvidas quanto à decisão que queria tomar, e sempre havia admirado o modo destemido e aventureiro dos integrantes da Audácia. Por isso, ela deixa a Abnegação, junta-se à facção da Audácia, e muda o nome para Tris. Todo o romance narra seu processo de iniciação, as dificuldades pelas quais passa e, acima de tudo, como ela começa a entender sua divergência, ao mesmo tempo em que precisa esconder essa característica de todos, já que sua vida corre perigo caso seja descoberta. Para isso, ela conta com a ajuda de Quatro (Tobias), um personagem que, devido à proximidade com Tris, ganha uma importância quase protagônica na história. Ele é o instrutor dos iniciandos, tem 18 anos, ou seja, passou pelo processo de iniciação dois anos atrás.

Bem, não vou me alongar falando do enredo, não é este o objetivo. Decidi escrever a respeito de Divergente pelos motivos que mencionei no início deste texto. Conforme havia dito, não se trata de uma obra cristã e os paralelos teológicos não são tão evidentes como, por exemplo, em As Crônicas de Nárnia ou na Trilogia Cósmica, do C. S. Lewis (Aliás, no que diz respeito à qualidade literária, a obra de Lewis é muito mais inteligente). No entanto, não parece mesmo ter sido essa a intenção da autora. O que Veronica Roth fez foi simplesmente criar uma história a partir de sua própria cosmovisão. Ela é declaradamente cristã, foi convertida no período da faculdade, mesma época em que escreveu a trilogia.

Uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a maneira como a obra define o ser humano: mau, sem exceção. O homem sempre está inclinado para fazer o mal. No discurso da cerimônia de escolha de Beatrice, Marcus explica por que, muitos anos antes, a sociedade decidiu se dividir em facções: “Eles concluíram (…) que a culpa estava na personalidade humana, na inclinação humana para o mal, seja qual for a sua forma.” (p. 48). Em outra ocasião, Tris reflete a respeito de um ensinamento de seu pai: “A razão humana é capaz de justificar qualquer mal; é por isso que não devemos depender dela.” (p. 111). A mãe de Tris também menciona o problema em outro momento: “Os seres humanos, de uma maneira geral, não conseguem ser bons por muito tempo antes que o mal penetre novamente entre nós e nos envenene.” (p. 454).

Este pensamento é totalmente bíblico. Em Romanos 3.10-12 Paulo, fazendo referência a Salmos 14.2,3 afirma que “não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só.” O cristianismo ensina que todo homem nasce inclinado para o mal. Se depender de sua própria vontade, ninguém jamais escolhe buscar a Deus, por isso está perdido. O homem tenta de todas as formas resolver os problemas sociais, morais, éticos, políticos etc., valendo-se de sua própria inteligência e luta militantemente para defender seus ideais. Contudo, de acordo com o pensamento cristão, por mais alto que pareça esse ideal e por mais que a pessoa se esforce por atingi-lo, o mal natural que está dentro de nós jamais permitirá que algo se mantenha bom por muito tempo e nada pode ser realmente bom se Deus não está presente. Esta é a base do romance. Os homens tentaram resolver o problema da desordem social criando as facções, inicialmente talvez tivesse funcionado, mas no momento em que a história se passa entendemos que o sistema está entrando em declínio e que o homem não deixou de ser mau, como a própria Tris falou, “quando nos livramos de uma coisa ruim, outra a substitui” (p. 418).

No final de Insurgente e começo de Convergente entendemos melhor o que realmente está acontecendo nessa sociedade de facções. Na verdade, somente a cidade de Chicago vive sob esse sistema. Ao perceber que o problema era intrínseco ao homem, os líderes sociais decidiram realizar um teste, cercando a cidade e colocando ali dentro pessoas desmemoriadas, isto é, que tomaram o “soro da memória” e se esqueceram de toda a vida que haviam levado até então. Seriam observados do lado de fora, pois a ideia era que, se a pessoa se esquecesse de seu passado pecaminoso e violento, poderia começar de novo sem pecar. Obviamente, o resultado não foi esse. Às vezes, pensamos no quanto é injusto pagarmos pelo pecado de Adão e Eva, como se, apenas por culpa deles somos também pecadores. Mas creio que, se a história começasse toda outra vez e eu fosse colocada ali no lugar de Eva, teria agido da mesma forma ou pior. O ser humano é mau. Ele sempre escolhe o mal.

Curiosamente estou trabalhando na revisão de uma obra que discute os efeitos do calvinismo, especialmente na política, a partir do século 16 (há um capítulo dedicado também aos antecedentes da Reforma). Não posso passar a referência em português porque o livro ainda não foi publicado, mas deixarei o link aqui assim que isso acontecer. O autor se chama David W. Hall e o livro em inglês se chama Calvin in the Public Square. Há um capítulo em que ele mostra como o pensamento calvinista influenciou na filosofia política estadunidense no momento de sua colonização/fundação. Um dos pontos fundamentais da filosofia daquele momento era o de que, por mais inteligente que possa ser o homem, ele jamais será capaz de criar um sistema social perfeito, por conta de seu pecado. Consequentemente, qualquer sistema político ou social está fadado ao fracasso. A partir daí, justificava-se a necessidade de o governante se submeter à vontade divina, pois somente Deus é capaz de criar e conduzir um governo perfeito e imaculado. Os Estados Unidos, no período de sua fundação, levaram esse pensamento muito a sério. Mas, devido à natureza caída do homem e também após o Iluminismo surgir com suas ideias antropocêntricas, fazendo-nos crer na mentira de que, sim, há algo bom dentro de nós, nossa tendência é ignorar a Deus e sua vontade que é boa, perfeita e agradável. Na verdade, com ou sem Iluminismo, antes ou depois dele, o homem sempre acreditou ser capaz de alcançar coisas boas por seus próprios méritos, com sua própria bondade e defendendo seu sistema político favorito.

Outra coisa que me chamou muito a atenção foi a característica de um divergente. Uma vez que possui qualidades suficientes para se identificar com mais de uma facção, ele se torna mais difícil de ser controlado. Ele é capaz de ser corajoso (Audácia), altruísta (Abnegação), inteligente (Erudição), honesto (Franqueza) e amável (Amizade). Ora, estas são as características esperadas de um cristão, não que o cristão possua todas elas, mas deve buscá-las e, em Jesus, é capaz de alcançá-las. Jesus Cristo possui todas essas qualidades, por isso ele é o Divergente Supremo. Além disso, o romance apresenta o divergente como pessoas tementes a Deus e oriundas principalmente da facção Abnegação. Na parede do quarto de Quatro está escrito “Tão somente temei ao Senhor” (p. 296). Jeanine, uma das líderes da Erudição e a responsável por comandar o aniquilamento da Abnegação, confessa: “Uma questão que me preocupa (…) é a seguinte: Por que será que a maioria dos divergentes são pessoas de vontade fraca, insignificantes e tementes a Deus e, de todas as facções possíveis, geralmente originárias logo da Abnegação?” (p. 442).

O divergente não é um ser humano bom em contraste com seres humanos maus. Eles são igualmente maus que, inexplicavelmente, receberam essa capacidade rara. No livro Insurgente, quando Peter acusa Tris de ser tão má quanto ele, ela responde: “Talvez nós dois sejamos maus, mas há uma diferença enorme entre nós. Eu não me contento em ser assim.” (p. 342). Da mesma forma, o cristão não é alguém bom. Ele nasceu inclinado para o mal, escolhendo o mal, como todas as pessoas. A grande diferença é que, inexplicavelmente, o cristão recebe de Deus o dom de crer nele e escolher buscá-lo. Ou seja, o cristão só escolhe buscar a Deus porque foi escolhido antes. O cristianismo chama isso de graça irresistível, imerecida. Em 1João 4.19 lemos que só somos capazes de amar a Deus porque Ele nos amou primeiro, e não o contrário.

Tris descobre que possui essa qualidade de ser divergente. Ela não escolheu ser assim, bem como os outros divergentes da história também não escolheram. Ao contrário, eles foram escolhidos. Marcus, o pai de Quatro e um dos líderes da Abnegação, que também é divergente, disse a Tris: “Nós não somos daqui. Fomos colocados aqui para atingir um objetivo específico” (p. 405, de Insurgente). Em Insurgente, quando está prestes a ser executada pela vilã Jeanine, Tris finalmente começa a entender o que significa sua divergência. A primeira conclusão à qual ela chega é a de que o que lhe espera além da vida não é algo que dependa dela própria, nem de seus atos bons ou maus:

 

“Acho que agora seria a hora de pedir perdão por todas as coisas que fiz, mas sei que minha lista nunca estaria completa. Também não acredito que o que quer que aconteça depois da vida dependa de uma listagem correta das minhas transgressões. (…) Na verdade, não acredito que o que vem depois dependa de maneira alguma dos meus atos.” (p. 372).

