Um milagre para a galinha

178-sonhar-com-galinha-300Quando o sol renasceu naquele 25 de dezembro, Cida se levantou meio desanimada e foi ao galinheiro recolher os ovos. Ela e sua família moravam numa roça um pouco afastada da cidade. Ainda com o cesto vazio percebeu que Zezé, a galinha mais gorda e mais rebelde, não estava lá. Havia fugido.

– Eu bem desconfiava que aquele bicho num era normal não. – Reclamou com o marido. A hipótese de Cida era a de que Zezé planejava essa fuga fazia tempo. Ela era ranzinza e sempre resistia a ceder seus ovos. Olhava para a dona com um olhar humano de insubmissão, o que muitas vezes havia deixado a mulher assombrada. Mariinha, sua filha, dizia que a ave era antipática. Já o marido achava tudo um exagero.

– Como a criatura poderia planejar um trem desse com aquele cérebro de galinha? Pra mim ela foi é roubada. Alguém precisava dela pra ceia de Natal.

Cida não se convenceu, mas decidiu seguir com as tarefas do dia. Em poucas horas chegariam visitas famintas para o almoço natalino, e havia muita comida para cozinhar. O marido, por sua vez, preparou a churrasqueira no quintal amplo e empoeirado, colocou o carvão e acendeu a pira.

Os visitantes (família e alguns vizinhos) chegaram e elogiaram a fartura e o quão saboroso estava tudo. Quando os anfitriões se deram conta de que todos já estavam para lá de satisfeitos, não assaram mais carne. Os ossos que sobraram Cida jogou sobre o carvão que frustrado se apagava. A música aos poucos foi diminuindo até cessar por completo. A maioria se preparava para ir embora. De repente, Mariinha soltou um grito tão espantado que assustou os visitantes, e anunciou:

– Olha a Zezé!

Todos se voltaram para onde a menina apontava e viram o animal que ressurgia correndo descontrolado, sem nenhum senso de direção, e um homem carregando um facão e gritando:

– Ocê tem que morrer, desgraçada! Veio se oferecer, agora aguenta!

Zezé estava toda ensanguentada. À medida que se aproximava, os espectadores admirados puderam notar que sua cabeça estava pendurada, ainda ligada ao corpo apenas por uma tripa. Seria impossível enxertá-la. A galinha era caso perdido. Apesar disso, miraculosamente ela corria, tentando escapar de seu agressor.

– Essa fujona pirou de vez! – Exclamou Cida.

Agora Zezé corria que nem cabra-cega por entre os convidados. Ao se aproximar do grupo, o homem com o facão deixou de correr. Não pegava bem perder a corrida para uma galinha praticamente sem cabeça. Cida o interceptou, querendo explicações, e o marido a acompanhou:

– Foi ocê que roubou nossa galinha, danado?

– Num fui eu! Ela apareceu na porta da minha casa. Eu juro!

– É capaz mesmo, essa indisciplinada! – Respondeu Cida irritada.

– Eu convidei ela pra entrar, ela é tão gordinha e suculenta. Comigo ela foi muito boazinha e obediente. Num resistiu nem mesmo quando coloquei ela em cima da tauba de abate. Nem mesmo quando eu levantei o facão. Acho que só percebeu mesmo que eu era perigoso dispois que dei a primeira facada no pescoço dela. Mas aí era tarde demais. Só que o mais inacreditável veio quando o bicho pulou da tauba pro chão e saiu correno, me deixano na vontade. Era o meu almoço, dona. Uai!

A criatura de cabeça pendurada e olhos esbugalhados deixava os presentes boquiabertos e imóveis. Aos poucos, Zezé foi perdendo força e diminuindo o passo. Ouvia-se que ela emitia um ruído parecido ao do cacarejo, só que bem mais melodioso e triste. Parecia uma canção fúnebre. Estavam todos pasmos demais para fazerem qualquer menção de captura. O prodígio que sucedeu deixou o espetáculo ainda mais extraordinário: Zezé ensaiou e empreendeu um voo sobrenatural para uma galinha com aquele peso e naquele estado. Pousou na churrasqueira, justamente sobre os restos de carvão com ossos, e ali ficou, emitindo o som da morte.

Alguns mais corajosos e curiosos se aproximaram para ver a ave que se debatia por entre as cinzas que, inexplicavelmente, reacendiam. O dono da casa foi empurrando as pessoas para abrir espaço.

