Gênesis 3.21

“O SENHOR Deus fez roupas de pele e com elas vestiu Adão e sua mulher”.

 

Para a roupa de pele existir, subentende-se que animais tiveram que ser mortos. Assim, começava-se a sentir o efeito do pecado sobre o mundo.

Fez. As roupas foram feitas por Deus (ver comentário sobre a diferença entre os verbos fazer e criar em Gn 2.7). Portanto, foi ele mesmo quem matou os animais. Foi ele quem escolheu quantos e quais, de qual classe e espécie morreriam. Deus tem esse poder, ele pôde realizar todo esse processo sem pedir permissão a nenhum órgão de proteção aos animais. Por mais que Deus ame todos os animais e cuide deles, o homem é para Ele o mais importante da criação, por isso Deus não hesitou em matar animais com o único objetivo de fazer para o homem roupas com a pele.

Deus poderia simplesmente ter chamado à existência essas roupas, sem a necessidade de usar a pele animal. Mas foi dessa maneira que escolheu fazer. Eu não saberia dizer o porquê, mas creio que, entre seus motivos, ele estava querendo mostrar a gravidade do pecado que cometeram, que as consequências são de morte. Talvez também estivesse prefigurando o sistema de sacrifícios da lei mosaica, em que um animal puro e inocente levava o castigo pelos pecados do povo e que, por sua vez, prefigurava a morte de Jesus em lugar de pecadores.

Obs.: Eu entendo que esse texto não dá abertura alguma a discussões a respeito do vegetarianismo e do veganismo, nem a favor, nem contra. Muito menos é um incentivo ao maltrato animal. Como pudemos ver, não foram homens que arrancaram o couro dos animais, foi o próprio Deus com um propósito específico. Se quiser respaldo bíblico para maltratar um animal, lamento informar que não encontrará versículo algum. Agora, se quiser entrar em uma discussão quanto ao que a Bíblia te permite ou não permite comer, comece com Gn 9.3, passe por Dn 1.8-16, Mc 7.18-19 e termine em Rm 14.2-6.

28/01/18

[Este texto é fruto de meu plano de estudo bíblico pessoal a respeito da soberania de Deus. Leia sobre isso aqui.]

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Gênesis 3.17,19

“E ao homem declarou: ‘Visto que você deu ouvidos à sua mulher e comeu do fruto da árvore da qual eu lhe ordenara que não comece, maldita é a terra por sua causa; com sofrimento você se alimentará dela todos os dias da sua vida. (…) Com o suor do seu rosto você comerá o seu pão, até que volte à terra, visto que dela foi tirado; porque você é pó, e ao pó voltará’”.

 

Deus declarou ao homem que a terra seria amaldiçoada por causa dele. A maldição foi sobre a terra e não sobre o homem. Por isso a terra é um lugar de desastres e tristezas e terá que ser destruída. Deus terá que restaurá-la. É também por isso que há esperança para a humanidade. Se o Senhor tivesse amaldiçoado o homem, nenhuma carne se salvaria, pois Deus teria que levar a cabo sua decisão, Ele não volta atrás jamais. A humanidade, uma vez amaldiçoada, teria sido para sempre amaldiçoada. Graças a Deus, ele nos deixou uma possibilidade e esperança de salvação, por meio de Cristo, cujo ministério é mencionado pela primeira vez por aqui mesmo no capítulo 3, versículo 15.

porque você é pó, e ao pó voltará. Deus não perdeu o domínio sobre sua criação. Foi ele quem formou o homem do pó e, uma vez que este desobedeceu, como castigo pelo pecado, Deus decide justamente que sua criação deveria voltar ao pó de onde veio. A morte entrou no mundo como um castigo merecido por nossa desobediência.

27/01/18

 

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Gênesis 2.7,21

v. 7 Então o SENHOR Deus formou o homem do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o homem se tornou ser vivente.

 

Deus criou todas as coisas por meio da palavra. “E disse Deus: haja (…) e houve”, este é o refrão do primeiro capítulo de Gênesis. Na Bíblia Hebraica há, pelo menos, dois verbos usados para indicar a forma como as coisas vieram à existência: O verbo bara (raiz ברא) significa criar, enquanto o verbo ‘asah (raiz עשה) significa fazer.

