O mal entendido e a questão da linguagem em Crainquebille

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Cartaz do filme “Crainquebille”, de 1922

Crainquebille aferrava-se à sua decisão, obedecendo a uma força interior. De qualquer modo, ser-lhe-ia impossível agora avançar ou recuar. A roda de seu carrinho engatara-se desastradamente à de de uma carroça de leiteiro.

E ele clamava, arrancando os cabelos sob o gorro:

– Mas se eu lhe digo que estou esperando meu dinheiro! Desgraça de azar! Raio de miséria! Demônios do inferno!

A essas manifestações, que contudo exprimiam menos revolta que desespero, o agente 64 julgou-se insultado. E como, para ele, todo o insulto revestia necessariamente a forma tradicional, rotineira, consagrada, ritual e por assim dizer litúrgica de ‘Morte aos bigorrilhas!’, foi sob essa forma que ele recolheu e condensou em seus ouvidos as palavras do insurgente.

– Ah! O senhor disse ‘morte aos bigorrilhas!” Muito bem. Me acompanhe.

No extremo de pasmo e consternação em que se encontrava, Crainquebille fitou seus olhos descorados pelo sol no agente 64 e, na sua voz quebrada, que lhe saía ora de sobre a cabeça, ora debaixo dos calcanhares, exclamou, cruzando os braços sobre o blusão azul:

– Eu disse ‘morte aos bigorrilhas’? Eu?… Ora!

 

Meu objetivo é analisar o problema do mal entendido no conto Crainquebille, de Anatole France, baseando-se na questão da linguagem e do senso comum dos interlocutores como os responsáveis pela falha na comunicação e procurando também observar as consequências que essa falha proporcionou ao protagonista.

O trecho transcrito acima faz parte do conto em análise. O texto narra a história de Crainquebille, um velho que andava pelas ruas de Paris vendendo legumes e verduras num carrinho. Num momento em que ele precisou esperar que uma freguesa lhe pagasse o que comprara, acabou por obstruir a passagem e foi advertido por um policial (o agente 64) para que saísse do caminho. Crainquebille não obedeceu porque queria receber seu dinheiro e, ao ver que o agente 64 iria lhe aplicar uma multa, começou a praguejar. O policial entendeu os resmungos como uma ofensa (“morte aos bigorrilhas”) e o levou preso. Apesar de um homem respeitado (Doutor Mattieu) testemunhar a seu favor no julgamento, Crainquebille foi condenado a quinze dias de reclusão. Quando retornou à sua rotina diária, percebeu que as pessoas o evitavam e o hostilizavam. Revoltado com isso, mas sem saber se comportar perante uma situação até então desconhecida para ele, o protagonista tornou-se um velho ranzinza, gastando em bebida o pouco dinheiro que recebia.

O mal entendido não foi originado no praguejo. A confusão na comunicação surgiu quando houve desentendimento na vontade de ambos. Crainquebille não entendeu que aquela era uma ordem a ser cumprida imediatamente. O agente 64, por sua vez, não compreendeu que Crainquebille precisava receber o seu dinheiro e teria prejuízo se saísse dali. Fazia parte do trabalho do policial ser obedecido. Se isso não acontecesse, ele sairia desautorizado da situação. Já o protagonista queria receber o dinheiro, que era seu de direito, já que a freguesa havia retirado e levado a mercadoria. Esse conflito entre os dois fez com que o agente 64 ficasse à espera de uma ofensa que, em seus ouvidos, vinha sempre representada em sua mente pela frase “morte aos bigorrilhas”. Com isso, bastou que Crainquebille começasse a praguejar para que o agente 64 ouvisse e organizasse as informações da forma como costumava interpretar os insultos.

Esse mal entendido causado tem muito a ver com a questão da inteligência de senso comum e a do modo sistemático, expostas por Bernard Lonergan. Segundo ele, a inteligência sistemática é aquela em que o conhecimento fica emoldurado em definições, e está completo, acabado. Já a inteligência de senso comum tem como característica a espontaneidade. Ela não aceita definições gerais e age por analogia que, nesse caso, consiste na assimilação (que absorve resultados de operações bem sucedidas ou não) e no ajuste (faz as modificações necessárias para não cometer o mesmo erro da operação mal sucedida). Assim, na inteligência de senso comum, não há uma definição concreta e objetiva e, sim, um aprendizado que, conforme é usado, pode sofrer modificações de sentido, de acordo com o seu sucesso ou o seu fracasso.

Em vista disso, pode-se entender que o agente 64 estava utilizando um modo sistemático de pensamento, quando deveria utilizar a inteligência de senso comum. Sua definição de insulto estava limitada à frase “morte aos bigorrilhas” e tudo que lhe parecesse ofensa era recebido dessa forma. A prova disso é que, durante o julgamento, ao ser interrogado pelo presidente quanto ao que disse o Dr. Mattieu (defendeu Crainquebille ao dizer que este não ofendera o policial), o agente 64 diz que o médico também o ofendera. Segundo ele, esta ofensa também foi um grito: “morte aos bigorrilhas”.

Com Crainquebille o problema foi outro. Apesar de o protagonista também utilizar o pensamento sistemático em situações em que se deveria usar o de senso comum, como será visto adiante, nesse caso o que o prejudicou foi sua dificuldade com relação à linguagem. O texto diz que ele não era bom com as palavras e isso o impediu de esclarecer o mal entendido com o policial. O problema não era apenas de vocabulário, muito pobre e vago, mas também de construções sintáticas. Ao perceber essa dificuldade, é possível vir à mente Fabiano, herói de Vidas Secas, de Graciliano Ramos. De fato, a relação entre ambos é bem possível no que diz respeito à linguagem. No conto lê-se:

“Crainquebille tentou expor-lhe o acontecido, o que não lhe era fácil, pois não tinha o hábito da palavra”.

“Esse interrogatório teria produzido mais luz se o acusado tivesse respondido às perguntas que lhe eram feitas. Mas Crainquebille não era afeito às discussões, e, num tal ambiente, o respeito e o espanto trancavam-lhe a garganta”.

Já em Vidas Secas, lê-se:

“Às vezes utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos – exclamações, onomatopéias. Na verdade falava pouco. Admirava as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas, em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas”.

A posição social de Crainquebille e Fabiano pode ser a causa da dificuldade que ambos têm com as palavras. Com isso, pode-se comparar a diferença social de diversas personagens do conto e como ela influencia a linguagem de cada um. Os advogados e o presidente do tribunal sabiam utilizar a linguagem, tanto que o advogado de defesa quase convenceu o presidente de que seu cliente era inocente. Se não conseguiu, não foi por problema de retórica, mas novamente o social: o texto diz que, naquela época, os policiais eram muito bem vistos e respeitados. O presidente não poderia desacreditar um protetor da lei e da ordem. Por isso, mesmo com o testemunho do doutor Mattieu a favor de Crainquebille, o agente 64 acabou vencendo o processo.

A mesma falta de familiaridade com a linguagem é a causa de Crainquebille não conseguir se defender das injustas acusações. O herói aceitava o que acontecia sem se revoltar. Ele não tinha idéia da injustiça que sofria, chegando a achar correto que o condenassem, apesar de se saber inocente. Isso é incoerente, mas Crainquebille não conseguia perceber isso.  Chegou a pensar inclusive na possibilidade de realmente haver gritado “morte aos bigorrilhas!”, de alguma maneira misteriosa, mas de que não conseguia se recordar. Contudo, apesar de ter pensado até no sobrenatural, não pensou que o presidente pudesse estar errado. Ele tinha consciência de sua inferioridade em relação ao agente 64 e ao presidente do tribunal. Por isso, não podia passar em sua cabeça que aquelas pessoas tão importantes estivessem erradas. Era normal que tudo o que elas dissessem fosse considerado, ele não era ninguém para se queixar. Com o policial, ocorria quase o contrário: como autoridade, a razão deve ser dele e, se não é obedecido, sente-se ofendido (como já vimos, uma definição sistemática de ofensa) e toma as providências necessárias para que a “justiça” seja feita.