 

Após conseguir fugir da morte com a ajuda da pessoa mais improvável (Peter), Tris se alia a Marcus para tentar salvar uma informação que poderá mudar todo o destino daquela sociedade falida, que estava sob a ameaça de ser tomada pelos sem-facção. Para isso, eles vão até a sede da Amizade buscar ajuda. Pela manhã, enquanto caminhava, Tris observou um ritual religioso e foi convidada a se unir ao grupo. Uma senhora segurou suas mãos, a olhou bem nos olhos e disse: “Que a paz de Deus esteja com você (…), mesmo em meio a dificuldades”. Tris lhe respondeu: “Por que ela estaria, depois de tudo o que fiz?”. E a mulher respondeu: “A questão não é você. É uma dádiva. Você não pode merecê-la, ou ela deixará de ser uma dádiva”. (p. 429). A graça de Deus, por meio de Jesus Cristo é exatamente isso! Uma dádiva que nós estamos longe de merecer. A questão não somos nós. Se coubesse a nós a escolha pela salvação, estaríamos todos perdidos. “Ao SENHOR pertence a salvação” (Jn 2.9).

Ainda não li Convergente, apenas o spoiler, mas o que posso dizer pelo que descobri é que Tris passa a entender tanto a sua função como divergente, que a usa em favor de seu irmão Caleb, um traidor, que não merecia sua misericórdia, e ela chega ao ponto de se sacrificar por ele.

Enfim, existem muitos outros paralelos a respeito dos quais eu poderia refletir aqui, mas o texto acabou ficando bem maior do que imaginei, então, se você deseja saber mais e levantar outra lista mencionando situações que você observou e que eu não coloquei aqui, leia o livro. É uma leitura empolgante, você não consegue parar de ler e dá dó quando você tem outras coisas para fazer e precisa fechá-lo. Ele tem os seus problemas, realmente não é uma boa literatura, no sentido técnico. Mas releve esses problemas e a experiência dessa leitura será maravilhosa como foi para mim!

Mariana Ferreira de Toledo

 

Obs.: Após publicar uma primeira versão deste artigo, acabei encontrando um texto do pastor Josemar Bessa a respeito da mesma trilogia e tratando da questão da depravação total do homem. Por isso me inspirei em seu texto e, entre outros motivos (por exemplo, a recente leitura de Insurgente), decidi reescrever meu texto. A quem interessar, deixo aqui o link do artigo do pr. Josemar: http://www.josemarbessa.com/2017/04/calvino-divergente-e-cristo-o-retrato.html .

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História sobre liberdade II

f_276785Era uma vaca solitária. Teimosa. Desde filhote já sustentava ideias revolucionárias. Não estava de acordo com isso de viver sob o controle de um vaqueiro. E a cerca era tão baixa, por que ninguém pulava? Sempre tentara inutilmente provocar um motim para a fuga coletiva, mas ninguém comprava a ideia. Seus pais a observavam e abanavam a cabeça, em reprovação. O que fizeram de errado para que sua filha saísse daquele jeito?

No entanto, o primeiro ato real de rebeldia foi quando decidiu se recusar a dar seu leite aos humanos. Ela não era obrigada, o leite era seu e não tinha por quê cedê-lo assim gratuitamente. Quando o vaqueiro apertava suas tetas, ela fazia toda a força e segurava o leite. Quando o homem insistia, a rebelde resolvia o problema com um coice bem dado. Também já tentou impedir a ordenha de suas companheiras. Esperava o recipiente ser enchido, aproximava-se como quem não queria nada, e chutava o balde. As vacas se queixavam: “Se você não quer dar seu leite, o problema é seu. Agora não venha nos prejudicar, respeite nosso trabalho! Veja só que desperdício!” E a rebelde respondia, zangada: “Agora não adianta mais chorar sobre o leite derramado!”

Por isso essa vaca era solitária. Ela queria sair daquela situação da fazenda, ela queria liberdade (ou aquilo que ela imaginava ser a liberdade). Mas ninguém a compreendia. Estavam todos muito satisfeitos com a vida que levavam. Então, certa vez, decidiu que seria livre de qualquer maneira, mesmo que fosse sozinha. Aproveitando o horário da sesta, enquanto todos dormiam, ela se equilibrou sobre a cerca baixa e a pulou. Satisfeita por descobrir essa sua capacidade, saiu rebolando sem direção.

Em poucos minutos já havia se afastado muito do sítio onde vivia. Começou a caminhar à beira da rodovia, sonhando poder viver em qualquer lugar, sem dar satisfação a ninguém. Em pouco tempo de caminhada já era possível avistar casas e prédios. Estava na cidade! Aquele era o seu lugar. Ela havia escutado que a cidade é o lugar das oportunidades. Por que perdeu tanto tempo dentro daquelas quatro cercas? Desviou seu caminho da rodovia e entrou em uma rua. Para ela aquilo era como um labirinto. Uma rua levava a outra, que levava a outra, e pareciam todas iguais. Mas não havia problemas. Não importava em que rua estivesse, o importante era fazer o que lhe desse na telha. A alegria era tanta que começou a correr. Para cá e para lá.

Foi nesse corre-corre que aconteceu a tragédia. A vaquinha rebelde tropeçou em uma pedra e foi rolando barranco abaixo até cair no quintal de uma casa, que estava abaixo do nível da rua. Levantou-se atordoada, ainda sem entender direito o que estava acontecendo. Procurou a saída mas se viu em um pátio estreito e não sabia mais como sair dali. “E agora?” pensou. “Como vou me livrar dessa? Por onde eu saio?” Olhou ao seu redor, tentando encontrar uma ideia. Olhou para cima. Sorriu. Claro! Se ela veio de cima para baixo, agora deveria fazer o sentido inverso. Ali estava o telhado, era só subir e caminhar até a rua outra vez!

Escalando uma coluna, chegou no alto. Porém, logo nos primeiros passos, o telhado não suportou seus quase 600 quilos e rompeu. A vaca caiu e foi parar dentro de uma sala de estar. Bateu com a cabeça na parede e quebrou um dos seus chifres. Assustou-se ao ver sangue na parede, seria mesmo dela? Começou a se contorcer, mas era muito pesada para se levantar sozinha. Esbarrou na estante e derrubou a televisão, esbarrou também na mesinha do computador. Quando se deu conta, tudo que havia no chão estava estilhaçado. “Como vim parar num lugar tão apertado? Nunca imaginei que os humanos vivessem mais presos que a gente!” Depois de derrubar praticamente tudo que havia na sala, ela se levantou e seguiu procurando a saída. Foi quando entrou no banheiro, mas sem sucesso. E que lugar pequeno, como dar meia volta e sair? Suas patinhas começaram a se voltar na direção da porta, quando ela se deparou com uma mulher, que gritava desesperada: “Meu Deus o que é isso?!” “Quem trouxe esse bicho para o meu banheiro???” A vaquinha se ofendeu: “Bicho não, minha senhora. Cuidado com sua língua ou vai se ver com a minha que é muito maior!” Na tentativa de se apressar para atacar, escorregou e caiu de novo. Só que desta vez seu peso arrancou o vaso sanitário do lugar e danificou a pia. A mulher não sabia o que fazer, e a vaca, estendida pelo chão do banheiro, era orgulhosa demais para pedir ajuda.

Em pouco tempo apareceram homens com cordas para amarrá-la. Levaram-na outra vez ao quintal, e ali se esticou, pensando: “Saí do sítio atrás da liberdade. Agora estou amarrada por um bando que, por própria vontade, vivem em casas mais apertadas do que o curral.” Os homens ainda tentavam fazer com que se levantasse, mas ela era ferrenha: “Se querem me tirar, então que me carreguem. Não é por minhas patas que vou sair daqui.”

Chegaram o Corpo de Bombeiros, a equipe de zoonoses e a Defesa Civil, além de um monte de curiosos fazendo festa com o evento tão inesperado. Ela foi levada em caminhonete para o centro de zoonoses. Ainda no mesmo dia apareceu o dono: Um vaqueiro usando botas, calça jeans, camisa xadrez e um chapéu de abas largas. “Agora pode deixar essa vaca rebelde comigo, porque ela é minha!” O olhar da vaca para o dono era um misto de frustração pelo fracasso do plano, vergonha e reconhecimento de que ela não tinha opção melhor do que voltar com ele. O dono, voltando-se para o animal, disse-lhe: “Quem foi que te disse que a vida aqui fora é mió? Agora ocê vai entender que a verdadeira liberdade é debaixo dos meu cuidado.” Para o espanto de todos, o vaqueiro a levantou sozinho e a colocou sobre os ombros, como se fosse uma ovelhinha e saiu contente, levando-a de volta para o sítio.

