Sobre a morte e a vida eterna

cruz

Eu não estava perto na hora, mas meu tio contou que as últimas palavras do meu pai foram: “Chegou minha hora. Deus está me chamando”. Esse testemunho foi usado e repetido muitas vezes por muitos amigos e familiares, que entendiam que essas palavras indicavam sua entrada no céu.

Na verdade, o que meu pai disse é o que todos, indiscriminadamente, deveriam dizer na hora da morte, mesmo que não pronunciem ou não saibam o que acontecerá no segundo que sucede seu expirar. Nossos dias estão contados. Deus determinou nosso tempo de vida na terra, cada minuto, do nascimento à morte (Jó 14.5). “Chegou a minha hora” significa simplesmente que o tempo na terra definido para ele terminou, e isso acontecerá com todas as pessoas, sem exceção. Quanto ao que ele disse, “Deus está me chamando”, também é algo do qual ninguém poderá escapar. Todo joelho se dobrará diante de Deus (Is 45.23; Fp 2.10). Hebreus 9.27 diz que “o homem está destinado a morrer uma só vez e depois disso enfrentar o juízo”. Após a morte física, o homem se depara com o Senhor, e só há dois destinos para ele: o céu ou o inferno. Hoje, as pessoas se recusam a falar de inferno, é feio, é fora de moda, é uma maneira cruel que a religião inventou para amedrontar as pessoas. Elas só querem falar do céu, de que Deus é amor, de que a bondade salva…

No velório do meu pai, ouvi seu pastor e muitos de seus amigos exaltando sua pessoa. Eu fico feliz em saber que ele deixou boas lembranças, não só para nós, mas também para os de fora. Entendo também que aquelas pessoas queriam homenageá-lo e honrá-lo. Mas a verdade é que toda a aparente bondade do meu pai não lhe garantia um lugar no céu. Digo “aparente” porque ele não era bom. Eu tampouco sou boa, minha mãe nem meus irmãos são bons. Há um só bom, que é Deus (Lc 18.19). Jesus é o único que viveu na terra sem pecado (Hb 4.15). A Bíblia afirma que não há um justo sequer, não há quem faça o bem (Rm 3.10-12). Então, por mais atitudes louváveis que meu pai tenha cometido, nada disso o torna justo diante de Deus, nada disso é suficiente para pagar o preço de seu pecado nem de sua maldade. Ele merecia a morte eterna, o sofrimento infernal, assim como eu também mereço e que a pessoa mais bondosa que você conhece merece.

A salvação é pela graça, por meio da fé dada por Deus para os seus (Ef 2.8-9). Não é por obras, não é por atitudes aparentemente bondosas ou altruístas. Recebe a salvação aquele que reconhece seus pecados, sua podridão, que reconhece que Deus seria justo se o punisse com o inferno (Rm 7.24). Muita gente acha isso pesado, querem encontrar um pouco de bondade em si. Pensam “Não, eu não posso ser tão mau assim! Eu faço isso, luto por aquilo, penso de tal forma…” É muito difícil assumir que é um miserável que precisa de um salvador. Após reconhecer sua miserabilidade, o pecador salvo crê que somente Cristo, totalmente Deus, totalmente homem, totalmente sem pecado, é capaz de salvá-lo da ira divina porque pagou com sua morte e seu sangue o castigo que estava reservado para o pecador (Fp 2.5-8). Em seguida, esse pecador salvo vive para a prática de boas obras, não para conquistar sua salvação, mas por consequência dela (Ef 2.10; Gl 5.22-23). Ao morrer a morte física, o pecador salvo tem a certeza de sua ressurreição, pois Jesus venceu a morte e ressuscitou, prometendo que o mesmo aconteceria com os que creem (Jo 11.25). Ao se ajoelhar diante do Senhor, o pecador salvo terá sua lista enorme de pecados (a minha, por exemplo, deve ser um rolo interminável!), mas aquela conta terá o carimbo de “paga” ao final, pois a dívida não lhe pertencerá mais, Jesus pagou com seu sangue inocente (Cl 2.14), e por isso o pecador salvo será convidado a entrar no gozo do Senhor e viver eternamente ao lado de Cristo.