No entanto, ao trazer à existência o homem, Deus não simplesmente ordenou “haja!”, mas o fez com suas próprias mãos. O espírito de vida foi recebido por meio do sopro de Deus. Em algum lugar eu escutei (ou li, não me lembro) que é interessante perceber que o homem foi “feito” do pó, mas foi “criado” a partir do sopro divino.

pó da terra. Enquanto todas as outras coisas vieram à existência por meio da palavra de ordem divina, o homem foi feito a partir de um elemento já existente (o barro). A palavra hebraica para homem é adam, mesma raiz da palavra terra (אדם), daí também deriva o nome Adão.

Quem chamou a minha atenção para a diferença dos verbos fazer e criar no relato da criação foi o professor doutor Adauto Lourenço, em seu livro Gênesis 1&2, editora Fiel.

 

v. 21 Então o SENHOR Deus fez o homem cair em profundo sono e, enquanto dormia, tirou-lhe uma das costelas, fechando o lugar com carne.

 

A soberania de Deus sobre o ser humano está bem nítida nesta passagem, que mostra seu poder para fazer o homem dormir, e fez isso com Adão no momento que desejou. O Senhor também não perguntou a Adão se ele dava permissão para retirar-lhe uma costela. Deus simplesmente quis fazer isso e o fez! Deus tinha poder sobre o corpo de Adão, assim como hoje tem poder sobre o nosso para fazer o que lhe aprouver e sem nos pedir licença nem permissão.

tirou-lhe uma das costelas. A mulher possui a mesma essência do homem, ela também foi feita a partir de um elemento preexistente.

26/01/18

 

[Este texto é fruto de meu plano de estudo bíblico pessoal a respeito da soberania de Deus. Leia sobre isso aqui.]

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Gênesis 1.1-2

No princípio Deus criou os céus e a terra. Era a terra sem forma e vazia.

A Bíblia já começa revelando a soberania de Deus. Ele é o criador dos céus e de tudo o que existe. Ele é o autor de cada planeta, de cada galáxia. Deus é superior ao próprio universo. Como consequência, Deus também criou a terra e TUDO o que há dentro dela, seja de origem mineral, vegetal ou animal. Se, por sua própria vontade, por meio da Palavra, Deus criou todas as coisas, a única conclusão à qual consigo chegar é a de que ele está acima de qualquer homem, independentemente de sua etnia, posição social, dinheiro e fama. É criatura e está debaixo de seu Criador.

Deus não depende da opinião do homem para existir. Não será menos Deus porque determinados homens disseram que ele não existe. A opinião dos ateus não afeta nem um pingo da verdade de que Deus existe e é superior a tudo. A opinião da criatura jamais afetará a natureza divina, pois Deus não depende de sua criação.

Era a terra. O primeiro versículo apresenta Deus como o autor do universo. O segundo versículo volta a nossa atenção para a terra. Ou seja, não nos cabe fazer especulações quanto ao que está fora do nosso planeta, se existe vida ou não existe… Ainda que haja algumas passagens que revelam poucas coisas a respeito do universo, o que Deus deseja é que nos concentremos naquilo que ele revelou para nós. Conforme disse C. S. Lewis, “só nos foi revelada aquela parte do plano que nos diz respeito diretamente” (LEWIS, C. S. Cristianismo puro e simples, 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2009, p. 264).

 

24/01/2018

[Este texto é fruto de meu plano de estudo bíblico pessoal a respeito da soberania de Deus. Leia sobre isso aqui.]

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Contemplando a soberania de Deus

soli deo gloriaOlá, pessoal!

Depois de um tempo longe do blog, estou de volta!

Começo contando que em 2017 iniciei o plano de leitura bíblica em um ano, de Gênesis a Apocalipse. Comecei em fevereiro e terminei no início de janeiro de 2018. Eu já havia feito esse tipo de plano antes, mas lembro-me que a leitura era muito superficial, muitas vezes consistia literalmente em passar os olhos pelas linhas para falar que cumpri com a parte do dia (isso especialmente em livros como Levítico e naquelas genealogias intermináveis de 1Crônicas). Então, pensei em focar minha leitura em um tema específico, achei que isso forçaria minha atenção.

O que eu fiz: Todas as vezes que o assunto escolhido aparecia, eu marcava o texto e a página, sem anotar nenhum tipo de comentário. Isso me ajudou muito a seguir com o plano até o final, porque eu ia procurando informações. O assunto escolhido foi a soberania de Deus. É claro que, se eu tivesse que marcar tudo a respeito disso, eu marcaria praticamente todos os versículos da Bíblia! Mas o que eu fazia era apenas marcar os textos onde esse ensinamento aparecia de modo mais evidente.