Assim, é possível interpretar como sistemática a maneira com que Crainquebille enxerga o mundo e o espírito jurídico que o rege. A sociedade é dividida em camadas, sendo natural que algumas tenham mais privilégios que outras. Não há possibilidade de ascensão e não há nada de errado nisso. Sua definição de justiça estava completa, não aceitava modificações nem adaptações.

Ao que parece, Crainquebille utilizava o modo de inteligência sistemático para muitas outras definições da vida. Quando ele elogia a limpeza e higiene da cela onde esteve, não podemos saber se o ambiente era realmente limpo ou se o protagonista o considerou assim porque sua idéia de limpeza era diferente da que geralmente se tem. O que se pode saber era que o ambiente em que costumava descansar ou dormir não era de muito conforto e provavelmente não havia muita higiene. Comparando seu ambiente de descanso e a cela para onde o levaram, Crainquebille elogiou o espaço, chegando a dizer que era possível comer no chão.

Ao sair da cadeia, o protagonista vê-se evitado pelos que antes eram seus fregueses. A partir disso, ele enxerga como realmente era injusta a sociedade em que vivia. Por não saber se comportar perante esta situação, o velho Crainquebille tornou-se injusto (exatamente a característica que notara com tristeza no meio parisiense), tratando mal as pessoas, mesmo aquelas que não mudaram de atitide em relação a ele. O conto diz:

“Não há como negar: ele tornou-se inconveniente, ranzinza, rixento, deslinguado. É que, achando a sociedade imperfeita, não tinha ele a aptidão de um professor da Escola de Ciências Morais e Políticas para exprimir o que pensava sobre os vícios do sistema e as reformas necessárias, e as idéias não se lhe desenrolavam na cabeça com ordem e medida.”

Crainquebille não possuía experiências de vida para lidar com a imperfeição que recém descobrira na sociedade. Esse problema parece ser de senso comum. Ele percebeu que sua definição sistemática para justiça estava equivocada no meio onde se encontrava. Lonergan afirma que “o homem de senso comum está preparado para falar e agir apropriadamente em todas as ocasiões normais em seu meio ambiente”. Um homem de senso comum sabe exprimir sua forma de pensar de acordo com a situação a ser encarada. Ele deve adaptar o seu próprio senso comum, para não parecer um estranho ou um louco, como aconteceu com Crainquebille.

Ao final do conto, pode-se pensar numa distante evolução no senso comum de Crainquebille. Ao se ver na rua, passando frio e fome, lembrou-se da cadeia, onde tinha teto, comida e cobertor. Percebeu então que estar lá era melhor do que permanecer na situação terrível em que se encontrava. Daí, Crainquebille lembrou-se do motivo por que foi preso: procurou um guarda e lhe gritou: “morte aos bigorrilhas!”, pensando que este se sentiria ofendido e o prenderia, da mesma forma como fez o agente 64. Porém, o policial não se importou, considerando-o um velho louco. Com esse fracasso, o protagonista percebe que sua tentativa de modificação falhou. Essa evolução de seu senso comum é vista como bem distante, já que ainda essa modificação ainda era equivocada e não se encaixava às situações normais.

Também é possível ver esta tentativa como sistemática, se for levado em consideração que Crainquebille estava utilizando uma espécie de fórmula lógica: se “morte aos bigorrilhas” ofendia o agente 64, a mesma expressão deveria ofender quaisquer outros agentes. Essa idéia também se fechou numa definição paradigmática. Se o seu aprendizado tivesse sido de senso comum, Crainquebille teria pensado em outras formas de desacato ao policial e muito provavelmente teria atingido seu objetivo, que era o de voltar à cadeia.

Por tudo o que foi apresentado nesta análise, conclui-se que o conto Crainquebille possui uma crítica à sociedade parisiense da época, em que pessoas como o protagonista eram molestadas por causa da linguagem e indignas de serem consideradas cidadãs. Também é possível concluir que o problema de linguagem dessas pessoas era devido, entre outras causas, à confusão ao utilizar a inteligência sistemática e a de senso comum.

Referências Bibliográficas

FRANCE, Anatole. Crainquebille (tradução de Celina Portocarrero). In: Costa, Flávio M. (org.). Os 100 melhores contos de crime e mistério da literatura universal. São Paulo: Ediouro, 2002.

LONERGAN, Bernard. Horizontes que se unem: o sistema, o senso comum, a erudição.

RAMOS, Graciliano. Vidas secas. São Paulo: Record, 2003.

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Vilões bíblicos que provavelmente encontraremos no céu (I): Nabucodonosor

 

Hoje, ao abrir a Bíblia, me deparei com o capítulo 27 de Jeremias, li a respeito da ameaça divina contra o rei Zedequias. Deus prometeu entregar todas as nações nas mãos de seu servo, Nabucodonosor (v. 6). Espere aí! Eu li direito? “Meu servo?” Esse título não era dado a qualquer um. Em Isaías 53.11 Deus chama o Messias de “meu servo justo” (NVI). No original, o título dado ao Messias e ao rei da Babilônia é o mesmo (avdi).

Mas como Deus poderia chamar de servo um rei tão cruel? Fui ao livro de Daniel. Logo no primeiro capítulo é possível conhecer a história de quatro jovens judeus que foram levados cativos à Babilônia, mas que, por serem considerados pelo próprio Nabucodonosor como dez vezes mais inteligentes que seus sábios e magos, receberam posição de destaque no reino. Aqui, a primeira impressão que tenho é a de que o rei babilônico era um homem que sabia reconhecer o valor das pessoas e fazer justiça às suas capacidades.

Por outro lado, no capítulo 2, ele me pareceu profundamente cruel. Após um sonho muito confuso, Nabucodonosor convocou astrólogos e feiticeiros do reino para que pudessem, não apenas interpretar o sonho, como também descobrir qual era ele. Obviamente os magos não foram capazes de relatar por si mesmos o sonho do rei, tentaram argumentar que aquele pedido era um absurdo, mas “isso deixou o rei tão irritado e furioso que ele ordenou a execução de todos os sábios da Babilônia” (v.12), inclusive Daniel e seus três amigos. Quando soube do que estava por ocorrer, Daniel solicitou um prazo ao rei. Ele, Hananias, Misael e Azarias passaram a noite em oração e Deus lhes deu a revelação do sonho, bem como sua interpretação. Somente desta forma o castigo foi suspenso. O interessante neste episódio foi que Daniel atribuiu a Deus a revelação do mistério, e Nabucodonosor, ao final, reconheceu que o Deus de Daniel era “o Deus dos deuses, o Senhor dos reis e aquele que revela os mistérios” (v.47). Este foi o primeiro contato direto desse rei com o Deus que, até aquele momento, ele só havia escutado falar.

