Sobre a morte e a vida eterna

cruz

Eu não estava perto na hora, mas meu tio contou que as últimas palavras do meu pai foram: “Chegou minha hora. Deus está me chamando”. Esse testemunho foi usado e repetido muitas vezes por muitos amigos e familiares, que entendiam que essas palavras indicavam sua entrada no céu.

Na verdade, o que meu pai disse é o que todos, indiscriminadamente, deveriam dizer na hora da morte, mesmo que não pronunciem ou não saibam o que acontecerá no segundo que sucede seu expirar. Nossos dias estão contados. Deus determinou nosso tempo de vida na terra, cada minuto, do nascimento à morte (Jó 14.5). “Chegou a minha hora” significa simplesmente que o tempo na terra definido para ele terminou, e isso acontecerá com todas as pessoas, sem exceção. Quanto ao que ele disse, “Deus está me chamando”, também é algo do qual ninguém poderá escapar. Todo joelho se dobrará diante de Deus (Is 45.23; Fp 2.10). Hebreus 9.27 diz que “o homem está destinado a morrer uma só vez e depois disso enfrentar o juízo”. Após a morte física, o homem se depara com o Senhor, e só há dois destinos para ele: o céu ou o inferno. Hoje, as pessoas se recusam a falar de inferno, é feio, é fora de moda, é uma maneira cruel que a religião inventou para amedrontar as pessoas. Elas só querem falar do céu, de que Deus é amor, de que a bondade salva…

No velório do meu pai, ouvi seu pastor e muitos de seus amigos exaltando sua pessoa. Eu fico feliz em saber que ele deixou boas lembranças, não só para nós, mas também para os de fora. Entendo também que aquelas pessoas queriam homenageá-lo e honrá-lo. Mas a verdade é que toda a aparente bondade do meu pai não lhe garantia um lugar no céu. Digo “aparente” porque ele não era bom. Eu tampouco sou boa, minha mãe nem meus irmãos são bons. Há um só bom, que é Deus (Lc 18.19). Jesus é o único que viveu na terra sem pecado (Hb 4.15). A Bíblia afirma que não há um justo sequer, não há quem faça o bem (Rm 3.10-12). Então, por mais atitudes louváveis que meu pai tenha cometido, nada disso o torna justo diante de Deus, nada disso é suficiente para pagar o preço de seu pecado nem de sua maldade. Ele merecia a morte eterna, o sofrimento infernal, assim como eu também mereço e que a pessoa mais bondosa que você conhece merece.

A salvação é pela graça, por meio da fé dada por Deus para os seus (Ef 2.8-9). Não é por obras, não é por atitudes aparentemente bondosas ou altruístas. Recebe a salvação aquele que reconhece seus pecados, sua podridão, que reconhece que Deus seria justo se o punisse com o inferno (Rm 7.24). Muita gente acha isso pesado, querem encontrar um pouco de bondade em si. Pensam “Não, eu não posso ser tão mau assim! Eu faço isso, luto por aquilo, penso de tal forma…” É muito difícil assumir que é um miserável que precisa de um salvador. Após reconhecer sua miserabilidade, o pecador salvo crê que somente Cristo, totalmente Deus, totalmente homem, totalmente sem pecado, é capaz de salvá-lo da ira divina porque pagou com sua morte e seu sangue o castigo que estava reservado para o pecador (Fp 2.5-8). Em seguida, esse pecador salvo vive para a prática de boas obras, não para conquistar sua salvação, mas por consequência dela (Ef 2.10; Gl 5.22-23). Ao morrer a morte física, o pecador salvo tem a certeza de sua ressurreição, pois Jesus venceu a morte e ressuscitou, prometendo que o mesmo aconteceria com os que creem (Jo 11.25). Ao se ajoelhar diante do Senhor, o pecador salvo terá sua lista enorme de pecados (a minha, por exemplo, deve ser um rolo interminável!), mas aquela conta terá o carimbo de “paga” ao final, pois a dívida não lhe pertencerá mais, Jesus pagou com seu sangue inocente (Cl 2.14), e por isso o pecador salvo será convidado a entrar no gozo do Senhor e viver eternamente ao lado de Cristo.

Meu pai cometeu muitos erros em sua vida. Tenho lembranças maravilhosas dele, mas tenho recordações ruins também. Isso é normal, não o amo menos por isso. Estou sofrendo muito com sua ausência, especialmente porque tudo aconteceu de forma muito rápida e inesperada. Eu não estava nada preparada para isso. Mas meu sofrimento é pela saudade, é pelas palavras que tive tantos anos para dizer e não disse, pela impossibilidade da despedida, pelos verbos no presente que se transformaram em pretérito imperfeito, é pelo remorso de não ter sido mais carinhosa (eu tenho um temperamento mais frio e fechado, por isso não demonstro muito minha afeição em toques, abraços etc.). Por isso eu sofro. Mas eu não sofro quanto ao destino dele. Eu sei que ele foi salvo. Esse é o meu maior conforto neste momento e a fonte da paz inexplicável que sinto em meio a este temporal pelo qual minha família está passando. Eu sei que ele se reconheceu miserável, pediu perdão a Deus por seus pecados, recebeu a graça por meio da fé que Deus plantou em seu coração. É somente por isso (não por seu altruísmo nem generosidade) que sei que ele está com o Senhor agora. Glorifico a Deus que não faz acepção de pessoas. Deus não usa como critério para salvação a cor da pele, o dinheiro, a popularidade, se a pessoa tem todos os membros do corpo ou não, se tem todos os dentes na boca ou não… Ele não leva isso em conta, ele escolheu os seus desde antes da fundação do mundo (Ef 1.4), e que bom que foi antes! Meu pai foi um homem simples, que nunca chamou a atenção, sua morte não foi noticiada como foi a do Chaves, do Michael Jackson… Ele não tinha dinheiro, não deixou bens (embora tenha se dedicado nos últimos anos para terminar de construir nossa casa, e chegou quase lá, só faltam detalhes), era negro, sofreu em sua vida várias situações de preconceito. Mas ele está com Cristo agora. Ele não merecia, mas está. Eu espero um dia estar lá também. Sei que não mereço, mas também recebi de Deus a fé que redundou em graça. Quero estar lá, com Cristo. Às vezes, com o dia a dia, a gente acaba se deixando levar pelas coisas deste mundo e perde de vista esse alvo, esquece que a vida aqui é só uma pequena porção da eternidade. Mas é bom, por mais triste que seja este momento, lembrar para onde estou indo.

Há um trecho na música “Ciudad de Dios”, de Jonathan Jerez, que descreve muito bem a morte dos santos: Quando estivermos na glória, a morte será só uma memória, uma forma de lembrarmos de nossa redenção.

 

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Chuteiras

5ffee3960cb118dda52c54f945c94daa--parfait-trainersNo dia da Shoah fomos com a professora Sara na linha 57 até a Casa dos Judeus da Volínia, e eu me senti incrivelmente importante. Todas as crianças da classe eram iraquianas, menos eu, meu primo e mais um, o Drucman, e eu era o único de todos cujo avô havia morrido no Holocausto. A Casa dos Judeus da Volínia era muito bonita e magnífica, toda feita de mármore negra dos milionários. Havia lá um monte de fotografias tristes em preto-e-branco, e listas de pessoas, países e mortos. Passamos aos pares por todas as fotografias, a professora disse para não tocarmos nelas. Mas eu toquei em uma de papel cartão, onde se via um homem magro e pálido que chorava e segurava um sanduíche nas mãos. Suas lágrimas escorriam pelo rosto como trilhas desenhadas na estrada, e a minha dupla, Orit Salam, disse que ia contar para a professora que eu havia tocado no cartaz. Eu lhe disse que ela poderia contar para quem quisesse, até para a diretora, eu não me importava. Ele era meu avô e eu tocaria no que eu quisesse.