Terminada a leitura eu pensei: E agora, o que fazer com todas essas marcações? Resolvi então, para 2018, seguir com o mesmo estudo, mas agora eu voltaria em cada texto marcado, procurando meditar a respeito dele, em lugar de apenas ler e marcar. Acabo de concluir Gênesis e posso dizer que tenho aprendido muito, mas muito mesmo!

Quero só esclarecer que sou grata a Deus por me permitir fazer isso. Agradeço a Deus porque é ele, por meio de seu Espírito Santo, que abre os nossos olhos e ilumina a nossa mente para a compreensão de Sua Palavra. E, se tenho aprendido um pouco, é porque o Senhor assim o permite. Então, nada vem de mim mesma. Nem mesmo o desejo de ler e aprender vem de mim, mas dEle. Por isso, toda a glória seja dada a Deus (Soli Deo Gloria!).

Também quero deixar claro que os resultados são aprendizados que devem servir para nossa edificação, e não para o conhecimento meramente intelectual. Há uma diferença entre o conhecimento intelectual e o espiritual. Minha oração é para que o Senhor me ensine a crescer espiritualmente a partir dessas revelações de sua Palavra, em lugar de apenas ir acumulando conhecimentos que, por si sós, não podem me levar a lugar algum exceto ao inferno, por causa da vanglória. Que o Senhor me livre desse perigo!

É por isso que precisamos tomar muito cuidado. Esse é um caminho perigoso para mim, porque eu geralmente gosto de me gabar de certos conhecimentos e, muitas vezes, me flagrei tecendo comentários a respeito da Bíblia e de Cristo, mas sem o devido temor, me orgulhando por dentro por saber dessas coisas. Isso está totalmente errado. O que eu tenho aprendido é somente uma gota d’água no oceano de verdades que constam na Palavra de Deus, e o Espírito Santo nos revela pequenas porções exatamente porque sabe de nossas limitações.

Chamei o projeto de “Contemplando a soberania de Deus”, se bem que pensei também em chamá-lo de “Temendo e tremendo diante da soberania de Deus”. Porque tenho chegado a descobertas maravilhosas e terríveis ao mesmo tempo. Eu sempre assentia quando escutava alguém dizendo que Deus é soberano, que Deus está no controle, eu cantava bastante: “Tu és soberano sobre a terra, sobre os céus tu és Senhor absoluto…”. No entanto (não que eu tenha entendido realmente o que significa a soberania divina, creio que isso só descobriremos lá na glória), hoje eu tenho uma noção muito maior da dimensão à qual pode chegar a soberania de Deus do que já tive em todos os anos anteriores da minha vida. Estou abismada em ver como ele tem a sua vontade acima de qualquer outra coisa, que vontade nem escolhas de homem algum podem passar por cima da de Deus, que ele jamais é pego de surpresa e que nunca pode ter sua vontade frustrada para que a do homem prevaleça.

Enfim, meu plano é aqui fazer duas coisas: 1) Compartilhar em uma lista todas as passagens que eu marquei, de Gênesis a Apocalipse. É só uma lista de referências, para que você mesmo possa buscar em sua Bíblia e ter seu próprio tempo de meditação. 2) Compartilhar resultados de minhas reflexões, sobre o que o Senhor tem me ensinado. Nessa parte, não falarei de todas as passagens marcadas, e sim daquelas que eu julgar relevantes e úteis para outras pessoas. Esses resultados serão postagens à parte, mas terão o seus links marcados nas referências, é só clicar em cima. Ou seja: se a referência for um link em laranja, é porque tenho comentários a compartilhar. Se não for link, é porque decidi não colocar nada, mas você é livre para fazê-lo para si mesmo, ou nos comentários desta página.

Lembre-se que Deus tem uma maneira especial para falar com cada um e, desde que não fira Sua verdade e natureza, todos os comentários, acréscimos e até discordâncias (feitas respeitosamente) são muito, mas muito bem-vindos. Não se esqueça também de que Deus chamou os fracos e doentes, e não os sãos. Por isso estou aqui. Sou uma pecadora sujeita a muitos erros, o que eu merecia era o pior de Deus, mas misteriosamente ele tem agido com misericórdia e compaixão. Leia sim meus comentários, mas olhando para o Senhor que está me ensinando e não para a criatura que só está conseguindo aprender um pouquinho porque o Senhor em sua graça assim o permitiu.