Meu pai cometeu muitos erros em sua vida. Tenho lembranças maravilhosas dele, mas tenho recordações ruins também. Isso é normal, não o amo menos por isso. Estou sofrendo muito com sua ausência, especialmente porque tudo aconteceu de forma muito rápida e inesperada. Eu não estava nada preparada para isso. Mas meu sofrimento é pela saudade, é pelas palavras que tive tantos anos para dizer e não disse, pela impossibilidade da despedida, pelos verbos no presente que se transformaram em pretérito imperfeito, é pelo remorso de não ter sido mais carinhosa (eu tenho um temperamento mais frio e fechado, por isso não demonstro muito minha afeição em toques, abraços etc.). Por isso eu sofro. Mas eu não sofro quanto ao destino dele. Eu sei que ele foi salvo. Esse é o meu maior conforto neste momento e a fonte da paz inexplicável que sinto em meio a este temporal pelo qual minha família está passando. Eu sei que ele se reconheceu miserável, pediu perdão a Deus por seus pecados, recebeu a graça por meio da fé que Deus plantou em seu coração. É somente por isso (não por seu altruísmo nem generosidade) que sei que ele está com o Senhor agora. Glorifico a Deus que não faz acepção de pessoas. Deus não usa como critério para salvação a cor da pele, o dinheiro, a popularidade, se a pessoa tem todos os membros do corpo ou não, se tem todos os dentes na boca ou não… Ele não leva isso em conta, ele escolheu os seus desde antes da fundação do mundo (Ef 1.4), e que bom que foi antes! Meu pai foi um homem simples, que nunca chamou a atenção, sua morte não foi noticiada como foi a do Chaves, do Michael Jackson… Ele não tinha dinheiro, não deixou bens (embora tenha se dedicado nos últimos anos para terminar de construir nossa casa, e chegou quase lá, só faltam detalhes), era negro, sofreu em sua vida várias situações de preconceito. Mas ele está com Cristo agora. Ele não merecia, mas está. Eu espero um dia estar lá também. Sei que não mereço, mas também recebi de Deus a fé que redundou em graça. Quero estar lá, com Cristo. Às vezes, com o dia a dia, a gente acaba se deixando levar pelas coisas deste mundo e perde de vista esse alvo, esquece que a vida aqui é só uma pequena porção da eternidade. Mas é bom, por mais triste que seja este momento, lembrar para onde estou indo.

Há um trecho na música “Ciudad de Dios”, de Jonathan Jerez, que descreve muito bem a morte dos santos: Quando estivermos na glória, a morte será só uma memória, uma forma de lembrarmos de nossa redenção.

 

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O fracasso social e político como consequência da depravação humana na trilogia Divergente, de Veronica Roth

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(Atenção! Contém Spoilers!)

Ultimamente tenho dado oportunidades a certos autores que, em outras épocas, eu teria rejeitado. Descobri recentemente uma escritora chamada Veronica Roth, autora da trilogia Divergente. Li o primeiro (de mesmo nome) e o segundo (Insurgente). Esta semana vou comprar o último (Convergente), mas a curiosidade já me levou aos spoilers, por isso poderei comentar aqui também sobre o desfecho dessa história. Decidi escrever a respeito dela porque pude perceber uma cosmovisão bastante bíblica, apesar de o romance em si não ser considerado propriamente cristão ou teológico. Ele considera como pressuposto a doutrina da depravação total do homem e o fracasso do ser humano ao tentar consertar o problema da humanidade com base em seu próprio conhecimento.

Eu fiquei realmente impressionada com a originalidade da autora. Trata-se de um romance distópico, que se passa em um futuro não muito distante, na cidade de Chicago. A sociedade foi dividida em cinco facções: Abnegação, Audácia, Erudição, Franqueza e Amizade. Todos os cidadãos, convivem com sua família e são educados na facção de origem até completarem 16 anos. Nessa idade, todos devem passar por um processo de escolha. Primeiramente, realizam um teste de aptidão para descobrirem com qual facção cada um mais se identifica. Porém, independentemente do resultado do teste, o indivíduo tem o poder de escolher para qual facção ele deseja se unir. Após a escolha, não há possibilidade de voltar atrás e ele deve passar o resto de sua vida na facção escolhida. Aqueles que não são capazes de escolher ou que não conseguem se adaptar ao lugar da escolha, são expulsos da sociedade e passam a viver miseravelmente em uma categoria social onde são chamados de “os sem-facção”.