Depois dos retratos, entramos em um grande auditório e assistimos a um filme sobre crianças pequenas que eram introduzidas em furgões e depois sufocadas com gás. Depois disso subiu ao palco um velho magro, que contou como os nazistas eram infames e assassinos e de como ele se vingou deles, chegando mesmo a estrangular com suas próprias mãos um soldado até a morte. Gerbi, que estava sentado ao meu lado, disse que o velho mentia porque, pela sua aparência, não havia soldado no mundo em quem ele fosse capaz de dar uma surra. Mas eu olhei bem nos olhos do velho e acreditei nele. Ele tinha tanta cólera nos olhos, que toda a loucura do mundo dos malandros não era nada se comparado a isso.

No final, quando ele terminou de contar sobre o que fez no Holocausto, aquele senhor disse que tudo o que havíamos escutado era importante, não apenas o que se passou, mas também o que acontece agora. Porque os alemães ainda vivem, eles ainda possuem um Estado. O velho disse que jamais os perdoará, e espera que nós também não, e Deus nos livre de irmos visitar o país deles. Porque também, quando ele e seus pais viajaram para a Alemanha, cinquenta anos atrás, tudo parecia simpático e terminou um inferno. As pessoas muitas vezes têm a memória curta, ele disse, especialmente para as coisas ruins. Elas preferem esquecer. Mas vocês não se esqueçam. Toda vez que virem um alemão, lembrem-se do que contei a vocês. E toda vez que virem uma mercadoria da Alemanha, e não importa que seja uma TV, a maioria das marcas de televisão é da Alemanha, seja qualquer outra coisa, lembrem-se sempre de que debaixo da embalagem elegante do produto estão escondidas peças e tubos feitos de ossos, pele e carne de judeus mortos.

No caminho de volta, Gerbi disse outra vez que, se aquele velho tivesse estrangulado um pepino que fosse, então ele era o Super-Homem. E eu pensei que era muito bom termos uma “Amcor” em casa, quem precisa de estreiteza.

Duas semanas depois, meus pais voltaram do exterior e me trouxeram um par de chuteiras. Meu irmão mais velho contara à mamãe qual era o modelo que eu queria e ela escolheu o mais parecido possível. Mamãe sorriu quando me deu o presente, ela tinha certeza de que eu não sabia o que havia ali dentro. Mas eu percebi imediatamente o logo da Adidas na sacola. Retirei a caixa de chuteiras da sacola e disse obrigado. A caixa tinha um formato assim retangular, como um caixão. E lá dentro estavam estendidos dois pés de chuteiras brancas com três listras azuis sobre cada uma e nos lados estava inscrito: “Adidas ROM”. Nem era preciso abrir a caixa para saber o que havia nela. “Calce-as”, disse mamãe e tirou os papéis. “Veja se elas servem”. Ela sorria o tempo todo, sem entender nada do que estava acontecendo. “Isso é da Alemanha, você sabe”, disse-lhe, e apertei sua mão com força. “É claro que eu sei”, sorriu mamãe, “Adidas é a melhor marca do mundo”. “O vovô também era da Alemanha”, tentei sugerir a ela. “O vovô era da Polônia”, mamãe me corrigiu. Ela ficou triste por um momento, mas isso passou rapidamente, e ela calçou um dos pés em mim e começou a amarrar. Eu me calei. Eu já havia entendido que nada poderia ajudar. Mamãe não sabia nada sobre sua vida. Ela nunca esteve na Casa dos Judeus de Volínia. Nunca explicaram a ela. E para ela as chuteiras eram somente chuteiras e Alemanha era Polônia. Então eu deixei que ela me calçasse e me calei. Não havia nenhum prazer em contar e fazer com que ela ficasse ainda mais triste.

Depois que agradeci mais uma vez e a beijei no rosto, eu disse que sairia para brincar. “Somente tome cuidado, hã?”, gritou papai da poltrona na sala, “não acabe com as solas logo de primeira.” Contemplei mais uma vez os pálidos tênis de couro nos meus pés. Eu os contemplei e me lembrei de tudo o que o velho que havia estrangulado um soldado dissera ser necessário lembrar. Toquei mais uma vez nas listras da Adidas e me lembrei de meu avô do cartaz. “você gostou das chuteiras?”, mamãe perguntou. “É claro que gostou”, disse meu irmão em meu lugar, “essa chuteira não é um Megafer[1] qualquer, ela é exatamente como as chuteiras de Cruijff[2]”. Caminhei bem devagar em direção à porta, com um pouco de tristeza, me esforçando para não dar tanta importância à chuteira. Assim, fui com cuidado até o Jardim dos Macacos. Lá fora, os meninos do “Borochov” formaram três equipes: Holanda, Argentina e Brasil. E justamente na equipe da Holanda havia falta de um jogador, então eles concordaram em me aceitar, embora nunca se juntassem a meninos que não fossem dos “Borochov”.

No começo do jogo, eu ainda me lembrei de tomar cuidado para não chutar com a ponta, para não magoar o vovô, porém, pouco tempo depois esqueci, exatamente como o velho na Casa Volínia disse que esquecemos, e até mesmo fiz um gol decisivo, num chute de bico. Somente depois do jogo eu me lembrei outra vez e olhei para elas. De repente, elas se tornaram terrivelmente agradáveis, e também mais flexíveis, muito mais do que se viam na caixa. “Que chute foi aquele, hã?” Lembrei o vovô no caminho para casa, “o goleiro não soube nem de onde veio a bola”. Vovô não disse nada, mas pelos seus passos pude sentir que ele também estava satisfeito.

[1]    Antiga marca israelense de calçados, conhecida por sua qualidade rudimentar.

[2]    Ex-jogador de futebol, que hoje atua como técnico.

Conto do autor israelense Etgar Keret, traduzido por Mariana Ferreira de Toledo.

The social and political failure as a consequence of human depravity in Veronica Roth’s Divergent Trilogy

divergente(Attention! Contains Spoilers!)

Lately I have given opportunities to certain authors who, at other times, I would have rejected. I recently discovered a writer named Veronica Roth, author of the Divergent Trilogy. I read the first (of the same name) and the second (Insurgent). This week I’m going to buy the last one (Convergent), but the curiosity has already led me to the spoilers, so I can comment here also about the outcome of this story. I decided to write about it because I could perceive a very biblical worldview, though the novel itself is not considered properly Christian or theological. He considers as presupposed the doctrine of total depravity of man and the failure of the human being in trying to repair the problem of humanity on the basis of his own knowledge.

I was really impressed by the author’s originality. It is a dystopian novel, set in the not-too-distant future in the city of Chicago. Society was divided into five factions: Self-denial, Audacity, Erudition, Openness, and Friendship. All citizens, live with their family and are educated in the home faction until they turn 16. At that age, everyone should go through a process of choice. First, they perform an aptitude test to find out which faction each one identifies the most. However, regardless of the outcome of the test, the individual has the power to choose which faction he wishes to unite. After the choice, there is no possibility to go back and he must spend the rest of his life in the chosen faction. Those who are not able to choose or who can not adapt to the place of choice are expelled from society and live miserably in a social category where they are called the “factionless.”