Quebrar o porquinho

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Papai não concordou em comprar o boneco do Bart Simpson para mim. Mamãe, sim, queria, mas papai não atendeu meu pedido, disse que sou mimado. “Por que compraríamos, hãn?” Disse para mamãe. “Por que compraríamos para ele? É só ele fazer psiu e você já bate continência.” Papai disse que eu não sei dar valor ao dinheiro, e que se eu não aprender isso enquanto sou pequeno, então quando é que aprenderei? As crianças que compram com facilidade os bonecos do Bart Simpson crescem depois para se tornarem malandros que roubam nos quiosques, porque eles se acostumam com isso de que tudo o que eles querem, obtêm com facilidade. Então, no lugar do boneco do Bart, ele comprou para mim um porco feio de porcelana com um buraco achatado nas costas, e agora eu vou crescer para ser certinho, agora eu já não serei um malandro.

Agora, todas as manhãs, embora eu odeie, preciso beber um copo de leite com chocolate. Chocolate com nata vale um shekel*, sem nata vale meio shekel, e se eu vomito logo em seguida, então não recebo coisa nenhuma. As moedas eu coloco nas costas do porco, e então quando o sacudimos, ele faz barulho. Quando o porco estiver com tantas moedas que, ao ser sacudido, ele não fizer barulho, então eu ganharei o boneco do Bart em cima do skate. Papai diz que assim é educativo.

O porquinho até que é simpático, seu nariz é frio quando tocamos nele, e ele sorri quando colocamos o shekel em suas costas, e também quando colocamos nele somente meio shekel, mas o mais bonito disso é que ele também sorri quando não colocamos nada. Também inventei um nome para ele, eu o chamo de Pessachzon, por causa do nome de um homem que uma vez morou em nossa caixa de correio e que meu pai não conseguiu retirar a etiqueta. Pessachzon não é como os meus outros brinquedos, ele é muito mais calmo, sem luzes, nem molas, nem baterias que vazam no seu rosto. Somente é preciso cuidar dele, para ele não pular da mesa. “Pessachzon, cuidado! Você é de porcelana”, eu digo a ele enquanto o seguro abaixando-o devagar até deixá-lo no chão. E ele sorri para mim e espera pacientemente até que eu o faça descer com as mãos. Eu morro por ele quando ele sorri, somente por ele eu bebo o chocolate com a nata toda manhã, para que eu possa colocar o shekel em suas costas e ver como o seu sorriso não muda nem um pouco. “Eu amo você, Pessachzon!”, digo a ele depois disso, “juro, eu amo você mais do que amo papai e mamãe. E eu também te amarei para sempre, não importa o que aconteça, mesmo que você arrombe os quiosques. Mas tome cuidado para não pular da mesa!”

Ontem papai veio, ergueu Pessachzon da mesa e começou a sacudi-lo, virando-o com selvageria. “Cuidado, pai!”, disse a ele, “Você faz o Pessachzon sentir dor de barriga!” Mas papai continuou. “Ele já não faz barulho, você sabe o que isso quer dizer, Yohavi? Que amanhã você receberá Bart Simpson em cima do skate.” “Legal, pai…”, eu disse, “Bart Simpson em cima do skate, legal. Somente pare de sacudir o Pessachzon, isso faz ele se sentir mal.” Papai voltou com Pessachzon ao lugar e foi chamar mamãe. Ele voltou depois de um minuto puxando mamãe com uma das mãos e, na outra mão, ele carregava um martelo. “Você vê que eu tinha razão?”, ele disse à mamãe, “Assim ele aprendeu a valorizar as coisas, certo, Yohavi?” “Com certeza que eu sei”, eu disse, “Com certeza, mas para quê o martelo?” “Isso é para você.” disse papai e colocou o martelo na minha mão. “Somente tome cuidado!” “Claro que eu terei cuidado!”, eu disse, e realmente tomei cuidado, mas depois de alguns minutos, papai se aborreceu e disse: “Então, quebre já o porco!”. “O quê?”, perguntei, “Pessachzon?”. “Sim, sim, o Pessachzon.”, disse papai. “Então, quebre-o! Você merece o Bart Simpson, trabalhou muito duro por ele.”

Pessachzon sorriu um sorriso triste de um porquinho de porcelana que entende ser esse o seu fim. Que morra Bart Simpson! Eu vou dar com o martelo na cabeça de um amigo? “Eu não quero o Simpson.” Devolvi o martelo a papai: “Pessachzon me basta.”. “Você não entendeu”, disse papai, “Isso realmente é certo, é educativo. Venha, eu o quebrarei para você.” Papai já foi erguendo o martelo, e eu olhei para os olhos quebrantados da mamãe e para o sorriso cansado de Pessachzon, e entendi que tudo dependia de mim, se eu não fizer nada, ele morre. “Pai!”, agarrei suas pernas. “O que foi, Yohavi?”, disse papai, quando a mão que segurava o martelo ainda estava no ar. “Eu quero outro shekel, por favor!”, supliquei. “Me dê outro shekel para colocar nele amanhã, depois do chocolate. E então quebramos. Amanhã, eu prometo!” “Outro shekel?” Papai sorriu e colocou o martelo sobre a mesa. “Você vê? Desenvolvi a consciência no menino.” “Sim, consciência.”, eu disse, “Amanhã.”. Eu já tinha lágrimas na garganta.

Depois que eles saíram do quarto, abracei Pessachzon bem forte e dei lugar às lágrimas. Pessachzon não disse nada, apenas tremeu em silêncio em minhas mãos. “Não se preocupe”, sussurrei-lhe no ouvido, “eu vou te salvar.”

À noite esperei que papai terminasse de ver televisão na sala e fosse dormir. Então me levantei silenciosamente e saí às escondidas pela sacada, junto com Pessachzon. Caminhamos juntos por muito tempo na escuridão, até que chegamos em um campo com espinhos. “Porcos morrem no campo”, eu disse a Pessachzon enquanto o colocava no chão, sobre o campo. “Especialmente sobre campos com espinhos. Aqui será bom para você.” Esperei por uma resposta, mas Pessachzon não disse nada. E quando toquei em seu nariz, em um gesto de despedida, ele somente cravou em mim um olhar triste. Ele sabia que não me veria nunca mais.

  • Moeda oficial de Israel

(Título original lishbor et ha chazir, de Etgar Keret. Traduzido por Mariana Ferreira de Toledo.)

downloadEtgar Keret nasceu em Tel Aviv em 1967. É considerado um dos maiores autores de sua geração, fazendo muito sucesso especialmente entre jovens. Além de escritor, é também professor universitário e roteirista. Já foi traduzido para diversos idiomas. Em português, os únicos materiais que temos traduzidos e publicados (pela Editora Rocco) são seu livro de contos “De repente, uma batida na porta“, traduzido pela professora doutora Nancy Rozenchan, e o romance autobiográfico “Sete anos bons“, com tradução de Maira Parula.

O mal entendido e a questão da linguagem em Crainquebille

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Cartaz do filme “Crainquebille”, de 1922

Crainquebille aferrava-se à sua decisão, obedecendo a uma força interior. De qualquer modo, ser-lhe-ia impossível agora avançar ou recuar. A roda de seu carrinho engatara-se desastradamente à de de uma carroça de leiteiro.

E ele clamava, arrancando os cabelos sob o gorro:

– Mas se eu lhe digo que estou esperando meu dinheiro! Desgraça de azar! Raio de miséria! Demônios do inferno!

A essas manifestações, que contudo exprimiam menos revolta que desespero, o agente 64 julgou-se insultado. E como, para ele, todo o insulto revestia necessariamente a forma tradicional, rotineira, consagrada, ritual e por assim dizer litúrgica de ‘Morte aos bigorrilhas!’, foi sob essa forma que ele recolheu e condensou em seus ouvidos as palavras do insurgente.

– Ah! O senhor disse ‘morte aos bigorrilhas!” Muito bem. Me acompanhe.

No extremo de pasmo e consternação em que se encontrava, Crainquebille fitou seus olhos descorados pelo sol no agente 64 e, na sua voz quebrada, que lhe saía ora de sobre a cabeça, ora debaixo dos calcanhares, exclamou, cruzando os braços sobre o blusão azul:

– Eu disse ‘morte aos bigorrilhas’? Eu?… Ora!

 

Meu objetivo é analisar o problema do mal entendido no conto Crainquebille, de Anatole France, baseando-se na questão da linguagem e do senso comum dos interlocutores como os responsáveis pela falha na comunicação e procurando também observar as consequências que essa falha proporcionou ao protagonista.

O trecho transcrito acima faz parte do conto em análise. O texto narra a história de Crainquebille, um velho que andava pelas ruas de Paris vendendo legumes e verduras num carrinho. Num momento em que ele precisou esperar que uma freguesa lhe pagasse o que comprara, acabou por obstruir a passagem e foi advertido por um policial (o agente 64) para que saísse do caminho. Crainquebille não obedeceu porque queria receber seu dinheiro e, ao ver que o agente 64 iria lhe aplicar uma multa, começou a praguejar. O policial entendeu os resmungos como uma ofensa (“morte aos bigorrilhas”) e o levou preso. Apesar de um homem respeitado (Doutor Mattieu) testemunhar a seu favor no julgamento, Crainquebille foi condenado a quinze dias de reclusão. Quando retornou à sua rotina diária, percebeu que as pessoas o evitavam e o hostilizavam. Revoltado com isso, mas sem saber se comportar perante uma situação até então desconhecida para ele, o protagonista tornou-se um velho ranzinza, gastando em bebida o pouco dinheiro que recebia.

