Deus é amor [e justiça] (Êx 7—12)

1ª praga: Passaram-se sete dias desde que o SENHOR feriu o Nilo (7.25)

2ª praga: O faraó mandou chamar Moisés e Arão e disse: “Orem ao SENHOR para que ele tire estas rãs de mim e do meu povo”. (…) E o SENHOR atendeu o pedido de Moisés; morreram as rãs que estavam nas casas, nos pátios e nos campos. (8.8,13)

3ª praga: Os magos disseram ao faraó: “Isso é o dedo deDeus”. (8.19)

4ª praga: E assim fez o SENHOR. Grandes enxames de moscas invadiram o palácio do faraó e as casas dos seus conselheiros, e em todo o Egito a terra foi arruinada pelas moscas. (8.24)

5ª praga: No dia seguinte o SENHOR o fez. Todos os rebanhos egípcios morreram, mas nenhum rebanho dos israelitas morreu. (9.6)

6ª praga: Disse mais o SENHOR a Moisés e a Arão: “Tirem um punhado de cinza de uma fornalha, e Moisés a espalhará no ar, diante do faraó. Ela se tornará como um pó fino sobre toda a terra do Egito, e feridas purulentas surgirão nos homens e nos animais em todo o Egito”. (9.8-9)

7ª praga: O SENHOR fez vir trovões e granizo, e raios caíam sobre a terra. Assim o SENHOR fez chover granizo sobre a terra do Egito. (9.23)

8ª praga: O SENHOR fez soprar sobre a terra um vento oriental durante todo aquele dia e toda aquela noite. Pela manhã, o vento havia trazido os gafanhotos (…) E o SENHOR fez soprar com muito mais força o vento ocidental, e este envolveu os gafanhotos, e os lançou no mar vermelho. (10.13,19)

9ª praga: O SENHOR disse a Moisés: “Estenda a mão para o céu, e trevas cobrirão o Egito, trevas tais que poderão ser apalpadas” (10.21)

10ª praga: Então, à meia-noite, o SENHOR matou todos os primogênitos do Egito, desde o filho mais velho do faraó, herdeiro do trono, até o filho mais velho do prisioneiro que estava no calabouço, e também todas as primeiras crias do gado. (12.29

C. S. Lewis escreveu que “Deus é o nosso único alento, mas também o nosso terror supremo; é a coisa de que mais precisamos, mas também da qual mais queremos nos esconder” (Cristianismo puro e simples, p. 42). No episódio das pragas, Deus fez questão de deixar claro que ele era o responsável pelas calamidades, seja diretamente, sem nenhum auxílio (pragas 1,2,3,4,5,7,8,10), seja por meio de Moisés, dando-lhe instruções (2,6,9).

Isso está registrado para que sempre nos recordemos de que Deus é fogo consumidor, que terrível coisa é cair nas mãos do Deus Vivo, que devemos temer aquele que não pode somente matar o corpo, mas que pode lançar no inferno tanto o corpo quanto a alma.

Está na moda pregar que Deus é amor, gracioso e misericordioso. Nada disso é mentira. Deus realmente possui todos esses atributos (Ufa!). No entanto, é muito perigoso contar apenas com isso e desconsiderar o atributo da justiça de Deus. Quando pensamos que ele é amoroso e não pune o pecado, nosso entendimento dele fica incompleto. Quando desprezamos o lado da justiça de Deus, como resultado, começamos a viver a nossa vida de qualquer maneira, pois deixamos de acreditar no castigo, afinal, “Deus é amor e Ele só quer que eu seja feliz. Deixe-me então viver a felicidade à minha maneira”. O problema passa talvez pela ideia equivocada de que o objetivo da existência é a felicidade, seja pessoal, seja comunitária.

Confiar no amor divino para o perdão dos pecados é critério necessário para a salvação. É pela fé em seu Filho que recebemos a vida eterna. No entanto, banalizar o amor divino desprezando, ao mesmo tempo, seu atributo de justiça e ira, acaba sendo uma armadilha terrível que nos afasta dele. Ter sempre em mente seu aspecto terrível faz com que a gente viva dependente de sua misericórdia.

Que o Senhor me ajude a todos os dias trazer à memória a necessidade que tenho dele e viver uma vida de temor, porque Deus é poderoso o suficiente (e justo o suficiente também) para realizar em minha vida calamidades como as pragas do Egito, e até mesmo me lançar no inferno. Tem misericórdia de mim, ó Deus, e me dê o temor e o tremor de que preciso para viver em obediência.

[Este texto é fruto de meu plano de estudo bíblico pessoal a respeito da soberania de Deus. Leia sobre isso aqui.]