– Deixa eu acabar de uma vez com esse teatro.

Com uma mão pressionou o corpo da galinha sobre a brasa. Com a outra puxou decididamente sua cabeça, esguichando um pouco de sangue no rosto daqueles que estavam mais próximos. Mariinha deu um berro:

– Ai, pai, que nojeira!

– Por que nojeira? Isso é uma cabeça de galinha. Ó procê ver! – E, pondo-se de cócoras, saiu pulando atrás da filha, cantando um “có, có, có” até conseguir tocar o ombro da criança com o biquinho da Zezé. Mariinha saiu correndo chorando, enquanto batia com a mão no lugar onde o bico do cadáver havia encostado. Os convivas se divertiam com a cena, embora ainda se mantivessem bastante temerosos. Cida arrancou a cabeça de Zezé das mãos do marido e a lançou sobre a churrasqueira. Nesse momento o fenômeno mais fantástico do dia aconteceu.

Começou uma ventania, vinda dos quatro cantos, de cima para baixo. As pessoas se desesperaram, buscando um lugar para se esconder, mas não havia. Só os que estavam mais próximos da porta da casa entraram. Os demais se deitaram de barriga no chão, alguns se agacharam, cobrindo a cabeça com os braços, e outros simplesmente se abraçaram com o mais próximo. Observaram desde seus lugares que os ventos estavam se encontrando e se concentrando num só lugar, que era a churrasqueira, e formavam um redemoinho, levantando uma nuvem escuro acinzentada dos restos do carvão. O fogo, que havia pouco reavivara, transformou-se em uma labareda que se erguia bem no olho do furacão. Em seguida, os ventos foram se espalhando cada um para o lugar de onde veio e, junto com eles, o milagre, que os presentes ali testemunharam estupefatos: Uma ave alçando voo vertical em direção aos céus. Era de um branco regenerado, porém revestida de um tom alaranjado cor de fogo. Era gordinha, como uma galinha pronta para ir à panela, contudo suas asas eram largas, e a cabeça um pouco maior, mais fina e com o bico adunco. Subiu, subiu e subiu até desaparecer no azul celestial. Cida se aproximou da pira. Zezé já não estava lá, tampouco sua cabeça. Na verdade, tudo o que havia restado eram uns pedaços de carvão, ainda quentes.

O sol se debandava, preparando-se para o próximo renascimento. Não havia mais sinal algum nos céus. O povo aplaudiu, se despediu e foi cada um de volta para casa.

História sobre liberdade II

f_276785Era uma vaca solitária. Teimosa. Desde filhote já sustentava ideias revolucionárias. Não estava de acordo com isso de viver sob o controle de um vaqueiro. E a cerca era tão baixa, por que ninguém pulava? Sempre tentara inutilmente provocar um motim para a fuga coletiva, mas ninguém comprava a ideia. Seus pais a observavam e abanavam a cabeça, em reprovação. O que fizeram de errado para que sua filha saísse daquele jeito?

No entanto, o primeiro ato real de rebeldia foi quando decidiu se recusar a dar seu leite aos humanos. Ela não era obrigada, o leite era seu e não tinha por quê cedê-lo assim gratuitamente. Quando o vaqueiro apertava suas tetas, ela fazia toda a força e segurava o leite. Quando o homem insistia, a rebelde resolvia o problema com um coice bem dado. Também já tentou impedir a ordenha de suas companheiras. Esperava o recipiente ser enchido, aproximava-se como quem não queria nada, e chutava o balde. As vacas se queixavam: “Se você não quer dar seu leite, o problema é seu. Agora não venha nos prejudicar, respeite nosso trabalho! Veja só que desperdício!” E a rebelde respondia, zangada: “Agora não adianta mais chorar sobre o leite derramado!”

Por isso essa vaca era solitária. Ela queria sair daquela situação da fazenda, ela queria liberdade (ou aquilo que ela imaginava ser a liberdade). Mas ninguém a compreendia. Estavam todos muito satisfeitos com a vida que levavam. Então, certa vez, decidiu que seria livre de qualquer maneira, mesmo que fosse sozinha. Aproveitando o horário da sesta, enquanto todos dormiam, ela se equilibrou sobre a cerca baixa e a pulou. Satisfeita por descobrir essa sua capacidade, saiu rebolando sem direção.