Daniel foi colocado sobre todos os sábios da província, e seus três amigos se tornaram administradores da Babilônia. Cerca de nove anos se passaram, e Nabucodonosor se tornava cada vez mais poderoso. Certa feita, mandou construir uma imagem em ouro, uma estátua enorme, de 27 metros de altura e quase 3 de largura. Ordenou que todos deveriam se ajoelhar em reverência a ela quando a trombeta fosse tocada. Quem desobedecesse seria lançado numa fornalha. Hananias, Misael e Azarias se recusaram, mesmo quando o rei os ameaçou com as palavras: “E que deus poderá livrá-los das minhas mãos?” (3.15 NVI), fazendo pouco do mesmo Deus a quem anos atrás ele havia exaltado sua superioridade. A fidelidade dos três judeus foi tão decidida que Nabucodonosor ficou furioso com eles e ordenou, não apenas que os lançassem na fornalha, como também que esta fosse aquecida sete vezes mais do que de costume. Os três homens foram lançados amarrados para dentro do fogo. Contudo, pouco tempo depois, o rei malvado viu com seus próprios olhos o milagre: Os três caminhavam pela fornalha e na companhia de um quarto homem que se parecia com um “filho dos deuses” (v.25 NVI). Diante dos três jovens vivos, já fora da fornalha, Nabucodonosor reconheceu: “Louvado seja o Deus de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, que enviou seu anjo e livrou os seus servos! Eles confiaram nele, desafiaram a ordem do rei, preferindo abrir mão de sua vida a prestar culto e adorar a outro deus que não fosse o seu próprio Deus” (v.28 NVI). E ainda acrescentou que todo aquele que desrespeitasse o Deus daqueles judeus deveria ser despedaçado, “pois nenhum outro deus é capaz de livrar dessa maneira” (v. 29 NVI). Este foi seu segundo contato direto com Deus narrado na Bíblia.

Depois disso, passaram-se ainda uns 25 ou 26 anos. Não havia na terra rei mais poderoso que Nabucodonosor. Ele havia devastado Jerusalém e os reinos ao redor. Havia capturado o rei Zedequias de Judá, furado seus olhos e o aprisionado. O episódio seguinte, narrado no capítulo 4 de Daniel, foi escrito pelo próprio Nabucodonosor. Ele conta que teve um sonho: Uma árvore muito alta crescia tanto que sua copa tocava no céu. Do mundo inteiro era possível vê-la, servia de sombra para os animais, e todas as criaturas se alimentavam de seus frutos. De repente, um anjo desceu do céu gritando:

 

Derrubem a árvore, cortem os seus galhos, tirem as folhas e joguem fora as frutas. Espantem os animais que estão descansando na sua sombra e as aves que estão nos seus galhos. Mas deixem ficar o toco e as suas raízes e o amarrem com correntes de ferro e de bronze, no meio do capim bravo, no campo. Assim o sereno cairá sobre esse toco — esse homem —, e ele comerá capim como os animais. Ele perderá o juízo e começará a pensar como animal; sete anos viverá assim. Esta é a sentença dada pelos anjos, pelos anjos-vigias do céu, a fim de que todos saibam que o Deus Altíssimo domina todos os reinos do mundo. Ele dá esses reinos a quem quer, mesmo ao mais humilde de todos os homens. (v. 14-17 NTLH)

 

Nabucodonosor chamou Daniel, que lhe deu a seguinte interpretação: A árvore representava o próprio rei. Deus iria destitui-lo de seu reino e ele passaria a viver entre os animais, como se fosse um deles. Contudo, seu reino não lhe seria tomado completamente, por isso o toco e as raízes permaneceriam no chão. Somente após sete anos, quando o rei finalmente reconhecesse a soberania de Deus e que o homem não passa de pó diante do Altíssimo, seu reino seria restituído. Daniel ainda o aconselhou a abandonar a arrogância e a começar a praticar a justiça. Esta foi sua terceira experiência com Deus.

No entanto, um ano se passou desde o sonho, e Nabucodonosor não mudou sua atitude, ao contrário. Um dia, enquanto passeava e contava vantagem de seu sucesso e se gloriava, aconteceu o cumprimento do sonho. Em um ato de loucura, Nabucodonosor começou a agir como um boi e foi comer capim no meio dos animais. Seu cabelo e sua barba cresceram, bem como as unhas, sua inteligência se foi de maneira que ele realmente se tornou um animal irracional.

Passados sete anos, o rei levantou os olhos aos céus e Deus lhe devolveu o entendimento. Ele conta que, naquele momento, só pode louvar ao Senhor:

 

“O poder do Altíssimo é eterno; o seu reino não terá fim. Para ele, os seres humanos não têm nenhum valor; ele governa todos os anjos do céu e todos os moradores da terra. Não há ninguém que possa impedi-lo de fazer o que quer; não há ninguém que possa obrigá-lo a explicar o que faz.”

 — Logo que o meu juízo voltou — continuou Nabucodonosor —, eu recebi outra vez a minha honra, a minha majestade e a glória do meu reino. Os meus conselheiros e as altas autoridades do meu governo me receberam de volta. Fui rei de novo, com mais poder do que antes. Portanto, eu, o rei Nabucodonosor, agradeço ao Rei do céu e lhe dou louvor e glória. Tudo o que ele faz é certo e justo, e ele pode humilhar qualquer pessoa orgulhosa. (v. 34-37 NTLH)

 

Nabucodonosor teve três grandes oportunidades de se humilhar diante da majestade de Deus e de reconhecê-lo como seu Senhor. As duas primeiras foram demonstrações que o próprio Deus lhe deu de sua onipotência (salvando seus servos do fogo), onipresença (estando com eles ali dentro da fornalha) e onisciência (revelando e interpretando seu sonho). Em sua terceira oportunidade, o que Deus fez foi alertá-lo, mostrar-lhe o que lhe aconteceria se ele não se submetesse à sua vontade. Como nada disso fez com que Nabucodonosor se rendesse, a situação chegou à sua última consequência e foi aí, somente aí, após sete anos de uma vida miserável e irracional, que o rei da Babilônia finalmente se entregou ao Senhor, a quem chamou de Rei do céu, e reconheceu que não há outro tão poderoso e majestoso do que aquele que faz o que quiser de suas criaturas, sem pedir permissão.

Quando analiso minha vida e meus comportamentos reprováveis, me vem uma tristeza profunda. Eu chego a me perguntar: “Será que Deus é capaz de me perdoar desta vez?” Afinal, sou um ser tão imundo, eu não deveria nem ousar me ajoelhar diante de um Deus tão santo, se nem eu mesma suporto meu cheiro de esgoto.

Como foi com Nabucodonosor, comigo também parece que as coisas precisam chegar às últimas consequências para que eu aprenda aquilo que Deus está me ensinando. Ele me dá demonstrações de seu cuidado e poder, mas eu o ignoro. Ele me alerta do mal, e eu ignoro. E então, só quando eu me vejo no fundo do poço, comendo pasto com os animais, é que me dou conta de meu orgulho, de minha rebeldia e do quanto ofendo a santidade de Deus com minhas atitudes. Fico pensando como é possível ainda ser amada por Ele, como pode ser que a graça de Cristo alcança pessoas como Nabucodonosor e como eu!

Por isso, tenho a esperança de um dia, já gozando da eternidade celestial, eu possa encontrar lá Nabucodonosor e tantos outros personagens bíblicos e agradecer a Deus por “semelhantes irmãos”, como o colombiano Santiago Benevides coloca em sua canção “Gracias por Pedro”. A seguir deixo uma tradução livre desse hino tão honesto:

 

Olhando como sou realmente

Como tenho o coração meio sem sabor e cheio de egoísmo

Descobrindo que sou só mais um em um montão

Cuja grande aspiração é chegar mais longe que o vizinho

Recordando que, cada vez que juro entregar até minha vida,

Um galo acaba cantando

Ou que falas comigo e me faço surdo-mudo

É que hoje quero louvar-te deste modo tão estranho

 

Obrigado por Pedro, obrigada por Jonas,

Obrigado também pela mula de Balaão

Obrigado por ser experiente em suportar

A nós que não somos tão bons

E contudo pretendemos falar de Ti à humanidade

 

O que seria de nós se não tivéssemos

A certeza de que vês com amor esses personagens

Que escolheste formar tua seleção

Com aqueles que não são jogadores muito profissionais

Que amas desafiar a religião e fazer coisas grandes

Com instrumentos tão inesperados

Eu me olho ao espelho e, com razão,

Só me resta agradecer por semelhantes irmãos

(Confira a canção em espanhol Aqui)

A ética, o cristão e a guerra

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Ética e guerra

O objetivo deste trabalho é falar sobre a relação entre a guerra e a ética, analisando também a posição que o cristão assume perante este conflito.

