Vilões bíblicos que provavelmente encontraremos no céu (I): Nabucodonosor

 

Hoje, ao abrir a Bíblia, me deparei com o capítulo 27 de Jeremias, li a respeito da ameaça divina contra o rei Zedequias. Deus prometeu entregar todas as nações nas mãos de seu servo, Nabucodonosor (v. 6). Espere aí! Eu li direito? “Meu servo?” Esse título não era dado a qualquer um. Em Isaías 53.11 Deus chama o Messias de “meu servo justo” (NVI). No original, o título dado ao Messias e ao rei da Babilônia é o mesmo (avdi).

Mas como Deus poderia chamar de servo um rei tão cruel? Fui ao livro de Daniel. Logo no primeiro capítulo é possível conhecer a história de quatro jovens judeus que foram levados cativos à Babilônia, mas que, por serem considerados pelo próprio Nabucodonosor como dez vezes mais inteligentes que seus sábios e magos, receberam posição de destaque no reino. Aqui, a primeira impressão que tenho é a de que o rei babilônico era um homem que sabia reconhecer o valor das pessoas e fazer justiça às suas capacidades.

Por outro lado, no capítulo 2, ele me pareceu profundamente cruel. Após um sonho muito confuso, Nabucodonosor convocou astrólogos e feiticeiros do reino para que pudessem, não apenas interpretar o sonho, como também descobrir qual era ele. Obviamente os magos não foram capazes de relatar por si mesmos o sonho do rei, tentaram argumentar que aquele pedido era um absurdo, mas “isso deixou o rei tão irritado e furioso que ele ordenou a execução de todos os sábios da Babilônia” (v.12), inclusive Daniel e seus três amigos. Quando soube do que estava por ocorrer, Daniel solicitou um prazo ao rei. Ele, Hananias, Misael e Azarias passaram a noite em oração e Deus lhes deu a revelação do sonho, bem como sua interpretação. Somente desta forma o castigo foi suspenso. O interessante neste episódio foi que Daniel atribuiu a Deus a revelação do mistério, e Nabucodonosor, ao final, reconheceu que o Deus de Daniel era “o Deus dos deuses, o Senhor dos reis e aquele que revela os mistérios” (v.47). Este foi o primeiro contato direto desse rei com o Deus que, até aquele momento, ele só havia escutado falar.

Daniel foi colocado sobre todos os sábios da província, e seus três amigos se tornaram administradores da Babilônia. Cerca de nove anos se passaram, e Nabucodonosor se tornava cada vez mais poderoso. Certa feita, mandou construir uma imagem em ouro, uma estátua enorme, de 27 metros de altura e quase 3 de largura. Ordenou que todos deveriam se ajoelhar em reverência a ela quando a trombeta fosse tocada. Quem desobedecesse seria lançado numa fornalha. Hananias, Misael e Azarias se recusaram, mesmo quando o rei os ameaçou com as palavras: “E que deus poderá livrá-los das minhas mãos?” (3.15 NVI), fazendo pouco do mesmo Deus a quem anos atrás ele havia exaltado sua superioridade. A fidelidade dos três judeus foi tão decidida que Nabucodonosor ficou furioso com eles e ordenou, não apenas que os lançassem na fornalha, como também que esta fosse aquecida sete vezes mais do que de costume. Os três homens foram lançados amarrados para dentro do fogo. Contudo, pouco tempo depois, o rei malvado viu com seus próprios olhos o milagre: Os três caminhavam pela fornalha e na companhia de um quarto homem que se parecia com um “filho dos deuses” (v.25 NVI). Diante dos três jovens vivos, já fora da fornalha, Nabucodonosor reconheceu: “Louvado seja o Deus de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, que enviou seu anjo e livrou os seus servos! Eles confiaram nele, desafiaram a ordem do rei, preferindo abrir mão de sua vida a prestar culto e adorar a outro deus que não fosse o seu próprio Deus” (v.28 NVI). E ainda acrescentou que todo aquele que desrespeitasse o Deus daqueles judeus deveria ser despedaçado, “pois nenhum outro deus é capaz de livrar dessa maneira” (v. 29 NVI). Este foi seu segundo contato direto com Deus narrado na Bíblia.

Depois disso, passaram-se ainda uns 25 ou 26 anos. Não havia na terra rei mais poderoso que Nabucodonosor. Ele havia devastado Jerusalém e os reinos ao redor. Havia capturado o rei Zedequias de Judá, furado seus olhos e o aprisionado. O episódio seguinte, narrado no capítulo 4 de Daniel, foi escrito pelo próprio Nabucodonosor. Ele conta que teve um sonho: Uma árvore muito alta crescia tanto que sua copa tocava no céu. Do mundo inteiro era possível vê-la, servia de sombra para os animais, e todas as criaturas se alimentavam de seus frutos. De repente, um anjo desceu do céu gritando:

 

Derrubem a árvore, cortem os seus galhos, tirem as folhas e joguem fora as frutas. Espantem os animais que estão descansando na sua sombra e as aves que estão nos seus galhos. Mas deixem ficar o toco e as suas raízes e o amarrem com correntes de ferro e de bronze, no meio do capim bravo, no campo. Assim o sereno cairá sobre esse toco — esse homem —, e ele comerá capim como os animais. Ele perderá o juízo e começará a pensar como animal; sete anos viverá assim. Esta é a sentença dada pelos anjos, pelos anjos-vigias do céu, a fim de que todos saibam que o Deus Altíssimo domina todos os reinos do mundo. Ele dá esses reinos a quem quer, mesmo ao mais humilde de todos os homens. (v. 14-17 NTLH)

 

Nabucodonosor chamou Daniel, que lhe deu a seguinte interpretação: A árvore representava o próprio rei. Deus iria destitui-lo de seu reino e ele passaria a viver entre os animais, como se fosse um deles. Contudo, seu reino não lhe seria tomado completamente, por isso o toco e as raízes permaneceriam no chão. Somente após sete anos, quando o rei finalmente reconhecesse a soberania de Deus e que o homem não passa de pó diante do Altíssimo, seu reino seria restituído. Daniel ainda o aconselhou a abandonar a arrogância e a começar a praticar a justiça. Esta foi sua terceira experiência com Deus.