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Eleição do mais fraco (Êx 3.19-21)

Eu sei que o rei do Egito não os deixará sair a não ser que uma poderosa mão o force. Por isso estenderei a minha mão e ferirei os egípcios com todas as maravilhas que realizarei no meio deles. Depois disso ele os deixará sair. E farei que os egípcios tenham boa vontade para com o povo, de modo que, quando vocês saírem, não sairão de mãos vazias.

Algumas observações:

  1. Observe os verbos no futuro. Deus estava prevendo o que aconteceria? Não! Ele estava simplesmente anunciando acontecimentos que ele já havia determinado. Aqui não se revela meramente a presciência de Deus, mas sim a sua vontade quanto ao que ocorreria. A vontade divina é soberana, é certa. Por isso Deus aplica o futuro perfeito, porque não tem como dar errado. Todo o episódio está sob o controle dele. A “mão poderosa” é dele. O verbo “ferirei” (v. 20) está na 1ª pessoa do singular, assim como os outros verbos (eu farei que, realizarei, estenderei). Por isso, não podemos nos deixar confundir pela sua declaração inicial “Eu sei que…” e interpretar erroneamente esse texto e os que seguem somente como se Deus soubesse de tudo em sua presciência e não interferisse em nada. Deus é quem executa, ele é o principal agente. Ele é o responsável pelo retorno de Moisés, pelas pragas, pela saída do povo do Egito, abertura do mar vermelho etc.
  2. Deus está anunciando que ferirá o Egito com maravilhas. Essas “maravilhas” são, na verdade, as pragas. Todos sabem bem que as pragas não surgiram por acaso. Foi o próprio Deus quem as enviou porque foi dessa maneira que ele decidiu realizar os seus propósitos. Isso não isenta o Egito de sua culpa.
  3. Deus tinha planos de paz para Israel e planos de mal para o Egito. O Egito era culpado e responsável pelo seu pecado de idolatria e crueldade. Mas Israel também era culpado, havia muitos e muitos anos que eles não viviam em relacionamento com o Senhor. Tanto que eles já estavam acostumados com as práticas idólatras do Egito e tanto Moisés como os demais hebreus tiveram que perguntar-lhe quem ele era. Deus teve que se apresentar como o Deus de seus pais, o Eu Sou. Isso significa que, em termos de merecimento, não havia diferença alguma entre Israel, Egito ou qualquer outra nação. Todos mereciam a condenação justa por haverem se rebelado e negado o Senhor como o único Deus. Por que Deus agiu com bondade para com Israel? Por graça, puramente, por dar o bem àquele que não merece. Isso é graça. Ele os escolheu, o menor de todos os povos, o mais desprezado, o mais fraco, mais sujeito ao pecado. Este foi o escolhido.

Quando penso em minha situação de miséria espiritual, chego a me perguntar: Será que estou realmente salva? Será que Deus me escolheu? Veja o meu estado! Mas olhar para Israel me enche de esperança porque eu vejo que os que Deus escolhe são os mais fracos, são os incapazes de salvar-se a si mesmos.

Sei que Deus nos escolheu para sermos santos, e perceber que não estou vivendo em santidade é o que às vezes me faz duvidar de minha eleição. Isso deve ser trabalhado assim como Deus preparou e disciplinou seu povo no deserto. Que o Senhor trabalhe em minha vida, trate a minha rebeldia e me dê piedade e uma vida em santidade. Esta é minha oração.

 

[Este texto é fruto de meu plano de estudo bíblico pessoal a respeito da soberania de Deus. Leia sobre isso aqui.]

E agora, José? O Senhor está com você! (Gn 39.9,21,23)

“Ninguém desta casa está acima de mim. Ele nada me negou, a não ser a senhora, porque é mulher dele. Como poderia eu, então, cometer algo tão perverso e pecar contra Deus?” (…) Mas o SENHOR estava com ele e o tratou com bondade (…). O carcereiro não se preocupava com nada do que estava a cargo de José, porque o SENHOR estava com José.

Todo pecado e, primeiramente, um pecado contra Deus. E, ao resistirmos ao pecado, deveríamos fazê-lo por temor ao Senhor, pelo prazer em agradá-lo e não por qualquer outro motivo além desse.

José não disse: “Sinto muito, senhora, não posso fazer isso porque o seu marido foi bom comigo”. Nem disse: “Não posso fazer isso porque sou um homem honesto”. O maior motivo da recusa de José foi o de que ele não podia pecar contra Deus, não podia ofender a Deus com o seu pecado.

Deus, por sua vez, estava com José. Esta é uma afirmação que até se repete, para dar ênfase, para mostrar a nós que, quando Deus decide se relacionar com uma pessoa, Ele não volta atrás. Ele está com os seus até mesmo em situações difíceis e aparentemente injustas.