The protagonist of the story is called Beatrice Prior and she comes from the Abnegation faction. She is also the narrator, that is, the novel is in the first person, with a non-omniscient narrator, everything that happens is from Beatrice’s point of view. The story begins when she, at age 16, needs to go through the process of choice. Beatrice discovers that she is not a normal girl. She is “divergent.” A divergent person is one who has strong abilities for more than one faction. Beatrice has the necessary skills to choose between Abnegation, Erudition and Audacity. Being divergent in that society is a very dangerous thing, for they can not be controlled or manipulated like those whose vision and ability are focused on only one quality. The test instructor, Tori, of Audacity, advises Beatrice to remain in Abnegation, so she would be less likely to be discovered by the Erudition leaders, who seek to exterminate the divergent and control the whole society, making Abnegation, which is the Responsible for the governability of the city, is discredited and is annihilated.

However, Beatrice always had many doubts about the decision she wanted to make, and she had always admired the fearless and adventurous way of the Audacity. So she leaves the Abnegation, joins the faction of Audacity, and changes her name to Tris. The whole novel recounts her initiation process, the difficulties she goes through, and, above all, how she begins to understand their divergence, while at the same time hiding this characteristic from everyone, since her life is in danger if discovered. For this, it counts on the help of Four (Tobias), a personage that, due to the proximity with Tris, gains an almost protagonist importance in history. He is the initiator’s instructor, he is 18 years old, that is, he underwent the initiation process two years ago.

Well, I will not dwell on the plot, this is not the goal. I decided to write about Divergent for the reasons I mentioned at the beginning of this text. As he had said, it is not a Christian work, and the theological parallels are not as evident as, for example, in The Chronicles of Narnia or in the Cosmic Trilogy by CS Lewis (Incidentally, with regard to literary quality, Of Lewis is much smarter). However, this does not seem to have been the intention of the author. What Veronica Roth did was simply create a story from her own worldview. She is avowedly Christian, was converted to college, the same time she wrote the trilogy.

One of the things that most caught my attention was the way the work defines the human being: bad, without exception. Man is always inclined to do evil. In the speech at Beatrice’s ceremony of choice, Marcus explains why, many years earlier, society decided to split into factions: “They concluded … that the fault was in the human personality, in the human inclination to evil, whatever Their form. ” (p. 48). On another occasion, Tris reflects on a teaching from his father: “Human reason is able to justify any evil; That is why we should not depend on it ” (p. 111). Tris’ mother also mentions the problem at another time: “Humans, in general, can not be good for long before evil enters again and poisons us” (p. 454).

This thought is totally biblical. In Romans 3:10-12 Paul, referring to Psalms 14:2, states that “there is not one righteous, not even one. There is no one who understands; There is no one who seeks God. All have gone astray, and become useless together. There is none that doeth good, there is none. “Christianity teaches that every man is born inclined to evil. If you depend on your own will, no one ever chooses to seek God, so he is lost. Man tries in all ways to solve social, moral, ethical, political, etc. problems, using his own intelligence and fighting militantly to defend his ideals. However, according to Christian thought, no matter how high that seems to be and no matter how hard one strives to attain it, the natural evil within us will never allow anything to remain good for long and nothing can Be really good if God is not present. This is the basis of the novel. Men tried to solve the problem of social disorder by creating the factions, initially it might have worked, but by the time the story goes on we understand that the system is declining and that man has not ceased to be evil, as Tris herself , “When we get rid of one bad thing, another one replaces it” (p. 418).

At the end of Insurgent and beginning of Convergent we better understand what is really happening in this society of factions. In fact, only the city of Chicago lives under that system. When they realized that the problem was intrinsic to the man, the social leaders decided to carry out a test, surrounding the city and placing therein forgotten people, that is, that they took the “serum of the memory” and they forgot all the life that they had taken until So. They would be watched from the outside, for the idea was that if one forgets his sinful and violent past, he could begin again without sinning. Obviously, that was not the result. Sometimes we think about how unfair it is to pay for the sin of Adam and Eve, as if, by their fault, we are also sinners. But I believe that if the story began all over again and I was put there in the place of Eve, I would have acted the same way or worse. The human being is evil. He always chooses evil.

Curiously I am working on a review of a work that discusses the effects of Calvinism, especially in politics, from the 16th century (there is a chapter also dedicated to the background of the Reformation). I can not pass the reference in Portuguese because the book has not yet been published, but I will leave the link here as soon as this happens. The author is called David W. Hall and the book in English is called Calvin in the Public Square. There is a chapter in which he shows how Calvinist thought influenced American political philosophy at the time of its colonization / foundation. One of the fundamental points of the philosophy of that moment was that, however clever man may be, he will never be able to create a perfect social system because of his sin. Consequently, any political or social system is doomed to failure. From then on, it was justified the necessity of the ruler to submit to the divine will, since only God is able to create and to lead a perfect and immaculate government. The United States, at the time of its foundation, took this thought very seriously. But because of the fallen nature of man and also after the Enlightenment arises with his anthropocentric ideas, making us believe in the lie that, yes, there is something good within us, our tendency is to ignore God and His good will, Perfect and enjoyable. Indeed, with or without Enlightenment, before or after it, man has always believed in being able to achieve good things on his own merits, with his own goodness, and in defending his favorite political system.

Another thing that caught my attention was the characteristic of a divergent one. Since it has enough qualities to identify with more than one faction, it becomes more difficult to control. He is able to be brave (Audacity), selfless (Selflessness), intelligent (Erudition), honest (Openness) and kind (Friendship). Now, these are the expected characteristics of a Christian, not that the Christian possesses all of them, but must seek them out, and in Jesus, is able to attain them. Jesus Christ possesses all these qualities, so he is the Supreme Divergent. In addition, the novel presents the divergent as God-fearing people and come primarily from the Abnegation faction. On the wall of Fourth’s room is written, “So only fear the Lord” (p. 296). Jeanine, one of the leaders of the Erudition and responsible for commanding the annihilation of Self-denial, confesses: “One question that worries me … is: Why is it that most of the dissenters are people of weak will, insignificant and fearful of God, and of all possible factions, usually originating from Abnegation? ” (p. 442).

The divergent is not a good human being in contrast to bad human beings. They are equally wicked who have inexplicably received this rare ability. In the book Insurgent, when Peter accuses Tris of being as bad as he, she replies, “Maybe we’re both bad, but there’s a huge difference between us. I do not content myself to be like that. ” (p. 342). Likewise, the Christian is not a good person. He was born inclined to evil, choosing evil, like all people. The great difference is that, inexplicably, the Christian receives from God the gift of believing in him and choosing to seek him. That is, the Christian only chooses to seek God because he was chosen before. Christianity calls this irresistible, undeserved grace. In 1 John 4:19 we read that we are only capable of loving God because He first loved us, not the other way around.

Tris discovers that she has this quality of being divergent. She did not choose to be like this, as the other divergent people in history did not choose either. Instead, they were chosen. Marcus, the father of Four and one of the leaders of Abnegation, who is also divergent, told Tris: “We are not from here. We were placed here to achieve a specific goal ” (p. 405, from Insurgent). In Insurgente, when she is about to be executed by villain Jeanine, Tris finally begins to understand what their divergence means. The first conclusion she comes to is that what awaits her beyond life is not something that depends on herself or her good or bad deeds:

I think now would be the time to ask for forgiveness for all the things I’ve done, but I know my list would never be complete. Nor do I believe that whatever happens after life depends on a correct listing of my transgressions. (…) In fact, I do not believe that what comes next depends in any way on my actions (p.372).