O mal entendido não foi originado no praguejo. A confusão na comunicação surgiu quando houve desentendimento na vontade de ambos. Crainquebille não entendeu que aquela era uma ordem a ser cumprida imediatamente. O agente 64, por sua vez, não compreendeu que Crainquebille precisava receber o seu dinheiro e teria prejuízo se saísse dali. Fazia parte do trabalho do policial ser obedecido. Se isso não acontecesse, ele sairia desautorizado da situação. Já o protagonista queria receber o dinheiro, que era seu de direito, já que a freguesa havia retirado e levado a mercadoria. Esse conflito entre os dois fez com que o agente 64 ficasse à espera de uma ofensa que, em seus ouvidos, vinha sempre representada em sua mente pela frase “morte aos bigorrilhas”. Com isso, bastou que Crainquebille começasse a praguejar para que o agente 64 ouvisse e organizasse as informações da forma como costumava interpretar os insultos.

Esse mal entendido causado tem muito a ver com a questão da inteligência de senso comum e a do modo sistemático, expostas por Bernard Lonergan. Segundo ele, a inteligência sistemática é aquela em que o conhecimento fica emoldurado em definições, e está completo, acabado. Já a inteligência de senso comum tem como característica a espontaneidade. Ela não aceita definições gerais e age por analogia que, nesse caso, consiste na assimilação (que absorve resultados de operações bem sucedidas ou não) e no ajuste (faz as modificações necessárias para não cometer o mesmo erro da operação mal sucedida). Assim, na inteligência de senso comum, não há uma definição concreta e objetiva e, sim, um aprendizado que, conforme é usado, pode sofrer modificações de sentido, de acordo com o seu sucesso ou o seu fracasso.

Em vista disso, pode-se entender que o agente 64 estava utilizando um modo sistemático de pensamento, quando deveria utilizar a inteligência de senso comum. Sua definição de insulto estava limitada à frase “morte aos bigorrilhas” e tudo que lhe parecesse ofensa era recebido dessa forma. A prova disso é que, durante o julgamento, ao ser interrogado pelo presidente quanto ao que disse o Dr. Mattieu (defendeu Crainquebille ao dizer que este não ofendera o policial), o agente 64 diz que o médico também o ofendera. Segundo ele, esta ofensa também foi um grito: “morte aos bigorrilhas”.

Com Crainquebille o problema foi outro. Apesar de o protagonista também utilizar o pensamento sistemático em situações em que se deveria usar o de senso comum, como será visto adiante, nesse caso o que o prejudicou foi sua dificuldade com relação à linguagem. O texto diz que ele não era bom com as palavras e isso o impediu de esclarecer o mal entendido com o policial. O problema não era apenas de vocabulário, muito pobre e vago, mas também de construções sintáticas. Ao perceber essa dificuldade, é possível vir à mente Fabiano, herói de Vidas Secas, de Graciliano Ramos. De fato, a relação entre ambos é bem possível no que diz respeito à linguagem. No conto lê-se:

“Crainquebille tentou expor-lhe o acontecido, o que não lhe era fácil, pois não tinha o hábito da palavra”.

“Esse interrogatório teria produzido mais luz se o acusado tivesse respondido às perguntas que lhe eram feitas. Mas Crainquebille não era afeito às discussões, e, num tal ambiente, o respeito e o espanto trancavam-lhe a garganta”.

Já em Vidas Secas, lê-se:

“Às vezes utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos – exclamações, onomatopéias. Na verdade falava pouco. Admirava as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas, em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas”.

A posição social de Crainquebille e Fabiano pode ser a causa da dificuldade que ambos têm com as palavras. Com isso, pode-se comparar a diferença social de diversas personagens do conto e como ela influencia a linguagem de cada um. Os advogados e o presidente do tribunal sabiam utilizar a linguagem, tanto que o advogado de defesa quase convenceu o presidente de que seu cliente era inocente. Se não conseguiu, não foi por problema de retórica, mas novamente o social: o texto diz que, naquela época, os policiais eram muito bem vistos e respeitados. O presidente não poderia desacreditar um protetor da lei e da ordem. Por isso, mesmo com o testemunho do doutor Mattieu a favor de Crainquebille, o agente 64 acabou vencendo o processo.

A mesma falta de familiaridade com a linguagem é a causa de Crainquebille não conseguir se defender das injustas acusações. O herói aceitava o que acontecia sem se revoltar. Ele não tinha idéia da injustiça que sofria, chegando a achar correto que o condenassem, apesar de se saber inocente. Isso é incoerente, mas Crainquebille não conseguia perceber isso.  Chegou a pensar inclusive na possibilidade de realmente haver gritado “morte aos bigorrilhas!”, de alguma maneira misteriosa, mas de que não conseguia se recordar. Contudo, apesar de ter pensado até no sobrenatural, não pensou que o presidente pudesse estar errado. Ele tinha consciência de sua inferioridade em relação ao agente 64 e ao presidente do tribunal. Por isso, não podia passar em sua cabeça que aquelas pessoas tão importantes estivessem erradas. Era normal que tudo o que elas dissessem fosse considerado, ele não era ninguém para se queixar. Com o policial, ocorria quase o contrário: como autoridade, a razão deve ser dele e, se não é obedecido, sente-se ofendido (como já vimos, uma definição sistemática de ofensa) e toma as providências necessárias para que a “justiça” seja feita.

Assim, é possível interpretar como sistemática a maneira com que Crainquebille enxerga o mundo e o espírito jurídico que o rege. A sociedade é dividida em camadas, sendo natural que algumas tenham mais privilégios que outras. Não há possibilidade de ascensão e não há nada de errado nisso. Sua definição de justiça estava completa, não aceitava modificações nem adaptações.

Ao que parece, Crainquebille utilizava o modo de inteligência sistemático para muitas outras definições da vida. Quando ele elogia a limpeza e higiene da cela onde esteve, não podemos saber se o ambiente era realmente limpo ou se o protagonista o considerou assim porque sua idéia de limpeza era diferente da que geralmente se tem. O que se pode saber era que o ambiente em que costumava descansar ou dormir não era de muito conforto e provavelmente não havia muita higiene. Comparando seu ambiente de descanso e a cela para onde o levaram, Crainquebille elogiou o espaço, chegando a dizer que era possível comer no chão.

Ao sair da cadeia, o protagonista vê-se evitado pelos que antes eram seus fregueses. A partir disso, ele enxerga como realmente era injusta a sociedade em que vivia. Por não saber se comportar perante esta situação, o velho Crainquebille tornou-se injusto (exatamente a característica que notara com tristeza no meio parisiense), tratando mal as pessoas, mesmo aquelas que não mudaram de atitide em relação a ele. O conto diz:

“Não há como negar: ele tornou-se inconveniente, ranzinza, rixento, deslinguado. É que, achando a sociedade imperfeita, não tinha ele a aptidão de um professor da Escola de Ciências Morais e Políticas para exprimir o que pensava sobre os vícios do sistema e as reformas necessárias, e as idéias não se lhe desenrolavam na cabeça com ordem e medida.”

Crainquebille não possuía experiências de vida para lidar com a imperfeição que recém descobrira na sociedade. Esse problema parece ser de senso comum. Ele percebeu que sua definição sistemática para justiça estava equivocada no meio onde se encontrava. Lonergan afirma que “o homem de senso comum está preparado para falar e agir apropriadamente em todas as ocasiões normais em seu meio ambiente”. Um homem de senso comum sabe exprimir sua forma de pensar de acordo com a situação a ser encarada. Ele deve adaptar o seu próprio senso comum, para não parecer um estranho ou um louco, como aconteceu com Crainquebille.

Ao final do conto, pode-se pensar numa distante evolução no senso comum de Crainquebille. Ao se ver na rua, passando frio e fome, lembrou-se da cadeia, onde tinha teto, comida e cobertor. Percebeu então que estar lá era melhor do que permanecer na situação terrível em que se encontrava. Daí, Crainquebille lembrou-se do motivo por que foi preso: procurou um guarda e lhe gritou: “morte aos bigorrilhas!”, pensando que este se sentiria ofendido e o prenderia, da mesma forma como fez o agente 64. Porém, o policial não se importou, considerando-o um velho louco. Com esse fracasso, o protagonista percebe que sua tentativa de modificação falhou. Essa evolução de seu senso comum é vista como bem distante, já que ainda essa modificação ainda era equivocada e não se encaixava às situações normais.