Livro Referências
Gênesis 1.1-2; 1.26; 2.7,21; 3.17,19,21; 4.1,11; 5.24; 6.8,17; 8.1; 9.3; 11.5-7; 19.16,24; 22.13-14; 29.32-33,35; 30.2,18,20,23-24,27; 38.7,10;39.9,21, 23; 41.25; 42.28; 44.16; 45.5-8; 50.19-20.
Êxodo 1.20-21; 3.6,10,13-15,19-22; 4.11,21,24-26; 6.1-8; 7.3-5,13,22,25; 8.8,13,15,19,24,31; 9.4-6,12,15-16,23,30,35; 10.2,13-15,19-20,27; 11.1,3,7,10; 12.23,29,36; 13.17; 14.4,14,16-18,20,24,31; 15.1-19; 16.8; 18.11; 19.5-6; 20.1-20; 23.7; 24.9-11; 28.3; 31.1-6; 32.7; 33.19; 36.1.
Levítico  10.1-3; 18.5; 20.26; 24.11-16,23; 25.23,38,42-43,55; 26.11,41-42; 27.29.
Números  5.6; 11.1-3,10,23,25-26; 12.14-16; 14.8,18,21,26-35,41-45; 16.3,5,7,19-22,30-35,38; 17.5,8-10,12-13; 18.20; 20.8-12; 21.6-9; 22.1-41; 23.3,8,10,19-24,26,27;
Deuteronômio
Josué
Juízes
Rute
1Samuel
2Samuel
1Reis
2Reis
1Crônicas
2Crônicas
Esdras1
Neemias
Ester
Salmos
Provérbios
Eclesiastes
Cântico dos Cânticos
Isaías
Jeremias
Lamentações de Jeremias
Ezequiel
Daniel
Oseias
Joel
Amós
Obadias
Jonas
Miqueias
Naum
Habacuque
Sofonias
Ageu
Zacarias
Malaquias
Mateus
Marcos
Lucas
João
Atos
Romanos
1Coríntios
2Coríntios
Gálatas
Efésios
Filipenses
Colossenses
1Tessalonicenses
2Tessalonicenses
1Timóteo
2Timóteo
Tito
Filemon
Hebreus
Tiago
1Pedro
2Pedro
1João
2João
3João
Judas
Apocalipse

Vilões bíblicos que provavelmente encontraremos no céu (I): Nabucodonosor

 

Hoje, ao abrir a Bíblia, me deparei com o capítulo 27 de Jeremias, li a respeito da ameaça divina contra o rei Zedequias. Deus prometeu entregar todas as nações nas mãos de seu servo, Nabucodonosor (v. 6). Espere aí! Eu li direito? “Meu servo?” Esse título não era dado a qualquer um. Em Isaías 53.11 Deus chama o Messias de “meu servo justo” (NVI). No original, o título dado ao Messias e ao rei da Babilônia é o mesmo (avdi).

Mas como Deus poderia chamar de servo um rei tão cruel? Fui ao livro de Daniel. Logo no primeiro capítulo é possível conhecer a história de quatro jovens judeus que foram levados cativos à Babilônia, mas que, por serem considerados pelo próprio Nabucodonosor como dez vezes mais inteligentes que seus sábios e magos, receberam posição de destaque no reino. Aqui, a primeira impressão que tenho é a de que o rei babilônico era um homem que sabia reconhecer o valor das pessoas e fazer justiça às suas capacidades.

Por outro lado, no capítulo 2, ele me pareceu profundamente cruel. Após um sonho muito confuso, Nabucodonosor convocou astrólogos e feiticeiros do reino para que pudessem, não apenas interpretar o sonho, como também descobrir qual era ele. Obviamente os magos não foram capazes de relatar por si mesmos o sonho do rei, tentaram argumentar que aquele pedido era um absurdo, mas “isso deixou o rei tão irritado e furioso que ele ordenou a execução de todos os sábios da Babilônia” (v.12), inclusive Daniel e seus três amigos. Quando soube do que estava por ocorrer, Daniel solicitou um prazo ao rei. Ele, Hananias, Misael e Azarias passaram a noite em oração e Deus lhes deu a revelação do sonho, bem como sua interpretação. Somente desta forma o castigo foi suspenso. O interessante neste episódio foi que Daniel atribuiu a Deus a revelação do mistério, e Nabucodonosor, ao final, reconheceu que o Deus de Daniel era “o Deus dos deuses, o Senhor dos reis e aquele que revela os mistérios” (v.47). Este foi o primeiro contato direto desse rei com o Deus que, até aquele momento, ele só havia escutado falar.