 

After getting away from death with the help of the most unlikely person (Peter), Tris joins Marcus to try to salvage information that could change the whole fate of that bankrupt society that was under threat of being taken over by the faction. For this, they go to the Friendship headquarters to seek help. In the morning, as she walked, Tris observed a religious ritual and was invited to join the group. A lady took her hands, looked her in the eye and said, “May the peace of God be with you … even in the midst of difficulties.” Tris replied, “Why would she be, after all I’ve done?” And the woman replied, “The question is not you. It’s a gift. You can not deserve it, or it will cease to be a gift. ” (p .429). The grace of God through Jesus Christ is just that! A gift that we are far from deserving. The question is not us. If we were to choose for salvation, we would all be lost. “Salvation belongs to the Lord” (Jn 2:9).

I have not read Convergent yet, just the spoiler, but what I can tell you from what I have discovered is that Tris comes to understand both his function and his divergence, that he uses it on behalf of his brother Caleb, a traitor, who did not deserve his mercy, and She goes so far as to sacrifice herself for him.

Anyway, there are many other parallels about which I could reflect here, but the text ended up getting a lot bigger than I imagined, so if you want to know more and get another list mentioning situations that you observed and that I did not put here, read the book. It’s an exciting read, you can not stop reading and it hurts when you have other things to do and need to close it. He has his problems, really is not a good literature, in the technical sense. But relieve these problems and the experience of this reading will be wonderful as it was for me!

Mariana Ferreira de Toledo

ps.: The references of the pages follow the translation in Portuguese of the publisher Rocco. This is a translation. To read the original in Portuguese, click here.

Um milagre para a galinha

178-sonhar-com-galinha-300Quando o sol renasceu naquele 25 de dezembro, Cida se levantou meio desanimada e foi ao galinheiro recolher os ovos. Ela e sua família moravam numa roça um pouco afastada da cidade. Ainda com o cesto vazio percebeu que Zezé, a galinha mais gorda e mais rebelde, não estava lá. Havia fugido.

– Eu bem desconfiava que aquele bicho num era normal não. – Reclamou com o marido. A hipótese de Cida era a de que Zezé planejava essa fuga fazia tempo. Ela era ranzinza e sempre resistia a ceder seus ovos. Olhava para a dona com um olhar humano de insubmissão, o que muitas vezes havia deixado a mulher assombrada. Mariinha, sua filha, dizia que a ave era antipática. Já o marido achava tudo um exagero.

– Como a criatura poderia planejar um trem desse com aquele cérebro de galinha? Pra mim ela foi é roubada. Alguém precisava dela pra ceia de Natal.

Cida não se convenceu, mas decidiu seguir com as tarefas do dia. Em poucas horas chegariam visitas famintas para o almoço natalino, e havia muita comida para cozinhar. O marido, por sua vez, preparou a churrasqueira no quintal amplo e empoeirado, colocou o carvão e acendeu a pira.

Os visitantes (família e alguns vizinhos) chegaram e elogiaram a fartura e o quão saboroso estava tudo. Quando os anfitriões se deram conta de que todos já estavam para lá de satisfeitos, não assaram mais carne. Os ossos que sobraram Cida jogou sobre o carvão que frustrado se apagava. A música aos poucos foi diminuindo até cessar por completo. A maioria se preparava para ir embora. De repente, Mariinha soltou um grito tão espantado que assustou os visitantes, e anunciou:

– Olha a Zezé!

Todos se voltaram para onde a menina apontava e viram o animal que ressurgia correndo descontrolado, sem nenhum senso de direção, e um homem carregando um facão e gritando:

– Ocê tem que morrer, desgraçada! Veio se oferecer, agora aguenta!

Zezé estava toda ensanguentada. À medida que se aproximava, os espectadores admirados puderam notar que sua cabeça estava pendurada, ainda ligada ao corpo apenas por uma tripa. Seria impossível enxertá-la. A galinha era caso perdido. Apesar disso, miraculosamente ela corria, tentando escapar de seu agressor.

– Essa fujona pirou de vez! – Exclamou Cida.

Agora Zezé corria que nem cabra-cega por entre os convidados. Ao se aproximar do grupo, o homem com o facão deixou de correr. Não pegava bem perder a corrida para uma galinha praticamente sem cabeça. Cida o interceptou, querendo explicações, e o marido a acompanhou:

– Foi ocê que roubou nossa galinha, danado?

– Num fui eu! Ela apareceu na porta da minha casa. Eu juro!

– É capaz mesmo, essa indisciplinada! – Respondeu Cida irritada.

– Eu convidei ela pra entrar, ela é tão gordinha e suculenta. Comigo ela foi muito boazinha e obediente. Num resistiu nem mesmo quando coloquei ela em cima da tauba de abate. Nem mesmo quando eu levantei o facão. Acho que só percebeu mesmo que eu era perigoso dispois que dei a primeira facada no pescoço dela. Mas aí era tarde demais. Só que o mais inacreditável veio quando o bicho pulou da tauba pro chão e saiu correno, me deixano na vontade. Era o meu almoço, dona. Uai!

A criatura de cabeça pendurada e olhos esbugalhados deixava os presentes boquiabertos e imóveis. Aos poucos, Zezé foi perdendo força e diminuindo o passo. Ouvia-se que ela emitia um ruído parecido ao do cacarejo, só que bem mais melodioso e triste. Parecia uma canção fúnebre. Estavam todos pasmos demais para fazerem qualquer menção de captura. O prodígio que sucedeu deixou o espetáculo ainda mais extraordinário: Zezé ensaiou e empreendeu um voo sobrenatural para uma galinha com aquele peso e naquele estado. Pousou na churrasqueira, justamente sobre os restos de carvão com ossos, e ali ficou, emitindo o som da morte.

Alguns mais corajosos e curiosos se aproximaram para ver a ave que se debatia por entre as cinzas que, inexplicavelmente, reacendiam. O dono da casa foi empurrando as pessoas para abrir espaço.

– Deixa eu acabar de uma vez com esse teatro.

Com uma mão pressionou o corpo da galinha sobre a brasa. Com a outra puxou decididamente sua cabeça, esguichando um pouco de sangue no rosto daqueles que estavam mais próximos. Mariinha deu um berro:

– Ai, pai, que nojeira!

– Por que nojeira? Isso é uma cabeça de galinha. Ó procê ver! – E, pondo-se de cócoras, saiu pulando atrás da filha, cantando um “có, có, có” até conseguir tocar o ombro da criança com o biquinho da Zezé. Mariinha saiu correndo chorando, enquanto batia com a mão no lugar onde o bico do cadáver havia encostado. Os convivas se divertiam com a cena, embora ainda se mantivessem bastante temerosos. Cida arrancou a cabeça de Zezé das mãos do marido e a lançou sobre a churrasqueira. Nesse momento o fenômeno mais fantástico do dia aconteceu.

Começou uma ventania, vinda dos quatro cantos, de cima para baixo. As pessoas se desesperaram, buscando um lugar para se esconder, mas não havia. Só os que estavam mais próximos da porta da casa entraram. Os demais se deitaram de barriga no chão, alguns se agacharam, cobrindo a cabeça com os braços, e outros simplesmente se abraçaram com o mais próximo. Observaram desde seus lugares que os ventos estavam se encontrando e se concentrando num só lugar, que era a churrasqueira, e formavam um redemoinho, levantando uma nuvem escuro acinzentada dos restos do carvão. O fogo, que havia pouco reavivara, transformou-se em uma labareda que se erguia bem no olho do furacão. Em seguida, os ventos foram se espalhando cada um para o lugar de onde veio e, junto com eles, o milagre, que os presentes ali testemunharam estupefatos: Uma ave alçando voo vertical em direção aos céus. Era de um branco regenerado, porém revestida de um tom alaranjado cor de fogo. Era gordinha, como uma galinha pronta para ir à panela, contudo suas asas eram largas, e a cabeça um pouco maior, mais fina e com o bico adunco. Subiu, subiu e subiu até desaparecer no azul celestial. Cida se aproximou da pira. Zezé já não estava lá, tampouco sua cabeça. Na verdade, tudo o que havia restado eram uns pedaços de carvão, ainda quentes.