Antes de começarmos, porém, é necessário definir guerra. Segundo o dicionário Aurélio, guerra é “luta armada entre nações ou partidos; conflito.” Granz e Smith (2005), em seu Dicionário de Ética, dizem que guerra “é o conflito armado entre nações ou grupos de pessoas”. Podemos concluir então que, para haver guerra, é necessário armas. Isso significa consequentemente, que não há guerra sem violência, sem feridos e sem mortos.
A guerra pode ser originada por vários motivos: religioso, ideológico, político, geográfico, discriminatório, etc. No entanto, nem todo motivo é considerado justo pela sociedade e, em alguns casos, a guerra poderia ser evitada devido à existência de outros meios possíveis para a resolução do conflito. Com base nisso, surgiram algumas visões e posições a respeito da guerra, que serão enumeradas a seguir:
Ativismo: Segundo esta visão, a guerra sempre é uma forma válida para se resolverem os conflitos entre nações ou grupos. Os ativistas têm como argumento o fato de que todo o cidadão deve respeitar o governante e obedecer-lhe. Além disso, o indivíduo não deve estar passivo numa luta em defesa dos interesses de seu povo ou grupo.

Teoria da guerra justa: essa teoria defende a guerra originada por uma causa ou intenção justa. Esta visão acredita que, em alguns casos, o combate é eticamente justificável. Por exemplo, uma nação possui todo o direito de se defender diante de um ataque ou de um opressor. Não foi esta nação que começou, e há vidas inocentes em jogo, por isso o correto seria participar da guerra e defender o povo.

Pacifismo: os pacifistas partem da premissa de que é errado se utilizar da violência para acabar com a violência. São contra o uso de armas, tanto numa guerra quanto numa intervenção policial, ou mesmo no caso de posse de armas. Os pacifistas acreditam que é possível as pessoas resolverem suas diferenças por meio da diplomacia.

Não-violência: é uma visão que defende a luta pelos ideais e princípios da nação ou grupo, porém não pode ser considerada uma maneira de guerrear porque eles se recusam a usar a violência para atingir seus objetivos. Os que seguem a visão da não-violência lutam, combatem, chamam a atenção do mundo para a sua causa, mas não se valem da força física, nem de armas. Gandhi e Martin Luther King são exemplos de líderes defensores da não-violência.

Não-resistência: trata-se de uma visão contra a violência, porém ao ponto de agir passivamente ou não agir diante da violência oponente. A ideia é que não resistir ao inimigo também é uma maneira de protestar.

Terrorismo: é uma forma antiga de guerrear (a metodologia dos zelotes, do Novo Testamento, era considerada terrorista). Trata-se da violência armada, militar ou não, que procuram intencionalmente atacar civis para que, pelo medo gerado, possam atingir seus objetivos, que podem ser religiosos, políticos, econômicos, etc.

Os indivíduos possuem visões muito diferentes uns dos outros em relação a este assunto. Uns acreditam que a opressão é um instinto do ser humano. Porém, se considerarmos que instinto é algo biológico, inerente a uma determinada espécie e que não se pode fugir dele, então poderemos concluir que a opressão não é um instinto, já que é possível evitá-la e controlá-la; além disso, existe um número grande de pessoas (e não podem ser consideradas exceções) que são oprimidas e não oprimem nem sentem impulsos para oprimir. Acreditar que a opressão é inerente ao ser humano pode ser uma maneira de o indivíduo demonstrar sua visão ativista de guerra.
Há indivíduos que procuram defender o pacifismo com o argumento de que matar pessoas é uma crueldade. Mas aqui a questão está no conceito de que temos de crueldade. A crueldade sempre esteve relacionada à dor ou sofrimento sem propósito que um indivíduo impõe sobre outro. Contudo, quando há um propósito justo aquele sofrimento pode estar relacionado à crueldade? Segundo o exemplo de Barrington (1974), um cirurgião não pode ser considerado cruel por infligir dor a um paciente, pois sabemos que aquela dor é temporária e o paciente, após algum tempo, se sentirá melhor do que se sentia antes da cirurgia. Por isso, os defensores da guerra justa consideram que é mais cruel permitir que oponentes destruam o povo inocente do que não resistir à violência em prol de melhorias, mesmo que por um tempo pessoas inocentes tenham que sofrer.

Em favor da guerra, tanto os defensores da guerra justa quanto os ativistas possuem o seguinte argumento:
Pelo fato de que os métodos amorais e imorais prometem maiores vantagens nas lutas políticas, todas as políticas ficam manchadas pela imoralidade. A tentativa de evitar essa nódoa, entretanto, a busca de pureza, pode tornar-se a maior imoralidade de todas no sentido de causar o maior sofrimento, porque deixa a arena política à mercê dos que têm menos escrúpulos. (p.57)
Isso significa que, mesmo que pensemos na guerra como algo imoral ou amoral, não devemos deixar de praticá-la porque, se não a fizermos, aqueles que não estão interessados em ética e moral a farão, e o resultado será pior do que seria se tivéssemos aceitado guerrear. Na não-resistência as conseqüências são piores no sentido de que mais pessoas inocentes são atingidas, pois não há quem as defenda. Essa permissividade ao ataque a inocentes sem defesa pode, como já foi dito, ser considerada mais imoral do que a resistência.

Assim como a sociedade possui diferentes formas de pensar a guerra (este não será o foco do trabalho), o meio cristão também diverge em suas opiniões quanto ao assunto. É possível encontrar cristãos que defendem o ativismo, o pacifismo ou a teoria da guerra justa; e todos eles têm argumentos bíblicos para defenderem sua visão.
Os cristãos ativistas utilizam como principal argumento o fato de que o governo é instituído por Deus (Rm 13.1-7), e nosso dever é obedecer às autoridades e, consequentemente, participar da guerra quando esta for declarada.
É no Antigo Testamento que há mais menções da autoridade que o Senhor dá ao governante: Deus escolhe Davi para reinar sobre Israel (1Sm 10.24), e depois deste vêm outros reis. Em Daniel 4.25 diz que “o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem quer.” No Novo Testamento também há referências à autoridade humana. Em Romanos 13.4, que já foi citado anteriormente, diz, com relação ao governo: “Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal.” Há também a famosa declaração de Cristo, sempre usada para defender a submissão aos governantes: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.” (Mt 22.21). Pedro diz: “sujeitai-vos a toda instituição humana por causa do Senhor, quer seja ao rei, como soberano, quer às autoridades, como enviadas por ele, tanto para castigo dos malfeitores como para louvor dos que praticam o bem.” (1Pe 2.13,14). Portanto, se o governo decide pela guerra, sendo esta justa ou injusta, o cristão deve concordar e participar, pois a obediência à autoridade é obediência a Deus; e a desobediência à autoridade consiste na desobediência a Deus. Esta é a visão do cristão ativista.

Pensemos agora no cristão pacifista. Para ele, é terminantemente errado participar da guerra. O pacifista utiliza três grandes argumentos contra a participação numa guerra: 1) um dos mandamentos do decálogo é “não matarás” (Ex 20.13); 2) Jesus ordenou que não resistíssemos ao mal (Mt 5.39); 3) devemos amar todos (inclusive nossos inimigos), e a guerra expressa ódio, não amor.