Daniel foi colocado sobre todos os sábios da província, e seus três amigos se tornaram administradores da Babilônia. Cerca de nove anos se passaram, e Nabucodonosor se tornava cada vez mais poderoso. Certa feita, mandou construir uma imagem em ouro, uma estátua enorme, de 27 metros de altura e quase 3 de largura. Ordenou que todos deveriam se ajoelhar em reverência a ela quando a trombeta fosse tocada. Quem desobedecesse seria lançado numa fornalha. Hananias, Misael e Azarias se recusaram, mesmo quando o rei os ameaçou com as palavras: “E que deus poderá livrá-los das minhas mãos?” (3.15 NVI), fazendo pouco do mesmo Deus a quem anos atrás ele havia exaltado sua superioridade. A fidelidade dos três judeus foi tão decidida que Nabucodonosor ficou furioso com eles e ordenou, não apenas que os lançassem na fornalha, como também que esta fosse aquecida sete vezes mais do que de costume. Os três homens foram lançados amarrados para dentro do fogo. Contudo, pouco tempo depois, o rei malvado viu com seus próprios olhos o milagre: Os três caminhavam pela fornalha e na companhia de um quarto homem que se parecia com um “filho dos deuses” (v.25 NVI). Diante dos três jovens vivos, já fora da fornalha, Nabucodonosor reconheceu: “Louvado seja o Deus de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, que enviou seu anjo e livrou os seus servos! Eles confiaram nele, desafiaram a ordem do rei, preferindo abrir mão de sua vida a prestar culto e adorar a outro deus que não fosse o seu próprio Deus” (v.28 NVI). E ainda acrescentou que todo aquele que desrespeitasse o Deus daqueles judeus deveria ser despedaçado, “pois nenhum outro deus é capaz de livrar dessa maneira” (v. 29 NVI). Este foi seu segundo contato direto com Deus narrado na Bíblia.

Depois disso, passaram-se ainda uns 25 ou 26 anos. Não havia na terra rei mais poderoso que Nabucodonosor. Ele havia devastado Jerusalém e os reinos ao redor. Havia capturado o rei Zedequias de Judá, furado seus olhos e o aprisionado. O episódio seguinte, narrado no capítulo 4 de Daniel, foi escrito pelo próprio Nabucodonosor. Ele conta que teve um sonho: Uma árvore muito alta crescia tanto que sua copa tocava no céu. Do mundo inteiro era possível vê-la, servia de sombra para os animais, e todas as criaturas se alimentavam de seus frutos. De repente, um anjo desceu do céu gritando:

 

Derrubem a árvore, cortem os seus galhos, tirem as folhas e joguem fora as frutas. Espantem os animais que estão descansando na sua sombra e as aves que estão nos seus galhos. Mas deixem ficar o toco e as suas raízes e o amarrem com correntes de ferro e de bronze, no meio do capim bravo, no campo. Assim o sereno cairá sobre esse toco — esse homem —, e ele comerá capim como os animais. Ele perderá o juízo e começará a pensar como animal; sete anos viverá assim. Esta é a sentença dada pelos anjos, pelos anjos-vigias do céu, a fim de que todos saibam que o Deus Altíssimo domina todos os reinos do mundo. Ele dá esses reinos a quem quer, mesmo ao mais humilde de todos os homens. (v. 14-17 NTLH)

 

Nabucodonosor chamou Daniel, que lhe deu a seguinte interpretação: A árvore representava o próprio rei. Deus iria destitui-lo de seu reino e ele passaria a viver entre os animais, como se fosse um deles. Contudo, seu reino não lhe seria tomado completamente, por isso o toco e as raízes permaneceriam no chão. Somente após sete anos, quando o rei finalmente reconhecesse a soberania de Deus e que o homem não passa de pó diante do Altíssimo, seu reino seria restituído. Daniel ainda o aconselhou a abandonar a arrogância e a começar a praticar a justiça. Esta foi sua terceira experiência com Deus.

No entanto, um ano se passou desde o sonho, e Nabucodonosor não mudou sua atitude, ao contrário. Um dia, enquanto passeava e contava vantagem de seu sucesso e se gloriava, aconteceu o cumprimento do sonho. Em um ato de loucura, Nabucodonosor começou a agir como um boi e foi comer capim no meio dos animais. Seu cabelo e sua barba cresceram, bem como as unhas, sua inteligência se foi de maneira que ele realmente se tornou um animal irracional.