Em poucos minutos já havia se afastado muito do sítio onde vivia. Começou a caminhar à beira da rodovia, sonhando poder viver em qualquer lugar, sem dar satisfação a ninguém. Em pouco tempo de caminhada já era possível avistar casas e prédios. Estava na cidade! Aquele era o seu lugar. Ela havia escutado que a cidade é o lugar das oportunidades. Por que perdeu tanto tempo dentro daquelas quatro cercas? Desviou seu caminho da rodovia e entrou em uma rua. Para ela aquilo era como um labirinto. Uma rua levava a outra, que levava a outra, e pareciam todas iguais. Mas não havia problemas. Não importava em que rua estivesse, o importante era fazer o que lhe desse na telha. A alegria era tanta que começou a correr. Para cá e para lá.

Foi nesse corre-corre que aconteceu a tragédia. A vaquinha rebelde tropeçou em uma pedra e foi rolando barranco abaixo até cair no quintal de uma casa, que estava abaixo do nível da rua. Levantou-se atordoada, ainda sem entender direito o que estava acontecendo. Procurou a saída mas se viu em um pátio estreito e não sabia mais como sair dali. “E agora?” pensou. “Como vou me livrar dessa? Por onde eu saio?” Olhou ao seu redor, tentando encontrar uma ideia. Olhou para cima. Sorriu. Claro! Se ela veio de cima para baixo, agora deveria fazer o sentido inverso. Ali estava o telhado, era só subir e caminhar até a rua outra vez!

Escalando uma coluna, chegou no alto. Porém, logo nos primeiros passos, o telhado não suportou seus quase 600 quilos e rompeu. A vaca caiu e foi parar dentro de uma sala de estar. Bateu com a cabeça na parede e quebrou um dos seus chifres. Assustou-se ao ver sangue na parede, seria mesmo dela? Começou a se contorcer, mas era muito pesada para se levantar sozinha. Esbarrou na estante e derrubou a televisão, esbarrou também na mesinha do computador. Quando se deu conta, tudo que havia no chão estava estilhaçado. “Como vim parar num lugar tão apertado? Nunca imaginei que os humanos vivessem mais presos que a gente!” Depois de derrubar praticamente tudo que havia na sala, ela se levantou e seguiu procurando a saída. Foi quando entrou no banheiro, mas sem sucesso. E que lugar pequeno, como dar meia volta e sair? Suas patinhas começaram a se voltar na direção da porta, quando ela se deparou com uma mulher, que gritava desesperada: “Meu Deus o que é isso?!” “Quem trouxe esse bicho para o meu banheiro???” A vaquinha se ofendeu: “Bicho não, minha senhora. Cuidado com sua língua ou vai se ver com a minha que é muito maior!” Na tentativa de se apressar para atacar, escorregou e caiu de novo. Só que desta vez seu peso arrancou o vaso sanitário do lugar e danificou a pia. A mulher não sabia o que fazer, e a vaca, estendida pelo chão do banheiro, era orgulhosa demais para pedir ajuda.

Em pouco tempo apareceram homens com cordas para amarrá-la. Levaram-na outra vez ao quintal, e ali se esticou, pensando: “Saí do sítio atrás da liberdade. Agora estou amarrada por um bando que, por própria vontade, vivem em casas mais apertadas do que o curral.” Os homens ainda tentavam fazer com que se levantasse, mas ela era ferrenha: “Se querem me tirar, então que me carreguem. Não é por minhas patas que vou sair daqui.”

Chegaram o Corpo de Bombeiros, a equipe de zoonoses e a Defesa Civil, além de um monte de curiosos fazendo festa com o evento tão inesperado. Ela foi levada em caminhonete para o centro de zoonoses. Ainda no mesmo dia apareceu o dono: Um vaqueiro usando botas, calça jeans, camisa xadrez e um chapéu de abas largas. “Agora pode deixar essa vaca rebelde comigo, porque ela é minha!” O olhar da vaca para o dono era um misto de frustração pelo fracasso do plano, vergonha e reconhecimento de que ela não tinha opção melhor do que voltar com ele. O dono, voltando-se para o animal, disse-lhe: “Quem foi que te disse que a vida aqui fora é mió? Agora ocê vai entender que a verdadeira liberdade é debaixo dos meu cuidado.” Para o espanto de todos, o vaqueiro a levantou sozinho e a colocou sobre os ombros, como se fosse uma ovelhinha e saiu contente, levando-a de volta para o sítio.