Quanto ao mandamento do decálogo, os pacifistas afirmam que a Bíblia deixa muito clara a proibição. Não se pode assassinar, e a principal conseqüência de se fazer guerra é o assassinato em massa. Contra o argumento dos ativistas quanto às guerras do Antigo Testamento, os pacifistas dizem que essas guerras não eram ordenadas por Deus, mas permitidas por Ele, e era o homem quem decidia por guerrear. Outros já argumentam que as guerras naquela época eram diferentes. Tratavam-se de guerras divinas e não humanas, e a prova disso eram as intervenções milagrosas de Deus nos conflitos.

Há um trecho bíblico em que Jesus declara: “Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada.” (Mt 10.34) Os pacifistas dizem que esta declaração não tinha a intenção de mostrar o objetivo da vinda de Cristo à Terra, mas seus resultados. Por causa dele, por amor a ele, haveria discórdias e divisões nas famílias e na sociedade. É realmente o que vemos hoje. Muitos são perseguidos por causa do amor de Jesus. Em alguns lugares as pessoas morrem se declararem fé em Cristo.

Outra passagem bíblica em que os pacifistas se baseiam para não desejarem a guerra é a do Sermão do Monte, quando Jesus diz: “não resistais ao perverso; mas, a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra” (Mt 5.39). Em Romanos 12.19-21 está escrito:

Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas daí lugar à ira; porque está escrito: A mim pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor. Pelo contrário, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem.

Um importante argumento em favor do pacifismo é o de que a Bíblia inteira fala de amor, e o maior de todos os mandamentos é o amor. Ainda no Sermão do Monte, Jesus disse que devemos amar os nossos inimigos e orar pelos que nos perseguem (Mt 5.44). A guerra expressa ódio e, na maioria das vezes, sua origem está no ódio. Portanto, participar da guerra é o mesmo que descumprir o maior dos mandamentos.
Existe também o cristão que assume uma postura equilibrada. Ele defende a teoria da guerra justa, à qual Geisler (1984) chama de seletivismo. O seletivista defende que é correto participar de algumas guerras, aquelas que possuem um motivo justo ou uma causa que futuramente beneficie a nação ou o grupo interessado. Se pensarmos nas guerras injustas, concluiremos que o ativismo está equivocado. Se pensarmos nas guerras justas, veremos o pacifismo como equivocado.
A Bíblia ordena que sejamos submissos aos governantes. Contudo, a própria Bíblia é clara em mostrar que às vezes não é certo obedecer ao governo quando este não está de acordo com os mandamentos divinos. Em Daniel 6, vemos a ordenação do rei em ser adorado e a recusa de três jovens tementes a Deus em obedecer-lhe (havia uma ordem divina superior: adorar somente a Deus). Como esta, há outras situações na Bíblia que mostram que a obediência a Deus vem antes da obediência ao governo humano.
Além disso, com relação às guerras do Antigo Testamento, os seletivistas afirmam que algumas foram concessivas, mas outras estavam dentro da vontade de Deus que ocorressem, como foi o caso, por exemplo, da guerra com os cananeus e outros povos:
“Porém, das cidades destas nações que o Senhor, teu Deus, te dá em herança, não deixarás com vida o que tem fôlego. Antes, como te ordenou o Senhor, teu Deus, destruí-las-ás totalmente: os heteus, os amorreus, os cananeus, os ferezeus, os heveus e os jebuseus” (Dt 20.16,17).

O mandamento que diz “não matarás” também tem sua justificação sob o ponto de vista da teoria da guerra justa:  em hebraico há muitas palavras que definem a palavra morte, cada uma expressando um sentido diferente. No caso da frase do mandamento bíblico, o verbo é teresach, e possui o sentido de assassinar. Portanto a melhor tradução seria “não assassinarás”. Um mandamento que proíbe o assassinato não está necessariamente proibindo a guerra. Os pacifistas acreditam que as mortes na guerra são assassinato. Contudo, uma das partes pode estar apenas se defendendo. Segundo Manuel Pedro Cardoso, a Nova Enciclopédia Larousse define assassinato como sendo um “homicídio feito com premeditação ou à traição.” Numa guerra, aqueles que se defendem ou lutam por um ideal justo não podem ser considerados assassinos. A morte não é desejada pelos combatentes, apesar de todos saberem que ela ocorrerá como conseqüência direta.

Além das guerras justificadas e justificáveis, devemos pensar também nas defensivas, isto é, aquela que um país se vê forçado a fazer quando é atacado. Não resistir, neste caso, acarretaria na morte de muitos civis inocentes, além de ceder à ocupação geográfica e política do inimigo.

Mais um argumento dos seletivistas está na reverência pela vida. Assim como não devemos tirar a vida de outros, devemos preservar a nossa e defendê-la. Os pacifistas utilizam o texto de Romanos 12.19-21 como argumento para a defesa da não-resistência. Entretanto, o versículo anterior (Rm 12.18) deixa claro que devemos ter a paz com todos, mas apenas até o ponto em que isto é possível. Isto significa que Paulo sabia que haveria situações em que sustentar a paz não depende da nossa vontade.

Após toda essa análise, podemos concluir apenas que não há uma visão definida por parte dos cristãos a respeito da guerra. Nem mesmo a sociedade em geral pode ter uma única opinião sobre o assunto, pois tanto a defesa quanto a repulsa da guerra possui argumentos eticamente favoráveis e desfavoráveis. Não podemos pensar na melhor solução para a questão da guerra, mas apenas levar em consideração o contexto em que ela está sendo criada e optar por aquilo que for “menos pior”, ou seja, sempre haverá inocentes prejudicados, mas devemos pensar numa alternativa em que esse prejuízo seja o menor possível.

Por Mariana Ferreira de Toledo

Referências Bibliográficas

A Bíblia sagrada. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. Barueri, SP: SBB, 1988.

BARRINGTON MOORE, Jr. Da guerra, crueldade, opressão e sordidez humana geral. In: Reflexões sobre as causas da miséria humana e sobre certos propósitos para eliminá-las. Rio de Janeiro: Zahar, 1974.

BAUER, Johannes B. Dicionário de Teologia Bíblica v.1. São Paulo: Loyola, 1975.

CARDOSO, Manuel Pedro. Pacifismo. In: http://www.estudos-biblicos.com/pacifis.html. Acesso em 16 de junho de 2009.

GEISLER, Norman L. O cristão e a guerra. In: Ética cristã: alternativas e questões contemporâneas. São Paulo: Vida Nova, 1984.

GRENZ, Stanley J. e SMITH, Jay T. Dicionário de ética. São Paulo: Vida, 2005.

Não Violência. In: pt.wikipedia.org/wiki/Não-violência. Acesso em: 17 de junho de 2009.

Prisão de ventre

A primeira vez que Mariana percebeu que alguma coisa não estava bem com Daniel foi num sábado pela manhã. Nesse dia ele acordou cedo e se sentou na beirada da cama, olhando para fora. As cortinas do quarto não estavam totalmente fechadas, e lá fora parecia que ia chover. Fazia frio. Daniel passou a mão no cabelo. Durante alguns minutos ele ficou sentado imóvel. As pontas de seus pés encostavam no chão gelado. Havia silêncio na casa.

Uma hora depois, quando Mariana acordou, ela encontrou sobre a mesinha da sala pilhas organizadas de livros. No sofá havia uma mala aberta e ao seu lado roupas dobradas. Não havia nada dentro da mala. A porta para o jardim estava aberta e um vento fraco entrou na casa. Ela se aproximou para olhar lá fora e viu Daniel de pé na grama com o cachorro. Ele abraçava o animal, apertando-o contra o peito. As patas dianteiras e a cabeça do animal alcançavam seu ombro. Estava vestido com calças de veludo cotelê e um suéter. “O que aconteceu?”, ela perguntou. “Aconteceu alguma coisa?”