Também é possível ver esta tentativa como sistemática, se for levado em consideração que Crainquebille estava utilizando uma espécie de fórmula lógica: se “morte aos bigorrilhas” ofendia o agente 64, a mesma expressão deveria ofender quaisquer outros agentes. Essa idéia também se fechou numa definição paradigmática. Se o seu aprendizado tivesse sido de senso comum, Crainquebille teria pensado em outras formas de desacato ao policial e muito provavelmente teria atingido seu objetivo, que era o de voltar à cadeia.

Por tudo o que foi apresentado nesta análise, conclui-se que o conto Crainquebille possui uma crítica à sociedade parisiense da época, em que pessoas como o protagonista eram molestadas por causa da linguagem e indignas de serem consideradas cidadãs. Também é possível concluir que o problema de linguagem dessas pessoas era devido, entre outras causas, à confusão ao utilizar a inteligência sistemática e a de senso comum.

Referências Bibliográficas

FRANCE, Anatole. Crainquebille (tradução de Celina Portocarrero). In: Costa, Flávio M. (org.). Os 100 melhores contos de crime e mistério da literatura universal. São Paulo: Ediouro, 2002.

LONERGAN, Bernard. Horizontes que se unem: o sistema, o senso comum, a erudição.

RAMOS, Graciliano. Vidas secas. São Paulo: Record, 2003.

Vilões bíblicos que provavelmente encontraremos no céu (I): Nabucodonosor

 

Hoje, ao abrir a Bíblia, me deparei com o capítulo 27 de Jeremias, li a respeito da ameaça divina contra o rei Zedequias. Deus prometeu entregar todas as nações nas mãos de seu servo, Nabucodonosor (v. 6). Espere aí! Eu li direito? “Meu servo?” Esse título não era dado a qualquer um. Em Isaías 53.11 Deus chama o Messias de “meu servo justo” (NVI). No original, o título dado ao Messias e ao rei da Babilônia é o mesmo (avdi).

Mas como Deus poderia chamar de servo um rei tão cruel? Fui ao livro de Daniel. Logo no primeiro capítulo é possível conhecer a história de quatro jovens judeus que foram levados cativos à Babilônia, mas que, por serem considerados pelo próprio Nabucodonosor como dez vezes mais inteligentes que seus sábios e magos, receberam posição de destaque no reino. Aqui, a primeira impressão que tenho é a de que o rei babilônico era um homem que sabia reconhecer o valor das pessoas e fazer justiça às suas capacidades.

Por outro lado, no capítulo 2, ele me pareceu profundamente cruel. Após um sonho muito confuso, Nabucodonosor convocou astrólogos e feiticeiros do reino para que pudessem, não apenas interpretar o sonho, como também descobrir qual era ele. Obviamente os magos não foram capazes de relatar por si mesmos o sonho do rei, tentaram argumentar que aquele pedido era um absurdo, mas “isso deixou o rei tão irritado e furioso que ele ordenou a execução de todos os sábios da Babilônia” (v.12), inclusive Daniel e seus três amigos. Quando soube do que estava por ocorrer, Daniel solicitou um prazo ao rei. Ele, Hananias, Misael e Azarias passaram a noite em oração e Deus lhes deu a revelação do sonho, bem como sua interpretação. Somente desta forma o castigo foi suspenso. O interessante neste episódio foi que Daniel atribuiu a Deus a revelação do mistério, e Nabucodonosor, ao final, reconheceu que o Deus de Daniel era “o Deus dos deuses, o Senhor dos reis e aquele que revela os mistérios” (v.47). Este foi o primeiro contato direto desse rei com o Deus que, até aquele momento, ele só havia escutado falar.

Daniel foi colocado sobre todos os sábios da província, e seus três amigos se tornaram administradores da Babilônia. Cerca de nove anos se passaram, e Nabucodonosor se tornava cada vez mais poderoso. Certa feita, mandou construir uma imagem em ouro, uma estátua enorme, de 27 metros de altura e quase 3 de largura. Ordenou que todos deveriam se ajoelhar em reverência a ela quando a trombeta fosse tocada. Quem desobedecesse seria lançado numa fornalha. Hananias, Misael e Azarias se recusaram, mesmo quando o rei os ameaçou com as palavras: “E que deus poderá livrá-los das minhas mãos?” (3.15 NVI), fazendo pouco do mesmo Deus a quem anos atrás ele havia exaltado sua superioridade. A fidelidade dos três judeus foi tão decidida que Nabucodonosor ficou furioso com eles e ordenou, não apenas que os lançassem na fornalha, como também que esta fosse aquecida sete vezes mais do que de costume. Os três homens foram lançados amarrados para dentro do fogo. Contudo, pouco tempo depois, o rei malvado viu com seus próprios olhos o milagre: Os três caminhavam pela fornalha e na companhia de um quarto homem que se parecia com um “filho dos deuses” (v.25 NVI). Diante dos três jovens vivos, já fora da fornalha, Nabucodonosor reconheceu: “Louvado seja o Deus de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, que enviou seu anjo e livrou os seus servos! Eles confiaram nele, desafiaram a ordem do rei, preferindo abrir mão de sua vida a prestar culto e adorar a outro deus que não fosse o seu próprio Deus” (v.28 NVI). E ainda acrescentou que todo aquele que desrespeitasse o Deus daqueles judeus deveria ser despedaçado, “pois nenhum outro deus é capaz de livrar dessa maneira” (v. 29 NVI). Este foi seu segundo contato direto com Deus narrado na Bíblia.

Depois disso, passaram-se ainda uns 25 ou 26 anos. Não havia na terra rei mais poderoso que Nabucodonosor. Ele havia devastado Jerusalém e os reinos ao redor. Havia capturado o rei Zedequias de Judá, furado seus olhos e o aprisionado. O episódio seguinte, narrado no capítulo 4 de Daniel, foi escrito pelo próprio Nabucodonosor. Ele conta que teve um sonho: Uma árvore muito alta crescia tanto que sua copa tocava no céu. Do mundo inteiro era possível vê-la, servia de sombra para os animais, e todas as criaturas se alimentavam de seus frutos. De repente, um anjo desceu do céu gritando:

 

Derrubem a árvore, cortem os seus galhos, tirem as folhas e joguem fora as frutas. Espantem os animais que estão descansando na sua sombra e as aves que estão nos seus galhos. Mas deixem ficar o toco e as suas raízes e o amarrem com correntes de ferro e de bronze, no meio do capim bravo, no campo. Assim o sereno cairá sobre esse toco — esse homem —, e ele comerá capim como os animais. Ele perderá o juízo e começará a pensar como animal; sete anos viverá assim. Esta é a sentença dada pelos anjos, pelos anjos-vigias do céu, a fim de que todos saibam que o Deus Altíssimo domina todos os reinos do mundo. Ele dá esses reinos a quem quer, mesmo ao mais humilde de todos os homens. (v. 14-17 NTLH)

 

Nabucodonosor chamou Daniel, que lhe deu a seguinte interpretação: A árvore representava o próprio rei. Deus iria destitui-lo de seu reino e ele passaria a viver entre os animais, como se fosse um deles. Contudo, seu reino não lhe seria tomado completamente, por isso o toco e as raízes permaneceriam no chão. Somente após sete anos, quando o rei finalmente reconhecesse a soberania de Deus e que o homem não passa de pó diante do Altíssimo, seu reino seria restituído. Daniel ainda o aconselhou a abandonar a arrogância e a começar a praticar a justiça. Esta foi sua terceira experiência com Deus.

No entanto, um ano se passou desde o sonho, e Nabucodonosor não mudou sua atitude, ao contrário. Um dia, enquanto passeava e contava vantagem de seu sucesso e se gloriava, aconteceu o cumprimento do sonho. Em um ato de loucura, Nabucodonosor começou a agir como um boi e foi comer capim no meio dos animais. Seu cabelo e sua barba cresceram, bem como as unhas, sua inteligência se foi de maneira que ele realmente se tornou um animal irracional.

Passados sete anos, o rei levantou os olhos aos céus e Deus lhe devolveu o entendimento. Ele conta que, naquele momento, só pode louvar ao Senhor:

 

“O poder do Altíssimo é eterno; o seu reino não terá fim. Para ele, os seres humanos não têm nenhum valor; ele governa todos os anjos do céu e todos os moradores da terra. Não há ninguém que possa impedi-lo de fazer o que quer; não há ninguém que possa obrigá-lo a explicar o que faz.”