[Este texto é fruto de meu plano de estudo bíblico pessoal a respeito da soberania de Deus. Leia sobre isso aqui.]

A fertilidade de Lia, a esterilidade de Raquel e a soberania de Deus (Gn 29 e 30)

(…) Lia engravidou, deu à luz um filho, e deu-lhe o nome de Rúben, pois dizia: “O SENHOR viu a minha infelicidade” (…). Lia engravidou de novo e, quando deu à luz mais um filho, disse: “Porque o SENHOR ouviu que sou desprezada” (…). Engravidou ainda outra vez e, quando deu à luz mais um filho, disse: “Desta vez louvarei ao SENHOR” (…). Deus ouviu Lia, e ela engravidou e deu a Jacó o quinto filho. Disse Lia: “Deus me recompensou por ter dado minha serva a meu marido” (…). Lia engravidou de novo e deu a Jacó o sexto filho. Disse Lia: “Deus presenteou-me com uma dádiva preciosa” (…). [Gênesis 29.32 —30.20]

Quando Raquel viu que não dava filhos a Jacó, teve inveja de sua irmã. Por isso disse a Jacó: “Dê-me filhos ou morrerei”. Jacó ficou irritado e disse: “Por acaso estou no lugar de Deus, que a impediu de ter filhos?” (…) Então lembrou-se Deus de Raquel (…). Ela engravidou, e deu à luz um filho e disse: “Deus tirou de mim a minha humilhação”. [Gênesis 30.1-2,22-23]

A fertilidade, tanto feminina quanto da terra, era uma bênção divina. Em outras culturas também se atribuía aos deuses a função de permitir ou impedir que uma mulher gerasse um bebê ou que se tivesse sucesso nas colheitas.

Na cultura hebreia, sobretudo, era atribuído ao SENHOR, a YHWH, o poder de abrir e de fechar a madre. Havia essa consciência bem clara naqueles indivíduos.

Jacó provavelmente havia aprendido com Isaque e Rebeca acerca do Deus YHWH. Seus pais, por sua vez, aprenderam com Abraão e Sara, que aprenderam com o próprio Deus, que os chamou de uma terra idólatra e se revelou a eles.

Sendo assim, como Lia pôde atribuir a YHWH, e a nenhuma outra divindade a dádiva da maternidade, que naquele contexto era essencial para a realização feminina e o respeito na sociedade? Seu Pai, Labão, não era temente ao Deus dos hebreus, ele tinha suas próprias divindades (31.30-32). Independentemente do modo como Deus havia se revelado para ela (pode ter sido por meio de Jacó), Lia sabia que era YHWH (traduzido como SENHOR, em versalete), e nenhum outro, o Deus capaz de presentear-lhe com um filho e soube ser grata a cada novo nascimento. Lia sofria com a humilhação de ser a preterida de seu marido, embora fosse a esposa oficial, a primeira. E Deus a honrou dando-lhe mais filhos do que todas as outras matriarcas juntas. Além disso, ela é a mãe de Judá, tribo original de Davi e de nosso Senhor Jesus.

Por outro lado, Raquel era a favorita, mas também se considerava humilhada porque era estéril. Ela parecia confiar mais na capacidade de reprodução do marido do que em Deus. Ela pensava que era por vontade de Jacó que Lia tinha tantos filhos, enquanto ela não gerava nenhum. Jacó, sim, era consciente de que a fertilidade não cabia a ele, mas a Deus (v. 2). Raquel demorou para entender quem era o doador da vida e da madre, e ainda fez tentativas frustradas para engravidar, como se dependesse de alguma atitude dela (30.14-16). Entretanto, no momento determinado, O Senhor se lembrou de Raquel e a agraciou com um filho. Naquele momento, ela se lembrou do Senhor e reconheceu que era ele o responsável por sua madre.

[Este texto é fruto de meu plano de estudo bíblico pessoal a respeito da soberania de Deus. Leia sobre isso aqui.]

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Sobre a morte e a vida eterna

cruz

Eu não estava perto na hora, mas meu tio contou que as últimas palavras do meu pai foram: “Chegou minha hora. Deus está me chamando”. Esse testemunho foi usado e repetido muitas vezes por muitos amigos e familiares, que entendiam que essas palavras indicavam sua entrada no céu.