“Não”, Daniel respondeu. Ele afundou o queixo e virou a cabeça para trás para olhar por cima do cão. “O cachorro está com prisão de ventre”, disse.

“O quê?”, Mariana perguntou. Ela ainda não havia acordado completamente.

Daniel deu de ombros. Ela segurou as cortinas, observou-os por um momento e depois entrou. Enquanto ia para o banheiro, perguntou-lhe sobre as coisas que estavam na sala. Ergueu a voz para que ele pudesse escutá-la do jardim. “E o que são todas aquelas coisas em cima da mesa?”,  perguntou.

Ele não respondeu, mas Mariana tampouco esperou pela resposta. Já estava a caminho do chuveiro.

Quando saiu, seu filho estava de pé ao lado da porta, de pijama. Ele se encostou no armário de casacos. Mariana vestiu um suéter de golfe. Seu cabelo estava preso por uma presilha e as pontas molhadas pingavam sobre seus ombros e sobre a nuca, dentro do colarinho.

“Você já acordou?”, ela perguntou. “Ainda não são nove horas.”

O menino ficou encostado e olhou para cima, para o teto. Ele mexia a cabeça e esfregava o cabelo na porta do armário. Quando ele falou, falou baixinho. “Papai me acordou”, disse. Depois acrescentou: “Ele disse que eu precisava me levantar.”

“Por quê?”, perguntou. “Ele disse para quê?”

O menino apertou os lábios. “Não”, respondeu.

“O que está acontecendo com você?”, ela perguntou.

O menino tombou sua cabeça para o lado até que a orelha se encontrasse com o ombro.

Mariana se agachou e o agarrou pelos ombros. “O que aconteceu?” Perguntou. Ela o sacudia.

Ele não respondeu e não olhou para ela. Olhava para o lado. “Papai está na cozinha”, disse. Havia silêncio na casa. O cabelo de Mariana pingava sobre a nuca e ela se deparou com o frescor do vento vindo do jardim.

Enquanto ia para a cozinha ela começou a balbuciar alguma coisa, mas quando viu Daniel, deteve-se.

Ele estava de pé ao lado da pia e, à sua frente, o cachorro. Suas patas traseiras estavam em uma pia e as da frente em outra. Quando viu Mariana, o cão tentou escapar, mas suas garras se deslizaram sobre a cerâmica e ele caiu. Quando se levantou, Daniel desferiu em seu nariz um golpe com a palma da mão aberta. O cachorro fez-se ouvir um grande ganido e caiu novamente com o peito sobre a divisória entre as pias. Fez uns movimentos com as patas, tentou se levantar, mas escorregou. Daniel o agarrou e o levantou. Ele ficou em silêncio. O sangue pingava de seu nariz até o fundo da pia.

Mariana se assustou. “O que você está fazendo com ele?”, gritou. “Por que está batendo nele?”

Ela se aproximou, mas Daniel a repeliu com a mão, as pontas de seus dedos tocaram o peito dela.

“Se você não pode ajudar, então não atrapalha”, disse. Ela tirou a mão dele e tentou dar outro passo à frente, mas foi impedida. “Eu te falei. Ele está com prisão de ventre”, disse. “Você não pode ajudar, certo? Então não atrapalha.”

“Do que você está falando?”, ela perguntou. Tentou chegar até a pia. Daniel ergueu uma das mãos como se fosse golpeá-la. Ela se afastou e ergueu o cotovelo sobre a cabeça, para proteger o rosto. Mas o tapa não veio.

“O que você quer dele?”, ela perguntou. Seu rosto se crispou. Começou a chorar. “O que está fazendo com ele?”

Daniel não respondeu. Abriu a torneira de água fria. Mariana olhou para o cachorro. Suas patas se agitavam e se molhavam. Ele tremia. “O que aconteceu?”, perguntou. Ela chorava tanto que era difícil entender o que dizia. “O que você está fazendo com ele?”, insistiu. “Solte-o. Deixe-o ir. Daniel, solte-o.”

Daniel olhou para ela. “Escute-me”, disse. Porém interrompeu a frase no meio. Ele parou para pensar por um momento e então continuou: “Escute-me, volte a dormir, está bem? Você não pode me ajudar, então talvez seja mais simples você ir para a cama e dormir.”

“O que aconteceu com você?”, ela perguntou. “O que você quer do cachorro?”. O menino saiu do canto e se aproximou dela. Ele segurou sua mão e encostou a cabeça em seu quadril.

Daniel fechou os olhos e se concentrou na água que enchia a pia. Houve um momento de silêncio. Depois ele abriu os olhos e virou-se. Disse devagar, mas em voz alta: “Há algo que você pensa que possa fazer?”. Com a mão aberta, ele apontou para o cão. “Olhe”, ele gritou, “você acha que pode ajudar?”

Mariana não respondeu. Daniel pôs as duas mãos na beirada da pia e inclinou-se para frente. Olhou para baixo e esperou mais um instante. Quando se garantiu de que ela já não responderia, ele se virou e fechou a torneira. Ouviu-se um silêncio. Era possível ouvir o silêncio além da porta para o jardim. A pia estava cheia até a metade. “Excelente”, ele disse, “excelente.” Começou a procurar alguma coisa nas gavetas.

“Daniel”, Mariana disse, “o que aconteceu?”

O menino ergueu a cabeça e olhou para sua mãe. Ele pensou que ela havia parado de chorar. Mas ela não parou. As lágrimas escorriam de seus cílios no suéter. “Daniel?”.

Daniel não encontrou o que procurava. Começou a revirar as gavetas e a tirar tudo de dentro delas. Utensílios de metal batiam ruidosamente sobre o mármore. Facas, abridores de lata e colheres. “Meu Deus!”, ele disse. “Que casa é esta?” Ele revirava o amontoado.

Depois parou no meio da cozinha e passou a mão nos cabelos. Ele pensou por um momento. O cachorro não se mexeu. Seu corpo ainda tremia.

Mariana tentou dizer alguma coisa, porém Daniel a calou num gesto com a mão. Ele se aproximou da pia e tirou a tampa do ralo. Depois esperou um pouco, mas antes que a água terminasse de escoar, ele ergueu o cachorro e o segurou debaixo do braço. Com o outro braço procurou nos bolsos dos casacos que estavam pendurados ao lado da porta até encontrar as chaves do carro. Já estava saindo, mas depois que abriu a porta deteve-se, como se tentasse se lembrar de alguma coisa que poderia haver esquecido.

“Daniel”, Mariana disse. Ela chorava. “Daniel, o que aconteceu com você?”

“Mariana,”, ele replicou, “fecha essa sua boca, está bem? Feche-a ou senão lhe quebrarei os ossos.” Ele enfiou as chaves no bolso e colocou o cão sobre a mesa de jantar. Entrava um vento pela porta aberta. A água pingava da pele do cachorro sobre a mesa. Daniel ficou parado na entrada da cozinha e mexia nas chaves do bolso através do tecido da calça.

Mariana falou baixinho. “Daniel,”, ela disse, “Daniel, o que você quer dele?”

Daniel se aproximou do lugar onde ela estava parada.

Ele articulou cada palavra pausadamente. “Cale a boca.”, gritou. “Ouviu?”

Seu rosto ficou bem perto do dela. Foi difícil para Mariana olhar para ele dessa distância, mas ela não se afastou. O hálito dele cheirava a creme dental. Ela tentou pegar em suas mãos, mas foi impedida.

“Ouviu?”, ele gritou.

Mariana chorava. Ele a segurou pelos pulsos e a apertou contra a parede. “Ouviu?”

Ela balançou a cabeça. Sua boca estava aberta e um fio de saliva lhe escorria dos lábios. “Ótimo”, Daniel disse.

Ele a soltou e se aproximou da mesa. Em seguida, pegou o cachorro e saiu de casa batendo a porta.