 — Logo que o meu juízo voltou — continuou Nabucodonosor —, eu recebi outra vez a minha honra, a minha majestade e a glória do meu reino. Os meus conselheiros e as altas autoridades do meu governo me receberam de volta. Fui rei de novo, com mais poder do que antes. Portanto, eu, o rei Nabucodonosor, agradeço ao Rei do céu e lhe dou louvor e glória. Tudo o que ele faz é certo e justo, e ele pode humilhar qualquer pessoa orgulhosa. (v. 34-37 NTLH)

 

Nabucodonosor teve três grandes oportunidades de se humilhar diante da majestade de Deus e de reconhecê-lo como seu Senhor. As duas primeiras foram demonstrações que o próprio Deus lhe deu de sua onipotência (salvando seus servos do fogo), onipresença (estando com eles ali dentro da fornalha) e onisciência (revelando e interpretando seu sonho). Em sua terceira oportunidade, o que Deus fez foi alertá-lo, mostrar-lhe o que lhe aconteceria se ele não se submetesse à sua vontade. Como nada disso fez com que Nabucodonosor se rendesse, a situação chegou à sua última consequência e foi aí, somente aí, após sete anos de uma vida miserável e irracional, que o rei da Babilônia finalmente se entregou ao Senhor, a quem chamou de Rei do céu, e reconheceu que não há outro tão poderoso e majestoso do que aquele que faz o que quiser de suas criaturas, sem pedir permissão.

Quando analiso minha vida e meus comportamentos reprováveis, me vem uma tristeza profunda. Eu chego a me perguntar: “Será que Deus é capaz de me perdoar desta vez?” Afinal, sou um ser tão imundo, eu não deveria nem ousar me ajoelhar diante de um Deus tão santo, se nem eu mesma suporto meu cheiro de esgoto.

Como foi com Nabucodonosor, comigo também parece que as coisas precisam chegar às últimas consequências para que eu aprenda aquilo que Deus está me ensinando. Ele me dá demonstrações de seu cuidado e poder, mas eu o ignoro. Ele me alerta do mal, e eu ignoro. E então, só quando eu me vejo no fundo do poço, comendo pasto com os animais, é que me dou conta de meu orgulho, de minha rebeldia e do quanto ofendo a santidade de Deus com minhas atitudes. Fico pensando como é possível ainda ser amada por Ele, como pode ser que a graça de Cristo alcança pessoas como Nabucodonosor e como eu!

Por isso, tenho a esperança de um dia, já gozando da eternidade celestial, eu possa encontrar lá Nabucodonosor e tantos outros personagens bíblicos e agradecer a Deus por “semelhantes irmãos”, como o colombiano Santiago Benevides coloca em sua canção “Gracias por Pedro”. A seguir deixo uma tradução livre desse hino tão honesto:

 

Olhando como sou realmente

Como tenho o coração meio sem sabor e cheio de egoísmo

Descobrindo que sou só mais um em um montão

Cuja grande aspiração é chegar mais longe que o vizinho

Recordando que, cada vez que juro entregar até minha vida,

Um galo acaba cantando

Ou que falas comigo e me faço surdo-mudo

É que hoje quero louvar-te deste modo tão estranho

 

Obrigado por Pedro, obrigada por Jonas,

Obrigado também pela mula de Balaão

Obrigado por ser experiente em suportar

A nós que não somos tão bons

E contudo pretendemos falar de Ti à humanidade

 

O que seria de nós se não tivéssemos

A certeza de que vês com amor esses personagens

Que escolheste formar tua seleção

Com aqueles que não são jogadores muito profissionais

Que amas desafiar a religião e fazer coisas grandes

Com instrumentos tão inesperados

Eu me olho ao espelho e, com razão,

Só me resta agradecer por semelhantes irmãos

(Confira a canção em espanhol Aqui)

A ética, o cristão e a guerra

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Ética e guerra

O objetivo deste trabalho é falar sobre a relação entre a guerra e a ética, analisando também a posição que o cristão assume perante este conflito.

Antes de começarmos, porém, é necessário definir guerra. Segundo o dicionário Aurélio, guerra é “luta armada entre nações ou partidos; conflito.” Granz e Smith (2005), em seu Dicionário de Ética, dizem que guerra “é o conflito armado entre nações ou grupos de pessoas”. Podemos concluir então que, para haver guerra, é necessário armas. Isso significa consequentemente, que não há guerra sem violência, sem feridos e sem mortos.
A guerra pode ser originada por vários motivos: religioso, ideológico, político, geográfico, discriminatório, etc. No entanto, nem todo motivo é considerado justo pela sociedade e, em alguns casos, a guerra poderia ser evitada devido à existência de outros meios possíveis para a resolução do conflito. Com base nisso, surgiram algumas visões e posições a respeito da guerra, que serão enumeradas a seguir:
Ativismo: Segundo esta visão, a guerra sempre é uma forma válida para se resolverem os conflitos entre nações ou grupos. Os ativistas têm como argumento o fato de que todo o cidadão deve respeitar o governante e obedecer-lhe. Além disso, o indivíduo não deve estar passivo numa luta em defesa dos interesses de seu povo ou grupo.

Teoria da guerra justa: essa teoria defende a guerra originada por uma causa ou intenção justa. Esta visão acredita que, em alguns casos, o combate é eticamente justificável. Por exemplo, uma nação possui todo o direito de se defender diante de um ataque ou de um opressor. Não foi esta nação que começou, e há vidas inocentes em jogo, por isso o correto seria participar da guerra e defender o povo.

Pacifismo: os pacifistas partem da premissa de que é errado se utilizar da violência para acabar com a violência. São contra o uso de armas, tanto numa guerra quanto numa intervenção policial, ou mesmo no caso de posse de armas. Os pacifistas acreditam que é possível as pessoas resolverem suas diferenças por meio da diplomacia.

Não-violência: é uma visão que defende a luta pelos ideais e princípios da nação ou grupo, porém não pode ser considerada uma maneira de guerrear porque eles se recusam a usar a violência para atingir seus objetivos. Os que seguem a visão da não-violência lutam, combatem, chamam a atenção do mundo para a sua causa, mas não se valem da força física, nem de armas. Gandhi e Martin Luther King são exemplos de líderes defensores da não-violência.

Não-resistência: trata-se de uma visão contra a violência, porém ao ponto de agir passivamente ou não agir diante da violência oponente. A ideia é que não resistir ao inimigo também é uma maneira de protestar.

Terrorismo: é uma forma antiga de guerrear (a metodologia dos zelotes, do Novo Testamento, era considerada terrorista). Trata-se da violência armada, militar ou não, que procuram intencionalmente atacar civis para que, pelo medo gerado, possam atingir seus objetivos, que podem ser religiosos, políticos, econômicos, etc.

Os indivíduos possuem visões muito diferentes uns dos outros em relação a este assunto. Uns acreditam que a opressão é um instinto do ser humano. Porém, se considerarmos que instinto é algo biológico, inerente a uma determinada espécie e que não se pode fugir dele, então poderemos concluir que a opressão não é um instinto, já que é possível evitá-la e controlá-la; além disso, existe um número grande de pessoas (e não podem ser consideradas exceções) que são oprimidas e não oprimem nem sentem impulsos para oprimir. Acreditar que a opressão é inerente ao ser humano pode ser uma maneira de o indivíduo demonstrar sua visão ativista de guerra.
Há indivíduos que procuram defender o pacifismo com o argumento de que matar pessoas é uma crueldade. Mas aqui a questão está no conceito de que temos de crueldade. A crueldade sempre esteve relacionada à dor ou sofrimento sem propósito que um indivíduo impõe sobre outro. Contudo, quando há um propósito justo aquele sofrimento pode estar relacionado à crueldade? Segundo o exemplo de Barrington (1974), um cirurgião não pode ser considerado cruel por infligir dor a um paciente, pois sabemos que aquela dor é temporária e o paciente, após algum tempo, se sentirá melhor do que se sentia antes da cirurgia. Por isso, os defensores da guerra justa consideram que é mais cruel permitir que oponentes destruam o povo inocente do que não resistir à violência em prol de melhorias, mesmo que por um tempo pessoas inocentes tenham que sofrer.

Em favor da guerra, tanto os defensores da guerra justa quanto os ativistas possuem o seguinte argumento:
Pelo fato de que os métodos amorais e imorais prometem maiores vantagens nas lutas políticas, todas as políticas ficam manchadas pela imoralidade. A tentativa de evitar essa nódoa, entretanto, a busca de pureza, pode tornar-se a maior imoralidade de todas no sentido de causar o maior sofrimento, porque deixa a arena política à mercê dos que têm menos escrúpulos. (p.57)
Isso significa que, mesmo que pensemos na guerra como algo imoral ou amoral, não devemos deixar de praticá-la porque, se não a fizermos, aqueles que não estão interessados em ética e moral a farão, e o resultado será pior do que seria se tivéssemos aceitado guerrear. Na não-resistência as conseqüências são piores no sentido de que mais pessoas inocentes são atingidas, pois não há quem as defenda. Essa permissividade ao ataque a inocentes sem defesa pode, como já foi dito, ser considerada mais imoral do que a resistência.