O sol se debandava, preparando-se para o próximo renascimento. Não havia mais sinal algum nos céus. O povo aplaudiu, se despediu e foi cada um de volta para casa.

O fracasso social e político como consequência da depravação humana na trilogia Divergente, de Veronica Roth

divergente

(Atenção! Contém Spoilers!)

Ultimamente tenho dado oportunidades a certos autores que, em outras épocas, eu teria rejeitado. Descobri recentemente uma escritora chamada Veronica Roth, autora da trilogia Divergente. Li o primeiro (de mesmo nome) e o segundo (Insurgente). Esta semana vou comprar o último (Convergente), mas a curiosidade já me levou aos spoilers, por isso poderei comentar aqui também sobre o desfecho dessa história. Decidi escrever a respeito dela porque pude perceber uma cosmovisão bastante bíblica, apesar de o romance em si não ser considerado propriamente cristão ou teológico. Ele considera como pressuposto a doutrina da depravação total do homem e o fracasso do ser humano ao tentar consertar o problema da humanidade com base em seu próprio conhecimento.

Eu fiquei realmente impressionada com a originalidade da autora. Trata-se de um romance distópico, que se passa em um futuro não muito distante, na cidade de Chicago. A sociedade foi dividida em cinco facções: Abnegação, Audácia, Erudição, Franqueza e Amizade. Todos os cidadãos, convivem com sua família e são educados na facção de origem até completarem 16 anos. Nessa idade, todos devem passar por um processo de escolha. Primeiramente, realizam um teste de aptidão para descobrirem com qual facção cada um mais se identifica. Porém, independentemente do resultado do teste, o indivíduo tem o poder de escolher para qual facção ele deseja se unir. Após a escolha, não há possibilidade de voltar atrás e ele deve passar o resto de sua vida na facção escolhida. Aqueles que não são capazes de escolher ou que não conseguem se adaptar ao lugar da escolha, são expulsos da sociedade e passam a viver miseravelmente em uma categoria social onde são chamados de “os sem-facção”.

A protagonista da história se chama Beatrice Prior e ela vem da facção Abnegação. É ela também a narradora, ou seja, o romance está em primeira pessoa, com narrador não onisciente, tudo o que acontece é sob o ponto de vista de Beatrice. A história começa quando ela, aos 16 anos, precisa passar pelo processo da escolha. Ao realizar o teste de aptidão, Beatrice descobre que não é uma garota normal. Ela é “divergente”. Uma pessoa divergente é aquela que possui fortes aptidões para mais de uma facção. Beatrice tem capacitações necessárias para escolher entre a Abnegação, a Erudição e a Audácia. Ser divergente naquela sociedade é algo muito perigoso, pois eles não podem ser controlados nem manipulados como aqueles cuja visão e capacitação estão voltadas para apenas uma qualidade. A instrutora do teste, Tori, da Audácia, aconselha Beatrice a se manter na Abnegação, assim correria menos riscos de ser descoberta pelos líderes da Erudição, que buscam exterminar os divergentes e controlar toda a sociedade, fazendo com que a Abnegação, que é a responsável pela governabilidade da cidade, fique desprestigiada e seja aniquilada.

No entanto, Beatrice sempre teve muitas dúvidas quanto à decisão que queria tomar, e sempre havia admirado o modo destemido e aventureiro dos integrantes da Audácia. Por isso, ela deixa a Abnegação, junta-se à facção da Audácia, e muda o nome para Tris. Todo o romance narra seu processo de iniciação, as dificuldades pelas quais passa e, acima de tudo, como ela começa a entender sua divergência, ao mesmo tempo em que precisa esconder essa característica de todos, já que sua vida corre perigo caso seja descoberta. Para isso, ela conta com a ajuda de Quatro (Tobias), um personagem que, devido à proximidade com Tris, ganha uma importância quase protagônica na história. Ele é o instrutor dos iniciandos, tem 18 anos, ou seja, passou pelo processo de iniciação dois anos atrás.

Bem, não vou me alongar falando do enredo, não é este o objetivo. Decidi escrever a respeito de Divergente pelos motivos que mencionei no início deste texto. Conforme havia dito, não se trata de uma obra cristã e os paralelos teológicos não são tão evidentes como, por exemplo, em As Crônicas de Nárnia ou na Trilogia Cósmica, do C. S. Lewis (Aliás, no que diz respeito à qualidade literária, a obra de Lewis é muito mais inteligente). No entanto, não parece mesmo ter sido essa a intenção da autora. O que Veronica Roth fez foi simplesmente criar uma história a partir de sua própria cosmovisão. Ela é declaradamente cristã, foi convertida no período da faculdade, mesma época em que escreveu a trilogia.

Uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a maneira como a obra define o ser humano: mau, sem exceção. O homem sempre está inclinado para fazer o mal. No discurso da cerimônia de escolha de Beatrice, Marcus explica por que, muitos anos antes, a sociedade decidiu se dividir em facções: “Eles concluíram (…) que a culpa estava na personalidade humana, na inclinação humana para o mal, seja qual for a sua forma.” (p. 48). Em outra ocasião, Tris reflete a respeito de um ensinamento de seu pai: “A razão humana é capaz de justificar qualquer mal; é por isso que não devemos depender dela.” (p. 111). A mãe de Tris também menciona o problema em outro momento: “Os seres humanos, de uma maneira geral, não conseguem ser bons por muito tempo antes que o mal penetre novamente entre nós e nos envenene.” (p. 454).

Este pensamento é totalmente bíblico. Em Romanos 3.10-12 Paulo, fazendo referência a Salmos 14.2,3 afirma que “não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só.” O cristianismo ensina que todo homem nasce inclinado para o mal. Se depender de sua própria vontade, ninguém jamais escolhe buscar a Deus, por isso está perdido. O homem tenta de todas as formas resolver os problemas sociais, morais, éticos, políticos etc., valendo-se de sua própria inteligência e luta militantemente para defender seus ideais. Contudo, de acordo com o pensamento cristão, por mais alto que pareça esse ideal e por mais que a pessoa se esforce por atingi-lo, o mal natural que está dentro de nós jamais permitirá que algo se mantenha bom por muito tempo e nada pode ser realmente bom se Deus não está presente. Esta é a base do romance. Os homens tentaram resolver o problema da desordem social criando as facções, inicialmente talvez tivesse funcionado, mas no momento em que a história se passa entendemos que o sistema está entrando em declínio e que o homem não deixou de ser mau, como a própria Tris falou, “quando nos livramos de uma coisa ruim, outra a substitui” (p. 418).

No final de Insurgente e começo de Convergente entendemos melhor o que realmente está acontecendo nessa sociedade de facções. Na verdade, somente a cidade de Chicago vive sob esse sistema. Ao perceber que o problema era intrínseco ao homem, os líderes sociais decidiram realizar um teste, cercando a cidade e colocando ali dentro pessoas desmemoriadas, isto é, que tomaram o “soro da memória” e se esqueceram de toda a vida que haviam levado até então. Seriam observados do lado de fora, pois a ideia era que, se a pessoa se esquecesse de seu passado pecaminoso e violento, poderia começar de novo sem pecar. Obviamente, o resultado não foi esse. Às vezes, pensamos no quanto é injusto pagarmos pelo pecado de Adão e Eva, como se, apenas por culpa deles somos também pecadores. Mas creio que, se a história começasse toda outra vez e eu fosse colocada ali no lugar de Eva, teria agido da mesma forma ou pior. O ser humano é mau. Ele sempre escolhe o mal.