Mariana se sentou.

O menino ficou ao seu lado. Seus joelhos tremiam. Eles ouviram a porta do carro se fechar e o som do motor. Depois, ouviram o barulho que se afastava.

TAUB, Gadi. Tradução feita por Mariana Ferreira de Toledo a partir do texto original עצירות (‘atsirut).

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Gadi Taub

 Gadi Taub nasceu em 1965, em Jerusalém. É jornalista, escritor e professor da Universidade Hebraica de Jerusalém. Além de textos acadêmicos e políticos, Taub já escreveu contos, romances e livros infantis. É um dos principais autores do pós-modernismo israelense.

A fé, a esperança e o amor

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Fé, esperança e amor

“Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei. E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará.

O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acaba; mas, havendo profecias, desaparecerão; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, passará; porque, em parte, conhecemos e, em parte, profetizamos. Quando, porém, vier o que é perfeito, então, o que é em parte será aniquilado. Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, pensava como menino; quando cheguei a ser homem, desisti das coisas próprias de menino. Porque, agora, vemos como em espelho, obscuramente; então, veremos face a face. Agora, conheço em parte; então, conhecerei como também sou conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; porém o maior destes é o amor.”

I aos Coríntios 13

Apesar de não compreender totalmente este “poema” tão conhecido, decidi que seria interessante refletir a respeito dele agora porque, quando penso em 2017, as primeiras palavras que vêm à minha cabeça são exatamente FÉ, ESPERANÇA e AMOR (por mais clichê que isso possa parecer), sendo que o amor se sobressai.

Não penso nisso com paz e alegria. Ao contrário, é difícil amar. Não é fácil ter uma vida tranquila, sem preocupações, e amar ao mesmo tempo. Paulo disse bem: o amor tudo sofre, tudo suporta. Quando amamos realmente, paramos de nos importar com nossos interesses, deixamos de priorizar nossos planos; passamos a nos empenhar pelo bem do outro. Quando o outro sofre, sofremos junto. Pior fica quando decidimos amar todos. Há sempre alguém sofrendo! Isso significa que vamos sofrer sempre! Que missão dolorosa nos foi confiada pelo Senhor! E Ele fez questão de deixar bem claro que esse é o maior dos mandamentos. Amar o outro como a mim mesmo? Isso elimina qualquer possibilidade de considerar o sentimento de pena como dever cumprido de cristão. O dó não é suficiente. Devemos sofrer com o problema do outro da mesma forma como se o problema fosse nosso! Será possível isso? Em 2016 aprendi que sim. E é com muito medo que quero pedir a Deus que em 2017 eu aprenda mais. Sei que será doloroso…

Mas amar não é de todo ruim. O amor tudo crê e tudo espera. A fé e a esperança vêm no mesmo pacote. Amar não é sofrer e lamentar a angústia como se ela não tivesse solução. Amar é chorar, sofrer, mas com a certeza de que essa tristeza não irá até o fim dos dias. O amor nos ajuda a enxergar a solução para a aflição, mesmo quando parece absurdo pensar na existência dessa solução. É com essa fé que esperamos. A espera é agitada, por vezes cansativa, dolorida, mas mesmo assim esperamos. O amor é paciente! Tudo pode passar, pode vir um vendaval e levar tudo embora, mas o amor JAMAIS acaba. É por esse motivo que ele vê o resultado do problema.

Sofremos, esperamos, vemos os resultados, que são frutos pacíficos. Voltamos a sofrer, esperamos mais, recebemos mais frutos pacíficos… Aquele que ama o outro verdadeiramente vive dentro dessa cadeia cíclica, bem representada pelo símbolo do infinito ∞.

Somente sairemos dessa cadeia quando vier Aquele que é perfeito. Quando virmos o Perfeito* face a face, então já não haverá mais sofrimento, nem pranto, nem dor. Viveremos no infinito do Sua Glória e a cadeia cíclica será felicidade concreta e completa vivenciada eternamente nos céus através de Seu grandioso amor por nós.

  • Cristo

 

Poesia moçambicana e negritude

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Poesia Moçambicana

 

O objetivo deste trabalho é desenvolver uma reflexão a respeito da questão da negritude na poesia moçambicana. A proposta é iniciar essa análise pensando no começo de tudo, ou seja, desde quando surgiu no mundo o conceito “negritude” e como essa concepção evoluiu em Moçambique, mantendo ou não suas características iniciais.

Inicialmente, o africano pretendia identificar-se como homem negro, valorizando essa sua condição. Dessa forma, não havia uma identificação nacional, mas continental. Esse pensador era um africano, e não um moçambicano, angolano etc. A concepção da nacionalidade africana ainda estava muito imatura.

No século XIX encontramos alguns poetas que demonstram sua preocupação com o ser negro. No entanto, sua visão ainda estava bastante presa aos moldes da literatura ocidental, em que a beleza suprema é a da mulher branca. A negra, quando aparece em algum texto, leva toda uma conotação sexual. Como exemplo disso, temos dois poetas moçambicanos: Cordeiro da Mata e Costa Alegre.

Cordeiro da Mata escreveu um poema intitulado “Uma Quissama” (1872). Ali, ele exalta a beleza de uma quissama, apesar de manter a idéia da beleza tradicional branca, como se dissesse: “ela é bonita, apesar de negra”:

Em manhã fria, nevada,

N’essas manhãs de cacimbo

Em que uma alma penada

Não se lembra de ir ao limbo;

Eu vi formosa, correcta,

Não sendo européia dama

A mais sedutora preta

Das regiões da Quissama.

(grifo meu)

Em outra estrofe do poema, Cordeiro da Mata escreve: “Nos lábios – posto que escuros – / viam-se-lhe risos puros.” Assim, vê-se que ele sempre analisa a beleza da negra comparando-a com uma branca. Também aqui, a mulher aparece como “sedutora”, e não como pura, preparada para um casamento casto.

Costa Alegre, em 1891, publicou o poema “Negra”, onde tenta alterar a forma tradicional de beleza, sem, contudo, conseguir afastar-se totalmente da branquidade padrão:

 

Negra! Negra! Como a noite

D’uma horrível tempestade,

Mas, linda, mimosa e bella,

Como a mais gentil beldade.

(grifo meu)

De qualquer forma, a negra ainda não é vista como uma mulher que mereça ser amada realmente, nem é aquela a quem o poeta se entrega submisso. Sua beleza ainda está ligada à sedução. Ela é bonita para o sexo e não para o casamento. Mas essa não deixou de ser uma tentativa de intervir no padrão da beleza branca ocidental. Esses autores foram sujeitos que, em sua época, tentaram reconhecer e construir sua própria identidade.

No começo do século XX, um advogado chamado Sylvester Williams organizou uma conferência pan-africana, que consistia em fazer com que os negros não nascidos na África reconhecessem o continente como sua pátria e se solidarizassem com os africanos colonizados. Assim, surgiu a ideia de “negro com muito orgulho” e outras frases parecidas que, ao invés de acabar com o problema da discriminação, incentivava a segregação racial. Alguns mais entusiasmados, como o jamaicano Marcus Garvey, defendiam a proposta do “regresso à África”, ou seja, todos os negros deveriam voltar ao seu continente de origem e criarem ali o seu império.

Houve muitos congressos para a discussão de temas como o anticolonialismo. Um dos principais representantes do pan-africanismo foi Du Bois. Ele protestava contra o imperialismo, defendia a independência, exaltava sua cor, defendia o direito à igualdade e respeito, sendo contra os privilégios para os brancos. Du Bois influenciou muitos autores africanos de sua época e posteriores.