No entanto, um ano se passou desde o sonho, e Nabucodonosor não mudou sua atitude, ao contrário. Um dia, enquanto passeava e contava vantagem de seu sucesso e se gloriava, aconteceu o cumprimento do sonho. Em um ato de loucura, Nabucodonosor começou a agir como um boi e foi comer capim no meio dos animais. Seu cabelo e sua barba cresceram, bem como as unhas, sua inteligência se foi de maneira que ele realmente se tornou um animal irracional.

Passados sete anos, o rei levantou os olhos aos céus e Deus lhe devolveu o entendimento. Ele conta que, naquele momento, só pode louvar ao Senhor:

 

“O poder do Altíssimo é eterno; o seu reino não terá fim. Para ele, os seres humanos não têm nenhum valor; ele governa todos os anjos do céu e todos os moradores da terra. Não há ninguém que possa impedi-lo de fazer o que quer; não há ninguém que possa obrigá-lo a explicar o que faz.”

 — Logo que o meu juízo voltou — continuou Nabucodonosor —, eu recebi outra vez a minha honra, a minha majestade e a glória do meu reino. Os meus conselheiros e as altas autoridades do meu governo me receberam de volta. Fui rei de novo, com mais poder do que antes. Portanto, eu, o rei Nabucodonosor, agradeço ao Rei do céu e lhe dou louvor e glória. Tudo o que ele faz é certo e justo, e ele pode humilhar qualquer pessoa orgulhosa. (v. 34-37 NTLH)

 

Nabucodonosor teve três grandes oportunidades de se humilhar diante da majestade de Deus e de reconhecê-lo como seu Senhor. As duas primeiras foram demonstrações que o próprio Deus lhe deu de sua onipotência (salvando seus servos do fogo), onipresença (estando com eles ali dentro da fornalha) e onisciência (revelando e interpretando seu sonho). Em sua terceira oportunidade, o que Deus fez foi alertá-lo, mostrar-lhe o que lhe aconteceria se ele não se submetesse à sua vontade. Como nada disso fez com que Nabucodonosor se rendesse, a situação chegou à sua última consequência e foi aí, somente aí, após sete anos de uma vida miserável e irracional, que o rei da Babilônia finalmente se entregou ao Senhor, a quem chamou de Rei do céu, e reconheceu que não há outro tão poderoso e majestoso do que aquele que faz o que quiser de suas criaturas, sem pedir permissão.

Quando analiso minha vida e meus comportamentos reprováveis, me vem uma tristeza profunda. Eu chego a me perguntar: “Será que Deus é capaz de me perdoar desta vez?” Afinal, sou um ser tão imundo, eu não deveria nem ousar me ajoelhar diante de um Deus tão santo, se nem eu mesma suporto meu cheiro de esgoto.

Como foi com Nabucodonosor, comigo também parece que as coisas precisam chegar às últimas consequências para que eu aprenda aquilo que Deus está me ensinando. Ele me dá demonstrações de seu cuidado e poder, mas eu o ignoro. Ele me alerta do mal, e eu ignoro. E então, só quando eu me vejo no fundo do poço, comendo pasto com os animais, é que me dou conta de meu orgulho, de minha rebeldia e do quanto ofendo a santidade de Deus com minhas atitudes. Fico pensando como é possível ainda ser amada por Ele, como pode ser que a graça de Cristo alcança pessoas como Nabucodonosor e como eu!

Por isso, tenho a esperança de um dia, já gozando da eternidade celestial, eu possa encontrar lá Nabucodonosor e tantos outros personagens bíblicos e agradecer a Deus por “semelhantes irmãos”, como o colombiano Santiago Benevides coloca em sua canção “Gracias por Pedro”. A seguir deixo uma tradução livre desse hino tão honesto:

 

Olhando como sou realmente

Como tenho o coração meio sem sabor e cheio de egoísmo

Descobrindo que sou só mais um em um montão

Cuja grande aspiração é chegar mais longe que o vizinho

Recordando que, cada vez que juro entregar até minha vida,

Um galo acaba cantando

Ou que falas comigo e me faço surdo-mudo

É que hoje quero louvar-te deste modo tão estranho

 

Obrigado por Pedro, obrigada por Jonas,

Obrigado também pela mula de Balaão

Obrigado por ser experiente em suportar

A nós que não somos tão bons

E contudo pretendemos falar de Ti à humanidade

 

O que seria de nós se não tivéssemos

A certeza de que vês com amor esses personagens

Que escolheste formar tua seleção

Com aqueles que não são jogadores muito profissionais

Que amas desafiar a religião e fazer coisas grandes

Com instrumentos tão inesperados

Eu me olho ao espelho e, com razão,

Só me resta agradecer por semelhantes irmãos

(Confira a canção em espanhol Aqui)

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