Passados sete anos, o rei levantou os olhos aos céus e Deus lhe devolveu o entendimento. Ele conta que, naquele momento, só pode louvar ao Senhor:

 

“O poder do Altíssimo é eterno; o seu reino não terá fim. Para ele, os seres humanos não têm nenhum valor; ele governa todos os anjos do céu e todos os moradores da terra. Não há ninguém que possa impedi-lo de fazer o que quer; não há ninguém que possa obrigá-lo a explicar o que faz.”

 — Logo que o meu juízo voltou — continuou Nabucodonosor —, eu recebi outra vez a minha honra, a minha majestade e a glória do meu reino. Os meus conselheiros e as altas autoridades do meu governo me receberam de volta. Fui rei de novo, com mais poder do que antes. Portanto, eu, o rei Nabucodonosor, agradeço ao Rei do céu e lhe dou louvor e glória. Tudo o que ele faz é certo e justo, e ele pode humilhar qualquer pessoa orgulhosa. (v. 34-37 NTLH)

 

Nabucodonosor teve três grandes oportunidades de se humilhar diante da majestade de Deus e de reconhecê-lo como seu Senhor. As duas primeiras foram demonstrações que o próprio Deus lhe deu de sua onipotência (salvando seus servos do fogo), onipresença (estando com eles ali dentro da fornalha) e onisciência (revelando e interpretando seu sonho). Em sua terceira oportunidade, o que Deus fez foi alertá-lo, mostrar-lhe o que lhe aconteceria se ele não se submetesse à sua vontade. Como nada disso fez com que Nabucodonosor se rendesse, a situação chegou à sua última consequência e foi aí, somente aí, após sete anos de uma vida miserável e irracional, que o rei da Babilônia finalmente se entregou ao Senhor, a quem chamou de Rei do céu, e reconheceu que não há outro tão poderoso e majestoso do que aquele que faz o que quiser de suas criaturas, sem pedir permissão.

Quando analiso minha vida e meus comportamentos reprováveis, me vem uma tristeza profunda. Eu chego a me perguntar: “Será que Deus é capaz de me perdoar desta vez?” Afinal, sou um ser tão imundo, eu não deveria nem ousar me ajoelhar diante de um Deus tão santo, se nem eu mesma suporto meu cheiro de esgoto.

Como foi com Nabucodonosor, comigo também parece que as coisas precisam chegar às últimas consequências para que eu aprenda aquilo que Deus está me ensinando. Ele me dá demonstrações de seu cuidado e poder, mas eu o ignoro. Ele me alerta do mal, e eu ignoro. E então, só quando eu me vejo no fundo do poço, comendo pasto com os animais, é que me dou conta de meu orgulho, de minha rebeldia e do quanto ofendo a santidade de Deus com minhas atitudes. Fico pensando como é possível ainda ser amada por Ele, como pode ser que a graça de Cristo alcança pessoas como Nabucodonosor e como eu!

Por isso, tenho a esperança de um dia, já gozando da eternidade celestial, eu possa encontrar lá Nabucodonosor e tantos outros personagens bíblicos e agradecer a Deus por “semelhantes irmãos”, como o colombiano Santiago Benevides coloca em sua canção “Gracias por Pedro”. A seguir deixo uma tradução livre desse hino tão honesto:

 

Olhando como sou realmente

Como tenho o coração meio sem sabor e cheio de egoísmo

Descobrindo que sou só mais um em um montão

Cuja grande aspiração é chegar mais longe que o vizinho

Recordando que, cada vez que juro entregar até minha vida,

Um galo acaba cantando

Ou que falas comigo e me faço surdo-mudo

É que hoje quero louvar-te deste modo tão estranho

 

Obrigado por Pedro, obrigada por Jonas,

Obrigado também pela mula de Balaão

Obrigado por ser experiente em suportar

A nós que não somos tão bons

E contudo pretendemos falar de Ti à humanidade

 

O que seria de nós se não tivéssemos

A certeza de que vês com amor esses personagens

Que escolheste formar tua seleção

Com aqueles que não são jogadores muito profissionais

Que amas desafiar a religião e fazer coisas grandes

Com instrumentos tão inesperados

Eu me olho ao espelho e, com razão,

Só me resta agradecer por semelhantes irmãos

(Confira a canção em espanhol Aqui)