Além dessas discussões, os negros chamaram atenção para sua causa através da música (jazz, blues etc.). Algumas revistas entraram em circulação, como a Legítime Défensee e La Revue Du Monde Noir. Todas essas formas de defesa à causa negra estavam sendo inseridas em um movimento chamado Nègritude. Simone Caputo Gomes, em texto publicado em sua página na internet, define o movimento da seguinte forma:

A Nègritude propriamente dita nasceu, portanto, de um protesto intelectual de negros de formação cultural européia que tomavam consciência da diferença e da inferiorização que os europeus impunham aos descendentes da África. (p. 04)

Alguns negros eram contra o movimento da negritude, acreditando que ela também era uma forma de preconceito. Outros a consideravam problemática porque não era possível falar de uma cultura negra, já que dentro da África (continente tão grande) havia várias culturas. Pensar em uma cultura seria ocultar as nacionalidades que lutavam por sua independência não só política, mas também cultural.

Dessa forma, a Negritude foi tomando características específicas para cada grupo. Quero dizer, ela apresentava uma essência comum, mas cada grupo acrescentava características em conformidade ao seu modo de pensar. De acordo com Caputo, no mesmo texto citado anteriormente, não é possível falar de Negritude como movimento organizado nas colônias portuguesas, “visto que coincidiu como recrudescimento da ditadura salazarista (a partir de 1949), culminando em 1965, com o fechamento da Sociedade Portuguesa de Escritores” (p. 07).

O conceito de Negritude mudou também a partir dos movimentos de independência das colônias. Começaram a estudar a história do negro pois, descobrindo sua ancestralidade, descobria-se também uma forma de conquistar seu espaço no mundo.

Em Moçambique, muitos autores fizeram tentativas de defender sua condição de negro, seguindo algumas características da negritude, mas sem levar muito em conta a questão da nacionalidade. Os autores de personalidade nacionalista começaram a aparecer por volta de 1945. Eles apresentavam algumas características do movimento da Negritude, queriam a igualdade, denunciavam o racismo, a exploração colonial etc.

Pioneiros nesse tipo de poesia foram José Craveirinha e Noémia de Sousa. A poetisa nunca publicou seus poemas em uma obra, eles foram dispersos em publicações antológicas. Foi somente seis meses antes de morrer que alguém decidiu reunir seus poemas em um livro.

Noémia assume sua identidade como africana, relacionando a África com a maternidade (inclusive porque sua mãe era negra). Também é em seus poemas que encontramos o pensamento da consciencialização (e não conscientização) que, além da tomada de consciência, há a atitude de abandonar a situação de alienado, alienação essa que permitia que os colonizados assumissem de forma passiva a cultura e as imposições dos colonizadores.

Suas composições também são inovadoras porque ela é um dos primeiros autores a valorizarem a estética do homem negro, sem considerá-lo sob uma visão erótica ou sexual. Sua poesia era de protesto contra a colonização. Para isso, ela usava a imagem da mulher oprimida e violentada, como se pode ver no poema “Sangue Negro”, de 1949:

 

Ó minha África misteriosa e natural,

Minha virgem violentada,

Minha Mãe!

(…)

Como se teus filhos – régias estátuas sem par – ,

Altivos, em bronze talhados,

Endurecidos no lume infernal

Do teu sol causticante, tropical,

Como se teus filhos intemeratos, sobretudo lutando,

À terra amarrados,

Como escravos, trabalhando,

Amando, cantando –

Meus irmãos não fossem!

No início do poema ela relaciona a África à sua mãe, e a compara a uma virgem violentada, provavelmente pela colonização. Mais adiante no poema, Noémia se mostra inconformada com o fato de seus irmãos africanos reagirem tão passivamente (como régias estátuas) diante do colonizador. Eles estão alienados, tanto que nem parecem ser irmãos da poetisa, que já assumiu a atitude de consciencialização.

José Craveirinha é outro autor inovador porque assume sua africanidade a partir de seu compromisso com a moçambicanidade.  Ele adota algumas características do movimento da Negritude, opta pela expressão oral etc. Na verdade, não só ele, mas Noémia de Sousa, Rui Knopfli, Rui Nogar e outros decidiram não eliminar heranças lusitanas como, por exemplo, a língua portuguesa. Ao contrário, assumiram-na, acrescentando expressões, marcas de oralidade, sotaques, típicos de Moçambique. Craveirinha, portanto, se afirma como moçambicano sem desconsiderar a cultura “alheia” penetrada na “própria”. Ele não considera que isso ameace seu conceito de africanidade, mas apenas o reestrutura.

No poema “Hino à minha terra” (1974), ele exalta enfaticamente sua situação de moçambicano. Utiliza o bom português, mas não abre mão da expressão oral moçambicana nem de termos que são nomes de sua terra, como ele diz:

(…) E grito Inhamússua, Mutamba, Massangulo!!!

E torno a gritar Inhamússua, Mutamba, Massangulo!!!

E outros nomes da minha terra

Afluem doces e altivos na memória filial

E na exacta pronúncia desnudo-lhes a beleza.

(…)

Oh, as belas terras do meu áfrico País

E os belos rios e os belos lagos e os belos peixes

E as belas aves dos céus do meu País

E todos os nomes que eu amo belos na língua ronga

Macua, suaíli, changana,

Xístsua e bitonga

Dos negros Camunguine, Zavala, Meponda, Chissibuca

Zongoene, Ribáuè e Mossuril. (…)

Quanto ao movimento da negritude, o poeta considera relevante. Ele disse em entrevista a Rita chaves e Omar Thomaz, em 1998:

Essa mestiçagem sempre que era identificada com o universo negro era marginalizada. A opressão dava para todos. Mas às vezes fico baralhado. E não aceito a defesa da Negritude como uma atitude racista. Eu só considero como racismo se uma pessoa afirma:”Eu tenho orgulho em ser negro.” Isso pode ser visto como uma forma de se achar mais. Eu acho que uma pessoa deve exaltar sua cor para ser igual, não para ser superior. É preciso compreender que eu posso ser negro e belo, que eu não preciso copiar o branco para ser aceito. Essa é ainda uma grande confusão que uma pessoa encontra aqui em África. (2005, p. 239)

A maneira como ele se relacionava com a Negritude foi no sentido de encarar o racismo como sendo uma das faces da exploração. O negro deveria lutar para conquistar seu espaço em seu espaço (África) e não depender do outro. Isso envolvia a valorização e disseminação da cultura negra para que o africano, além da liberdade, recuperasse sua auto-estima. Rita Chaves (2005) diz que, para Craveirinha “a isso articulava-se o sentido de classe, deixando clara a ligação com as camadas populares”. (p. 149)

Além desses e de outros poetas, surgiram nessa época em Moçambique diversos tipos de publicações, como suplementos de jornais, revistas etc., que assumiam posturas claramente influenciadas pelo pan-africanismo e pela Negritude. Devido ao pouco espaço de que disponho neste trabalho, não analisarei outros poetas que também reconheceram sua identidade moçambicana, a exemplo de Noémia e Craveirinha.

Assim, é possível observar o amadurecimento dos poetas moçambicanos quanto à sua visão como africano, e a relação dessa visão com o movimento da Negritude. Trata-se de poetas inconformados com sua situação de colonizado, que utilizavam a cultura própria parra vencer a batalha contra aqueles que os detinham em poder imperialista.

Referências Bibliográficas

CHAVES, Rita. Angola e Moçambique: Experiência Colonial e territórios Literários. Cotia: Ateliê Editorial, 2005.

FERREIRA, Manuel. 50 poetas africanos. Lisboa: Plátano Editora, 1989.

GOMES, Simone Caputo. Caminhos da Negritude na Poesia Moçambicana. Disponível em: http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:MR25kjo9hNwJ:www.simonecaputogomes.com/textos/negritude.doc+simone+caputo+gomes+negritude&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br . Acesso em 23/06/2010.