Na verdade, o que meu pai disse é o que todos, indiscriminadamente, deveriam dizer na hora da morte, mesmo que não pronunciem ou não saibam o que acontecerá no segundo que sucede seu expirar. Nossos dias estão contados. Deus determinou nosso tempo de vida na terra, cada minuto, do nascimento à morte (Jó 14.5). “Chegou a minha hora” significa simplesmente que o tempo na terra definido para ele terminou, e isso acontecerá com todas as pessoas, sem exceção. Quanto ao que ele disse, “Deus está me chamando”, também é algo do qual ninguém poderá escapar. Todo joelho se dobrará diante de Deus (Is 45.23; Fp 2.10). Hebreus 9.27 diz que “o homem está destinado a morrer uma só vez e depois disso enfrentar o juízo”. Após a morte física, o homem se depara com o Senhor, e só há dois destinos para ele: o céu ou o inferno. Hoje, as pessoas se recusam a falar de inferno, é feio, é fora de moda, é uma maneira cruel que a religião inventou para amedrontar as pessoas. Elas só querem falar do céu, de que Deus é amor, de que a bondade salva…

No velório do meu pai, ouvi seu pastor e muitos de seus amigos exaltando sua pessoa. Eu fico feliz em saber que ele deixou boas lembranças, não só para nós, mas também para os de fora. Entendo também que aquelas pessoas queriam homenageá-lo e honrá-lo. Mas a verdade é que toda a aparente bondade do meu pai não lhe garantia um lugar no céu. Digo “aparente” porque ele não era bom. Eu tampouco sou boa, minha mãe nem meus irmãos são bons. Há um só bom, que é Deus (Lc 18.19). Jesus é o único que viveu na terra sem pecado (Hb 4.15). A Bíblia afirma que não há um justo sequer, não há quem faça o bem (Rm 3.10-12). Então, por mais atitudes louváveis que meu pai tenha cometido, nada disso o torna justo diante de Deus, nada disso é suficiente para pagar o preço de seu pecado nem de sua maldade. Ele merecia a morte eterna, o sofrimento infernal, assim como eu também mereço e que a pessoa mais bondosa que você conhece merece.

A salvação é pela graça, por meio da fé dada por Deus para os seus (Ef 2.8-9). Não é por obras, não é por atitudes aparentemente bondosas ou altruístas. Recebe a salvação aquele que reconhece seus pecados, sua podridão, que reconhece que Deus seria justo se o punisse com o inferno (Rm 7.24). Muita gente acha isso pesado, querem encontrar um pouco de bondade em si. Pensam “Não, eu não posso ser tão mau assim! Eu faço isso, luto por aquilo, penso de tal forma…” É muito difícil assumir que é um miserável que precisa de um salvador. Após reconhecer sua miserabilidade, o pecador salvo crê que somente Cristo, totalmente Deus, totalmente homem, totalmente sem pecado, é capaz de salvá-lo da ira divina porque pagou com sua morte e seu sangue o castigo que estava reservado para o pecador (Fp 2.5-8). Em seguida, esse pecador salvo vive para a prática de boas obras, não para conquistar sua salvação, mas por consequência dela (Ef 2.10; Gl 5.22-23). Ao morrer a morte física, o pecador salvo tem a certeza de sua ressurreição, pois Jesus venceu a morte e ressuscitou, prometendo que o mesmo aconteceria com os que creem (Jo 11.25). Ao se ajoelhar diante do Senhor, o pecador salvo terá sua lista enorme de pecados (a minha, por exemplo, deve ser um rolo interminável!), mas aquela conta terá o carimbo de “paga” ao final, pois a dívida não lhe pertencerá mais, Jesus pagou com seu sangue inocente (Cl 2.14), e por isso o pecador salvo será convidado a entrar no gozo do Senhor e viver eternamente ao lado de Cristo.

Meu pai cometeu muitos erros em sua vida. Tenho lembranças maravilhosas dele, mas tenho recordações ruins também. Isso é normal, não o amo menos por isso. Estou sofrendo muito com sua ausência, especialmente porque tudo aconteceu de forma muito rápida e inesperada. Eu não estava nada preparada para isso. Mas meu sofrimento é pela saudade, é pelas palavras que tive tantos anos para dizer e não disse, pela impossibilidade da despedida, pelos verbos no presente que se transformaram em pretérito imperfeito, é pelo remorso de não ter sido mais carinhosa (eu tenho um temperamento mais frio e fechado, por isso não demonstro muito minha afeição em toques, abraços etc.). Por isso eu sofro. Mas eu não sofro quanto ao destino dele. Eu sei que ele foi salvo. Esse é o meu maior conforto neste momento e a fonte da paz inexplicável que sinto em meio a este temporal pelo qual minha família está passando. Eu sei que ele se reconheceu miserável, pediu perdão a Deus por seus pecados, recebeu a graça por meio da fé que Deus plantou em seu coração. É somente por isso (não por seu altruísmo nem generosidade) que sei que ele está com o Senhor agora. Glorifico a Deus que não faz acepção de pessoas. Deus não usa como critério para salvação a cor da pele, o dinheiro, a popularidade, se a pessoa tem todos os membros do corpo ou não, se tem todos os dentes na boca ou não… Ele não leva isso em conta, ele escolheu os seus desde antes da fundação do mundo (Ef 1.4), e que bom que foi antes! Meu pai foi um homem simples, que nunca chamou a atenção, sua morte não foi noticiada como foi a do Chaves, do Michael Jackson… Ele não tinha dinheiro, não deixou bens (embora tenha se dedicado nos últimos anos para terminar de construir nossa casa, e chegou quase lá, só faltam detalhes), era negro, sofreu em sua vida várias situações de preconceito. Mas ele está com Cristo agora. Ele não merecia, mas está. Eu espero um dia estar lá também. Sei que não mereço, mas também recebi de Deus a fé que redundou em graça. Quero estar lá, com Cristo. Às vezes, com o dia a dia, a gente acaba se deixando levar pelas coisas deste mundo e perde de vista esse alvo, esquece que a vida aqui é só uma pequena porção da eternidade. Mas é bom, por mais triste que seja este momento, lembrar para onde estou indo.