A protagonista da história se chama Beatrice Prior e ela vem da facção Abnegação. É ela também a narradora, ou seja, o romance está em primeira pessoa, com narrador não onisciente, tudo o que acontece é sob o ponto de vista de Beatrice. A história começa quando ela, aos 16 anos, precisa passar pelo processo da escolha. Ao realizar o teste de aptidão, Beatrice descobre que não é uma garota normal. Ela é “divergente”. Uma pessoa divergente é aquela que possui fortes aptidões para mais de uma facção. Beatrice tem capacitações necessárias para escolher entre a Abnegação, a Erudição e a Audácia. Ser divergente naquela sociedade é algo muito perigoso, pois eles não podem ser controlados nem manipulados como aqueles cuja visão e capacitação estão voltadas para apenas uma qualidade. A instrutora do teste, Tori, da Audácia, aconselha Beatrice a se manter na Abnegação, assim correria menos riscos de ser descoberta pelos líderes da Erudição, que buscam exterminar os divergentes e controlar toda a sociedade, fazendo com que a Abnegação, que é a responsável pela governabilidade da cidade, fique desprestigiada e seja aniquilada.

No entanto, Beatrice sempre teve muitas dúvidas quanto à decisão que queria tomar, e sempre havia admirado o modo destemido e aventureiro dos integrantes da Audácia. Por isso, ela deixa a Abnegação, junta-se à facção da Audácia, e muda o nome para Tris. Todo o romance narra seu processo de iniciação, as dificuldades pelas quais passa e, acima de tudo, como ela começa a entender sua divergência, ao mesmo tempo em que precisa esconder essa característica de todos, já que sua vida corre perigo caso seja descoberta. Para isso, ela conta com a ajuda de Quatro (Tobias), um personagem que, devido à proximidade com Tris, ganha uma importância quase protagônica na história. Ele é o instrutor dos iniciandos, tem 18 anos, ou seja, passou pelo processo de iniciação dois anos atrás.

Bem, não vou me alongar falando do enredo, não é este o objetivo. Decidi escrever a respeito de Divergente pelos motivos que mencionei no início deste texto. Conforme havia dito, não se trata de uma obra cristã e os paralelos teológicos não são tão evidentes como, por exemplo, em As Crônicas de Nárnia ou na Trilogia Cósmica, do C. S. Lewis (Aliás, no que diz respeito à qualidade literária, a obra de Lewis é muito mais inteligente). No entanto, não parece mesmo ter sido essa a intenção da autora. O que Veronica Roth fez foi simplesmente criar uma história a partir de sua própria cosmovisão. Ela é declaradamente cristã, foi convertida no período da faculdade, mesma época em que escreveu a trilogia.

Uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a maneira como a obra define o ser humano: mau, sem exceção. O homem sempre está inclinado para fazer o mal. No discurso da cerimônia de escolha de Beatrice, Marcus explica por que, muitos anos antes, a sociedade decidiu se dividir em facções: “Eles concluíram (…) que a culpa estava na personalidade humana, na inclinação humana para o mal, seja qual for a sua forma.” (p. 48). Em outra ocasião, Tris reflete a respeito de um ensinamento de seu pai: “A razão humana é capaz de justificar qualquer mal; é por isso que não devemos depender dela.” (p. 111). A mãe de Tris também menciona o problema em outro momento: “Os seres humanos, de uma maneira geral, não conseguem ser bons por muito tempo antes que o mal penetre novamente entre nós e nos envenene.” (p. 454).

Este pensamento é totalmente bíblico. Em Romanos 3.10-12 Paulo, fazendo referência a Salmos 14.2,3 afirma que “não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só.” O cristianismo ensina que todo homem nasce inclinado para o mal. Se depender de sua própria vontade, ninguém jamais escolhe buscar a Deus, por isso está perdido. O homem tenta de todas as formas resolver os problemas sociais, morais, éticos, políticos etc., valendo-se de sua própria inteligência e luta militantemente para defender seus ideais. Contudo, de acordo com o pensamento cristão, por mais alto que pareça esse ideal e por mais que a pessoa se esforce por atingi-lo, o mal natural que está dentro de nós jamais permitirá que algo se mantenha bom por muito tempo e nada pode ser realmente bom se Deus não está presente. Esta é a base do romance. Os homens tentaram resolver o problema da desordem social criando as facções, inicialmente talvez tivesse funcionado, mas no momento em que a história se passa entendemos que o sistema está entrando em declínio e que o homem não deixou de ser mau, como a própria Tris falou, “quando nos livramos de uma coisa ruim, outra a substitui” (p. 418).