Curiosamente estou trabalhando na revisão de uma obra que discute os efeitos do calvinismo, especialmente na política, a partir do século 16 (há um capítulo dedicado também aos antecedentes da Reforma). Não posso passar a referência em português porque o livro ainda não foi publicado, mas deixarei o link aqui assim que isso acontecer. O autor se chama David W. Hall e o livro em inglês se chama Calvin in the Public Square. Há um capítulo em que ele mostra como o pensamento calvinista influenciou na filosofia política estadunidense no momento de sua colonização/fundação. Um dos pontos fundamentais da filosofia daquele momento era o de que, por mais inteligente que possa ser o homem, ele jamais será capaz de criar um sistema social perfeito, por conta de seu pecado. Consequentemente, qualquer sistema político ou social está fadado ao fracasso. A partir daí, justificava-se a necessidade de o governante se submeter à vontade divina, pois somente Deus é capaz de criar e conduzir um governo perfeito e imaculado. Os Estados Unidos, no período de sua fundação, levaram esse pensamento muito a sério. Mas, devido à natureza caída do homem e também após o Iluminismo surgir com suas ideias antropocêntricas, fazendo-nos crer na mentira de que, sim, há algo bom dentro de nós, nossa tendência é ignorar a Deus e sua vontade que é boa, perfeita e agradável. Na verdade, com ou sem Iluminismo, antes ou depois dele, o homem sempre acreditou ser capaz de alcançar coisas boas por seus próprios méritos, com sua própria bondade e defendendo seu sistema político favorito.

Outra coisa que me chamou muito a atenção foi a característica de um divergente. Uma vez que possui qualidades suficientes para se identificar com mais de uma facção, ele se torna mais difícil de ser controlado. Ele é capaz de ser corajoso (Audácia), altruísta (Abnegação), inteligente (Erudição), honesto (Franqueza) e amável (Amizade). Ora, estas são as características esperadas de um cristão, não que o cristão possua todas elas, mas deve buscá-las e, em Jesus, é capaz de alcançá-las. Jesus Cristo possui todas essas qualidades, por isso ele é o Divergente Supremo. Além disso, o romance apresenta o divergente como pessoas tementes a Deus e oriundas principalmente da facção Abnegação. Na parede do quarto de Quatro está escrito “Tão somente temei ao Senhor” (p. 296). Jeanine, uma das líderes da Erudição e a responsável por comandar o aniquilamento da Abnegação, confessa: “Uma questão que me preocupa (…) é a seguinte: Por que será que a maioria dos divergentes são pessoas de vontade fraca, insignificantes e tementes a Deus e, de todas as facções possíveis, geralmente originárias logo da Abnegação?” (p. 442).

O divergente não é um ser humano bom em contraste com seres humanos maus. Eles são igualmente maus que, inexplicavelmente, receberam essa capacidade rara. No livro Insurgente, quando Peter acusa Tris de ser tão má quanto ele, ela responde: “Talvez nós dois sejamos maus, mas há uma diferença enorme entre nós. Eu não me contento em ser assim.” (p. 342). Da mesma forma, o cristão não é alguém bom. Ele nasceu inclinado para o mal, escolhendo o mal, como todas as pessoas. A grande diferença é que, inexplicavelmente, o cristão recebe de Deus o dom de crer nele e escolher buscá-lo. Ou seja, o cristão só escolhe buscar a Deus porque foi escolhido antes. O cristianismo chama isso de graça irresistível, imerecida. Em 1João 4.19 lemos que só somos capazes de amar a Deus porque Ele nos amou primeiro, e não o contrário.

Tris descobre que possui essa qualidade de ser divergente. Ela não escolheu ser assim, bem como os outros divergentes da história também não escolheram. Ao contrário, eles foram escolhidos. Marcus, o pai de Quatro e um dos líderes da Abnegação, que também é divergente, disse a Tris: “Nós não somos daqui. Fomos colocados aqui para atingir um objetivo específico” (p. 405, de Insurgente). Em Insurgente, quando está prestes a ser executada pela vilã Jeanine, Tris finalmente começa a entender o que significa sua divergência. A primeira conclusão à qual ela chega é a de que o que lhe espera além da vida não é algo que dependa dela própria, nem de seus atos bons ou maus:

 

“Acho que agora seria a hora de pedir perdão por todas as coisas que fiz, mas sei que minha lista nunca estaria completa. Também não acredito que o que quer que aconteça depois da vida dependa de uma listagem correta das minhas transgressões. (…) Na verdade, não acredito que o que vem depois dependa de maneira alguma dos meus atos.” (p. 372).

 

Após conseguir fugir da morte com a ajuda da pessoa mais improvável (Peter), Tris se alia a Marcus para tentar salvar uma informação que poderá mudar todo o destino daquela sociedade falida, que estava sob a ameaça de ser tomada pelos sem-facção. Para isso, eles vão até a sede da Amizade buscar ajuda. Pela manhã, enquanto caminhava, Tris observou um ritual religioso e foi convidada a se unir ao grupo. Uma senhora segurou suas mãos, a olhou bem nos olhos e disse: “Que a paz de Deus esteja com você (…), mesmo em meio a dificuldades”. Tris lhe respondeu: “Por que ela estaria, depois de tudo o que fiz?”. E a mulher respondeu: “A questão não é você. É uma dádiva. Você não pode merecê-la, ou ela deixará de ser uma dádiva”. (p. 429). A graça de Deus, por meio de Jesus Cristo é exatamente isso! Uma dádiva que nós estamos longe de merecer. A questão não somos nós. Se coubesse a nós a escolha pela salvação, estaríamos todos perdidos. “Ao SENHOR pertence a salvação” (Jn 2.9).

Ainda não li Convergente, apenas o spoiler, mas o que posso dizer pelo que descobri é que Tris passa a entender tanto a sua função como divergente, que a usa em favor de seu irmão Caleb, um traidor, que não merecia sua misericórdia, e ela chega ao ponto de se sacrificar por ele.

Enfim, existem muitos outros paralelos a respeito dos quais eu poderia refletir aqui, mas o texto acabou ficando bem maior do que imaginei, então, se você deseja saber mais e levantar outra lista mencionando situações que você observou e que eu não coloquei aqui, leia o livro. É uma leitura empolgante, você não consegue parar de ler e dá dó quando você tem outras coisas para fazer e precisa fechá-lo. Ele tem os seus problemas, realmente não é uma boa literatura, no sentido técnico. Mas releve esses problemas e a experiência dessa leitura será maravilhosa como foi para mim!

Mariana Ferreira de Toledo

 

Obs.: Após publicar uma primeira versão deste artigo, acabei encontrando um texto do pastor Josemar Bessa a respeito da mesma trilogia e tratando da questão da depravação total do homem. Por isso me inspirei em seu texto e, entre outros motivos (por exemplo, a recente leitura de Insurgente), decidi reescrever meu texto. A quem interessar, deixo aqui o link do artigo do pr. Josemar: http://www.josemarbessa.com/2017/04/calvino-divergente-e-cristo-o-retrato.html .

História sobre liberdade II

f_276785Era uma vaca solitária. Teimosa. Desde filhote já sustentava ideias revolucionárias. Não estava de acordo com isso de viver sob o controle de um vaqueiro. E a cerca era tão baixa, por que ninguém pulava? Sempre tentara inutilmente provocar um motim para a fuga coletiva, mas ninguém comprava a ideia. Seus pais a observavam e abanavam a cabeça, em reprovação. O que fizeram de errado para que sua filha saísse daquele jeito?