Há um trecho na música “Ciudad de Dios”, de Jonathan Jerez, que descreve muito bem a morte dos santos: Quando estivermos na glória, a morte será só uma memória, uma forma de lembrarmos de nossa redenção.

 

Chuteiras

5ffee3960cb118dda52c54f945c94daa--parfait-trainersNo dia da Shoah fomos com a professora Sara na linha 57 até a Casa dos Judeus da Volínia, e eu me senti incrivelmente importante. Todas as crianças da classe eram iraquianas, menos eu, meu primo e mais um, o Drucman, e eu era o único de todos cujo avô havia morrido no Holocausto. A Casa dos Judeus da Volínia era muito bonita e magnífica, toda feita de mármore negra dos milionários. Havia lá um monte de fotografias tristes em preto-e-branco, e listas de pessoas, países e mortos. Passamos aos pares por todas as fotografias, a professora disse para não tocarmos nelas. Mas eu toquei em uma de papel cartão, onde se via um homem magro e pálido que chorava e segurava um sanduíche nas mãos. Suas lágrimas escorriam pelo rosto como trilhas desenhadas na estrada, e a minha dupla, Orit Salam, disse que ia contar para a professora que eu havia tocado no cartaz. Eu lhe disse que ela poderia contar para quem quisesse, até para a diretora, eu não me importava. Ele era meu avô e eu tocaria no que eu quisesse.

Depois dos retratos, entramos em um grande auditório e assistimos a um filme sobre crianças pequenas que eram introduzidas em furgões e depois sufocadas com gás. Depois disso subiu ao palco um velho magro, que contou como os nazistas eram infames e assassinos e de como ele se vingou deles, chegando mesmo a estrangular com suas próprias mãos um soldado até a morte. Gerbi, que estava sentado ao meu lado, disse que o velho mentia porque, pela sua aparência, não havia soldado no mundo em quem ele fosse capaz de dar uma surra. Mas eu olhei bem nos olhos do velho e acreditei nele. Ele tinha tanta cólera nos olhos, que toda a loucura do mundo dos malandros não era nada se comparado a isso.

No final, quando ele terminou de contar sobre o que fez no Holocausto, aquele senhor disse que tudo o que havíamos escutado era importante, não apenas o que se passou, mas também o que acontece agora. Porque os alemães ainda vivem, eles ainda possuem um Estado. O velho disse que jamais os perdoará, e espera que nós também não, e Deus nos livre de irmos visitar o país deles. Porque também, quando ele e seus pais viajaram para a Alemanha, cinquenta anos atrás, tudo parecia simpático e terminou um inferno. As pessoas muitas vezes têm a memória curta, ele disse, especialmente para as coisas ruins. Elas preferem esquecer. Mas vocês não se esqueçam. Toda vez que virem um alemão, lembrem-se do que contei a vocês. E toda vez que virem uma mercadoria da Alemanha, e não importa que seja uma TV, a maioria das marcas de televisão é da Alemanha, seja qualquer outra coisa, lembrem-se sempre de que debaixo da embalagem elegante do produto estão escondidas peças e tubos feitos de ossos, pele e carne de judeus mortos.

No caminho de volta, Gerbi disse outra vez que, se aquele velho tivesse estrangulado um pepino que fosse, então ele era o Super-Homem. E eu pensei que era muito bom termos uma “Amcor” em casa, quem precisa de estreiteza.