Assim como a sociedade possui diferentes formas de pensar a guerra (este não será o foco do trabalho), o meio cristão também diverge em suas opiniões quanto ao assunto. É possível encontrar cristãos que defendem o ativismo, o pacifismo ou a teoria da guerra justa; e todos eles têm argumentos bíblicos para defenderem sua visão.
Os cristãos ativistas utilizam como principal argumento o fato de que o governo é instituído por Deus (Rm 13.1-7), e nosso dever é obedecer às autoridades e, consequentemente, participar da guerra quando esta for declarada.
É no Antigo Testamento que há mais menções da autoridade que o Senhor dá ao governante: Deus escolhe Davi para reinar sobre Israel (1Sm 10.24), e depois deste vêm outros reis. Em Daniel 4.25 diz que “o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem quer.” No Novo Testamento também há referências à autoridade humana. Em Romanos 13.4, que já foi citado anteriormente, diz, com relação ao governo: “Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal.” Há também a famosa declaração de Cristo, sempre usada para defender a submissão aos governantes: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.” (Mt 22.21). Pedro diz: “sujeitai-vos a toda instituição humana por causa do Senhor, quer seja ao rei, como soberano, quer às autoridades, como enviadas por ele, tanto para castigo dos malfeitores como para louvor dos que praticam o bem.” (1Pe 2.13,14). Portanto, se o governo decide pela guerra, sendo esta justa ou injusta, o cristão deve concordar e participar, pois a obediência à autoridade é obediência a Deus; e a desobediência à autoridade consiste na desobediência a Deus. Esta é a visão do cristão ativista.

Pensemos agora no cristão pacifista. Para ele, é terminantemente errado participar da guerra. O pacifista utiliza três grandes argumentos contra a participação numa guerra: 1) um dos mandamentos do decálogo é “não matarás” (Ex 20.13); 2) Jesus ordenou que não resistíssemos ao mal (Mt 5.39); 3) devemos amar todos (inclusive nossos inimigos), e a guerra expressa ódio, não amor.

Quanto ao mandamento do decálogo, os pacifistas afirmam que a Bíblia deixa muito clara a proibição. Não se pode assassinar, e a principal conseqüência de se fazer guerra é o assassinato em massa. Contra o argumento dos ativistas quanto às guerras do Antigo Testamento, os pacifistas dizem que essas guerras não eram ordenadas por Deus, mas permitidas por Ele, e era o homem quem decidia por guerrear. Outros já argumentam que as guerras naquela época eram diferentes. Tratavam-se de guerras divinas e não humanas, e a prova disso eram as intervenções milagrosas de Deus nos conflitos.

Há um trecho bíblico em que Jesus declara: “Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada.” (Mt 10.34) Os pacifistas dizem que esta declaração não tinha a intenção de mostrar o objetivo da vinda de Cristo à Terra, mas seus resultados. Por causa dele, por amor a ele, haveria discórdias e divisões nas famílias e na sociedade. É realmente o que vemos hoje. Muitos são perseguidos por causa do amor de Jesus. Em alguns lugares as pessoas morrem se declararem fé em Cristo.

Outra passagem bíblica em que os pacifistas se baseiam para não desejarem a guerra é a do Sermão do Monte, quando Jesus diz: “não resistais ao perverso; mas, a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra” (Mt 5.39). Em Romanos 12.19-21 está escrito:

Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas daí lugar à ira; porque está escrito: A mim pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor. Pelo contrário, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem.

Um importante argumento em favor do pacifismo é o de que a Bíblia inteira fala de amor, e o maior de todos os mandamentos é o amor. Ainda no Sermão do Monte, Jesus disse que devemos amar os nossos inimigos e orar pelos que nos perseguem (Mt 5.44). A guerra expressa ódio e, na maioria das vezes, sua origem está no ódio. Portanto, participar da guerra é o mesmo que descumprir o maior dos mandamentos.
Existe também o cristão que assume uma postura equilibrada. Ele defende a teoria da guerra justa, à qual Geisler (1984) chama de seletivismo. O seletivista defende que é correto participar de algumas guerras, aquelas que possuem um motivo justo ou uma causa que futuramente beneficie a nação ou o grupo interessado. Se pensarmos nas guerras injustas, concluiremos que o ativismo está equivocado. Se pensarmos nas guerras justas, veremos o pacifismo como equivocado.
A Bíblia ordena que sejamos submissos aos governantes. Contudo, a própria Bíblia é clara em mostrar que às vezes não é certo obedecer ao governo quando este não está de acordo com os mandamentos divinos. Em Daniel 6, vemos a ordenação do rei em ser adorado e a recusa de três jovens tementes a Deus em obedecer-lhe (havia uma ordem divina superior: adorar somente a Deus). Como esta, há outras situações na Bíblia que mostram que a obediência a Deus vem antes da obediência ao governo humano.
Além disso, com relação às guerras do Antigo Testamento, os seletivistas afirmam que algumas foram concessivas, mas outras estavam dentro da vontade de Deus que ocorressem, como foi o caso, por exemplo, da guerra com os cananeus e outros povos:
“Porém, das cidades destas nações que o Senhor, teu Deus, te dá em herança, não deixarás com vida o que tem fôlego. Antes, como te ordenou o Senhor, teu Deus, destruí-las-ás totalmente: os heteus, os amorreus, os cananeus, os ferezeus, os heveus e os jebuseus” (Dt 20.16,17).

O mandamento que diz “não matarás” também tem sua justificação sob o ponto de vista da teoria da guerra justa:  em hebraico há muitas palavras que definem a palavra morte, cada uma expressando um sentido diferente. No caso da frase do mandamento bíblico, o verbo é teresach, e possui o sentido de assassinar. Portanto a melhor tradução seria “não assassinarás”. Um mandamento que proíbe o assassinato não está necessariamente proibindo a guerra. Os pacifistas acreditam que as mortes na guerra são assassinato. Contudo, uma das partes pode estar apenas se defendendo. Segundo Manuel Pedro Cardoso, a Nova Enciclopédia Larousse define assassinato como sendo um “homicídio feito com premeditação ou à traição.” Numa guerra, aqueles que se defendem ou lutam por um ideal justo não podem ser considerados assassinos. A morte não é desejada pelos combatentes, apesar de todos saberem que ela ocorrerá como conseqüência direta.

Além das guerras justificadas e justificáveis, devemos pensar também nas defensivas, isto é, aquela que um país se vê forçado a fazer quando é atacado. Não resistir, neste caso, acarretaria na morte de muitos civis inocentes, além de ceder à ocupação geográfica e política do inimigo.

Mais um argumento dos seletivistas está na reverência pela vida. Assim como não devemos tirar a vida de outros, devemos preservar a nossa e defendê-la. Os pacifistas utilizam o texto de Romanos 12.19-21 como argumento para a defesa da não-resistência. Entretanto, o versículo anterior (Rm 12.18) deixa claro que devemos ter a paz com todos, mas apenas até o ponto em que isto é possível. Isto significa que Paulo sabia que haveria situações em que sustentar a paz não depende da nossa vontade.

Após toda essa análise, podemos concluir apenas que não há uma visão definida por parte dos cristãos a respeito da guerra. Nem mesmo a sociedade em geral pode ter uma única opinião sobre o assunto, pois tanto a defesa quanto a repulsa da guerra possui argumentos eticamente favoráveis e desfavoráveis. Não podemos pensar na melhor solução para a questão da guerra, mas apenas levar em consideração o contexto em que ela está sendo criada e optar por aquilo que for “menos pior”, ou seja, sempre haverá inocentes prejudicados, mas devemos pensar numa alternativa em que esse prejuízo seja o menor possível.

Por Mariana Ferreira de Toledo

Referências Bibliográficas

A Bíblia sagrada. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. Barueri, SP: SBB, 1988.

BARRINGTON MOORE, Jr. Da guerra, crueldade, opressão e sordidez humana geral. In: Reflexões sobre as causas da miséria humana e sobre certos propósitos para eliminá-las. Rio de Janeiro: Zahar, 1974.

BAUER, Johannes B. Dicionário de Teologia Bíblica v.1. São Paulo: Loyola, 1975.

CARDOSO, Manuel Pedro. Pacifismo. In: http://www.estudos-biblicos.com/pacifis.html. Acesso em 16 de junho de 2009.

GEISLER, Norman L. O cristão e a guerra. In: Ética cristã: alternativas e questões contemporâneas. São Paulo: Vida Nova, 1984.

GRENZ, Stanley J. e SMITH, Jay T. Dicionário de ética. São Paulo: Vida, 2005.

Não Violência. In: pt.wikipedia.org/wiki/Não-violência. Acesso em: 17 de junho de 2009.

Prisão de ventre

A primeira vez que Mariana percebeu que alguma coisa não estava bem com Daniel foi num sábado pela manhã. Nesse dia ele acordou cedo e se sentou na beirada da cama, olhando para fora. As cortinas do quarto não estavam totalmente fechadas, e lá fora parecia que ia chover. Fazia frio. Daniel passou a mão no cabelo. Durante alguns minutos ele ficou sentado imóvel. As pontas de seus pés encostavam no chão gelado. Havia silêncio na casa.