No entanto, o primeiro ato real de rebeldia foi quando decidiu se recusar a dar seu leite aos humanos. Ela não era obrigada, o leite era seu e não tinha por quê cedê-lo assim gratuitamente. Quando o vaqueiro apertava suas tetas, ela fazia toda a força e segurava o leite. Quando o homem insistia, a rebelde resolvia o problema com um coice bem dado. Também já tentou impedir a ordenha de suas companheiras. Esperava o recipiente ser enchido, aproximava-se como quem não queria nada, e chutava o balde. As vacas se queixavam: “Se você não quer dar seu leite, o problema é seu. Agora não venha nos prejudicar, respeite nosso trabalho! Veja só que desperdício!” E a rebelde respondia, zangada: “Agora não adianta mais chorar sobre o leite derramado!”

Por isso essa vaca era solitária. Ela queria sair daquela situação da fazenda, ela queria liberdade (ou aquilo que ela imaginava ser a liberdade). Mas ninguém a compreendia. Estavam todos muito satisfeitos com a vida que levavam. Então, certa vez, decidiu que seria livre de qualquer maneira, mesmo que fosse sozinha. Aproveitando o horário da sesta, enquanto todos dormiam, ela se equilibrou sobre a cerca baixa e a pulou. Satisfeita por descobrir essa sua capacidade, saiu rebolando sem direção.

Em poucos minutos já havia se afastado muito do sítio onde vivia. Começou a caminhar à beira da rodovia, sonhando poder viver em qualquer lugar, sem dar satisfação a ninguém. Em pouco tempo de caminhada já era possível avistar casas e prédios. Estava na cidade! Aquele era o seu lugar. Ela havia escutado que a cidade é o lugar das oportunidades. Por que perdeu tanto tempo dentro daquelas quatro cercas? Desviou seu caminho da rodovia e entrou em uma rua. Para ela aquilo era como um labirinto. Uma rua levava a outra, que levava a outra, e pareciam todas iguais. Mas não havia problemas. Não importava em que rua estivesse, o importante era fazer o que lhe desse na telha. A alegria era tanta que começou a correr. Para cá e para lá.

Foi nesse corre-corre que aconteceu a tragédia. A vaquinha rebelde tropeçou em uma pedra e foi rolando barranco abaixo até cair no quintal de uma casa, que estava abaixo do nível da rua. Levantou-se atordoada, ainda sem entender direito o que estava acontecendo. Procurou a saída mas se viu em um pátio estreito e não sabia mais como sair dali. “E agora?” pensou. “Como vou me livrar dessa? Por onde eu saio?” Olhou ao seu redor, tentando encontrar uma ideia. Olhou para cima. Sorriu. Claro! Se ela veio de cima para baixo, agora deveria fazer o sentido inverso. Ali estava o telhado, era só subir e caminhar até a rua outra vez!

Escalando uma coluna, chegou no alto. Porém, logo nos primeiros passos, o telhado não suportou seus quase 600 quilos e rompeu. A vaca caiu e foi parar dentro de uma sala de estar. Bateu com a cabeça na parede e quebrou um dos seus chifres. Assustou-se ao ver sangue na parede, seria mesmo dela? Começou a se contorcer, mas era muito pesada para se levantar sozinha. Esbarrou na estante e derrubou a televisão, esbarrou também na mesinha do computador. Quando se deu conta, tudo que havia no chão estava estilhaçado. “Como vim parar num lugar tão apertado? Nunca imaginei que os humanos vivessem mais presos que a gente!” Depois de derrubar praticamente tudo que havia na sala, ela se levantou e seguiu procurando a saída. Foi quando entrou no banheiro, mas sem sucesso. E que lugar pequeno, como dar meia volta e sair? Suas patinhas começaram a se voltar na direção da porta, quando ela se deparou com uma mulher, que gritava desesperada: “Meu Deus o que é isso?!” “Quem trouxe esse bicho para o meu banheiro???” A vaquinha se ofendeu: “Bicho não, minha senhora. Cuidado com sua língua ou vai se ver com a minha que é muito maior!” Na tentativa de se apressar para atacar, escorregou e caiu de novo. Só que desta vez seu peso arrancou o vaso sanitário do lugar e danificou a pia. A mulher não sabia o que fazer, e a vaca, estendida pelo chão do banheiro, era orgulhosa demais para pedir ajuda.

Em pouco tempo apareceram homens com cordas para amarrá-la. Levaram-na outra vez ao quintal, e ali se esticou, pensando: “Saí do sítio atrás da liberdade. Agora estou amarrada por um bando que, por própria vontade, vivem em casas mais apertadas do que o curral.” Os homens ainda tentavam fazer com que se levantasse, mas ela era ferrenha: “Se querem me tirar, então que me carreguem. Não é por minhas patas que vou sair daqui.”

Chegaram o Corpo de Bombeiros, a equipe de zoonoses e a Defesa Civil, além de um monte de curiosos fazendo festa com o evento tão inesperado. Ela foi levada em caminhonete para o centro de zoonoses. Ainda no mesmo dia apareceu o dono: Um vaqueiro usando botas, calça jeans, camisa xadrez e um chapéu de abas largas. “Agora pode deixar essa vaca rebelde comigo, porque ela é minha!” O olhar da vaca para o dono era um misto de frustração pelo fracasso do plano, vergonha e reconhecimento de que ela não tinha opção melhor do que voltar com ele. O dono, voltando-se para o animal, disse-lhe: “Quem foi que te disse que a vida aqui fora é mió? Agora ocê vai entender que a verdadeira liberdade é debaixo dos meu cuidado.” Para o espanto de todos, o vaqueiro a levantou sozinho e a colocou sobre os ombros, como se fosse uma ovelhinha e saiu contente, levando-a de volta para o sítio.

Prisão de ventre

A primeira vez que Mariana percebeu que alguma coisa não estava bem com Daniel foi num sábado pela manhã. Nesse dia ele acordou cedo e se sentou na beirada da cama, olhando para fora. As cortinas do quarto não estavam totalmente fechadas, e lá fora parecia que ia chover. Fazia frio. Daniel passou a mão no cabelo. Durante alguns minutos ele ficou sentado imóvel. As pontas de seus pés encostavam no chão gelado. Havia silêncio na casa.

Uma hora depois, quando Mariana acordou, ela encontrou sobre a mesinha da sala pilhas organizadas de livros. No sofá havia uma mala aberta e ao seu lado roupas dobradas. Não havia nada dentro da mala. A porta para o jardim estava aberta e um vento fraco entrou na casa. Ela se aproximou para olhar lá fora e viu Daniel de pé na grama com o cachorro. Ele abraçava o animal, apertando-o contra o peito. As patas dianteiras e a cabeça do animal alcançavam seu ombro. Estava vestido com calças de veludo cotelê e um suéter. “O que aconteceu?”, ela perguntou. “Aconteceu alguma coisa?”

“Não”, Daniel respondeu. Ele afundou o queixo e virou a cabeça para trás para olhar por cima do cão. “O cachorro está com prisão de ventre”, disse.

“O quê?”, Mariana perguntou. Ela ainda não havia acordado completamente.

Daniel deu de ombros. Ela segurou as cortinas, observou-os por um momento e depois entrou. Enquanto ia para o banheiro, perguntou-lhe sobre as coisas que estavam na sala. Ergueu a voz para que ele pudesse escutá-la do jardim. “E o que são todas aquelas coisas em cima da mesa?”,  perguntou.

Ele não respondeu, mas Mariana tampouco esperou pela resposta. Já estava a caminho do chuveiro.