Duas semanas depois, meus pais voltaram do exterior e me trouxeram um par de chuteiras. Meu irmão mais velho contara à mamãe qual era o modelo que eu queria e ela escolheu o mais parecido possível. Mamãe sorriu quando me deu o presente, ela tinha certeza de que eu não sabia o que havia ali dentro. Mas eu percebi imediatamente o logo da Adidas na sacola. Retirei a caixa de chuteiras da sacola e disse obrigado. A caixa tinha um formato assim retangular, como um caixão. E lá dentro estavam estendidos dois pés de chuteiras brancas com três listras azuis sobre cada uma e nos lados estava inscrito: “Adidas ROM”. Nem era preciso abrir a caixa para saber o que havia nela. “Calce-as”, disse mamãe e tirou os papéis. “Veja se elas servem”. Ela sorria o tempo todo, sem entender nada do que estava acontecendo. “Isso é da Alemanha, você sabe”, disse-lhe, e apertei sua mão com força. “É claro que eu sei”, sorriu mamãe, “Adidas é a melhor marca do mundo”. “O vovô também era da Alemanha”, tentei sugerir a ela. “O vovô era da Polônia”, mamãe me corrigiu. Ela ficou triste por um momento, mas isso passou rapidamente, e ela calçou um dos pés em mim e começou a amarrar. Eu me calei. Eu já havia entendido que nada poderia ajudar. Mamãe não sabia nada sobre sua vida. Ela nunca esteve na Casa dos Judeus de Volínia. Nunca explicaram a ela. E para ela as chuteiras eram somente chuteiras e Alemanha era Polônia. Então eu deixei que ela me calçasse e me calei. Não havia nenhum prazer em contar e fazer com que ela ficasse ainda mais triste.

Depois que agradeci mais uma vez e a beijei no rosto, eu disse que sairia para brincar. “Somente tome cuidado, hã?”, gritou papai da poltrona na sala, “não acabe com as solas logo de primeira.” Contemplei mais uma vez os pálidos tênis de couro nos meus pés. Eu os contemplei e me lembrei de tudo o que o velho que havia estrangulado um soldado dissera ser necessário lembrar. Toquei mais uma vez nas listras da Adidas e me lembrei de meu avô do cartaz. “você gostou das chuteiras?”, mamãe perguntou. “É claro que gostou”, disse meu irmão em meu lugar, “essa chuteira não é um Megafer[1] qualquer, ela é exatamente como as chuteiras de Cruijff[2]”. Caminhei bem devagar em direção à porta, com um pouco de tristeza, me esforçando para não dar tanta importância à chuteira. Assim, fui com cuidado até o Jardim dos Macacos. Lá fora, os meninos do “Borochov” formaram três equipes: Holanda, Argentina e Brasil. E justamente na equipe da Holanda havia falta de um jogador, então eles concordaram em me aceitar, embora nunca se juntassem a meninos que não fossem dos “Borochov”.

No começo do jogo, eu ainda me lembrei de tomar cuidado para não chutar com a ponta, para não magoar o vovô, porém, pouco tempo depois esqueci, exatamente como o velho na Casa Volínia disse que esquecemos, e até mesmo fiz um gol decisivo, num chute de bico. Somente depois do jogo eu me lembrei outra vez e olhei para elas. De repente, elas se tornaram terrivelmente agradáveis, e também mais flexíveis, muito mais do que se viam na caixa. “Que chute foi aquele, hã?” Lembrei o vovô no caminho para casa, “o goleiro não soube nem de onde veio a bola”. Vovô não disse nada, mas pelos seus passos pude sentir que ele também estava satisfeito.

[1]    Antiga marca israelense de calçados, conhecida por sua qualidade rudimentar.

[2]    Ex-jogador de futebol, que hoje atua como técnico.

Conto do autor israelense Etgar Keret, traduzido por Mariana Ferreira de Toledo.

The social and political failure as a consequence of human depravity in Veronica Roth’s Divergent Trilogy

divergente(Attention! Contains Spoilers!)

Lately I have given opportunities to certain authors who, at other times, I would have rejected. I recently discovered a writer named Veronica Roth, author of the Divergent Trilogy. I read the first (of the same name) and the second (Insurgent). This week I’m going to buy the last one (Convergent), but the curiosity has already led me to the spoilers, so I can comment here also about the outcome of this story. I decided to write about it because I could perceive a very biblical worldview, though the novel itself is not considered properly Christian or theological. He considers as presupposed the doctrine of total depravity of man and the failure of the human being in trying to repair the problem of humanity on the basis of his own knowledge.

I was really impressed by the author’s originality. It is a dystopian novel, set in the not-too-distant future in the city of Chicago. Society was divided into five factions: Self-denial, Audacity, Erudition, Openness, and Friendship. All citizens, live with their family and are educated in the home faction until they turn 16. At that age, everyone should go through a process of choice. First, they perform an aptitude test to find out which faction each one identifies the most. However, regardless of the outcome of the test, the individual has the power to choose which faction he wishes to unite. After the choice, there is no possibility to go back and he must spend the rest of his life in the chosen faction. Those who are not able to choose or who can not adapt to the place of choice are expelled from society and live miserably in a social category where they are called the “factionless.”