No final de Insurgente e começo de Convergente entendemos melhor o que realmente está acontecendo nessa sociedade de facções. Na verdade, somente a cidade de Chicago vive sob esse sistema. Ao perceber que o problema era intrínseco ao homem, os líderes sociais decidiram realizar um teste, cercando a cidade e colocando ali dentro pessoas desmemoriadas, isto é, que tomaram o “soro da memória” e se esqueceram de toda a vida que haviam levado até então. Seriam observados do lado de fora, pois a ideia era que, se a pessoa se esquecesse de seu passado pecaminoso e violento, poderia começar de novo sem pecar. Obviamente, o resultado não foi esse. Às vezes, pensamos no quanto é injusto pagarmos pelo pecado de Adão e Eva, como se, apenas por culpa deles somos também pecadores. Mas creio que, se a história começasse toda outra vez e eu fosse colocada ali no lugar de Eva, teria agido da mesma forma ou pior. O ser humano é mau. Ele sempre escolhe o mal.

Curiosamente estou trabalhando na revisão de uma obra que discute os efeitos do calvinismo, especialmente na política, a partir do século 16 (há um capítulo dedicado também aos antecedentes da Reforma). Não posso passar a referência em português porque o livro ainda não foi publicado, mas deixarei o link aqui assim que isso acontecer. O autor se chama David W. Hall e o livro em inglês se chama Calvin in the Public Square. Há um capítulo em que ele mostra como o pensamento calvinista influenciou na filosofia política estadunidense no momento de sua colonização/fundação. Um dos pontos fundamentais da filosofia daquele momento era o de que, por mais inteligente que possa ser o homem, ele jamais será capaz de criar um sistema social perfeito, por conta de seu pecado. Consequentemente, qualquer sistema político ou social está fadado ao fracasso. A partir daí, justificava-se a necessidade de o governante se submeter à vontade divina, pois somente Deus é capaz de criar e conduzir um governo perfeito e imaculado. Os Estados Unidos, no período de sua fundação, levaram esse pensamento muito a sério. Mas, devido à natureza caída do homem e também após o Iluminismo surgir com suas ideias antropocêntricas, fazendo-nos crer na mentira de que, sim, há algo bom dentro de nós, nossa tendência é ignorar a Deus e sua vontade que é boa, perfeita e agradável. Na verdade, com ou sem Iluminismo, antes ou depois dele, o homem sempre acreditou ser capaz de alcançar coisas boas por seus próprios méritos, com sua própria bondade e defendendo seu sistema político favorito.

Outra coisa que me chamou muito a atenção foi a característica de um divergente. Uma vez que possui qualidades suficientes para se identificar com mais de uma facção, ele se torna mais difícil de ser controlado. Ele é capaz de ser corajoso (Audácia), altruísta (Abnegação), inteligente (Erudição), honesto (Franqueza) e amável (Amizade). Ora, estas são as características esperadas de um cristão, não que o cristão possua todas elas, mas deve buscá-las e, em Jesus, é capaz de alcançá-las. Jesus Cristo possui todas essas qualidades, por isso ele é o Divergente Supremo. Além disso, o romance apresenta o divergente como pessoas tementes a Deus e oriundas principalmente da facção Abnegação. Na parede do quarto de Quatro está escrito “Tão somente temei ao Senhor” (p. 296). Jeanine, uma das líderes da Erudição e a responsável por comandar o aniquilamento da Abnegação, confessa: “Uma questão que me preocupa (…) é a seguinte: Por que será que a maioria dos divergentes são pessoas de vontade fraca, insignificantes e tementes a Deus e, de todas as facções possíveis, geralmente originárias logo da Abnegação?” (p. 442).