Quando saiu, seu filho estava de pé ao lado da porta, de pijama. Ele se encostou no armário de casacos. Mariana vestiu um suéter de golfe. Seu cabelo estava preso por uma presilha e as pontas molhadas pingavam sobre seus ombros e sobre a nuca, dentro do colarinho.

“Você já acordou?”, ela perguntou. “Ainda não são nove horas.”

O menino ficou encostado e olhou para cima, para o teto. Ele mexia a cabeça e esfregava o cabelo na porta do armário. Quando ele falou, falou baixinho. “Papai me acordou”, disse. Depois acrescentou: “Ele disse que eu precisava me levantar.”

“Por quê?”, perguntou. “Ele disse para quê?”

O menino apertou os lábios. “Não”, respondeu.

“O que está acontecendo com você?”, ela perguntou.

O menino tombou sua cabeça para o lado até que a orelha se encontrasse com o ombro.

Mariana se agachou e o agarrou pelos ombros. “O que aconteceu?” Perguntou. Ela o sacudia.

Ele não respondeu e não olhou para ela. Olhava para o lado. “Papai está na cozinha”, disse. Havia silêncio na casa. O cabelo de Mariana pingava sobre a nuca e ela se deparou com o frescor do vento vindo do jardim.

Enquanto ia para a cozinha ela começou a balbuciar alguma coisa, mas quando viu Daniel, deteve-se.

Ele estava de pé ao lado da pia e, à sua frente, o cachorro. Suas patas traseiras estavam em uma pia e as da frente em outra. Quando viu Mariana, o cão tentou escapar, mas suas garras se deslizaram sobre a cerâmica e ele caiu. Quando se levantou, Daniel desferiu em seu nariz um golpe com a palma da mão aberta. O cachorro fez-se ouvir um grande ganido e caiu novamente com o peito sobre a divisória entre as pias. Fez uns movimentos com as patas, tentou se levantar, mas escorregou. Daniel o agarrou e o levantou. Ele ficou em silêncio. O sangue pingava de seu nariz até o fundo da pia.

Mariana se assustou. “O que você está fazendo com ele?”, gritou. “Por que está batendo nele?”

Ela se aproximou, mas Daniel a repeliu com a mão, as pontas de seus dedos tocaram o peito dela.

“Se você não pode ajudar, então não atrapalha”, disse. Ela tirou a mão dele e tentou dar outro passo à frente, mas foi impedida. “Eu te falei. Ele está com prisão de ventre”, disse. “Você não pode ajudar, certo? Então não atrapalha.”

“Do que você está falando?”, ela perguntou. Tentou chegar até a pia. Daniel ergueu uma das mãos como se fosse golpeá-la. Ela se afastou e ergueu o cotovelo sobre a cabeça, para proteger o rosto. Mas o tapa não veio.

“O que você quer dele?”, ela perguntou. Seu rosto se crispou. Começou a chorar. “O que está fazendo com ele?”

Daniel não respondeu. Abriu a torneira de água fria. Mariana olhou para o cachorro. Suas patas se agitavam e se molhavam. Ele tremia. “O que aconteceu?”, perguntou. Ela chorava tanto que era difícil entender o que dizia. “O que você está fazendo com ele?”, insistiu. “Solte-o. Deixe-o ir. Daniel, solte-o.”

Daniel olhou para ela. “Escute-me”, disse. Porém interrompeu a frase no meio. Ele parou para pensar por um momento e então continuou: “Escute-me, volte a dormir, está bem? Você não pode me ajudar, então talvez seja mais simples você ir para a cama e dormir.”

“O que aconteceu com você?”, ela perguntou. “O que você quer do cachorro?”. O menino saiu do canto e se aproximou dela. Ele segurou sua mão e encostou a cabeça em seu quadril.

Daniel fechou os olhos e se concentrou na água que enchia a pia. Houve um momento de silêncio. Depois ele abriu os olhos e virou-se. Disse devagar, mas em voz alta: “Há algo que você pensa que possa fazer?”. Com a mão aberta, ele apontou para o cão. “Olhe”, ele gritou, “você acha que pode ajudar?”

Mariana não respondeu. Daniel pôs as duas mãos na beirada da pia e inclinou-se para frente. Olhou para baixo e esperou mais um instante. Quando se garantiu de que ela já não responderia, ele se virou e fechou a torneira. Ouviu-se um silêncio. Era possível ouvir o silêncio além da porta para o jardim. A pia estava cheia até a metade. “Excelente”, ele disse, “excelente.” Começou a procurar alguma coisa nas gavetas.

“Daniel”, Mariana disse, “o que aconteceu?”

O menino ergueu a cabeça e olhou para sua mãe. Ele pensou que ela havia parado de chorar. Mas ela não parou. As lágrimas escorriam de seus cílios no suéter. “Daniel?”.

Daniel não encontrou o que procurava. Começou a revirar as gavetas e a tirar tudo de dentro delas. Utensílios de metal batiam ruidosamente sobre o mármore. Facas, abridores de lata e colheres. “Meu Deus!”, ele disse. “Que casa é esta?” Ele revirava o amontoado.

Depois parou no meio da cozinha e passou a mão nos cabelos. Ele pensou por um momento. O cachorro não se mexeu. Seu corpo ainda tremia.

Mariana tentou dizer alguma coisa, porém Daniel a calou num gesto com a mão. Ele se aproximou da pia e tirou a tampa do ralo. Depois esperou um pouco, mas antes que a água terminasse de escoar, ele ergueu o cachorro e o segurou debaixo do braço. Com o outro braço procurou nos bolsos dos casacos que estavam pendurados ao lado da porta até encontrar as chaves do carro. Já estava saindo, mas depois que abriu a porta deteve-se, como se tentasse se lembrar de alguma coisa que poderia haver esquecido.

“Daniel”, Mariana disse. Ela chorava. “Daniel, o que aconteceu com você?”

“Mariana,”, ele replicou, “fecha essa sua boca, está bem? Feche-a ou senão lhe quebrarei os ossos.” Ele enfiou as chaves no bolso e colocou o cão sobre a mesa de jantar. Entrava um vento pela porta aberta. A água pingava da pele do cachorro sobre a mesa. Daniel ficou parado na entrada da cozinha e mexia nas chaves do bolso através do tecido da calça.

Mariana falou baixinho. “Daniel,”, ela disse, “Daniel, o que você quer dele?”

Daniel se aproximou do lugar onde ela estava parada.

Ele articulou cada palavra pausadamente. “Cale a boca.”, gritou. “Ouviu?”

Seu rosto ficou bem perto do dela. Foi difícil para Mariana olhar para ele dessa distância, mas ela não se afastou. O hálito dele cheirava a creme dental. Ela tentou pegar em suas mãos, mas foi impedida.

“Ouviu?”, ele gritou.

Mariana chorava. Ele a segurou pelos pulsos e a apertou contra a parede. “Ouviu?”

Ela balançou a cabeça. Sua boca estava aberta e um fio de saliva lhe escorria dos lábios. “Ótimo”, Daniel disse.

Ele a soltou e se aproximou da mesa. Em seguida, pegou o cachorro e saiu de casa batendo a porta.

Mariana se sentou.

O menino ficou ao seu lado. Seus joelhos tremiam. Eles ouviram a porta do carro se fechar e o som do motor. Depois, ouviram o barulho que se afastava.

TAUB, Gadi. Tradução feita por Mariana Ferreira de Toledo a partir do texto original עצירות (‘atsirut).

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Gadi Taub

 Gadi Taub nasceu em 1965, em Jerusalém. É jornalista, escritor e professor da Universidade Hebraica de Jerusalém. Além de textos acadêmicos e políticos, Taub já escreveu contos, romances e livros infantis. É um dos principais autores do pós-modernismo israelense.