Uma hora depois, quando Mariana acordou, ela encontrou sobre a mesinha da sala pilhas organizadas de livros. No sofá havia uma mala aberta e ao seu lado roupas dobradas. Não havia nada dentro da mala. A porta para o jardim estava aberta e um vento fraco entrou na casa. Ela se aproximou para olhar lá fora e viu Daniel de pé na grama com o cachorro. Ele abraçava o animal, apertando-o contra o peito. As patas dianteiras e a cabeça do animal alcançavam seu ombro. Estava vestido com calças de veludo cotelê e um suéter. “O que aconteceu?”, ela perguntou. “Aconteceu alguma coisa?”

“Não”, Daniel respondeu. Ele afundou o queixo e virou a cabeça para trás para olhar por cima do cão. “O cachorro está com prisão de ventre”, disse.

“O quê?”, Mariana perguntou. Ela ainda não havia acordado completamente.

Daniel deu de ombros. Ela segurou as cortinas, observou-os por um momento e depois entrou. Enquanto ia para o banheiro, perguntou-lhe sobre as coisas que estavam na sala. Ergueu a voz para que ele pudesse escutá-la do jardim. “E o que são todas aquelas coisas em cima da mesa?”,  perguntou.

Ele não respondeu, mas Mariana tampouco esperou pela resposta. Já estava a caminho do chuveiro.

Quando saiu, seu filho estava de pé ao lado da porta, de pijama. Ele se encostou no armário de casacos. Mariana vestiu um suéter de golfe. Seu cabelo estava preso por uma presilha e as pontas molhadas pingavam sobre seus ombros e sobre a nuca, dentro do colarinho.

“Você já acordou?”, ela perguntou. “Ainda não são nove horas.”

O menino ficou encostado e olhou para cima, para o teto. Ele mexia a cabeça e esfregava o cabelo na porta do armário. Quando ele falou, falou baixinho. “Papai me acordou”, disse. Depois acrescentou: “Ele disse que eu precisava me levantar.”

“Por quê?”, perguntou. “Ele disse para quê?”

O menino apertou os lábios. “Não”, respondeu.

“O que está acontecendo com você?”, ela perguntou.

O menino tombou sua cabeça para o lado até que a orelha se encontrasse com o ombro.

Mariana se agachou e o agarrou pelos ombros. “O que aconteceu?” Perguntou. Ela o sacudia.

Ele não respondeu e não olhou para ela. Olhava para o lado. “Papai está na cozinha”, disse. Havia silêncio na casa. O cabelo de Mariana pingava sobre a nuca e ela se deparou com o frescor do vento vindo do jardim.

Enquanto ia para a cozinha ela começou a balbuciar alguma coisa, mas quando viu Daniel, deteve-se.

Ele estava de pé ao lado da pia e, à sua frente, o cachorro. Suas patas traseiras estavam em uma pia e as da frente em outra. Quando viu Mariana, o cão tentou escapar, mas suas garras se deslizaram sobre a cerâmica e ele caiu. Quando se levantou, Daniel desferiu em seu nariz um golpe com a palma da mão aberta. O cachorro fez-se ouvir um grande ganido e caiu novamente com o peito sobre a divisória entre as pias. Fez uns movimentos com as patas, tentou se levantar, mas escorregou. Daniel o agarrou e o levantou. Ele ficou em silêncio. O sangue pingava de seu nariz até o fundo da pia.

Mariana se assustou. “O que você está fazendo com ele?”, gritou. “Por que está batendo nele?”

Ela se aproximou, mas Daniel a repeliu com a mão, as pontas de seus dedos tocaram o peito dela.

“Se você não pode ajudar, então não atrapalha”, disse. Ela tirou a mão dele e tentou dar outro passo à frente, mas foi impedida. “Eu te falei. Ele está com prisão de ventre”, disse. “Você não pode ajudar, certo? Então não atrapalha.”

“Do que você está falando?”, ela perguntou. Tentou chegar até a pia. Daniel ergueu uma das mãos como se fosse golpeá-la. Ela se afastou e ergueu o cotovelo sobre a cabeça, para proteger o rosto. Mas o tapa não veio.

“O que você quer dele?”, ela perguntou. Seu rosto se crispou. Começou a chorar. “O que está fazendo com ele?”

Daniel não respondeu. Abriu a torneira de água fria. Mariana olhou para o cachorro. Suas patas se agitavam e se molhavam. Ele tremia. “O que aconteceu?”, perguntou. Ela chorava tanto que era difícil entender o que dizia. “O que você está fazendo com ele?”, insistiu. “Solte-o. Deixe-o ir. Daniel, solte-o.”

Daniel olhou para ela. “Escute-me”, disse. Porém interrompeu a frase no meio. Ele parou para pensar por um momento e então continuou: “Escute-me, volte a dormir, está bem? Você não pode me ajudar, então talvez seja mais simples você ir para a cama e dormir.”

“O que aconteceu com você?”, ela perguntou. “O que você quer do cachorro?”. O menino saiu do canto e se aproximou dela. Ele segurou sua mão e encostou a cabeça em seu quadril.

Daniel fechou os olhos e se concentrou na água que enchia a pia. Houve um momento de silêncio. Depois ele abriu os olhos e virou-se. Disse devagar, mas em voz alta: “Há algo que você pensa que possa fazer?”. Com a mão aberta, ele apontou para o cão. “Olhe”, ele gritou, “você acha que pode ajudar?”

Mariana não respondeu. Daniel pôs as duas mãos na beirada da pia e inclinou-se para frente. Olhou para baixo e esperou mais um instante. Quando se garantiu de que ela já não responderia, ele se virou e fechou a torneira. Ouviu-se um silêncio. Era possível ouvir o silêncio além da porta para o jardim. A pia estava cheia até a metade. “Excelente”, ele disse, “excelente.” Começou a procurar alguma coisa nas gavetas.

“Daniel”, Mariana disse, “o que aconteceu?”

O menino ergueu a cabeça e olhou para sua mãe. Ele pensou que ela havia parado de chorar. Mas ela não parou. As lágrimas escorriam de seus cílios no suéter. “Daniel?”.

Daniel não encontrou o que procurava. Começou a revirar as gavetas e a tirar tudo de dentro delas. Utensílios de metal batiam ruidosamente sobre o mármore. Facas, abridores de lata e colheres. “Meu Deus!”, ele disse. “Que casa é esta?” Ele revirava o amontoado.

Depois parou no meio da cozinha e passou a mão nos cabelos. Ele pensou por um momento. O cachorro não se mexeu. Seu corpo ainda tremia.

Mariana tentou dizer alguma coisa, porém Daniel a calou num gesto com a mão. Ele se aproximou da pia e tirou a tampa do ralo. Depois esperou um pouco, mas antes que a água terminasse de escoar, ele ergueu o cachorro e o segurou debaixo do braço. Com o outro braço procurou nos bolsos dos casacos que estavam pendurados ao lado da porta até encontrar as chaves do carro. Já estava saindo, mas depois que abriu a porta deteve-se, como se tentasse se lembrar de alguma coisa que poderia haver esquecido.

“Daniel”, Mariana disse. Ela chorava. “Daniel, o que aconteceu com você?”

“Mariana,”, ele replicou, “fecha essa sua boca, está bem? Feche-a ou senão lhe quebrarei os ossos.” Ele enfiou as chaves no bolso e colocou o cão sobre a mesa de jantar. Entrava um vento pela porta aberta. A água pingava da pele do cachorro sobre a mesa. Daniel ficou parado na entrada da cozinha e mexia nas chaves do bolso através do tecido da calça.

Mariana falou baixinho. “Daniel,”, ela disse, “Daniel, o que você quer dele?”

Daniel se aproximou do lugar onde ela estava parada.

Ele articulou cada palavra pausadamente. “Cale a boca.”, gritou. “Ouviu?”

Seu rosto ficou bem perto do dela. Foi difícil para Mariana olhar para ele dessa distância, mas ela não se afastou. O hálito dele cheirava a creme dental. Ela tentou pegar em suas mãos, mas foi impedida.

“Ouviu?”, ele gritou.

Mariana chorava. Ele a segurou pelos pulsos e a apertou contra a parede. “Ouviu?”

Ela balançou a cabeça. Sua boca estava aberta e um fio de saliva lhe escorria dos lábios. “Ótimo”, Daniel disse.

Ele a soltou e se aproximou da mesa. Em seguida, pegou o cachorro e saiu de casa batendo a porta.

Mariana se sentou.

O menino ficou ao seu lado. Seus joelhos tremiam. Eles ouviram a porta do carro se fechar e o som do motor. Depois, ouviram o barulho que se afastava.

TAUB, Gadi. Tradução feita por Mariana Ferreira de Toledo a partir do texto original עצירות (‘atsirut).

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Gadi Taub

 Gadi Taub nasceu em 1965, em Jerusalém. É jornalista, escritor e professor da Universidade Hebraica de Jerusalém. Além de textos acadêmicos e políticos, Taub já escreveu contos, romances e livros infantis. É um dos principais autores do pós-modernismo israelense.