O divergente não é um ser humano bom em contraste com seres humanos maus. Eles são igualmente maus que, inexplicavelmente, receberam essa capacidade rara. No livro Insurgente, quando Peter acusa Tris de ser tão má quanto ele, ela responde: “Talvez nós dois sejamos maus, mas há uma diferença enorme entre nós. Eu não me contento em ser assim.” (p. 342). Da mesma forma, o cristão não é alguém bom. Ele nasceu inclinado para o mal, escolhendo o mal, como todas as pessoas. A grande diferença é que, inexplicavelmente, o cristão recebe de Deus o dom de crer nele e escolher buscá-lo. Ou seja, o cristão só escolhe buscar a Deus porque foi escolhido antes. O cristianismo chama isso de graça irresistível, imerecida. Em 1João 4.19 lemos que só somos capazes de amar a Deus porque Ele nos amou primeiro, e não o contrário.

Tris descobre que possui essa qualidade de ser divergente. Ela não escolheu ser assim, bem como os outros divergentes da história também não escolheram. Ao contrário, eles foram escolhidos. Marcus, o pai de Quatro e um dos líderes da Abnegação, que também é divergente, disse a Tris: “Nós não somos daqui. Fomos colocados aqui para atingir um objetivo específico” (p. 405, de Insurgente). Em Insurgente, quando está prestes a ser executada pela vilã Jeanine, Tris finalmente começa a entender o que significa sua divergência. A primeira conclusão à qual ela chega é a de que o que lhe espera além da vida não é algo que dependa dela própria, nem de seus atos bons ou maus:

 

“Acho que agora seria a hora de pedir perdão por todas as coisas que fiz, mas sei que minha lista nunca estaria completa. Também não acredito que o que quer que aconteça depois da vida dependa de uma listagem correta das minhas transgressões. (…) Na verdade, não acredito que o que vem depois dependa de maneira alguma dos meus atos.” (p. 372).

 

Após conseguir fugir da morte com a ajuda da pessoa mais improvável (Peter), Tris se alia a Marcus para tentar salvar uma informação que poderá mudar todo o destino daquela sociedade falida, que estava sob a ameaça de ser tomada pelos sem-facção. Para isso, eles vão até a sede da Amizade buscar ajuda. Pela manhã, enquanto caminhava, Tris observou um ritual religioso e foi convidada a se unir ao grupo. Uma senhora segurou suas mãos, a olhou bem nos olhos e disse: “Que a paz de Deus esteja com você (…), mesmo em meio a dificuldades”. Tris lhe respondeu: “Por que ela estaria, depois de tudo o que fiz?”. E a mulher respondeu: “A questão não é você. É uma dádiva. Você não pode merecê-la, ou ela deixará de ser uma dádiva”. (p. 429). A graça de Deus, por meio de Jesus Cristo é exatamente isso! Uma dádiva que nós estamos longe de merecer. A questão não somos nós. Se coubesse a nós a escolha pela salvação, estaríamos todos perdidos. “Ao SENHOR pertence a salvação” (Jn 2.9).

Ainda não li Convergente, apenas o spoiler, mas o que posso dizer pelo que descobri é que Tris passa a entender tanto a sua função como divergente, que a usa em favor de seu irmão Caleb, um traidor, que não merecia sua misericórdia, e ela chega ao ponto de se sacrificar por ele.

Enfim, existem muitos outros paralelos a respeito dos quais eu poderia refletir aqui, mas o texto acabou ficando bem maior do que imaginei, então, se você deseja saber mais e levantar outra lista mencionando situações que você observou e que eu não coloquei aqui, leia o livro. É uma leitura empolgante, você não consegue parar de ler e dá dó quando você tem outras coisas para fazer e precisa fechá-lo. Ele tem os seus problemas, realmente não é uma boa literatura, no sentido técnico. Mas releve esses problemas e a experiência dessa leitura será maravilhosa como foi para mim!

Mariana Ferreira de Toledo

 

Obs.: Após publicar uma primeira versão deste artigo, acabei encontrando um texto do pastor Josemar Bessa a respeito da mesma trilogia e tratando da questão da depravação total do homem. Por isso me inspirei em seu texto e, entre outros motivos (por exemplo, a recente leitura de Insurgente), decidi reescrever meu texto. A quem interessar, deixo aqui o link do artigo do pr. Josemar: http://www.josemarbessa.com/2017/04/calvino-divergente-e-cristo-o-retrato.html .