The protagonist of the story is called Beatrice Prior and she comes from the Abnegation faction. She is also the narrator, that is, the novel is in the first person, with a non-omniscient narrator, everything that happens is from Beatrice’s point of view. The story begins when she, at age 16, needs to go through the process of choice. Beatrice discovers that she is not a normal girl. She is “divergent.” A divergent person is one who has strong abilities for more than one faction. Beatrice has the necessary skills to choose between Abnegation, Erudition and Audacity. Being divergent in that society is a very dangerous thing, for they can not be controlled or manipulated like those whose vision and ability are focused on only one quality. The test instructor, Tori, of Audacity, advises Beatrice to remain in Abnegation, so she would be less likely to be discovered by the Erudition leaders, who seek to exterminate the divergent and control the whole society, making Abnegation, which is the Responsible for the governability of the city, is discredited and is annihilated.

However, Beatrice always had many doubts about the decision she wanted to make, and she had always admired the fearless and adventurous way of the Audacity. So she leaves the Abnegation, joins the faction of Audacity, and changes her name to Tris. The whole novel recounts her initiation process, the difficulties she goes through, and, above all, how she begins to understand their divergence, while at the same time hiding this characteristic from everyone, since her life is in danger if discovered. For this, it counts on the help of Four (Tobias), a personage that, due to the proximity with Tris, gains an almost protagonist importance in history. He is the initiator’s instructor, he is 18 years old, that is, he underwent the initiation process two years ago.

Well, I will not dwell on the plot, this is not the goal. I decided to write about Divergent for the reasons I mentioned at the beginning of this text. As he had said, it is not a Christian work, and the theological parallels are not as evident as, for example, in The Chronicles of Narnia or in the Cosmic Trilogy by CS Lewis (Incidentally, with regard to literary quality, Of Lewis is much smarter). However, this does not seem to have been the intention of the author. What Veronica Roth did was simply create a story from her own worldview. She is avowedly Christian, was converted to college, the same time she wrote the trilogy.

One of the things that most caught my attention was the way the work defines the human being: bad, without exception. Man is always inclined to do evil. In the speech at Beatrice’s ceremony of choice, Marcus explains why, many years earlier, society decided to split into factions: “They concluded … that the fault was in the human personality, in the human inclination to evil, whatever Their form. ” (p. 48). On another occasion, Tris reflects on a teaching from his father: “Human reason is able to justify any evil; That is why we should not depend on it ” (p. 111). Tris’ mother also mentions the problem at another time: “Humans, in general, can not be good for long before evil enters again and poisons us” (p. 454).

This thought is totally biblical. In Romans 3:10-12 Paul, referring to Psalms 14:2, states that “there is not one righteous, not even one. There is no one who understands; There is no one who seeks God. All have gone astray, and become useless together. There is none that doeth good, there is none. “Christianity teaches that every man is born inclined to evil. If you depend on your own will, no one ever chooses to seek God, so he is lost. Man tries in all ways to solve social, moral, ethical, political, etc. problems, using his own intelligence and fighting militantly to defend his ideals. However, according to Christian thought, no matter how high that seems to be and no matter how hard one strives to attain it, the natural evil within us will never allow anything to remain good for long and nothing can Be really good if God is not present. This is the basis of the novel. Men tried to solve the problem of social disorder by creating the factions, initially it might have worked, but by the time the story goes on we understand that the system is declining and that man has not ceased to be evil, as Tris herself , “When we get rid of one bad thing, another one replaces it” (p. 418).

At the end of Insurgent and beginning of Convergent we better understand what is really happening in this society of factions. In fact, only the city of Chicago lives under that system. When they realized that the problem was intrinsic to the man, the social leaders decided to carry out a test, surrounding the city and placing therein forgotten people, that is, that they took the “serum of the memory” and they forgot all the life that they had taken until So. They would be watched from the outside, for the idea was that if one forgets his sinful and violent past, he could begin again without sinning. Obviously, that was not the result. Sometimes we think about how unfair it is to pay for the sin of Adam and Eve, as if, by their fault, we are also sinners. But I believe that if the story began all over again and I was put there in the place of Eve, I would have acted the same way or worse. The human being is evil. He always chooses evil.

Curiously I am working on a review of a work that discusses the effects of Calvinism, especially in politics, from the 16th century (there is a chapter also dedicated to the background of the Reformation). I can not pass the reference in Portuguese because the book has not yet been published, but I will leave the link here as soon as this happens. The author is called David W. Hall and the book in English is called Calvin in the Public Square. There is a chapter in which he shows how Calvinist thought influenced American political philosophy at the time of its colonization / foundation. One of the fundamental points of the philosophy of that moment was that, however clever man may be, he will never be able to create a perfect social system because of his sin. Consequently, any political or social system is doomed to failure. From then on, it was justified the necessity of the ruler to submit to the divine will, since only God is able to create and to lead a perfect and immaculate government. The United States, at the time of its foundation, took this thought very seriously. But because of the fallen nature of man and also after the Enlightenment arises with his anthropocentric ideas, making us believe in the lie that, yes, there is something good within us, our tendency is to ignore God and His good will, Perfect and enjoyable. Indeed, with or without Enlightenment, before or after it, man has always believed in being able to achieve good things on his own merits, with his own goodness, and in defending his favorite political system.

Another thing that caught my attention was the characteristic of a divergent one. Since it has enough qualities to identify with more than one faction, it becomes more difficult to control. He is able to be brave (Audacity), selfless (Selflessness), intelligent (Erudition), honest (Openness) and kind (Friendship). Now, these are the expected characteristics of a Christian, not that the Christian possesses all of them, but must seek them out, and in Jesus, is able to attain them. Jesus Christ possesses all these qualities, so he is the Supreme Divergent. In addition, the novel presents the divergent as God-fearing people and come primarily from the Abnegation faction. On the wall of Fourth’s room is written, “So only fear the Lord” (p. 296). Jeanine, one of the leaders of the Erudition and responsible for commanding the annihilation of Self-denial, confesses: “One question that worries me … is: Why is it that most of the dissenters are people of weak will, insignificant and fearful of God, and of all possible factions, usually originating from Abnegation? ” (p. 442).

The divergent is not a good human being in contrast to bad human beings. They are equally wicked who have inexplicably received this rare ability. In the book Insurgent, when Peter accuses Tris of being as bad as he, she replies, “Maybe we’re both bad, but there’s a huge difference between us. I do not content myself to be like that. ” (p. 342). Likewise, the Christian is not a good person. He was born inclined to evil, choosing evil, like all people. The great difference is that, inexplicably, the Christian receives from God the gift of believing in him and choosing to seek him. That is, the Christian only chooses to seek God because he was chosen before. Christianity calls this irresistible, undeserved grace. In 1 John 4:19 we read that we are only capable of loving God because He first loved us, not the other way around.

Tris discovers that she has this quality of being divergent. She did not choose to be like this, as the other divergent people in history did not choose either. Instead, they were chosen. Marcus, the father of Four and one of the leaders of Abnegation, who is also divergent, told Tris: “We are not from here. We were placed here to achieve a specific goal ” (p. 405, from Insurgent). In Insurgente, when she is about to be executed by villain Jeanine, Tris finally begins to understand what their divergence means. The first conclusion she comes to is that what awaits her beyond life is not something that depends on herself or her good or bad deeds:

I think now would be the time to ask for forgiveness for all the things I’ve done, but I know my list would never be complete. Nor do I believe that whatever happens after life depends on a correct listing of my transgressions. (…) In fact, I do not believe that what comes next depends in any way on my actions (p.372).

 

After getting away from death with the help of the most unlikely person (Peter), Tris joins Marcus to try to salvage information that could change the whole fate of that bankrupt society that was under threat of being taken over by the faction. For this, they go to the Friendship headquarters to seek help. In the morning, as she walked, Tris observed a religious ritual and was invited to join the group. A lady took her hands, looked her in the eye and said, “May the peace of God be with you … even in the midst of difficulties.” Tris replied, “Why would she be, after all I’ve done?” And the woman replied, “The question is not you. It’s a gift. You can not deserve it, or it will cease to be a gift. ” (p .429). The grace of God through Jesus Christ is just that! A gift that we are far from deserving. The question is not us. If we were to choose for salvation, we would all be lost. “Salvation belongs to the Lord” (Jn 2:9).

I have not read Convergent yet, just the spoiler, but what I can tell you from what I have discovered is that Tris comes to understand both his function and his divergence, that he uses it on behalf of his brother Caleb, a traitor, who did not deserve his mercy, and She goes so far as to sacrifice herself for him.

Anyway, there are many other parallels about which I could reflect here, but the text ended up getting a lot bigger than I imagined, so if you want to know more and get another list mentioning situations that you observed and that I did not put here, read the book. It’s an exciting read, you can not stop reading and it hurts when you have other things to do and need to close it. He has his problems, really is not a good literature, in the technical sense. But relieve these problems and the experience of this reading will be wonderful as it was for me!

Mariana Ferreira de Toledo

ps.: The references of the pages follow the translation in Portuguese of the publisher Rocco. This is a translation. To read the original in Portuguese, click here.